quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Sonhando na praça



Fosse outra a festa, não essa
Que a gente bebe e até dança
Gesto ideal, não a pressa
Ferindo nossa esperança.

Fosse outro o sonho, outro arcano
Vestindo nossa paisagem
Outro o Ano Novo, outro o engano
Iluminando a viagem.

Fosse outro o som, um piano
Tecendo o acorde, harmonia
Enlace de tantos anos
Na luz do mais puro dia.

Fosse essa festa a razão
De um outro modo de ser
Outro o ideal de união
Outra a expressão de prazer.

O que por fim restaria
Imaginar e escrever?
A falta é o gen da poesia
Razão de ser e viver.

A falta figura a praça
Num gesto de pura dança
E a mão que toca e abraça
Vê na miragem que passa
O sonho que nunca alcança.

Fernando da Mota Lima.
Recife, 31 de dezembro de 2002.

1 comentários:

  1. Ola, Fernando. Outro dia perguntaram a Borges qual é a função do poeta na sociedade moderna. Ele disse: poetar. Você poeta muito bem, como quem corta cocada. Odair José tem uma bela canção, que me veio à mente agora. Podemos modificar o passado, sim. A poesia do Odair diz algo assim: "encostei o meu carro na praça/ vi você me olhando sem graça/O Natal, então, se fez entre nós/A minha presença calou sua voz". Como diz o Marx, a luta de classes nem sempre explica tudo.
    Um abraço a você e aos demais

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