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segunda-feira, 24 de março de 2014

Máximas e Mínimas IX

            
            Consolação niilista:
            De tanto nada esperar
            eu nunca desesperei.
            Sendo incapaz de contar
            nunca dos três eu passei.
            E assim no nada meu nada
            calmo mergulha e até nada
            no tudo em que me afoguei.


Mas eis que na noite, quando pacificado respiro dentro da minha infelicidade confortável, assomam os rumores de uma voz proveniente da catástrofe: "O que sabe a mão que escreve catástrofes da catástrofe real do mundo?" Foi apenas um breve rumor, nota errante logo tragada por sons e ruídos circundantes. Que sei eu de fato sobre a catástrofe?

            Afora as formas correntes de corrupção, o mais seguro investimento brasileiro é ingressar numa família de bens.  Dependendo da escolha feita, pode-se automaticamente gozar do privilégio de ter casa na praia, no campo e na cidade, emprego no Estado e médico privado com absoluta isenção de custos. Perde-se, claro, a liberdade de ser solteiro, indivíduo dono de si próprio e do seu destino controlável. Mas não encontrará essa liberdade, para tantos um fardo intolerável, em si própria seu desejo de perder-se?

            Cindida entre o superego protestante e a carne aberta aos eróticos calores dos trópicos, refugiou-se na mentira como se esta fosse uma âncora boiando em meio ao naufrágio da psique. Mentindo por teimosia, mais tarde por convicção, acabou tomando por verdadeira toda a vida de mentiras com que presumira enganar-me. Se entretanto os fatos com frequência a desmentiam, pior para os fatos e meus ouvidos traídos. Por fim, nua na própria mentira vestida, nada mais restou-lhe, salvo atribuir traições de fato às maquinações projetivas do meu ciúme doentio. Como discernir, diluída neste oceano de irrazão, a gota de minha razão caindo caindo caindo...

            Assim canta a voz da solidão amorosa nas vozes de Billie Holiday, Ella Fitzgerald e Sarah Vaughan: "In my solitude, you haunt me / with revêries of days gone by... " Na companhia de Antonella, entretanto, corpos latinos ludicamente movendo-se dentro do fog e da austeridade cravada sobre cada pedra das ruas de Colchester, "Solitude", esta mesma de Duke Ellington cantada em tons de dilaceramento pelas vozes negras citadas, convertia-se em matéria de fantasia e charme. "Solitude" era entre nós continuamente retraduzida, recontextualizada, reescrita ao sabor e humor das nossas fantasias e circunstâncias. Como sonhar essa virtude latina aclimatada às regulamentações ordinárias de uma cultura puritana? Alheia a barreiras impostas por espaço e tempo, minha imaginação salta da noite tropical nordestina para as ruas de Florença onde o corpo latino de Antonella dança os sombrios compassos de "Solitude" em ritmo de tango ou carnaval veneziano.

Quando no Hamlet uma personagem diz que "something is rotten in the state of Denmark", a podridão é de imediato denunciada pelo fantasma do rei assassinado pelo próprio irmão, usurpador do trono e novo senhor da rainha, mãe de Hamlet. "Frailty, thy name is woman". Mas este é já um outro tema. O meu, comprimido nas magras linhas deste parágrafo, é a podridão gerada pela ambição humana inscrita no cerne dos regimes de opressão e poder. Dado o avançado estado de degradação da coisa pública no Brasil, quem teria ainda o cinismo ou a inocência de assinalar a podridão do Estado brasileiro? O odor pestilento tanto corrói os ares e as almas, tanto frequenta o noticiário do dia, onde reportagem política há muito se confunde com livro de ocorrências policiais, que ghost já soa como se fosse gosto. E como dizem que gosto não se discute, resta apenas indagar: "What's your rotten taste?"

            Se virgindade fosse virtude
            eunuco seria santo
            teu gozo meu casto espanto
            a tua coca meu luto.

            Se falta fosse virtude
            pobreza casta nudez
            se este sol que me ilude
            iluminasse vocês
            elegeria o Nordeste
            céu, meu bordel português.

Meu país ideal seria um entre-lugar acima das fronteiras culturais que opõem Brasil e Inglaterra. Exemplos: Entre a baderna do primeiro e a rigidez codificada do segundo, um erotismo plasticamente civilizado, um "eros, builder of cities", como o cantou Auden no admirável poema "In Memory of Sigmund Freud". Entre a aridez vitoriana da inglesa e o corpo carne em vitrine da brasileira, uma medida ilustrada capaz de temperar nudez e ocultamento ativador dos sentidos já um tanto indiferentes diante do excesso de exibição e oferta. Entre o silêncio tumular das ruas britânicas e a barbárie reinante nas brasileiras, um ideal de convívio harmoniosamente dosando instâncias pública e privada. Como porém sei que meu país ideal não existe e nunca poderá existir, luto para conservar os vulneráveis limites da minha casa à margem do Brasil celebrado pela tradição antropológica proveniente de Gilberto Freyre e prolongada em Roberto da Matta. Matta que não é mata nem mata, thanks God.

            Nos anos 70 o arrogante triunfalismo da ditadura militar deu livre curso a dois lemas: um restaurado do nosso filão de mitos ("Brasil, país do futuro") e outro importado da matriz americana ("Brasil: ame-o ou deixe-o"). O primeiro atolou nos roteiros da transamazônica, estrada faraônica que partia do Piauí para nenhum lugar, e outras equívocas vias e acabou roído na letra de calendários celeremente envelhecidos. O segundo, nas origens brandido contra uma minoria empolgada pelo sonho delirante de promover uma revolução socialista neste país de capitalismo perversamente estatizado, tornou-se tão obsoleto quanto o país do futuro. A derrocada é tal que até quem antes o amava e batia continência para a tecnocracia militarizada agora anseia por deixá-lo. Se o fluxo de deserção não é massivo, a causa não radica na sobrevivência do amor pela pátria arruinada, mas no fato de que lá fora o sol declina em algumas latitudes alvejadas pelo sonho do desertor potencial e muitas fronteiras estão fechadas.
Recife, agosto de 1993.



sábado, 23 de junho de 2012

Som e Fúria


Peço perdão a Shakespeare por saquear o título desta crônica de uma das passagens mais citadas, parafraseadas e parodiadas de sua obra. Não bastasse tanto, vou rebaixá-la ao nível do meio-fio em que servilmente medimos nosso cotidiano. A fúria, ou o ruído que sobressalta o ambiente urbano em que nos movemos, há muito suprimiu o espaço e a configuração contextual dentro da qual o som habitava. Como fruir o som e habitá-lo com nossa civilidade e sensibilidade num mundo movido pelo ruído que se tornou compulsório? Como conjugar o som à solidão num mundo cuja superpopulação ocupou o espaço vazio com seu alarido incessante?

O ruído não se impõe apenas nos ambientes mais densamente povoados, como o trânsito infernal das nossas grandes cidades e o shopping center, templo e paraíso da sociedade de consumo. O ruído foi imposto nas clínicas e hospitais, nas igrejas e até nos mosteiros. Talvez em alguma montanha remota, cuja existência ignoro e não foi ainda saqueada por nenhum guia turístico, sobreviva algum mosteiro consagrado ao exercício da religiosidade dissociada do século. Mas até isso me parece duvidoso, já que vivemos num mundo em que a fronteira entre o sagrado e o profano, fundamento da distinção entre a transcendência religiosa e a imanência secular, está se apagando. O padre, o pastor, o oficiante de qualquer seita religiosa, tornou-se um ídolo de massa como um artista pop. Basta lembrar o exemplo do padre Marcelo Rossi. Portanto, o espaço da religião já não é provedor de som e silêncio, já não existe fonte de separação momentânea do século regida pelo recolhimento e a meditação, a solidão impregnada pela corrente mística avessa ao tumulto do século. Saltando da esfera da religião para a da cultura letrada, como entregar-se ao exercício da leitura num mundo como o que acima esbocei? A conversão da livraria em espaço de comércio promíscuo, misto de discoteca, bar e cafeteria, dvdteca e parque infantil, anulou o leitor.

Costumava há alguns anos frequentar a Livraria Cultura, provavelmente a mais poderosa rede de livrarias do país regida por essas novas funções e expressões da cultura radicalmente mercantilizada. Meu dia preferido era o sábado à tarde. Ia à livraria para conferir os novos lançamentos, explorar prateleiras ainda desconhecidas e também comprar livros. Ocasionalmente via e conversava com amigos que já me habituei a encontrar apenas no Facebook. Ora, ninguém explora um acervo sem em algum grau o ler para formar uma noção razoável do que é, da medida em que interessa ao leitor. Portanto, a livraria é a instituição onde compramos livros e portanto é também um espaço de leitura. Como no entanto praticá-la, a leitura, atormentado pelo zum-zum dos consumidores ansiosos, os gritos das crianças que correm e saltam e gritam entre prateleiras, o ruído incessante do rock pauleira vibrando nas paredes e reverberando nos ouvidos sitiados do mísero leitor carente de reclusão e silêncio?

Tentei trocar o sábado à tarde, hoje intolerável, pela noite da terça. No domingo, nem pensar, pois é o dia em que os pais, letrados e iletrados, liberam a criançada para converter a livraria num parque de diversões. Afinal, aonde levá-la numa cidade privada de espaços de associação livre e lazer? As poucas praças e parques que temos, no geral degradadas pelo abuso da população e o descaso dos governantes, são de uso quase exclusivo da população pobre. Os abastados, as camadas possuidoras, refugiam-se nos shoppings e condomínios, também nas livrarias.

Por isso troquei o sábado pela terça à noite. Mas logo constatei desolado que a fúria não poupa o som e a solidão em nenhum dia da semana. Lá estão as crianças gritando e saltando, lá estão os pais e consumidores falando alto no celular, entretidos em conversas intermináveis e indiferentes ao leitor espremido entre as prateleiras; lá, ainda e sempre, vibra o som do rock pauleira ou o pagode. Apertado pela necessidade biológica, o leitor expelido da livraria vai em busca do sanitário – ou banheiro, como reza o eufemismo corrente. É lá, logo descobre, que a fúria é mais ruidosa.
Onde esconder-se na cidade povoada pela fúria? O leitor retorna à livraria e tenta entregar-se à leitura digestiva, que prescinde do som propício à leitura concentrada. Folheia a edição mensal da revista da Livraria Cultura e logo esbarra numa curiosa ironia: o editor dedica o editorial ao tema do barulho. Noutras palavras, deplora e até acusa o ruído dominante nos nossos formigueiros urbanos, como de resto o faço nesta crônica. A ironia consiste, claro, no fato de que é a própria livraria que hoje afugenta o leitor, que o impede de circular civilizadamente no seu espaço. Será apenas ironia ou a inconsciência gerada pelo fetiche da mercadoria, como diria Marx?

E se o leitor tiver por acréscimo a infelicidade de adoecer? Encontrará acaso, em meio à cura da dor e da doença um espaço onde possa se refugiar na leitura, na solidão propícia ao convívio indesejável com a doença? Vá o enfermo a qualquer clínica, hospital ou consultório da cidade. Encontrará uma televisão ligada em todas as salas, sobretudo na sala de espera. Como o que mais fazemos nas nossas instituições de saúde é esperar, não apenas a cura, talvez tenhamos a fortuna de encontrar remédio para a dor de adoecer, mas nunca para a dor de viver privado do som e do silêncio. Portanto, bendita seja a morte, último refúgio do silêncio.

Encerro a crônica com o relato de uma anedota que bem a ilustra. Há anos, provavelmente em 1998, recebi a visita de uma amiga inglesa com quem muito convivi na Inglaterra, inclusive imersos, ela e eu, na atmosfera de som e silêncio, de solidão e confidência. Casada com um baiano, veio ao Brasil e passou cerca de dois meses em Salvador antes de vir encontrar-me em Recife. Levei-a, logo que chegou, para conhecer a Praia dos Carneiros, então ainda uma praia quase privada. Graças à amizade generosa de Zildo e Léa Rocha, pude dispor da chave da casa onde tantas vezes, também na companhia do nosso amado Daniel Lima, vivi momentos preciosos de recolhimento, solidão e convívio prazeroso com esses e outros amigos.

Chegamos ao entardecer e logo nos acercamos do mar. De repente, a lua cheia emergiu do fundo das águas recobrindo a paisagem com sua luz majestosa. Foi um momento de beleza miraculosa e indescritível. Voltando-me para minha amiga, vi lágrimas escorrendo pela sua face iluminada. Perplexo, perguntei-lhe por que chorava. E ela me respondeu com estas palavras que ficaram gravadas na minha memória de brasileiro perdidamente desamparado de som e silêncio: “Fernando, I´m listening the silence in Brazil for the first time”. Hoje isso seria impensável na própria Praia dos Carneiros, que há anos entrou no circuito turístico do Brasil.

Recife, 2 de junho de 2012.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Shakespeare por S. Greenblatt


Uma outra biografia de Shakespeare
Como convém ao espírito do tempo, a supremacia de Shakespeare também se manifesta no mercado. Em Stratford-upon-Avon, sua cidade natal, o nome Shakespeare serve para vender tudo: canetas, camisetas, citações da sua obra impressas em toalhas, diários, agendas, lojas e livros. Uma poderosa rede de instituições culturais acentua essa glória para além do consumo estrito de mercadorias. Além de uma companhia teatral exclusivamente consagrada à montagem da sua obra, a Stratford Shakespeare Company (também a Royal Shakespeare Company, sediada em Londres), existem o Stratford Shakespeare Institute e o Stratford Shakespeare Centre. Importaria salientar que, diferentemente de instituições similares no Brasil, estas concorrem, através de incessantes pesquisas e estudos, para ampliar o conhecimento e a difusão da obra e vida de Shakespeare. As brasileiras, que não têm nenhuma relação com Shakespeare, friso, servem no geral como fonte de prestígio social, parasitismo cultural e ação entre amigos.
Apesar dos ataques procedentes do radicalismo acadêmico, Shakespeare reina solitário no centro do cânone da literatura universal. O mercado editorial, assim como o conjunto da produção acadêmica, ratificam esse juízo. Também o teatro, seu domínio primário e supremo, e o cinema. Mesmo no Brasil, onde é tão pouco estudado e encenado, são lançadas novas biografias que se somam às muitas escritas ao longo de séculos. Recentemente resenhei neste blog As guerras de Shakespeare, de Ron Rosenbaum. A esta poderia acrescentar, sem intenção de proceder a um levantamento que o leitor pode facilmente fazer acessando os sites especializados, Frank Kermode, A linguagem de Shakespeare, Celeste Davidson, Quem foi William Shakespeare?, Claude Mourthe, Shakespeare. Por fim, encurtando a lista e chegando ao que mais importa para esta resenha, Stephen Greenblattt, Como Shakespeare se tornou Shakespeare.
Stephen Greenblat é o grande representante do Novo Historicismo, corrente teórica baseada na subordinação da obra e do autor às condições históricas. Objetiva assim interpretar ambos, a obra e o autor, no contexto cultural dentro da qual se situam. Greenblatt tornou-se a grande referência desta teoria ao propor sua formulação inicial em The forms of power and the power of forms in the renaissance (1980). Essa teoria nega autonomia aos agentes sociais, portanto também ao autor, que acaba reduzido a expressão do sistema ideológico vigente. Isso explica a hostilidade observável entre Greenblatt e Harold Bloom, outro celebrado crítico de Shakespeare. Suas perspectivas críticas são tão antagônicas que acabam transpostas para o plano da hostilidade pessoal. Isso me parece explicar o fato de que um não cita o outro, a não ser indiretamente como objeto de ataque.
Mas importa já de início ressaltar que Greenblatt, diferentemente de tantos teóricos ininteligíveis, escreve uma biografia legível, de leitura muito fluente cujo estilo expositivo prende de imediato o leitor. Como os muitos biógrafos que já se debruçaram sobre Shakespeare e seu tempo, ele reconstitui a vida do grande dramaturgo retomando as fontes documentais no geral já bem estudadas combinando-as com largos voos especulativos.
A vida e a obra de Shakespeare têm muito de obscuro, já que no seu tempo não se documentavam as vidas, mesmo de pessoas famosas, como hoje é comum. Aliás, diga-se que a Inglaterra do tempo era relativamente avançada nesse sentido. Foi isso o que tornou possível a sobrevivência de certo volume documental relativo a Shakespeare e sua obra. Mas o mito de tal forma se sobrepôs ao homem real através da história que seria um exercício detetivesco, algo à maneira de Sherlock Holmes, retraçar as muitas fraudes e supostas descobertas do autor real escondido sob a obra. Basta que se lembre que a obra de Shakespeare já foi atribuída a Francis Bacon, e a Edward de Vere, Conde de Oxford. Os autores dessas façanhas, aliás admiravelmente estudados numa das mais importantes obras dedicadas a Shakespeare e sua vida (The genius of Shakespeare, de Jonathan Bate) são conjuntamente identificados como os anti-Stratfordianos, isto é, os que negam a Shakespeare, nativo de Stratford-upon-Avon, a autoria da obra que o colocou no centro do cânone literário.
Imaginem que até Freud foi enredado num desses contos de vigário ou recriação mítica do autor depois de tomar conhecimento da obra de Thomas Looney, que sintomaticamente significa doido. Este senhor, um obscuro professor inglês, trabalhou obsessivamente durante muitos anos para afinal publicar uma obra na qual intenta provar que o verdadeiro autor das obras de Shakespeare seria o conde de Oxford. Freud engoliu essa invenção com tanta intransigência que morreu acreditando nela. Hoje ninguém mais leva a sério as interpretações delirantes de Looney e outros “reinventores” de Shakespeare. A propósito, Harold Bloom expõe uma interpretação engenhosa para a credulidade de Freud em O Cânone Ocidental. O leitor curioso pode cotejá-la com o ensaio de Peter Gay, “Freud e o homem de Stratford”, incluído em Lendo Freud.
Borges sintetiza a complexidade da obra de Shakespeare, já revestida dessas recriações míticas, ao afirmar que ele é todo mundo e ninguém. Devido a estas e muitas outras razões, Shakespeare continua a inspirar paixões, a dar emprego, pesquisa e fortuna a muitos acadêmicos. Um dos mais ilustres e devotados, o já citado Harold Bloom, sustenta a tese de que ele inventou nossa humanidade. Depois de Jesus Cristo, insiste Bloom, não há personagem mais seminal do que Hamlet. Ser ficcional, produto da imaginação transfundida em palavra, Hamlet traduz a complexidade da condição humana de forma absolutamente original, ou a inventa e dissemina no alvorecer da cultura moderna. É por essas e outras que críticos como Ron Rosenbaum atacam Bloom afirmando que ele pretende deificar Shakespeare. De fato, Bloom levou a bardolatria, o culto a Shakespeare, a um extremo tal que, como escreve textualmente, converteu a obra de Shakespeare em escritura secular, ou correspondente secular da Bíblia.
O que é bem curioso nessa indústria que continua produzindo biografias de Shakespeare é a opacidade dessa figura que os biógrafos perseguem. Repisando uma obviedade que alguns leitores ignoram ou desconsideram, Shakespeare viveu numa época isenta do culto da celebridade que hoje converte qualquer jogador de futebol ou arranhador de guitarra em Deus da mídia. Melhor dizendo, o status do ator e do autor de teatro no seu tempo era equivalente ao de vagabundos, de seres socialmente subordinados e portanto dependentes de patrocínio da nobreza ou do clero, expostos aos caprichos e variações da lei que a qualquer momento, por força de doenças contagiosas ou de pressões puritanas, poderiam ter as portas do teatro fechadas.
Stephen Greenblatt e muitos outros biógrafos demonstram o quanto Shakespeare também se singularizou ao converter sua condição socialmente subordinada em uma extraordinária experiência de ascensão social. Sabendo astutamente tirar proveito dos meios de patrocínio disponíveis à época, além das relações de competição impostas à atividade teatral, sua vida, até onde está irrefutavelmente documentada, foi um triunfo social. À diferença de outros grandes dramaturgos contemporâneos, bastaria pensarmos na trajetória atribulada e no desfecho chocante de vidas como as de Christopher Marlowe e Robert Greene, ele acumulou bens e prestígio sociais excepcionais para homens de sua condição. Marlowe morreu assassinado numa briga de taverna; Greene, em completa miséria, morreu acolhido na casa de um sapateiro desconhecido. Às portas da morte, Greene escreveu uma carta que sobrevive como documento valioso para que melhor se aprecie a condição precária do autor teatral à época.
Pondo sua teoria em prática, Greenblatt empenha-se em reconstituir as condições sociais do tempo para explicar Shakespeare, inclusive as muitas zonas obscuras de sua vida. Fiel a esse propósito, levanta documentação e hipóteses interpretativas relativas à escolaridade de Shakespeare, ao clima religioso dentro do qual se formou, dilacerado pelas lutas religiosas entre o catolicismo e a religião imposta por Henrique VIII e posteriormente por Elizabeth I. Shakespeare viveu em meio à ferocidade da guerra religiosa: conspirações, lutas pela sucessão no poder político, torturas e supressão impiedosa da tradição católica que durante séculos esteve no centro da tradição inglesa. Greenblatt também ressalta a influência que as festas populares e religiosas exerceram sobre a formação de Shakespeare e sua obra. Essa tradição popular de procedência medieval, tão viva na obra de Shakespeare que resiste aos princípios oriundos do teatro grego clássico, sobreviveu durante décadas aos controles rigorosos impostos pela Reforma.
Um dos problemas que salientaria na biografia escrita por Stephen Greenblat prende-se à recorrência das especulações com que visa preencher os claros da vida de Shakespeare. Enquanto outros biógrafos, é o caso de Jonathan Bate, conferem franca prioridade à obra, Greenblatt subordina a vida à obra, na medida em que intenta explicar aquela de acordo com elementos selecionados desta. Fiel ao espírito da sua teoria, subordina ambas, vida e obra, às condições sociais do tempo. Acrescentaria que essas condições sociais do tempo, recompostas dentro do espírito da teoria que adota, são frequentemente hipotéticas. Ademais, quando documentalmente comprovadas, é no mínimo duvidoso que sejam suficientes para explicar indivíduos excepcionais como Shakespeare.
Concluo com uma citação relativamente extensa visando ilustrar o que anotei no parágrafo precedente. O leitor decerto observará que ele especula, especula e por fim sensatamente repõe Shakespeare de volta a seu lugar supremo, o teatro, único que o explica na medida em que podemos explicá-lo:
“Ele recorreu, sem dúvida, a conceitos e termos legais, mas também era notavelmente receptivo a conceitos teológicos, médicos e militares. Teria ele se envolvido também, diretamente, com algumas dessas profissões? Como jovem sem muitas perspectivas, poderia ter se alistado no exército, para lutar uma guerra suja nos Países Baixos – ou isso é o que alguns foram levados a pensar, impressionados com o domínio de Shakespeare sobre o jargão militar. A partir do evidente fascínio que sentia por viagens marítimas, ele bem poderia ter arrumado um lugar num navio para a América – “Buscar novos mundos”, como disse Sir Walter Ralegh, “pelo ouro, pelo prazer, pela glória”. Mas a probabilidade estatística de retornar de aventuras desse porte era mínima. E nenhuma dessas possíveis profissões explicaria a trajetória que o teria levado de Stratford a Londres. Com efeito, todas elas parecem apenas distanciá-lo do lugar que mais importa em sua vida: o teatro” (p. 72).
Depois de tanta viagem especulativa, Greenblatt devolve Shakespeare ao teatro. Qual afinal o sentido de tanta especulação através de profissões hipotéticas e viagens fantasiosas? Shakespeare acaso precisaria exercer a profissão de militar ou viajar pelos mares para justificar seu domínio do jargão próprio a essas profissões e formas de experiência social? Confesso, já concluindo, preferir o livro de Jonathan Bate acima citado e infelizmente inédito no Brasil. Tecido com erudição impressionante e exemplar clareza crítica e expositiva, ele encontra na própria obra o que Greenblatt e outros estudiosos buscam sem sucesso fora do autor e da obra.
Em tempo: o título da obra em inglês é Will in the world acrescido do subtítulo How Shakespeare became Shakespeare. Este é evidentemente o que a tradução brasileira adotou como título. Penso, no entanto, que o título mais apropriado seria o que prevalece na edição original, isto é, Will compreendido como diminutivo de William (Shakespeare), com as conotações afetivas implicadas no uso do diminutivo. Diria ainda Will como sinônimo de vontade, volição. Quanto ao subtítulo que confere título à tradução brasileira, assinalaria apenas que é inapropriado ou infundado. O livro de Jonathan Bate explica muito mais do que o de Stephen Greenblatt como Shakespeare se tornou Shakespeare.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Shakespeare para leigos



Ron Rosenbaum é uma das grandes expressões do jornalismo cultural. Importaria de pronto ressaltar que me refiro a algo bem distinto do que no Brasil entendemos por jornalismo cultural. Aludo ao jornalismo cultural compreendido na linha da tradição anglo-saxônica, que produziu autores do porte de Mencken, Edmund Wilson, Lionel Trilling, George Orwell, Frank Kermode, Melvyn Bragg, Michael Ignatieff... O que os distingue dos nossos, assim como os biógrafos de lá nitidamente se distinguem dos daqui, é a excelência da formação intelectual, não raro solidamente enraizada numa tradição acadêmica que nunca tivemos nem teremos. Isso explica grosseiramente a excelência do jornalismo cultural praticado em terras anglo-saxônicas. As guerras de Shakespeare, objeto desta resenha, constitui uma expressão singular dessa tradição.

O objetivo substancial de Rosenbaum é traduzir Shakespeare para o entendimento do leigo, de gente como eu e provavelmente como o leitor que me acompanha. Como sabemos, Shakespeare ocupa lugar supremo no cânone da literatura universal. Um dos seus estudiosos mais devotos, Harold Bloom, escreveu em 1998 um livro de mais de 700 páginas no qual escrutina e interpreta o conjunto da sua obra visando provar que ele é simplesmente o inventor do humano (Shakespeare, the invention of the human, título do livro). A tese de Bloom é extremamente ousada, pois consiste na convicção, argumentada ao longo do livro, de que Shakespeare recriou a língua inglesa e, feito ainda mais extraordinário, fundou a noção de natureza humana tal como hoje a compreendemos. Rosenbaum contesta de passagem esta tese qualificando-a simplesmente como tola (ver p. 44). De fato, endossar a tese de Bloom significaria menosprezar todas as extraordinárias invenções literárias e filosóficas anteriores a Shakespeare. Se isso fosse verdade, que lugar Homero, Sófocles, Platão, Virgílio, Dante e tantos outros passariam a ocupar na tradição cultural?

Rosenbaum introduz na obra algumas digressões autobiográficas que nada encerram de complacência narcisista, como é rotineiro na atmosfera cultural em que vivemos. Ele o faz com o propósito de explicar sua desilusão com a carreira e o ambiente acadêmico onde se forjam os altos, complexos, eruditos e não raro bizantinos estudos e interpretações da obra e da vida de Shakespeare. Sua desilusão foi tão grande que, sem meias medidas, assim se expressa:
“Pude experimentar o barato da adrenalina jornalística quando recebi credenciais de imprensa para cobrir a Convenção Democrática de Chicago de 1968 para um diário local. E sair daquele tumulto capaz de mudar a história e voltar ao cinismo barato da cultura acadêmica foi intensamente desanimador. O que havia de errado com aquela gente?, perguntei primeiro. E depois: o que havia de errado comigo? Por que ficava ali?” (p.21).

A citação que acabo de fazer é relevante por me parecer que condensa a orientação intelectual seguida por Rosenbaum e os dois livros mais importantes que escreveu e foram traduzidos no Brasil: Explaining Hitler (título brasileiro: Para entender Hitler) e este que aqui comento. Apesar da sólida formação acadêmica que assimilou, de sua precoce iniciação nos estudos literários e particularmente shakesperianos, Rosenbaum consagrou-se à elaboração de obras que acima qualifiquei como jornalismo cultural e é colaborador de periódicos renomados como New York Times Magazine, The New York Observer e The New Yorker.

O objetivo que o motivou a trabalhar durante sete anos na composição deste livro sobre Shakespeare é o mesmo que antes demoradamente o ocupou na ambiciosa empresa de explicar Hitler. As questões fundamentais que pulsam nas raízes destes dois livros – o que é exatamente shakesperiano, como explicar a singularidade shakesperiana da obra desse gênio supremo e, por outro lado, o que é o mal radical, como explicar o mal em Hitler, o que ele simboliza como expressão da maldade humana? – resultam irrespondidas e são certamente irrespondíveis. Quero dizer, faltam-nos poderes intelectuais e filosóficos, éticos, como queiramos chamá-los, para respostas satisfatórias ou definitivas. Nesse sentido, por razões radicalmente distintas, Shakespeare e Hitler são enigmas que nenhum oráculo tem o poder de decifrar. Este é um dos méritos de ambos os livros: guiar-nos até onde possível através dessas sendas e enigmas insondáveis. O leitor carente de verdades últimas, ou meramente dogmático, pode depreciar obras dessa natureza, ou simplesmente desprezá-las por não lhe fornecerem as certezas cômodas que busca. O leitor que tenho em mente, penso que também Rosenbaum, é um outro, é o leitor que busca, investiga e luta tenazmente com e contra a opacidade dos sentidos humanos para saber até onde é possível saber. Não tenho dúvida de que esse tipo de leitor muito se beneficiará da leitura de ambos os livros de Rosenbaum.

O que ele, Rosenbaum, ambiciona, assim entendo, é traduzir no melhor sentido da obra de jornalismo cultural as questões – ou as guerras, como ele as intitula – que cercam o estudo e o sentido da obra e da vida de Shakespeare. Essas questões ocupam há séculos estudiosos eruditos, especialistas acadêmicos que em alguns casos se debruçam uma vida inteira sobre os textos de Shakespeare visando esclarecer as versões e variações que as circunstâncias históricas impuseram à obra na sua passagem através dos séculos. Para adentrar essa selva, o leitor precisa conhecer conceitos e fatos elementares que o livro generosamente lhe fornece: em que circunstâncias a obra de Shakespeare foi escrita, como os textos eram impressos na sua época, o que é edição em Quarto, Fólio e coisas afins. Outras questões por ele minuciosamente abordadas: qual o verdadeiro Hamlet? Qual é a verdadeira última fala do rei Lear no fecho da tragédia, quando retém nos braços moribundos o corpo de Cordélia, sua filha adorada? A essas e muitas outras questões relativas à obra, ao texto e seu significado acrescentam-se as questões de fundo biográfico que prendem e apaixonam os estudiosos. Como sabemos, até Freud entrou nessa dança ao atribuir a Shakespeare uma identidade e posição social comprovadamente ficcionais.

Já de partida, Rosenbaum adota a posição que me parece correta diante da relação entre o autor e a obra, a biografia e o texto. A prioridade que ressalta é a obra. A biografia importa apenas na medida em que concorre para esclarecê-la. Ademais, a vida de Shakespeare foi muito nebulosa. Embora exista já uma infinidade de biografias suas (bastaria dizer que eu, um leigo apaixonado, possuo cinco), muito da sua vida é simplesmente ignorado, ou objeto de especulações, umas engenhosas, outras apenas delirantes. A qualidade da adaptação cinematográfica de um curto período da sua vida contido no filme Shakespeare in Love, escrito por Tom Stoppard e Marc Norman, e o sucesso extraordinário alcançado por este filme, premiado aliás com sete Oscars relativos a algumas das categorias mais prestigiosas do prêmio, concorreu para ampliar o interesse constante pela vida e a obra de Shakespeare. Na verdade, segundo palavras do próprio Rosenbaum, o sucesso alcançado por este filme deflagrou uma autêntica moda shakesperiana.

Como convém ao espírito do tempo, importa salientar que a obra de Shakespeare, em termos de vendagem e influência, é segunda apenas para a Bíblia. Além do fato de haver produzido uma obra que no conjunto é de uma genialidade singular e objetivamente incomparável, Shakespeare é beneficiado pela circunstância de ser antes de tudo um autor dramático, um autor da literatura que é escrita com o fim último e fundamental de ser representada. Portanto, a disseminação universal da tecnologia audiovisual contribuiu de forma decisiva para difundir sua obra numa escala inconcebível para qualquer outro gênio da literatura narrativa, aquela produzida antes de tudo para ser lida.

Como conceber, por exemplo, a obra de gênios como Cervantes, Dostoiévski, Charles Dickens, Marcel Proust, Tolstói, Henry James, Machado de Assis, Joseph Conrad e tantos outros para o cinema hoje transportado, graças ao DVD, para dentro de nossas casas? É claro que todos os autores que acabo de citar tiveram parte da sua obra adaptada para o cinema. Mas como comparar Guerra e Paz, por exemplo, com qualquer das medíocres adaptações de que já foi vítima? Não importando o gênio de quem os transporte para a tela ou o palco, a grandeza desses autores reside na forma irredutível das narrativas que genialmente criaram. Essa forma não tem simplesmente correspondente audiovisual. Ora, Shakespeare é nesse sentido, dada a razão aqui exposta, um privilegiado. Portanto, o lugar único que ocupa na história da arte e da cultura universal somente seria ameaçado se o público mais cultivado que existe trocasse a sua obra impressa, e sobretudo representada, pelo feijão com arroz melodramático que a televisão todos os dias oferece à massa dos telespectadores.

Voltando ao livro, se é que dele indevidamente saí, o mérito maior de Rosenbaum consiste em traduzir no estilo e na linguagem do melhor jornalismo cultural as “guerras” que cercam a obra e a vida de Shakespeare. Travadas com paixão e devoção maníaca nos círculos rarefeitos da alta cultura acadêmica, lastreada em métodos e sobretudo linguagem e estilo de composição impermeáveis ao leigo, elas escapam à compreensão e ao interesse do público geral. O objetivo de Rosenbaum é, portanto, erguer uma ponte entre os altos círculos da erudição shakesperiana e o leigo culto, o apreciador da obra que, não obstante autenticamente a ela vinculado, compreende-a e traduz numa dimensão muito distinta daquela forjada pelo especialista erudito. Convém lembrar, a esse propósito, que a mera intencionalidade da obra que ressalto neste parágrafo é por si só digna do mais alto apreço.

Talvez o mérito maior da tradição do jornalismo cultural que tende a progressivamente desaparecer, a tradição espelhada na obra dos jornalistas culturais mencionados no parágrafo inicial desta resenha, consistisse na consciência que tinham esses escritores e críticos de exercerem uma função cultural formativa de incalculável efeito democratizador da cultura. Eles eram, noutras palavras, mediadores esclarecidos, herdeiros portanto da melhor tradição iluminista, entre a obra e o público leigo, o público culto, sinceramente devotado aos valores da cultura intelectual, mas por variadas circunstâncias incapacitado de dominar os códigos originários complexos da tradição intelectual e estética. Essa questão tornou-se nitidamente crucial no momento, entre os fins do século 19 e as primeiras décadas do século 20, quando irromperam os movimentos de vanguarda na literatura, na pintura, na música, teatro... Foi nesse contexto que críticos como Edmund Wilson, bastaria pensar nesta obra fundamental da crítica literária que é Axel´s Castle, exerceram um papel decisivo no sentido de tornar as obras do alto modernismo literário compreensíveis ao leigo.

Devido a razões culturais complexas que não posso considerar nesta resenha, essa figura do intelectual público tende a desaparecer. Uma das razões desse desaparecimento decorre dos processos de especialização acadêmica que converteram o intelectual num funcionário preso a critérios de produção e avaliação que, em termos práticos, dissociaram sua atividade intelectual da sociedade, notadamente daquele leitor em larga medida formado e orientado por intelectuais públicos ou jornalistas culturais do tipo acima citado. Talvez a melhor ilustração desse meu argumento no contexto cultural brasileiro seja Otto Maria Carpeaux. Intelectual de origem e formação europeia, Carpeaux transportou para o Brasil toda a sua extraordinária erudição e generosamente disseminou-a nas páginas dos periódicos brasileiros durante décadas. É difícil avaliar a importância preciosa de tudo que dele herdamos.

Ao escrever obras como Para entender Hitler e As guerras de Shakespeare, Ron Rosenbaum felizmente demonstra que essa tradição não foi extinta; demonstra, noutras palavras, que é possível traduzir muitas das questões complexas que cercam a obra e a vida de Shakespeare em termos acessíveis ao leigo. Convém todavia alertar o leitor para o fato de que, não obstante tudo que nesse sentido realiza ao longo dessa obra volumosa, Rosenbaum não tem como poupar o leitor de muitas páginas tecidas de minúcias e especulações que honestamente me parecem irrelevantes, ou apenas interessantes para quem se compraz com as bizantinices e xaropadas da erudição estéril.

Ron Rosenbaum. As guerras de Shakespeare. Tradução: Maria Beatriz de Medina. Rio de Janeiro: Editora Record, 2011.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Gildo Marçal e a Indesejada das Gentes


Começo por advertir meu suposto leitor, talvez um dos muitos amigos de Gildo Marçal, que esta é uma crônica de memória e perda escrita ao sopro do subjetivismo mais elementar. Acrescentaria que muito relutei antes de aventurar-me a escrevê-la. Afinal, não posso com justiça e verdade incluir-me na categoria dos amigos mais verdadeiros e constantes de Gildo. Assim, penso que outros testemunhariam com maior largueza de fato e sentimento, também com experiência mais intensamente compartilhada, o sentido da vida que Gildo entre nós viveu e a memória que dele reteremos. Penso, por exemplo, em Denis Bernardes, provavelmente sua mais íntima e duradoura amizade. Vieram ambos, imaginem, das noites na Praça Deodoro, em Maceió. Lá, numa já remota juventude, sem com isso insinuar que sejam velhos, começaram a conversar e a conspirar para mudar o mundo e nosso confuso sentido de justiça e beleza e nunca mais pararam de conversar. Dizem as más línguas que falavam de tudo, menos do marechal.

Penso ainda em Edmilson Azevedo, carinhosamente identificado numa crônica de memórias deste blog como o Filósofo Desvairado. A idade, novamente sem insinuar que falo de um velhinho, tornou-o tão mais sensato que agora é ele quem risonhamente se reconhece e reconcilia nos desvairismos vividos. Edmilson foi amigo de Gildo quando graduandos de filosofia na Universidade Federal de Pernambuco. Aliás, confessa haver sido antes discípulo do que amigo. Dentre os amigos que Gildo deixou e preservou a vida inteira em Recife, poderia acrescentar Enilda e Emília. Também elas teriam incomparavelmente mais o que dizer e sentir do que eu.

Saltando para amigos de história mais próxima, penso também em Marcos Costa Lima. Com ele Gildo concebeu muito trabalho, política e aliança acadêmica e extra-acadêmica. Recentemente Marcos me falou de Hannah Arendt com o propósito de invocar a dignidade da política. Confesso que raramente identifico esta esquiva e equívoca senhora (friso aludir à dignidade da política, não à mais que digna Hannah Arendt) na política de que tenho notícia. Neste contexto, todavia, a alusão se faz oportuna, diria até necessária. Gildo Marçal foi um animal político como talvez não tenha conhecido outro. Dentro do meu livre entendimento, era político num sentido muito preciso e talvez arbitrário. Era político no sentido de aceitar e brigar com o outro respeitando-lhe a integridade de ser e viver. Embora militante da política, sobretudo em tempos de ditadura que exigiam coragem e convicção extremas dos poucos que a ela se opuseram com atos e palavra pública, nunca nele testemunhei a mais vaga intolerância ou sectarismo tão rotineiros nos círculos da esquerda que frequentei. Também lhe era estranho o ressentimento, outra doença juvenil e talvez ainda mais senil no círculo dos injustiçados e perseguidos.

Evoco um breve episódio do nosso convívio para melhor ilustrar a anotação do parágrafo precedente. Certo dia, hospedado por ele e Simone em São Paulo, conversávamos sobre política na sua biblioteca. Quando entramos a discutir alianças partidárias, esbocei uma crítica que poderia ser compreendida como ilustração do que Max Weber chama de ética de convicção. Ele então me fez um reparo que ainda hoje retenho como expressão de uma verdade indiscutível: disse que eu era moralista demais para fazer política. Confesso não lembrar com certeza se disse moralista ou puritano, mas no contexto da conversa os termos se equivaliam. Foi por esse e outros muitos motivos que me dei conta de minha insanável inabilidade e até inapetência para a militância política. Meu individualismo, não bastasse tanto, é tão insofreável que vivo discordando de mim próprio, discordando de mim e de todos e tudo, antes de tudo.

Gildo seguiu pela vida aceitando-me como sou e aceitando outros, talvez piores, assim como eram. Um bem melhor, mas impenitente gozador, é Paulo Carneiro, divertidamente tratado pelos íntimos como Capitão América. Aliás, o Capitão imita Gildo quase com perfeição. Queria tê-lo agora a meu lado para que melhor avivasse nos meus sentidos a fala inconfundível de Gildo. Pois Gildo gargalhava homericamente com o histrionismo e irreverência do Capitão. Outros ainda, logo desiludidos ou confusos na atmosfera da esquerda dos anos 1970, caíram no desbunde ou erraram pela vida desviando-se de Gildo e de tudo o que ele representava. Gildo aparentava compreender tudo isso, tanto que continuou lembrando com afeto, outras vezes com humor, muitos desses que seguiram ou se perderam por outras vias. Um outro, mais hipocondríaco do que amigo, perguntava-me repetidamente sobre a saúde de Gildo. Um dia ocorreu-me responder assim: Gildo já teve oportunidade demais para morrer. Se continua vivo, é porque é imortal. Logo, cuidemos da nossa mortalidade.

Mas que posso eu escrever do Gildo militante político? Deixo isso a cargo de Marco Antonio Coelho, Luiz Sérgio Henriques, Marco Aurélio Nogueira, Carlos Nelson Coutinho e tantos outros que bravamente lutaram em tempos sombrios, novamente evocando Hannah Arendt, ou ainda in dark times, como escreveu no original. A luta destes e tantos outros não consistiu apenas em manter vivo o comunismo sob a ditadura, mas sobretudo em renová-lo democraticamente. Como fui quando muito companheiro de viagem, o que posso dizer é que tive sempre um fraco pelos comunistas vencidos. Melhor dizendo, é o comunista que nunca conquistou o poder.
Luiz Sérgio Henriques acaba de me enviar um e-mail ressaltando através da citação de um verso famoso de Mário de Andrade a admirável pluralidade humana de Gildo.
Procurei nesta crônica acentuar antes de tudo minha memória do Gildo devotado à amizade. Daí haver intencionalmente citado alguns dos muitos amigos verdadeiros que conquistou e manteve ao longo dos anos. Materialistas ou não, o que de nós sobrevive é a memória preservada no amor dos amigos, pois a mortalidade é a nossa condição comum. Ademais, como Shakespeare escreveu, devemos uma morte a Deus. Gildo pagou a dívida que nós outros também pagaremos. Por isso, e por amor à memória generosa do que amamos, prefiro reter nestas linhas o Gildo que amava a vida e os amigos, o Gildo das gargalhadas que continuarei ouvindo na solidão onde enterramos e cultuamos nossos mortos.

Pergunto-me por fim se Gildo acaso alcançou diante da morte a serenidade tão singularmente expressa por Manuel Bandeira em Consoada, o poema do qual extraí metade do título que conferi a esta crônica. Não seria belo e confortador imaginar que partiu deixando “...lavrado o campo, a casa limpa, / A mesa posta, / Com cada coisa em seu lugar”?
Recife, 21 de fevereiro de 2010.