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quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Máximas e Mínimas VI


Maturidade é a calculada medida entre o galho, de onde tememos cair, e o chão, onde quiséramos solidamente assentar os pés. Como a medida aplicada é sempre muito inexata, não importando o rigor no cálculo suposto, o homem maduro prudentemente desce da árvore, deita sobre a relva e se perde na contemplação do galho que lá do alto o atrai, tangido pelos ventos trepidantes da vida. Maturidade é assim essa sutil carência medida entre a relva e o galho. Noutras palavras, é tudo que sobra do que não poupamos. Logo, não será melhor perdê-la na queda entre o galho e a relva, no voo errante movido ao impulso dos ventos trepidantes da vida? Sobe e salta, desafia o aventureiro indiferente à flor cinza da razão maturada; desce e contempla, retruca esta no metro do olhar medindo toda a vertigem da queda.

No país da cordialidade, não falta quem confunda grosseria com franqueza, assim como não falta quem confunda hipocrisia com civilidade.

Na medida em que é condição de convívio civilizado, a hipocrisia é o preço que a tolerância paga ao consenso.

Se fosse uma casa de tolerância, o Brasil seria um modelo de civilização.

Num país onde a delinquência veste a máscara da espontaneidade, o crime banal é tolerado e até louvado como jeitinho.

Fracassados acadêmicos, como eu, sabem que o currículo Lattes, mas não morde.

Desejar a mulher dos amigos é uma tentação que sempre mascaramos, sobretudo quando a realizamos.

O Código Penal brasileiro depena o criminoso pobre enquanto tem pena do rico.

A realidade é de direita. É por isso que quando a esquerda se apossa do poder logo se confunde com a direita. É também por isso que nunca confio em esquerda vencedora. A única esquerda confiável é a vencida ou fracassada.

Vou fundar a metaesquerda. Seu único objetivo será o de civilizar a política, não o de conquistar o poder.

Na Vara da Família: O amor começa com meu bem e acaba com meus bens.

Na dúvida, duvido.

Numa de suas boutades famosas, Paulo Francis disse que foi torturado pela ditadura, pois o carcereiro do quartel onde ficou preso ouvia Vanderléa no radinho de pilha. Sorte dele. Hoje sou torturado todos os dias, sem sair de casa e sem ditadura imposta pelo poder político, por coisa inclassificável. Perto dela, dessa coisa inclassificável, Vanderléa seria um luxo, canto de sereia nos meus ouvidos.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Daniel Piza



Foi com surpresa e pesar que ontem tomei conhecimento da morte súbita de Daniel Piza. Vítima de um AVC (acidente vascular cerebral), Piza morreu jovem, sobretudo para os padrões de idade hoje correntes: 41 anos. Apesar disso, militou sem trégua no jornalismo cultural brasileiro, além de paralelamente escrever livros de biografia e ficção acrescidos de atividade de criação intelectual paralela. Sua morte constitui sem dúvida uma perda para a mídia inteligente deste país saturado de porcaria e trivialidade.

Confesso que há muito não lia Daniel Piza, sequer ocasionalmente acessava sua página na internet. Mas durante alguns anos fui leitor fiel dos seus artigos regularmente publicados no Estadão, também dos artigos escritos para a revista Continente Multicultural, atual Continente. Evitava porém seus artigos sobre futebol. Dirão que sou elitista, mas o fato é que não me interessa ler nada sobre futebol ou conversar sobre assunto tão recorrente e vulgar. Gostava de jogar futebol, meu vínculo maior com esse esporte objeto de culto e reverência universais. Meu descaso por esse assunto transposto para as páginas de um livro é tão completo que simplesmente ignorei o livro que José Miguel Wisnik escreveu sobre ele, embora esteja longe de ignorar o autor e a pessoa, com quem entretive conversa inesquecível durante um almoço no qual minha amiga Valéria Torres generosamente nos reuniu. Ocasionalmente vejo com prazer na televisão algum jogo de real qualidade. Como são cada vez mais raros, habituei-me a ligar a televisão para logo em seguida desligá-la.

Também concedi pouca atenção ao Daniel Piza que escrevia sobre política. Este é um assunto que contra minha vontade e temperamento ainda me interessa, embora tenha aprendido a me manter em guarda para lhe fechar as portas de minhas leituras e reflexões. A explicação é simples: a leitura da política é algo que quase sempre me inspira ódio, revolta e impotência. Logo, melhor evitá-la. Além disso, não sou e nunca fui militante político. Essa omissão consciente, e eticamente dolorosa, deriva de minha inabilidade para a ação, de minha incompetência ou recusa das negociações necessárias em toda ação política. Claro que reconheço e aprovo muitas delas, já que a política, para chover no molhado, é a arte do possível, não raro do possível mais vil e lucrativo. O moralista que há em mim, e não sei como refrear, menos ainda suprimir, impede-me de agir politicamente.

O Daniel Piza que verdadeiramente me interessa é o jornalista cultural. Aliás, esse foi o seu domínio preferencial, onde melhor expressou seu talento e seu valor como crítico. O melhor do que escreveu está associado às expressões características da cultura humanista. Sua formação, como ele próprio reconheceu, deve muito a escritores como Machado de Assis e Graciliano Ramos No âmbito da atividade jornalística, é também sabida sua dívida para com Paulo Francis. Sobre este, aliás, escreveu uma curta biografia – Paulo Francis, Brasil na cabeça. Além disso, organizou, segundo a fórmula dos verbetes temáticos, O Dicionário da Corte de Paulo Francis. Salvo a independência crítica com que investiu contra preconceitos políticos e culturais correntes no Brasil, país de cultura paroquial amplamente subordinada à corrupta ingerência do nosso Estado patrimonial, seu perfil intelectual está longe da singularidade ambivalente e truculenta de Francis. Quanto a Machado de Assis, seu modelo literário supremo, pelo menos no Brasil, confesso que achei decepcionante a biografia que escreveu – Machado de Assis, um gênio brasileiro. A julgar pela evidência disponível, a crítica especializada, assim como os estudiosos em geral, não lhe concedeu nenhuma atenção significativa. Jornalista muito conhecido e apreciado, não lhe faltou promoção suficiente para conferir excepcional visibilidade a seu livro sobre Machado. O que lhe faltou foi talento e maior senso de penetração crítica para competir com estudiosos do porte de Lúcia Miguel-Pereira, Jean-Michel Massa e críticos como Antonio Candido, Roberto Schwarz, Alfredo Bosi, John Gledson e outros igualmente citáveis.
Diário - Recife, 1 de janeiro de 2012.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Flávio Brayner -como uma canção de Jobim


Paulo Francis declarou certa vez que estamos ligados aos amigos verdadeiros pelos vínculos inapreensíveis da experiência geracional compartilhada. Noutras palavras, a amizade compreendida no seu sentido mais profundo seria inconcebível abstraída de um solo geracional comum. Penso que isso é discutível por anular uma noção de universalidade expressa na linha do tempo e do espaço que acredito verdadeira. Mas me parece inegável que sua afirmação contém muitos grãos de verdade. Amigos da mesma geração comungam uma unidade de sentido que é fruto de experiências sociais irrepetíveis e incomunicáveis a gente de outra geração, portanto singularmente associadas a determinadas circunstâncias infranqueáveis a quem viva antes ou depois delas. Pessoas pertencentes a uma geração distinta podem apreender o sentido dessas experiências, mas a apreensão será sempre de segundo grau, sempre mediada pela imaginação. Mesmo a imaginação empática, tão pouco comum, pode recriar o sentido do vivido, não a vivência. A vivência é privilégio ou desgraça exclusiva de quem viveu, não de quem pensa ou recria imaginariamente o vivido.

Vou falar de uma amizade perdida e no entanto presente na memória que no caso se traduz antes de tudo em memória musical. Se pudesse reduzir essa memória a elementos sensíveis constantes, minha descrição seria simples: dois amigos à volta de um piano, um tocando e outro cantando. O quadro se completa com alguma canção de Jobim, sempre Jobim, por vezes Chico Buarque, e bebida, cerveja e uísque ou vinho. Mas o solo profundo dessa amizade perdida, como acima sugeri, é incomunicável. Ele se enraíza na singularidade de situações próprias às pessoas que conviveram no contexto cultural típico de Recife e Olinda nas décadas de 1970 e 1980. Daí vieram desdobramentos musicais no cerne dos quais a música de Jobim se impõe soberana.

Flávio Brayner aprimorou seu toque de pianeiro durante os anos que viveu na França. O termo pianeiro, friso, nada encerra de pejorativo. Emprego-o com o propósito de sugerir que Brayner é um amador da música. Corrompido infelizmente pelo processo de mercantilização universal do amor, o termo amador hoje se reveste de sentidos depreciativos. Amador é agora oposto a profissional. Por extensão, o amador é aquele privado da competência ou qualificação do profissional, até porque não exerce seu ofício por dinheiro ou interesse, circunstâncias que adicionalmente o depreciam num mundo regido pela ideologia do mercado. Assim, foi sempre como amadores da música e da celebração da amizade e do convívio humano expresso em gratuidade e prazer que tocamos, bebemos e cantamos através de noites insones num país sem mapa ou exclusivismo de qualquer natureza. Sem nenhum ranço elitista, o que nessa atmosfera espontaneamente se manifestava era certa distinção de classe, traduzida no repertório ou gosto musical, hoje inconcebível nos círculos sociais que freqüentamos, o que nesse sentido justifica a observação de Paulo Francis relativa ao vínculo necessário entre amizade e unidade geracional. Como cantar e de fato ouvir as sofisticadas harmonias jobinianas dentro do tumulto que agora dá a nota a qualquer reunião social?

Flávio Brayner se gastou e nos gastamos em farras não raro sem hora ou lugar definíveis. Certa madrugada, acolhidos por amigos portugueses num hotel em Tomar, tocamos e cantamos para celebrar a passagem de três noivas cuja beleza deslizava pelo salão deserto alongando-se na cauda impecavelmente branca dos vestidos de casamento. Era como se do bojo daquele mundo remoto irrompesse uma cena felliniana pontuada pelos acordes do piano de Brayner. Poderia desfiar aqui um novelo infinito de memórias musicais variando os tons e circunstâncias da que acabo de sumariamente evocar. Mas ficarei na recomposição de apenas uma outra memória. É a que para mim mais importa, a que mais zelosamente retenho no baú das amizades idas e dissipadas, algumas irreversíveis, por ser a que melhor sintetiza o sentido da amizade que através de muitos anos me prendeu a Flávio Brayner. Antes mesmo de aventurar-me a esboçá-la na memória que aqui improviso, rendo-me humildemente à incapacidade de a contento traduzi-la. Seu sentido último e primeiro é intransferivelmente musical. Logo, não há para ele correspondente exprimível em palavras.

Um dia nos reencontramos no seu apartamento em Paris. Antes disso bebemos durante horas pelas ruas da cidade mais bela que conheço, não há bem como fugir no caso ao lugar comum. Com um litro de uísque diante do piano aberto, tocamos e cantamos até o amanhecer para matar saudades do Brasil. Vinha não apenas das ruas de um mundo estrangeiro, mas sobretudo de dois anos de absoluta ausência do Brasil, absoluta ausência da mais elevada expressão musical brasileira na companhia de brasileiros. Mais precisamente: da companhia do brasileiro com quem realizei um sentido de amizade intraduzível em palavra e gesto, em comunidade de confidência ou ofício.

Introvertido impenitente, Flávio Brayner pouco de si falava, salvo no que me dizia através da música de Jobim e Chico, nossa dupla suprema. Depois de mais de 30 anos de amizade, é espantoso considerar que nunca nos derramamos em conversas acaso comparáveis à magia da música através da qual sempre nos comunicamos e nos compreendemos e como amigos nos comovemos e sem palavras nos perdoamos o desleixo e o excesso tão freqüentes nos modos brasileiros da amizade. Foi no decorrer dessa madrugada que mais me senti amigo de Flávio Brayner, que, longe do Brasil, mais profundamente o senti revivendo em solo estranho, na inefável comunidade dialógica da amizade puramente musical, o que de mais alto e humano este país produziu. Cantamos Jobim e Chico, Lupiscínio e Caymmi, Noel e Pixinquinha, Edu Lobo e Antonio Maria, os frevos pernambucanos, a bossa e a fossa, tudo que é coisa nossa.

Quando enfim abrimos as altas janelas do apartamento, apercebi-me maravilhado de que a aurora já recobria os céus de Paris, seus telhados e boulevards. James Joyce celebra e recria na sua literatura os estados de epifania somente concebíveis através da experiência estética. Há outros modos de epifania, claro, mas o que para mim importa é o estético. Meu reencontro em Paris com Flávio Brayner foi um momento miraculoso, um momento de pura epifania que viverá em mim enquanto memória e enquanto sobreviva eu na matéria falível que sou.
Fernando da Mota Lima
Recife, 3 de dezembro de 2009.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Paulo Francis na Cabeça


Para Paulo Fradique e Tarcísio – amigos que saberão ler as linhas e sobretudo as entrelinhas deste texto.

Concebi estas breves notas opinativas, quando possível com seu grão de humor, em memória e louvor de Paulo Francis, um dos raros intelectuais brasileiros de opinião livre. Não raro divergi dele, do seu tom por vezes brutal, mas nele muitas vezes humildemente inspirei-me para ousar viver na contracorrente dos bem pensantes, do bom mocismo humanista, do servilismo mental que induz à adoção do juízo corrente. Sei bem disso porque foi nesse solo que me (de)formei: o do bom mocismo humanista de esquerda, o caldo de ideologia edificante correntemente batizado como o saber politicamente correto. Sapere aude, como reza a máxima procedente de Kant, tantas vezes amplificada no ensaísmo refinado e racionalista de Sérgio Paulo Rouanet, outra expressão de liberdade intelectual que também me inspira. Inspirei-me ainda no humor corrosivo de Millôr Fernandes, talvez o espírito mais livre que já existiu em toda a nossa tradição intelectual, tão afeita ao tribalismo ideológico, também ao radicalismo de cátedra, para evocar um outro intelectual que também me inspira: José Guilherme Merquior.
Foi com Paulo Francis e Bertrand Russell (um dos seus heróis intelectuais, também meu) que comecei a compreender o horror da dominação imperialista imposta pelos Estados Unidos. Mas logo também passei a compreender que a opressão política não tem bandeira, o que não quer dizer que seja a mesma em qualquer lugar, época ou circunstância. Mas acredito que pensar com liberdade é questionar qualquer poder, qualquer forma de dominação, não importando suas credenciais ou procedência. Acredito ainda que pensar com liberdade é aprender a discernir as infinitas tonalidades do mal e seu avesso, sobretudo a inesgotável cadeia de racionalizações de que nos valemos para mascarar ou justificar o que somos ou temos de pior. Neste quesito, o guia supremo talvez seja Freud, que também inspirou Russell, Francis e alguns dos outros modelos que procuro sempre lembrar quando tentado por todas as baixezas da nossa condição. Enfim, como diria Machado de Assis, longamente incompreendido por todas as correntes ideológicas como se fora apenas a estátua oficial erguida pela Academia Brasileira de Letras, tudo, menos ser empulhado. Repito Machado: tudo, menos ser empulhado. Encerro este intróito às breves notas opinativas que seguem citando com justiça e propriedade o próprio Paulo Francis: “Aceito os riscos e incertezas dessa liberdade, essencialmente modesta, pois me acho disposto a aprender do que e de quem me persuadir. Ainda que sozinho continuarei assim, pois sei que estou muito bem acompanhado”. Em suma, aludindo ao título de um dos seus livros, sigo as certezas da dúvida dentro da minha obscura solidão. Por mais metódica ou sistemática que seja, a dúvida encerra, sim, as suas certezas. Sem estas, ela está condenada ao niilismo inoperante e autodestrutivo.

Sou do tempo em que sexo era pecado.
Virgindade era virtude. Refiro-me evidentemente à virgindade feminina.
O Brasil parecia ter jeito, ou pelo menos a gente acreditava. Hoje a gente sabe que é insolúvel, mas finge acreditar que ainda dará certo.
Todas as pessoas de bem, ou supostamente de, tinham orgulho de ser de esquerda. Quem não era comunista era com certeza simpatizante ou companheiro de viagem.
Sou do tempo em que meus amigos brigavam por idéias, ainda que tortas e dogmáticas. Hoje brigamos apenas por cargos e escalas de renda e consumo.
Sou do tempo em que Gilberto Freyre era reacionário e liberalismo era um insulto ideológico. George Orwell era agente do imperialismo americano e Stálin era o grande benfeitor da humanidade. Che Guevara simbolizava um fuzil varrendo a América Latina com múltiplos focos revolucionários. Hoje, como o compram, é um mito romântico domesticado pelo consumo que o converteu em pura dureza enternecida.
Sou do tempo em que João Mohana era um iluminista da pedagogia sexual. Quem ainda sabe quem foi João Mohana? Pois esclareço: foi um padre e psicólogo autor de uma obra obscurantista que fez grande sucesso entre o público jovem e cristão: A Vida Sexual dos Solteiros e Casados. Punido por minha insaciável curiosidade juvenil, li a obra de ponta a ponta, entre excitado e temeroso. O efeito mais desastroso dessa insensata viagem no bojo do iluminismo católico da época foram as noites em claro atormentadas pela ameaça de contrair tuberculose e doenças ainda mais tenebrosas, pois esta era uma das mais doces consolações que o padre assegurava a quem ousasse masturbar-se ou ceder a outras práticas sexuais horripilantes.
Sou do tempo em que acadêmicos de esquerda iam fazer pós-graduação nos EUA e retornavam a suas universidades de origem para dissertar sobre paradigma histórico-estrutural com ares de quem estivesse fermentando uma revolução comunista nos minúsculos círculos elitistas da pós-degradação que se tornou uma fábrica de diplomas para doutores iletrados.
Sou do tempo em que pessoas de direita mascaravam seu direitismo alegando ser de esquerda. Com a derrocada fragorosa dos regimes supostamente comunistas, somada à ascensão da esquerda em países do tipo do Brasil, esquerda e direita foram ficando semelhantes ao ponto de em termos práticos se indiferenciarem. Sendo assim, não é de espantar que esquerdistas se orgulhem agora de ser de direita e direitistas se orgulhem de ser de direita. Enfim, parece que agora todos chegaram ao consenso tardio de que a realidade é de direita. Digo isso porque Freud – também eu, imodestamente – há muito sabia disso, fato que de resto não o torna necessariamente de direita. A propósito, quem sabe mesmo o que é ser de direita ou de esquerda?
A classe média ouvia Bossa Nova, Chico e Caetano, Edu Lobo e Gilberto Gil. Por isso olhava de cima, com patente desprezo, para bregas e bolerões como Waldick Soriano e Benito de Paula. Hoje, pasmem, Waldick, Benito e Ivete Seugalo são clássicos da MPB.
Filme de arte era atestado de identidade intelectual e ideológica. A gente morria de tédio, mas o tédio pagava os créditos do reconhecimento.
Sou do tempo em que Porto de Galinhas era um paraíso antropológico, uma povoação de pescadores de repente invadida por Marcelo Guerra, Maria, Maridite, o lendário Capitão América, Sueli, Zé Carlos, Bete, eu e outros bárbaros da civilização urbana. As meninas, pasmem novamente, acampavam a pretexto de dar plantão nas clínicas e hospitais. Era o único meio capaz de fazer a família, zeladora da virgindade feminina, afrouxar as rédeas de nossa liberdade juvenil.
Sou do tempo em que havia barulho no ar, nossa cultura foi sempre ruidosa, mas em algum remoto lugar era ainda possível captar no silêncio miraculoso da madrugada as ondas sutis de um acorde dissonante. Hoje, até dentro de minha casa, último e vulnerável reduto de minha liberdade, sou forçado a ouvir tudo que rejeito e odeio: o vendedor de gás, o traficante de cd pirata, o alarme dos carros, a febre trepidante da construção civil, o buzinaço dos torcedores de futebol eufóricos e toda a boçalidade repetitiva que designam como música popular contemporânea. A tortura mais inescapável e corrente do nosso tempo é a auditiva. Isso explica o paradoxo seguinte: num país orgulhoso de ser tão musical, bem poucos fazem e ouvem música. Ninguém precisa da idiossincrasia de João Gilberto, nem do recolhimento dos monges, para constatar o quanto fomos privados da liberdade de ouvir o silêncio.
Fumar era um ato de ingresso e afirmação dentro do mundo adulto. Era sobretudo sedutor e por trás da névoa de fumo a gente dissimulava a timidez e insegurança diante da mulher desejada. Hoje o fumante é o equivalente do comunista dos anos setenta.
Ah, o cinema ia morrer. Somente o livro, na crônica dos vaticínios catastróficos, teve e tem fôlego de sete gatos para morrer e ressuscitar mais que o cinema.
Como vêem, sou velho. Sou tão velho que nasci num outro século, num tempo em que palavrão era palavrão. Hoje é apenas refrão do vocabulário infantil.
Sou do tempo em que todo mundo era contra o mercado, tinha horror ao mercado. O mercado que reconhecíamos, e amávamos com tinturas de lírico esquerdismo populista, era o mercado popular com sua sujeira, seu tradicionalismo insalubre, sua inércia mercantil. Flávio Brayner e Luciano Oliveira, por exemplo, marcavam namoro aos sábados no mercado da Madalena, ou no de Casa Amarela. Em tempo: namoro com as namoradas, não namoro entre eles. Aliás, no meu tempo todos éramos machões, até as bichas. Shopping, invenção posterior agora convertida em templo do consumo, shopping era apenas chope.
Sou de tempo em que honestidade era virtude. Meu pai, já falido, vendeu os cacos sobrantes para pagar seus credores, não para antes investir num outro meio de vida. Bem, acho que ele confundiu honestidade com imprevidência. A prova é que durante anos vivemos apertados pela pobreza. Subi tanto, pasmem novamente, que hoje até pareço rico.
Sou do tempo em que havia apenas um marco teórico: o marxismo. Os outros estavam apenas condenados ao paredão da justiça pós-graduada. O mundo deu voltas tão alucinantes que até eu fui elevado à gloriosa categoria de marco teórico. O autor desta façanha, provável candidato ao Bobel das Ciências Humanas, é meu delirante amigo Flávio Brayner. E eu que sonhei ser apenas o marco zero. Friso a tempo, antes que me leiam como um seguidor da humildade, ou da nulidade intelectual, que o marco zero que tenho em mente é o fundador do Recife, a origem de todo esse vasto acampamento urbano que tantos orgulhosamente confundem com uma cidade.
Depois de transpor a barreira dos setenta, meu mítico amigo Daniel Lima divertia-se lembrando sua juventude de homem magro. Por isso ria repicando o mesmo e engraçado bordão: eu era tão magro... Pois também posso eu agora começar repetindo sua toada: eu era tão magro...
Por volta de 1915, Lytton Strachey, constrangido, declarava-se um velho à sua jovem amada Carrington. Tinha então 36 anos. Pouco mais tarde, aí por 1942, Drummond gravou este verso num poema: há muito pressenti o velho em mim. Tinha 40 anos. Não recuo ao século XIX porque então as diferenças eram ainda mais extremas. Basta lembrar que as pessoas já nasciam velhas. De lá prá cá, sobretudo hoje, essas medidas de idade sofreram uma autêntica revolução. Hoje os menores de 15 anos, incluídas as crianças, querem ser adultos apenas para exercerem o direito de praticar prazeres inacessíveis à criança e ao adolescente. Os adultos, maduros e velhos (perdão, quis dizer terceira idade) querem apenas ser adultescentes, isto é, aduladores dos delinqüentes. No futuro, não muito remoto, a cultura narcisista abolirá a velhice e a morte e então seremos todos eternos. Aviso que já sou.
Nossa identidade é uma costura consistente de muitas máscaras não porque queremos ser hipócritas ou mentirosos, mas porque precisamos dissimular para conviver e ser aceitos, medida necessária de nossa própria aceitação. Não obstante toda a reivindicação de transparência e verdade que inscrevemos no cerne de nossos ideais éticos, a nua transparência do que somos constitui uma verdade intolerável para as convenções que regem o funcionamento do mundo. Eliot assinala num dos Four Quartets o quanto é limitada nossa medida de suportação da verdade. Se igualmente pouco toleramos a mentira nua e crua, como então determinar a medida do que somos e fingimos?
Pensando melhor, não fui eu que envelheci, foi o tempo que se apressou. Mais que pressa, há nele uma progressiva aceleração que se manifesta no espaço e dentro de nossa medida subjetiva. Um dia deixarei de ser um nome para me tornar gerúndio: um tempo sempre sendo. Aliás, meu nome é gerúndio: Fernando. Faltou-me a coragem de ser Infernando.Um dia inventarão a parada móvel, o sono acordado, o presenteando: presente sempre em processo. Um dia, carente de identidade, um dia sonhei ser eu. Sei agora que ser é sempre ser outro. O outro é nosso incerto destino.
Espanta-me ainda toda a cantilena que desenhamos em nome da felicidade. Dela falamos sempre e desejosos a evocamos como se ser feliz fosse um fim, quando não é sequer uma possibilidade. A felicidade é apenas um delírio obsessivo que inventamos, pois que seres feitos de nossa insensata matéria não podem nunca alcançá-la. Os afortunados, poucos mas reais, poucos mas empiricamente assinaláveis, provam-na enquanto estado, enquanto deleitação momentânea, não enquanto expressão de permanência. Se fôssemos capazes de ajustar a medida do que desejamos à medida do que efetivamente somos, regularíamos nossos desejos e fantasias imantados na medida da felicidade momentânea. Noutras palavras, não estamos no mundo para ser felizes.
Uma das mais graves e difundidas moléstias do nosso tempo é a compulsão de ostentar felicidade e otimismo. Pessoas visivelmente infelizes falam de si próprias como se fossem clipes publicitários ambulantes. O cúmulo dessa estranha forma de alienação é o slogan “sem medo de ser feliz”. Se bem o entendo, ele sugere que a única razão de nossa infelicidade radica no medo que sofremos de conquistá-la ou simplesmente fruí-la.
A mulher? Sei que é a grande ausência aparente deste delírio em que racionalmente me meço e me repasso. Como falar da mulher num texto em que ironicamente me cotejo no tempo neste acentuando as linhas indisfarçáveis de sua passagem e ação? Se de algum modo somos vítimas do tempo, ninguém o é mais que a mulher. Daí tantas vezes lembrar a amigos, em nossa correspondência mais íntima e livre, as formas mais cruéis de manifestação da mãe natura. A mulher não se espelha nas linhas deste discurso porque temo de algum modo feri-la aludindo aos estragos que o tempo risca sobre sua pele, sobre sua inefável beleza que é objeto de meu culto mais lírico e secreto. É preciso que num homem se combinem a privação de uma mãe e a fatalidade da poesia antes vivida que realizada para que bem se compreenda a razão do meu objeto de culto. A mulher é tudo e tudo é apenas a mulher. Por que então precisaria eu iluminá-la nas linhas tortas de minha noturna e encantada navegação?
Mas acreditem: meu tempo é hoje, como na canção de Paulinho da Viola.
No dia do meu aniversário – 03 de outubro de 2007.