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sábado, 1 de novembro de 2014

Joyce e a Torre de Babel


Embora publicada em 1914, Dublinenses, obra composta de quinze narrativas curtas, foi escrita cerca de 10 anos antes. O intervalo de tempo aí assinalado sugere os obstáculos que sempre separaram James Joyce, ícone supremo do alto modernismo europeu, e o público. No caso, o problema maior foi com o editor e outros mediadores entre o autor e o público. A obra conteria, para os valores da época, passagens pornográficas e alusões ofensivas a dublinenses identificáveis nos personagens que foram de fato concebidos a partir de fontes biográficas do autor. Aliás, esta é uma característica que atravessa de forma nítida o conjunto da obra de Joyce. Sob as compactas camadas experimentais da forma lateja a realidade social de Dublin e da Irlanda. Não foi à toa que Joyce certa vez observou que, acaso Dublin fosse varrida do mapa, seria possível reconstituí-la integralmente com base na sua obra. A minudência obsessiva, o zelo detalhista mobilizado na composição textual, a revelação crua da realidade que de resto lhe valeu a acusação de ser um autor pornográfico, tudo isso deriva da linhagem naturalista a que Joyce se filia. Conviria precisar que o termo “naturalista” remete a influências procedentes de Flaubert e Ibsen, não Émile Zola, foco irradiador da estética naturalista que marcou a tradição literária brasileira em fins do século 19.
Quem acaso lê Joyce, sobretudo quem dele ouve falar, pois não há dúvida de que é um escritor antes louvado do que lido, prontamente o associa a Ulysses. Por isso, embora este artigo seja em princípio consagrado ao centenário de Dublinenses, anuncio desde já que é aquele que tenho em mente. Comparada a Ulysses, Dublinenses é uma obra que pouco se afasta da tradição realista acima salientada. Noutras palavras, não é propriamente fruto do alto modernismo europeu que nas primeiras décadas do século 20 abalou a tradição literária ocidental impondo às formas narrativas e poéticas um sentido de radicalidade estética sem precedente histórico. Sendo assim, o leitor atravessa os 15 contos prescindindo de guias e exegetas, ou explicadores, que no caso de Ulysses tornam-se imprescindíveis, ainda quando o leitor seja muito cultivado literariamente.
Joyce escreveu que Dublin era o centro da paralisia: the centre of paralysis. Essa paralisia de Dublin, cidade periférica oprimida pelo mais poderoso império do século 19, o império britânico, é perceptível em toda a obra de Joyce. Ele tinha profunda consciência desse fato. Formado dentro dos quadros da tradição jesuíta, rebelou-se contra o catolicismo irlandês, esteio da paralisia que o sufocava, e escolheu ser um auto-exilado. Migrou para o Continente, como dizem nas ilhas britânicas, antes mesmo de escrever Dublinenses. Foi viver em Trieste, onde compôs o livro, e onde, para proveito recíproco, conviveu com Italo Svevo, autor do mais importante romance italiano do século 20: A Consciência de Zeno. Em suma, viveu toda sua vida de escritor ausente de Dublin, vivendo entre Trieste, Paris e Zurich, onde morreu em 1941.
O modernismo europeu foi um movimento indissociável do exílio. Os dois maiores modernistas americanos viveram voluntariamente exilados na Europa: Eliot e Ezra Pound. Nos anos 1920, década suprema do modernismo, vários americanos fizeram de Paris o seu país de exílio: Gertrude Stein, Hemingway, Scott Fitzgerald. Na década seguinte o nazismo forçou o exílio de muitos outros modernistas banindo-os da Alemanha e da Áustria. Auden e Christopher Isherwood fizeram o percurso inverso ao de Eliot e Pound. Kafka viveu a vida inteira como um exilado dentro da própria cidade em que nasceu. Voltando a Joyce, Stephen Dedalus, seu alter ego, condensa numa célebre passagem de Retrato do artista quando jovem o sentido do seu exílio voluntário e as armas de que se serviria para sobreviver e dar sentido à sua vida: “Silence, exile and cunning”.
Se é fato que Joyce um dia partiu de Dublin para nunca mais voltar, Dublin impregnou-lhe a imaginação e a alma de forma definitiva. Como antes ressaltei, Dublin pulsa em cada linha de toda a obra de Joyce, que mesmo à distância lhe esquadrinhava as ruas, monumentos, casas, a tagarelice bêbada dos dublinenses, as vozes e baladas ecoando nas ruas e bares. Cada uma das suas obras constitui um testemunho, um vinco profundo e inapagável de memória e reinvenção mítica da cidade natal. Joyce escolheu o exílio e tornou-se em definitivo um escritor cosmopolita apenas para se fazer ainda mais dublinense.
Saltando de Dublinenses para Ulysses, publicada em 1922, Joyce afasta-se radicalmente dos seus modelos realistas, Flaubert e Ibsen, depois de fundi-los com o simbolismo fin de siècle, para inventar uma forma de romance cujo fim último é abolir o gênero gestado e desenvolvido rente à ascensão da classe burguesa. Segundo a narrativa bíblica, Deus criou a torre de babel com o propósito de introduzir o desentendimento linguístico entre os povos. Cada povo funda sua língua, ou cada cultura sua fala, e desde então ninguém mais se entende. Nesse sentido, não seria exagero afirmar que Joyce, cujo egocentrismo genial competia com a invenção divina, fundou a literatura torre de babel. Ulysses é o monumento supremo desse feito.
Se é assim, se ele dinamitou todas as linhas de comunicação entre o leitor e a obra, como explicar que seja reconhecido como ícone supremo do modernismo? Se ele esgota um gênero narrativo, o romance, se leva ao limite último a literatura experimental, como conciliar esses fatos com a sua celebridade canônica? Como explicar que uma obra ilegível como Ulysses seja exaltada no Brasil, por exemplo, cujo público letrado constitui uma minoria insignificante comparada à população letrada compreendida em sentido amplo? Este é um enigma cuja explicação caberia antes ao sociólogo da literatura do que ao crítico ou historiador da literatura.
Afirmei acima que Ulysses é uma obra ilegível não apenas porque tenho a franqueza de declarar que tentei fazer sua leitura integral em inglês e em português, seguindo as pegadas da tradução de Antonio Houaiss, e fracassei. Tentei outras vezes amparado pela mão e iluminado pela razão de um exegeta como Stuart Gilbert, autor de um guia de leitura da obra escrito com a colaboração e aprovação integral do próprio Joyce. Outros críticos de inegável erudição e estilo transparente como Edmund Wilson, Otto Maria Carpeaux e Malcolm Bradbury, também me socorreram. Ainda assim, preciso confessar minha incapacidade de ler essa obra suprema do modernismo. Posso falar dela, dissertar sobre as linhas de correspondência entre ela e a Odisséia, iluminar muitos dos enigmas e sentidos que esses mediadores eruditos iluminam, mas preciso admitir que com minhas próprias pernas não consigo ir muito longe. Aliás, devolvendo a Joyce aqui de baixo da minha insignificância de leitor e crítico a arrogância impenetrável da sua obra-prima, há muito me libertei dessa prisão pedante que é lutar anos a fio para compreender ou fingir compreender uma obra inacessível. Ele, do alto do seu pedantismo genial e erudito, disse que o leitor precisaria gastar sua vida inteira para compreender o mundo desnorteante de sentidos e invenção formal que sustenta sua torre de babel. Quanto a mim, reconciliado com a minha medida falível de leitor, afasto de mim qualquer obra impermeável à minha compreensão.
À época em que suava para dar forma definitiva a Macunaíma, Mário de Andrade escreveu uma carta para Manuel Bandeira desabafando seu enfado diante de grandes poetas experimentais como Rimbaud e Mallarmé. Ele que foi o condutor de um modernismo cuja primeira dentição foi caracterizada pelos dentes cortantes e indomáveis do experimentalismo estético, tomou juízo ao sentir o pulso do país real em que vivia e assim reorientou o modernismo saltando dos trilhos da modernidade tecnológica corrente no mundo europeu da época para as trilhas ainda inexploradas de um país periférico. Essa mudança de rumo foi fundamental para imprimir funcionalidade estética e social ao nosso modernismo.
O parágrafo acima, aparentemente despropositado, decorreu de uma associação espontânea entre os supostos leitores de Joyce, dentro do Brasil e até mesmo no seu país de origem, e o beco sem saída para onde nos impelem os sentidos impenetráveis da obra de Joyce, assim como da vanguarda mais radical, que de resto esgotou seus ciclos sucessivos através do século passado. Joyce é sem dúvida um gênio, um dos gênios supremos da literatura, mas é um gênio impenetrável. Por que, no entanto, tantos leitores capengas celebram Ulysses, e mais recentemente o ilegível Finnegans Wake, enquanto ignoram nossa tradição literária média e portanto tão acessível? Como explicar o pedantismo subintelectual de tantos supostos leitores de Joyce sequer capazes de escrever o português culto corrente nos círculos efetivamente letrados do Brasil? Como acima sugeri, estas são questões pertinentes ao sociólogo da literatura, não ao crítico ou historiador.
Recife, 17 de julho de 2014
Nota: Este ensaio crítico foi originalmente publicado na Revista do Café Colombo, no.1.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Memórias de um leitor IV


Retomo minhas memórias de leitor costuradas sem ordem ou método. Elas seguem o princípio de composição implícito em quase toda a prosa que escrevo para o meu blog. Parto sempre de uma vaga intuição (uma frase, uma ideia decorrente da leitura de alguma obra, um fio de memória...) e daí o texto se vai desatando e ganhando forma à medida que escrevo. É claro que nem tudo é improviso e facilidade desatenta no meu anárquico processo de composição. A versão preliminar é sempre revista, às vezes repetidamente revista, e a revisão pressupõe sempre correções, inserções, adição de parágrafos inteiros, também a supressão de palavras ou frases. Mas o fato é que o processo geral não obedece a nenhum plano de composição, sequer um roteiro ordenando as partes gerais do texto.

Sinceramente, nada me parece invejável nessa facilidade de composição. Ela é antes de tudo sintoma da minha formação anárquica, fruto de uma vida sem direção ou propósito orientado, de regra decorrente de uma formação de família e escola adequadamente instituídas. Nesse sentido, minhas próprias memórias de leitor esclarecem as origens e a sedimentação de uma inteligência indisciplinada e arbitrária. Esclarecem ainda muitos dos fracassos da minha vida, notadamente meu fracasso acadêmico. Por isso me vexa ainda dizer que fui incapaz de escrever minha tese de doutorado. Sei de alguns maldizentes que me acusam de haver desperdiçado tempo e dinheiro público durante meus anos de estudo na Inglaterra. No entanto, foram os anos em que mais estudei na minha vida, os anos de mais intensa aprendizagem da minha vida. Eles concorreram de forma decisiva para desprovincianizar minha percepção do mundo, em particular do Brasil. Portanto, não foi por falta de estudo e trabalho intelectual constante que falhei na redação integral da minha tese. Foi por muitas outras razões, algumas até inconscientes. Evito considerar aqui as conscientes, pois abusaria em demasia da composição digressiva deste texto que já se trai por si próprio.

Voltando ao cerne do assunto, minhas memórias de leitor, volto a recuar às leituras mais remotas, já que a cronologia destas memórias é tão arbitrária e caprichosa quanto os demais elementos da composição. A paixão de ler alimentada pela estante do meu tio Edmundo logo se revelou insaciada. Afinal, a fonte que me nutria não passava de uma estante. Melhor dizendo, de meia estante, pois suas pernas ou suportes propriamente ditos correspondiam à metade da sua altura. Em suma, a estante teria 4 ou 5 prateleiras, cuja extensão não ia além de um metro. Não bastasse isso, meu tio, leitor autodidata perdido num fim de mundo iletrado, reuniu naquele móvel solitário um punhado de livros não apenas limitado na quantidade, mas também na qualidade e variedade dos assuntos. Daí proveio minha vontade de me tornar comprador de livros. Mas como adquiri-los em Igarapeba, ou mesmo em todo um vasto recorte geográfico da mata sul de Pernambuco? De Quipapá a Palmares, não havia livrarias ou bibliotecas.

Dando um salto no tempo, para melhor ilustrar a miséria da cultura letrada ainda dominante em grande parte do Nordeste, acompanhei o Quinteto Violado durante uma curta temporada de shows que fez indo de Recife a São Cristóvão, Sergipe, onde havia um festival anual de artes. Isso ocorreu na primeira metade dos anos 1980, quando já era professor de sociologia da Universidade Federal de Pernambuco. Nesse momento mantive ligeira relação com o Quinteto devido à minha amizade com Rita Melo, mulher de Marcelo Melo, líder do Quinteto. Rita foi minha aluna no curso de Ciências Sociais e através dela aproximei-me momentaneamente de Marcelo. Convidado por ambos, aventurei-me a acompanhá-los durante essa curta sequência de shows viajando no ônibus do Quinteto. Há muito cultivava o hábito de sempre viajar levando livros na bagagem. Nessa viagem, porém, tão excepcional, decidi apostar no prazer suficiente acaso propiciado pelos companheiros de viagem. Logo ao fim do primeiro dia me dei conta de que seria difícil integrar-me ao espírito dominante no grupo. Daí sobreveio a necessidade de comprar pelo menos um livro para ocupar as muitas horas vazias da viagem. Atravessamos Alagoas e Sergipe, paramos em Arapiraca, onde o Quinteto tinha um show programado, e nada de encontrar sequer uma pequena livraria. Somente ao chegar a Aracaju pude afinal comprar um livro.

Se nos anos 1980 a realidade do acesso à cultura letrada no Nordeste era a que grosseiramente esbocei no parágrafo precedente, o que dizer de Igarapeba e regiões próximas em meados dos anos 1960? Acabei descobrindo num periódico da época que a Editora Vozes vendia livros por reembolso postal. Já não lembro de que modo recebi ou tive acesso ao catálogo da editora, então ainda muito restrito e especializado em publicações religiosas, dado o fato óbvio de que era e é uma editora criada por membros do clero católico. No início dos anos 1970 a editora renovou-se de forma notável, incorporando e ativamente promovendo até a cultura de vanguarda da época: o concretismo, a poesia processo, o estruturalismo etc. Dilatando o alcance secular dos seus critérios editoriais, a Vozes se renovou de forma extraordinária acentuando no registro empresarial seu processo de renovação mais ampla observável sobretudo no domínio da política traduzida em termos práticos nas formas de oposição possíveis à ditadura militar.
Decidi então comprar vários livros via reembolso postal. Como então estava de férias em Igarapeba, usei o endereço de lá. Infelizmente, Igarapeba não tinha e nunca teve uma agência dos correios. Por isso precisei ir a cavalo até São Benedito do Sul, a cidade mais próxima, que foi aliás onde nasci. Esse breve relato sugere o atraso cultural em que essa região do Nordeste, assim como tantas outras, vivia e ainda vive. Também o acesso a jornais e periódicos era muito precário. Chegavam a Igarapeba através do trem que fazia o percurso Recife-Maceió. Portanto, seria mais apropriado dizer que passava, não que chegava. Havia no trem um jornaleiro, que na verdade era identificado como o gazeteiro. Esperava-o ansioso na plataforma da estação nos dias em que trazia as revistas e gibis que lhe encomendava. Em face dessa aridez, desloco agora o foco das minhas memórias de leitor para o Recife, onde já morava e estudava desde os 10 anos de idade.

Abro parênteses para mencionar um romance de Jorge de Lima, Calunga, cuja trama narrativa tem como fio a viagem feita pelo protagonista nesse trem que ligava o Recife a Maceió. Li o romance só por essa razão. O personagem toma o trem na estação central do Recife e a narrativa se desdobra descrevendo a viagem passo a passo: a sucessão das estações, as paradas, cenas típicas daquele mundo que tanto conheci viajando durante muitos anos de minha vida como o personagem de Jorge de Lima. Reconheci assim meu olhar de passageiro em muitas das páginas do romance onde o autor fixava tipos humanos observados em trânsito, a paisagem humana à espera do trem na plataforma das estações, as moças de vilas e cidades enfeitadas à espera de parentes ou amigos ou apenas vaidosamente expostas à curiosidade dos passageiros.
Além disso, num mundo de tantas vilas e cidadezinhas sufocadas pela rotina e a pobreza de toda sorte de meios de vida e lazer, a passagem do trem era não raro o acontecimento social mais importante. Por isso era frequente alguém convidar amigos para “esperar o trem”. De modo inconfessado, ou inconsciente, esta expressão traduzia o desejo do fato novo, ainda que irrelevante, a aragem do imprevisto num mundo onde tudo era previsível. Esperar o trem, na imaginação de tantas vidas áridas, era figurar no improvável a esperança de uma outra ordem de vida, era fabular o real factível sem contudo ser ficcionista, tão ausente era a ficção literariamente compreendida num mundo ancorado na tradição oral. Com o trem vinham viajantes frequentes ou ocasionais, as notícias da capital estampadas nos jornais vendidos pelo gazeteiro, as revistas e outras atrações procedentes de um mundo inacessível à modorra de um cotidiano regido por ritmos sociais tediosamente martelados. Aludo, em suma, ao tema da “vida besta” explorado por Drummond na sua poesia inicial e tão agudamente captado por Mário de Andrade. É bem significativa essa transição do nosso primeiro modernismo da atmosfera urbana, signo da modernidade técnica celebrada por algumas correntes da vanguarda estética, para o Brasil tradicional, o Brasil dos vastos interiores, dos traços diferenciadores da nossa “vida besta” atada ainda a ecos bem vivos da nossa herança colonial, do Brasil agrário imune ao avanço da modernidade forjada nos grandes centros urbanos.

Retomando o fio solto da minha narrativa de memórias, adentro agora nas memórias da escola onde comecei estudando no Recife. Além de a escola não ter biblioteca, como é ainda a realidade da maioria das nossas escolas, os professores eram bem pouco cultivados para sequer pensar em inculcar nos alunos algum interesse pela literatura, as artes, as disciplinas humanistas. Logo, contava apenas com minha curiosidade espontânea, minha carência de fantasia e vida imaginativa. Acho que parte considerável dessa carência manifestou-se de imediato como necessidade de existência vicária, linha de fuga de uma realidade cotidiana demasiado estreita e opressiva. Linha de fuga sobretudo do ambiente familiar que me infelicitava dolorosamente. Assim, procurei na ficção a vida imaginária e a dilatação de horizontes que compensassem a pobreza da minha vida de família, escola, vizinhança, minha carência de amor e compreensão... No ambiente em que vivia, o acesso à literatura era tão precário e acidental que atribuo a isso minha completa ignorância da literatura infantil de Monteiro Lobato, assim como muitas outras obras que enriqueceram a experiência imaginativa de tantas crianças e adolescentes. Penso, por exemplo, na literatura dos contos de fadas, nas obras de Andersen e dos irmãos Grimm, também nas narrativas fabulosas das Mil e Uma Noites. Infelizmente, meu percurso de leitor passou ao largo de todas essas obras. Ocorreu-me pensar nisso, e lastimar essas lacunas, quando pela primeira vez li um dos melhores contos de Clarice Lispector: Felicidade Clandestina.

Comecei explorando de forma insaciável a literatura barata, os livros de bolso editados pela Bruguera, Monterrey e similares especializadas em coleções de literatura policial e far-west. Mergulhei de forma tão obsessiva nesse tipo de leitura que chegava a ler três livros de bolso em um único dia. Além disso, comprava-os aos montes como tralha de segunda mão nas barracas situadas no oitão do Mercado de São José. Chegava a ler e colecionar cerca de 300 volumes. Revendia-os no mesmo lugar onde os comprava, depois de os ler, somente para ter o prazer de começar do zero uma nova coleção cujo destino refazia o ciclo da compra e venda, leitura e desapego pelos objetos do meu culto. Curioso constatar aqui como agora as duas pontas da minha vida de leitor se atam entretecendo fios desencontrados, senão avessos. No passado remoto, ensaiando meus primeiros passos de leitor, desfazia-me dos livros que lia talvez movido pela obscura consciência de que lia em trânsito, afiava a lâmina do hábito de ler desperdiçando meu tempo com livros descartáveis que por isso são livremente intercambiáveis. No fundo, apesar da sede de aventura e vida vicária que me satisfaziam, cada livro era qualquer um, era matéria impressa similar à edição diária do jornal que lemos para saber das notícias que logo se dissolvem, cedem lugar às que vêm na fila interminável da repetição da vida e por fim acabam servindo apenas para embalar peixe no mercado ou simplesmente ser atiradas à lata do lixo. Hoje, saltando para a outra ponta da vida, o que me seduz é o sonho ou mito da biblioteca essencial, a biblioteca restrita aos poucos livros que definitivamente impregnaram minha experiência de leitor.

Passei logo em seguida aos livros da grande tradição literária européia adaptados para o público juvenil. Descobri essas obras frequentando a seção de livros da Viana Leal, situada na Rua da Palma. Era então uma grande e atraente loja, a primeira, salvo engano, dotada de escadas rolantes. Essas escadas me seduziam e assim era um prazer renovado subir e descer transportado por elas. Na seção de livros para a juventude, meu paraíso inconfessado, comprei muitos volumes editados pela Melhoramentos. Eram obras da grande tradição literária europeia adaptadas, como acima salientei, para o público juvenil. Dentre as que ainda lembro, com atraentes ilustrações sobre capa-dura, comprei e li O Conde de Monte Cristo, O Máscara de Ferro, Os Três Mosqueteiros, todos de Alexandre Dumas; A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas Filho, A Ilha do Tesouro, de Stevenson, Ivanhoé, de Walter Scott, David Copperfield, Oliver Twist e As Grandes Esperanças, de Charles Dickens; Robinson Crusoé, de Daniel Defoe, Dom Quixote, de Cervantes, As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, Quo Vadis, de Henryk Sienkiewicz, e muitas outras obras.

O passo seguinte na minha trajetória errática de leitor está associado à Biblioteca Pública de Afogados. Como era pobre para comprar livros, pois a essa altura o declínio social e econômico da família tinha já descido ao rés do chão, o acervo da biblioteca pareceu-me um mundo inexplorável. Na verdade, era modesto e quase todo composto por volumes já gastos e remendados com fita durex. Foi lá que de fato comecei a descobrir a literatura brasileira, além de acrescentar a minhas leituras da literatura européia autores como Stendhal, Balzac, Flaubert, Thomas Hardy, D. H. Lawrence, Somerset Maugham, Graham Greene e Charles Morgan. Este, sabemos, foi um dos maiores fiascos da crítica brasileira, que inseriu sua obra no círculo dos autores canônicos simplesmente por indução equivocada da crítica francesa. O fato mereceria uma reflexão sobre os mecanismos de recepção da obra literária, com ênfase sobre os nexos entre centro e periferia literária, além do poder dos argumentos de autoridade, mecanismos de resto muito vivos na cultura acadêmica de hoje e do passado.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Memórias de um leitor II


Um dia um adolescente gay apaixonou-se por mim. Chamava-se também Fernando. Como reza o chavão discriminador, era uma bicha louca. Aliás, sempre me perguntei por que o homossexual brasileiro é de ordinário representado nas artes (cinema, teatro, música...) e sobretudo nas comédias e programas de humor, para não falar no anedotário popular e desabrido, dessa forma caricatural e ofensiva. Mais perturbador ainda é constatar que muitos gays se comportam de modo a enquadrar-se nessas formas de representação. Identificam-se, noutros termos, com a projeção do agressor, daquele que os discrimina e rejeita. Como Sartre observou, o judeu portador de todas as deformações raciais e morais que justificam sua supressão não existe; é uma invenção do antissemita. O mais grave é que muitos judeus acabam vestindo a natureza repulsiva inventada pelo antissemita e assim fazendo negam em si próprios sua natureza essencial, que é a de todo ser humano.

O mesmo processo de redução ideológica se repete no estereótipo do homossexual, assim como no estereótipo de todos os condenados e suprimidos da esfera da “normalidade” humana. Conheci alguns desses estereótipos no mundo da minha infância: o camponês rebaixado à condição de bicho semi-escravo, a bicha louca ou lacrada dentro de armários invisíveis, a adolescente desfrutável, a mulher desonrada, a Bovary dos canaviais (como foi minha mãe), o garanhão, o corno manso, o matuto, sempre negativamente contraposto ao citadino, o coronel do latifúndio, o usineiro. A literatura, através das misteriosas veredas da imaginação mais verdadeira do que a realidade empírica mistificadora, a literatura lavou meus olhos e meu coração ao desvelar a humanidade dos seres humanos comprimidos nessa rede de estereótipos que prevalece ainda no mundo. Infelizmente, continuamos a representar o outro baseados antes na realidade da empiria mistificadora do que nas camadas humanas invisíveis que nos traduzem como modos múltiplos e complexos de ser humano. Para ser ainda mais realista, outros diriam pessimista, piso num terreno movediço demais para me pronunciar em nome de qualquer princípio de progresso iluminista. Se é fato que ultrapassamos muitos desses preconceitos e estereótipos, em compensação cunhamos outros que atendem à nossa necessidade de liberação da nossa crueldade e agressividade constitutiva. Freud tem razão. Somente os órfãos incuráveis da utopia continuam acreditando que um dia inventaremos uma humanidade reconciliada.

Quando vivi na Inglaterra, detive-me muitas vezes na consideração do problema do homossexualismo enraizado nas memórias da minha infância. Desatando a imaginação comparativa, espantou-me de início aferir a profunda diferença de representação do gay na cultura inglesa e na brasileira. O que me pareceu mais espantoso foi considerar que cultuamos ainda hoje uma ideologia de liberação sexual do brasileiro contraposta à rigidez puritana dos ingleses. No entanto, ainda que discriminada legalmente na Inglaterra até meados do século passado, a homossexualidade lá, tal como a conheci, goza de um estatuto legal e de uma tolerância e reconhecimento maiores do que o observável na nossa cultura “sem culpa”, expressão, desde os tempos coloniais, de que “não existe pecado do lado de baixo do Equador”. Quem quiser que acredite, assim como há quem acredite que somos uma democracia racial. Ou ainda que somos um país cuja história é incruenta, pois as desigualdades e antagonismos se misturam de forma criativamente integradora. O problema nosso, nisso como em muitas outras coisas, é que as relações cordiais, no sentido usado por Sérgio Buarque de Holanda, que só para os ignorantes é uma ideologia justificadora da nossa “história incruenta”, com freqüência se sobrepõem às relações legais. Não me detenho para esclarecer esse mal-entendido relativo ao conceito de cordialidade na obra de Sérgio Buarque porque já dediquei um artigo inteiro à consideração deste problema quando no meu blog escrevi sobre Raízes do Brasil.

Voltando a Fernando, ele me amava enquanto eu o repudiava. Ele me assediava com sua delicadeza, sua carência de amor de homem, enquanto eu o humilhava e me sentia agredido pelo que me propunha ou de mim desejava. Um dia morreu num acidente de trem quando vinha para o Recife. Senti sua morte, mas não a real dimensão da culpa que veio muito mais tarde, quando minha consciência, já mais esclarecida pela alteridade escrita na literatura, revelou-me camadas humanas que eu ignorava. Para ser exato, essa mudança ocorreu quando li, na Biblioteca Pública de Afogados, no Recife, De Profundis, de Oscar Wilde. Para quem não sabe, é uma obra escrita na forma de uma longa carta para Lord Douglas, o grande amor de Wilde. Fiquei chocado ao descobrir, lendo esse opúsculo, que “o amor que não ousa dizer seu nome”, eufemismo célebre procedente do próprio Wilde, é um amor tão humano quanto as formas de amor legitimadas por nossa cultura. Foi aí que sobreveio a culpa, pois minha memória regrediu no tempo revelando-me o quanto fora preconceituoso e cruel ao rejeitar Fernando, o quanto fora cego e intolerante ao humilhar ou simplesmente rejeitar tantos homossexuais que conheci no internato onde estudei em Palmares.

Voltei a reler De Profundis quando vivi na Inglaterra. Desta feita, a versão original da obra. Aliás, de acordo com os editores do volume The Portable Oscar Wilde, a primeira edição integral e fiel ao texto original escrito por Wilde. Surpreendeu-me a decepção decorrente desta releitura, em certo sentido apenas uma leitura ou nova leitura. Julgo agora compreender melhor minha decepção, que pouco tem a ver com o texto em si. Este é até melhor, já que restaurado à forma do autor. Decepcionei-me simplesmente porque a importância maior da obra, para minha posição de leitor singular, derivava das circunstâncias biográficas e mentais demarcadoras da minha primeira leitura. É por essas e outras que toda obra é também uma criação do leitor. O leitor não lê apenas para saber que não está sozinho, frase luminosa que muitas vezes tomei de empréstimo a William Nicholson; o leitor lê para mudar sua vida ou acrescentar a obra à consciência da sua vida. É por ler desse modo que ele reinventa a obra e nesse sentido retraduz o autor.

Suponho que o leitor de hoje leia Oscar Wilde isento da imagem de autor maldito e assim confira à obra que escreveu a prioridade que deve ocupar em relação à biografia. Durante muito tempo, porém, o leitor comum foi atraído para aquela através desta. O que mais fascinava o leitor era a vida dissoluta do autor, sua perversão, sua coragem de viver “o amor que não ousa dizer seu nome”, o processo legal para o qual foi arrastado e cujo desenlace se resume na sua desgraça pública, a condenação à prisão sob o regime de trabalhos forçados e a ruína que foram seus últimos anos de vida. Hoje, suponho ainda, a obra se impõe por si própria e o estilo epigramático de Wilde, saturado de paradoxos e jogos de palavras agudamente deliciosos, o intraduzível witticism inglês, expressão do melhor decadentismo estético da época, sobrevive por força de suas virtudes literárias. Tornou-se afinal possível retratar a vida do escritor dentro das linhas de “normalidade” que o restituem à humanidade espontaneamente reconhecida num escritor heterossexual. Detendo-me apenas no exemplo do cinema, expressão da melhor cultura narrativa do século 20, bastaria comparar Os crimes de Oscar Wilde (The trials of Oscar Wilde), filmado em 1960, e Wilde, de 1997, baseado na biografia escrita por Richard Ellman e dirigido por Brian Gilbert. Para bom entendedor, sem trocadilho, os títulos das duas obras são por si sós bastante reveladores.

Apenas 37 anos separam os dois filmes. No entanto, quanta diferença entre ambos, a partir do próprio título das obras, como assinalei. Por nos conhecer bem acima do pouco que sabemos e queremos saber, Freud não se iludia acerca do progresso humano. Por isso, ao saber dos seus livros ardendo nas chamas das fogueiras da inquisição nazista, evidência ainda amena da catástrofe que se anunciava, limitou-se a dizer: “What progress we are making. In the Middle Ages they would have burnt me; nowadays they are content with burning my books”.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Shakespeare por S. Greenblatt


Uma outra biografia de Shakespeare
Como convém ao espírito do tempo, a supremacia de Shakespeare também se manifesta no mercado. Em Stratford-upon-Avon, sua cidade natal, o nome Shakespeare serve para vender tudo: canetas, camisetas, citações da sua obra impressas em toalhas, diários, agendas, lojas e livros. Uma poderosa rede de instituições culturais acentua essa glória para além do consumo estrito de mercadorias. Além de uma companhia teatral exclusivamente consagrada à montagem da sua obra, a Stratford Shakespeare Company (também a Royal Shakespeare Company, sediada em Londres), existem o Stratford Shakespeare Institute e o Stratford Shakespeare Centre. Importaria salientar que, diferentemente de instituições similares no Brasil, estas concorrem, através de incessantes pesquisas e estudos, para ampliar o conhecimento e a difusão da obra e vida de Shakespeare. As brasileiras, que não têm nenhuma relação com Shakespeare, friso, servem no geral como fonte de prestígio social, parasitismo cultural e ação entre amigos.
Apesar dos ataques procedentes do radicalismo acadêmico, Shakespeare reina solitário no centro do cânone da literatura universal. O mercado editorial, assim como o conjunto da produção acadêmica, ratificam esse juízo. Também o teatro, seu domínio primário e supremo, e o cinema. Mesmo no Brasil, onde é tão pouco estudado e encenado, são lançadas novas biografias que se somam às muitas escritas ao longo de séculos. Recentemente resenhei neste blog As guerras de Shakespeare, de Ron Rosenbaum. A esta poderia acrescentar, sem intenção de proceder a um levantamento que o leitor pode facilmente fazer acessando os sites especializados, Frank Kermode, A linguagem de Shakespeare, Celeste Davidson, Quem foi William Shakespeare?, Claude Mourthe, Shakespeare. Por fim, encurtando a lista e chegando ao que mais importa para esta resenha, Stephen Greenblattt, Como Shakespeare se tornou Shakespeare.
Stephen Greenblat é o grande representante do Novo Historicismo, corrente teórica baseada na subordinação da obra e do autor às condições históricas. Objetiva assim interpretar ambos, a obra e o autor, no contexto cultural dentro da qual se situam. Greenblatt tornou-se a grande referência desta teoria ao propor sua formulação inicial em The forms of power and the power of forms in the renaissance (1980). Essa teoria nega autonomia aos agentes sociais, portanto também ao autor, que acaba reduzido a expressão do sistema ideológico vigente. Isso explica a hostilidade observável entre Greenblatt e Harold Bloom, outro celebrado crítico de Shakespeare. Suas perspectivas críticas são tão antagônicas que acabam transpostas para o plano da hostilidade pessoal. Isso me parece explicar o fato de que um não cita o outro, a não ser indiretamente como objeto de ataque.
Mas importa já de início ressaltar que Greenblatt, diferentemente de tantos teóricos ininteligíveis, escreve uma biografia legível, de leitura muito fluente cujo estilo expositivo prende de imediato o leitor. Como os muitos biógrafos que já se debruçaram sobre Shakespeare e seu tempo, ele reconstitui a vida do grande dramaturgo retomando as fontes documentais no geral já bem estudadas combinando-as com largos voos especulativos.
A vida e a obra de Shakespeare têm muito de obscuro, já que no seu tempo não se documentavam as vidas, mesmo de pessoas famosas, como hoje é comum. Aliás, diga-se que a Inglaterra do tempo era relativamente avançada nesse sentido. Foi isso o que tornou possível a sobrevivência de certo volume documental relativo a Shakespeare e sua obra. Mas o mito de tal forma se sobrepôs ao homem real através da história que seria um exercício detetivesco, algo à maneira de Sherlock Holmes, retraçar as muitas fraudes e supostas descobertas do autor real escondido sob a obra. Basta que se lembre que a obra de Shakespeare já foi atribuída a Francis Bacon, e a Edward de Vere, Conde de Oxford. Os autores dessas façanhas, aliás admiravelmente estudados numa das mais importantes obras dedicadas a Shakespeare e sua vida (The genius of Shakespeare, de Jonathan Bate) são conjuntamente identificados como os anti-Stratfordianos, isto é, os que negam a Shakespeare, nativo de Stratford-upon-Avon, a autoria da obra que o colocou no centro do cânone literário.
Imaginem que até Freud foi enredado num desses contos de vigário ou recriação mítica do autor depois de tomar conhecimento da obra de Thomas Looney, que sintomaticamente significa doido. Este senhor, um obscuro professor inglês, trabalhou obsessivamente durante muitos anos para afinal publicar uma obra na qual intenta provar que o verdadeiro autor das obras de Shakespeare seria o conde de Oxford. Freud engoliu essa invenção com tanta intransigência que morreu acreditando nela. Hoje ninguém mais leva a sério as interpretações delirantes de Looney e outros “reinventores” de Shakespeare. A propósito, Harold Bloom expõe uma interpretação engenhosa para a credulidade de Freud em O Cânone Ocidental. O leitor curioso pode cotejá-la com o ensaio de Peter Gay, “Freud e o homem de Stratford”, incluído em Lendo Freud.
Borges sintetiza a complexidade da obra de Shakespeare, já revestida dessas recriações míticas, ao afirmar que ele é todo mundo e ninguém. Devido a estas e muitas outras razões, Shakespeare continua a inspirar paixões, a dar emprego, pesquisa e fortuna a muitos acadêmicos. Um dos mais ilustres e devotados, o já citado Harold Bloom, sustenta a tese de que ele inventou nossa humanidade. Depois de Jesus Cristo, insiste Bloom, não há personagem mais seminal do que Hamlet. Ser ficcional, produto da imaginação transfundida em palavra, Hamlet traduz a complexidade da condição humana de forma absolutamente original, ou a inventa e dissemina no alvorecer da cultura moderna. É por essas e outras que críticos como Ron Rosenbaum atacam Bloom afirmando que ele pretende deificar Shakespeare. De fato, Bloom levou a bardolatria, o culto a Shakespeare, a um extremo tal que, como escreve textualmente, converteu a obra de Shakespeare em escritura secular, ou correspondente secular da Bíblia.
O que é bem curioso nessa indústria que continua produzindo biografias de Shakespeare é a opacidade dessa figura que os biógrafos perseguem. Repisando uma obviedade que alguns leitores ignoram ou desconsideram, Shakespeare viveu numa época isenta do culto da celebridade que hoje converte qualquer jogador de futebol ou arranhador de guitarra em Deus da mídia. Melhor dizendo, o status do ator e do autor de teatro no seu tempo era equivalente ao de vagabundos, de seres socialmente subordinados e portanto dependentes de patrocínio da nobreza ou do clero, expostos aos caprichos e variações da lei que a qualquer momento, por força de doenças contagiosas ou de pressões puritanas, poderiam ter as portas do teatro fechadas.
Stephen Greenblatt e muitos outros biógrafos demonstram o quanto Shakespeare também se singularizou ao converter sua condição socialmente subordinada em uma extraordinária experiência de ascensão social. Sabendo astutamente tirar proveito dos meios de patrocínio disponíveis à época, além das relações de competição impostas à atividade teatral, sua vida, até onde está irrefutavelmente documentada, foi um triunfo social. À diferença de outros grandes dramaturgos contemporâneos, bastaria pensarmos na trajetória atribulada e no desfecho chocante de vidas como as de Christopher Marlowe e Robert Greene, ele acumulou bens e prestígio sociais excepcionais para homens de sua condição. Marlowe morreu assassinado numa briga de taverna; Greene, em completa miséria, morreu acolhido na casa de um sapateiro desconhecido. Às portas da morte, Greene escreveu uma carta que sobrevive como documento valioso para que melhor se aprecie a condição precária do autor teatral à época.
Pondo sua teoria em prática, Greenblatt empenha-se em reconstituir as condições sociais do tempo para explicar Shakespeare, inclusive as muitas zonas obscuras de sua vida. Fiel a esse propósito, levanta documentação e hipóteses interpretativas relativas à escolaridade de Shakespeare, ao clima religioso dentro do qual se formou, dilacerado pelas lutas religiosas entre o catolicismo e a religião imposta por Henrique VIII e posteriormente por Elizabeth I. Shakespeare viveu em meio à ferocidade da guerra religiosa: conspirações, lutas pela sucessão no poder político, torturas e supressão impiedosa da tradição católica que durante séculos esteve no centro da tradição inglesa. Greenblatt também ressalta a influência que as festas populares e religiosas exerceram sobre a formação de Shakespeare e sua obra. Essa tradição popular de procedência medieval, tão viva na obra de Shakespeare que resiste aos princípios oriundos do teatro grego clássico, sobreviveu durante décadas aos controles rigorosos impostos pela Reforma.
Um dos problemas que salientaria na biografia escrita por Stephen Greenblat prende-se à recorrência das especulações com que visa preencher os claros da vida de Shakespeare. Enquanto outros biógrafos, é o caso de Jonathan Bate, conferem franca prioridade à obra, Greenblatt subordina a vida à obra, na medida em que intenta explicar aquela de acordo com elementos selecionados desta. Fiel ao espírito da sua teoria, subordina ambas, vida e obra, às condições sociais do tempo. Acrescentaria que essas condições sociais do tempo, recompostas dentro do espírito da teoria que adota, são frequentemente hipotéticas. Ademais, quando documentalmente comprovadas, é no mínimo duvidoso que sejam suficientes para explicar indivíduos excepcionais como Shakespeare.
Concluo com uma citação relativamente extensa visando ilustrar o que anotei no parágrafo precedente. O leitor decerto observará que ele especula, especula e por fim sensatamente repõe Shakespeare de volta a seu lugar supremo, o teatro, único que o explica na medida em que podemos explicá-lo:
“Ele recorreu, sem dúvida, a conceitos e termos legais, mas também era notavelmente receptivo a conceitos teológicos, médicos e militares. Teria ele se envolvido também, diretamente, com algumas dessas profissões? Como jovem sem muitas perspectivas, poderia ter se alistado no exército, para lutar uma guerra suja nos Países Baixos – ou isso é o que alguns foram levados a pensar, impressionados com o domínio de Shakespeare sobre o jargão militar. A partir do evidente fascínio que sentia por viagens marítimas, ele bem poderia ter arrumado um lugar num navio para a América – “Buscar novos mundos”, como disse Sir Walter Ralegh, “pelo ouro, pelo prazer, pela glória”. Mas a probabilidade estatística de retornar de aventuras desse porte era mínima. E nenhuma dessas possíveis profissões explicaria a trajetória que o teria levado de Stratford a Londres. Com efeito, todas elas parecem apenas distanciá-lo do lugar que mais importa em sua vida: o teatro” (p. 72).
Depois de tanta viagem especulativa, Greenblatt devolve Shakespeare ao teatro. Qual afinal o sentido de tanta especulação através de profissões hipotéticas e viagens fantasiosas? Shakespeare acaso precisaria exercer a profissão de militar ou viajar pelos mares para justificar seu domínio do jargão próprio a essas profissões e formas de experiência social? Confesso, já concluindo, preferir o livro de Jonathan Bate acima citado e infelizmente inédito no Brasil. Tecido com erudição impressionante e exemplar clareza crítica e expositiva, ele encontra na própria obra o que Greenblatt e outros estudiosos buscam sem sucesso fora do autor e da obra.
Em tempo: o título da obra em inglês é Will in the world acrescido do subtítulo How Shakespeare became Shakespeare. Este é evidentemente o que a tradução brasileira adotou como título. Penso, no entanto, que o título mais apropriado seria o que prevalece na edição original, isto é, Will compreendido como diminutivo de William (Shakespeare), com as conotações afetivas implicadas no uso do diminutivo. Diria ainda Will como sinônimo de vontade, volição. Quanto ao subtítulo que confere título à tradução brasileira, assinalaria apenas que é inapropriado ou infundado. O livro de Jonathan Bate explica muito mais do que o de Stephen Greenblatt como Shakespeare se tornou Shakespeare.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Shakespeare para leigos



Ron Rosenbaum é uma das grandes expressões do jornalismo cultural. Importaria de pronto ressaltar que me refiro a algo bem distinto do que no Brasil entendemos por jornalismo cultural. Aludo ao jornalismo cultural compreendido na linha da tradição anglo-saxônica, que produziu autores do porte de Mencken, Edmund Wilson, Lionel Trilling, George Orwell, Frank Kermode, Melvyn Bragg, Michael Ignatieff... O que os distingue dos nossos, assim como os biógrafos de lá nitidamente se distinguem dos daqui, é a excelência da formação intelectual, não raro solidamente enraizada numa tradição acadêmica que nunca tivemos nem teremos. Isso explica grosseiramente a excelência do jornalismo cultural praticado em terras anglo-saxônicas. As guerras de Shakespeare, objeto desta resenha, constitui uma expressão singular dessa tradição.

O objetivo substancial de Rosenbaum é traduzir Shakespeare para o entendimento do leigo, de gente como eu e provavelmente como o leitor que me acompanha. Como sabemos, Shakespeare ocupa lugar supremo no cânone da literatura universal. Um dos seus estudiosos mais devotos, Harold Bloom, escreveu em 1998 um livro de mais de 700 páginas no qual escrutina e interpreta o conjunto da sua obra visando provar que ele é simplesmente o inventor do humano (Shakespeare, the invention of the human, título do livro). A tese de Bloom é extremamente ousada, pois consiste na convicção, argumentada ao longo do livro, de que Shakespeare recriou a língua inglesa e, feito ainda mais extraordinário, fundou a noção de natureza humana tal como hoje a compreendemos. Rosenbaum contesta de passagem esta tese qualificando-a simplesmente como tola (ver p. 44). De fato, endossar a tese de Bloom significaria menosprezar todas as extraordinárias invenções literárias e filosóficas anteriores a Shakespeare. Se isso fosse verdade, que lugar Homero, Sófocles, Platão, Virgílio, Dante e tantos outros passariam a ocupar na tradição cultural?

Rosenbaum introduz na obra algumas digressões autobiográficas que nada encerram de complacência narcisista, como é rotineiro na atmosfera cultural em que vivemos. Ele o faz com o propósito de explicar sua desilusão com a carreira e o ambiente acadêmico onde se forjam os altos, complexos, eruditos e não raro bizantinos estudos e interpretações da obra e da vida de Shakespeare. Sua desilusão foi tão grande que, sem meias medidas, assim se expressa:
“Pude experimentar o barato da adrenalina jornalística quando recebi credenciais de imprensa para cobrir a Convenção Democrática de Chicago de 1968 para um diário local. E sair daquele tumulto capaz de mudar a história e voltar ao cinismo barato da cultura acadêmica foi intensamente desanimador. O que havia de errado com aquela gente?, perguntei primeiro. E depois: o que havia de errado comigo? Por que ficava ali?” (p.21).

A citação que acabo de fazer é relevante por me parecer que condensa a orientação intelectual seguida por Rosenbaum e os dois livros mais importantes que escreveu e foram traduzidos no Brasil: Explaining Hitler (título brasileiro: Para entender Hitler) e este que aqui comento. Apesar da sólida formação acadêmica que assimilou, de sua precoce iniciação nos estudos literários e particularmente shakesperianos, Rosenbaum consagrou-se à elaboração de obras que acima qualifiquei como jornalismo cultural e é colaborador de periódicos renomados como New York Times Magazine, The New York Observer e The New Yorker.

O objetivo que o motivou a trabalhar durante sete anos na composição deste livro sobre Shakespeare é o mesmo que antes demoradamente o ocupou na ambiciosa empresa de explicar Hitler. As questões fundamentais que pulsam nas raízes destes dois livros – o que é exatamente shakesperiano, como explicar a singularidade shakesperiana da obra desse gênio supremo e, por outro lado, o que é o mal radical, como explicar o mal em Hitler, o que ele simboliza como expressão da maldade humana? – resultam irrespondidas e são certamente irrespondíveis. Quero dizer, faltam-nos poderes intelectuais e filosóficos, éticos, como queiramos chamá-los, para respostas satisfatórias ou definitivas. Nesse sentido, por razões radicalmente distintas, Shakespeare e Hitler são enigmas que nenhum oráculo tem o poder de decifrar. Este é um dos méritos de ambos os livros: guiar-nos até onde possível através dessas sendas e enigmas insondáveis. O leitor carente de verdades últimas, ou meramente dogmático, pode depreciar obras dessa natureza, ou simplesmente desprezá-las por não lhe fornecerem as certezas cômodas que busca. O leitor que tenho em mente, penso que também Rosenbaum, é um outro, é o leitor que busca, investiga e luta tenazmente com e contra a opacidade dos sentidos humanos para saber até onde é possível saber. Não tenho dúvida de que esse tipo de leitor muito se beneficiará da leitura de ambos os livros de Rosenbaum.

O que ele, Rosenbaum, ambiciona, assim entendo, é traduzir no melhor sentido da obra de jornalismo cultural as questões – ou as guerras, como ele as intitula – que cercam o estudo e o sentido da obra e da vida de Shakespeare. Essas questões ocupam há séculos estudiosos eruditos, especialistas acadêmicos que em alguns casos se debruçam uma vida inteira sobre os textos de Shakespeare visando esclarecer as versões e variações que as circunstâncias históricas impuseram à obra na sua passagem através dos séculos. Para adentrar essa selva, o leitor precisa conhecer conceitos e fatos elementares que o livro generosamente lhe fornece: em que circunstâncias a obra de Shakespeare foi escrita, como os textos eram impressos na sua época, o que é edição em Quarto, Fólio e coisas afins. Outras questões por ele minuciosamente abordadas: qual o verdadeiro Hamlet? Qual é a verdadeira última fala do rei Lear no fecho da tragédia, quando retém nos braços moribundos o corpo de Cordélia, sua filha adorada? A essas e muitas outras questões relativas à obra, ao texto e seu significado acrescentam-se as questões de fundo biográfico que prendem e apaixonam os estudiosos. Como sabemos, até Freud entrou nessa dança ao atribuir a Shakespeare uma identidade e posição social comprovadamente ficcionais.

Já de partida, Rosenbaum adota a posição que me parece correta diante da relação entre o autor e a obra, a biografia e o texto. A prioridade que ressalta é a obra. A biografia importa apenas na medida em que concorre para esclarecê-la. Ademais, a vida de Shakespeare foi muito nebulosa. Embora exista já uma infinidade de biografias suas (bastaria dizer que eu, um leigo apaixonado, possuo cinco), muito da sua vida é simplesmente ignorado, ou objeto de especulações, umas engenhosas, outras apenas delirantes. A qualidade da adaptação cinematográfica de um curto período da sua vida contido no filme Shakespeare in Love, escrito por Tom Stoppard e Marc Norman, e o sucesso extraordinário alcançado por este filme, premiado aliás com sete Oscars relativos a algumas das categorias mais prestigiosas do prêmio, concorreu para ampliar o interesse constante pela vida e a obra de Shakespeare. Na verdade, segundo palavras do próprio Rosenbaum, o sucesso alcançado por este filme deflagrou uma autêntica moda shakesperiana.

Como convém ao espírito do tempo, importa salientar que a obra de Shakespeare, em termos de vendagem e influência, é segunda apenas para a Bíblia. Além do fato de haver produzido uma obra que no conjunto é de uma genialidade singular e objetivamente incomparável, Shakespeare é beneficiado pela circunstância de ser antes de tudo um autor dramático, um autor da literatura que é escrita com o fim último e fundamental de ser representada. Portanto, a disseminação universal da tecnologia audiovisual contribuiu de forma decisiva para difundir sua obra numa escala inconcebível para qualquer outro gênio da literatura narrativa, aquela produzida antes de tudo para ser lida.

Como conceber, por exemplo, a obra de gênios como Cervantes, Dostoiévski, Charles Dickens, Marcel Proust, Tolstói, Henry James, Machado de Assis, Joseph Conrad e tantos outros para o cinema hoje transportado, graças ao DVD, para dentro de nossas casas? É claro que todos os autores que acabo de citar tiveram parte da sua obra adaptada para o cinema. Mas como comparar Guerra e Paz, por exemplo, com qualquer das medíocres adaptações de que já foi vítima? Não importando o gênio de quem os transporte para a tela ou o palco, a grandeza desses autores reside na forma irredutível das narrativas que genialmente criaram. Essa forma não tem simplesmente correspondente audiovisual. Ora, Shakespeare é nesse sentido, dada a razão aqui exposta, um privilegiado. Portanto, o lugar único que ocupa na história da arte e da cultura universal somente seria ameaçado se o público mais cultivado que existe trocasse a sua obra impressa, e sobretudo representada, pelo feijão com arroz melodramático que a televisão todos os dias oferece à massa dos telespectadores.

Voltando ao livro, se é que dele indevidamente saí, o mérito maior de Rosenbaum consiste em traduzir no estilo e na linguagem do melhor jornalismo cultural as “guerras” que cercam a obra e a vida de Shakespeare. Travadas com paixão e devoção maníaca nos círculos rarefeitos da alta cultura acadêmica, lastreada em métodos e sobretudo linguagem e estilo de composição impermeáveis ao leigo, elas escapam à compreensão e ao interesse do público geral. O objetivo de Rosenbaum é, portanto, erguer uma ponte entre os altos círculos da erudição shakesperiana e o leigo culto, o apreciador da obra que, não obstante autenticamente a ela vinculado, compreende-a e traduz numa dimensão muito distinta daquela forjada pelo especialista erudito. Convém lembrar, a esse propósito, que a mera intencionalidade da obra que ressalto neste parágrafo é por si só digna do mais alto apreço.

Talvez o mérito maior da tradição do jornalismo cultural que tende a progressivamente desaparecer, a tradição espelhada na obra dos jornalistas culturais mencionados no parágrafo inicial desta resenha, consistisse na consciência que tinham esses escritores e críticos de exercerem uma função cultural formativa de incalculável efeito democratizador da cultura. Eles eram, noutras palavras, mediadores esclarecidos, herdeiros portanto da melhor tradição iluminista, entre a obra e o público leigo, o público culto, sinceramente devotado aos valores da cultura intelectual, mas por variadas circunstâncias incapacitado de dominar os códigos originários complexos da tradição intelectual e estética. Essa questão tornou-se nitidamente crucial no momento, entre os fins do século 19 e as primeiras décadas do século 20, quando irromperam os movimentos de vanguarda na literatura, na pintura, na música, teatro... Foi nesse contexto que críticos como Edmund Wilson, bastaria pensar nesta obra fundamental da crítica literária que é Axel´s Castle, exerceram um papel decisivo no sentido de tornar as obras do alto modernismo literário compreensíveis ao leigo.

Devido a razões culturais complexas que não posso considerar nesta resenha, essa figura do intelectual público tende a desaparecer. Uma das razões desse desaparecimento decorre dos processos de especialização acadêmica que converteram o intelectual num funcionário preso a critérios de produção e avaliação que, em termos práticos, dissociaram sua atividade intelectual da sociedade, notadamente daquele leitor em larga medida formado e orientado por intelectuais públicos ou jornalistas culturais do tipo acima citado. Talvez a melhor ilustração desse meu argumento no contexto cultural brasileiro seja Otto Maria Carpeaux. Intelectual de origem e formação europeia, Carpeaux transportou para o Brasil toda a sua extraordinária erudição e generosamente disseminou-a nas páginas dos periódicos brasileiros durante décadas. É difícil avaliar a importância preciosa de tudo que dele herdamos.

Ao escrever obras como Para entender Hitler e As guerras de Shakespeare, Ron Rosenbaum felizmente demonstra que essa tradição não foi extinta; demonstra, noutras palavras, que é possível traduzir muitas das questões complexas que cercam a obra e a vida de Shakespeare em termos acessíveis ao leigo. Convém todavia alertar o leitor para o fato de que, não obstante tudo que nesse sentido realiza ao longo dessa obra volumosa, Rosenbaum não tem como poupar o leitor de muitas páginas tecidas de minúcias e especulações que honestamente me parecem irrelevantes, ou apenas interessantes para quem se compraz com as bizantinices e xaropadas da erudição estéril.

Ron Rosenbaum. As guerras de Shakespeare. Tradução: Maria Beatriz de Medina. Rio de Janeiro: Editora Record, 2011.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Alain Finkielkraut


Um coração inteligente

Alain Finkielkraut, de origem polonesa, é um ensaísta e professor que se distingue na França por ser o que noutros tempos se conhecia como intelectual público. Atualizando a expressão, diríamos que é hoje um intelectual midiático, assim como no Brasil são ou foram Paulo Francis, Marilena Chauí (entre parêntesis: onde andará a grande profetisa da ética petista na polícia? Perdão, quis dizer política. Lula explica. Se o mensalão tem uma vítima, e mais que merecida, diria ser ela.) Jurandir Freire Costa, Maria Rita Kehl, Contardo Calligaris, Marcelo Coelho e tantos outros. Finkielkraut é também um dos rebentos da geração conhecida como os novos filósofos, um grupo barulhento de jovens pós-sartreanos que fez muito barulho, como é de praxe na inteligência francesa, e bem pouca filosofia que sobreviva.

Finkielkraut reaparece na cena intelectual brasileira com um livro surpreendentemente consagrado à literatura. Começo pelo melhor, pelo que de pronto me atraiu no livro: o título. Eis um belo título: Um coração inteligente. Finkielkraut introduz seu título e a devida obra evocando a súplica que o rei Salomão fez a Deus: que Deus lhe desse um coração inteligente. A julgar pela tradição bíblica, Deus lhe deu, sim, um coração inteligente. Como há muito já não existe rei ou governante do feitio de Salomão, até porque o Deus e a política da modernidade são definitivamente entidades de ordem secular, é compreensível e até sábio o fato de Finkielkraut debruçar-se sobre as fontes da literatura tocado pela esperança de fazer do seu um coração inteligente, além de intentar comunicá-lo ao coração dividido do leitor.

Por que afirmei eu que o coração do leitor, o nosso, é um coração dividido? Porque penso que essa bela unidade expressa no titulo da obra foi cindida por forças e movimentos de ideias típicos da modernidade. Rousseau, pai fundador da filosofia e da literatura romântica, elevou a sensibilidade (isto é, o coração) à condição de ideal supremo. No outro lado do canal, na Inglaterra, Jeremy Bentham e sobretudo James Mill e seu filho John Stuart Mill expulsaram o coração do reino da inteligência ao consagrarem o princípio da utilidade como fundamento da filosofia utilitarista. Claro que simplifico a história moderna das relações entre o coração e a inteligência na modernidade. Mas o enredo geral bem pode ser assim esboçado. Esta é a cisão que percorre o espírito do livro de Finkielkraut e portanto cuidarei de a retomar mais abaixo.

Entendo que o coração inteligente é aquele que conjuga a emoção e a inteligência, a sensibilidade e o intelecto. Se é possível imaginar uma razão absolutamente fria e um coração puramente cego, temos aí o primeiro motor ou a fonte suprema da catástrofe, seja num extremo, seja no outro. É essa a consequência da cisão entre os pares complementares que são a sensibilidade e a inteligência. Como ressalta Finkielkraut, o possesso e o burocrata são perversões atuais desses pares complementares. Pervertem-nos não apenas porque os dividem, mas sobretudo porque, assim procedendo, dão um passo adiante e convertem um dos polos em ideal absoluto ou norma suprema de vida.

O possesso, sabe o leitor, é uma alusão implícita ao romance Os possessos (também traduzido como Os demônios), de Dostoiévski. Estes convertem a paixão revolucionária, ou o coração fanatizado, no absoluto que, na história política, produziu insanidades como o reinado do terror, durante a revolução francesa, o stalinismo e o nazismo. O burocrata, esse funcionário sem alma, é o carcereiro da modernidade, daquilo que Max Weber, teórico supremo da burocracia e dos processos de racionalização da modernidade, designou como a jaula de aço (iron cage) do mundo em que vivemos. Se querem um exemplo extremo desse burocrata sem alma, lembrem-se de Eichmann, julgado e condenado em Jerusalém e objeto de um livro momentoso e definitivo da filosofia política do século vinte escrito pela grande Hannah Arendt.

Penso que o eixo do livro de Finkielkraut consiste nas linhas de força e tensão que procurei esboçar nos parágrafos precedentes. Mas saiba o leitor que ele não o expõe, o eixo a que me refiro, com a clareza que intentei verter sobre esta resenha. Ele acredita, assim como eu, que é na literatura que tecemos o coração inteligente. Não em Deus, como acreditava Salomão, pois Deus, imerso no seu silêncio, é indiferente à nossa súplica. De resto, introduzindo aqui um travo de mordacidade, quem hoje suplica a Deus um coração inteligente? Os fiéis suplicantes que de ordinário encontro e ocasionalmente ouço suplicam a Deus as benesses do bezerro de ouro que é a nossa sociedade de consumo. Portanto, dou razão a Finkielkraut: é na literatura que podemos talvez identificar essa unidade rompida entre a sensibilidade e a inteligência.

Guiado pelo princípio acima exposto, Finkielkraut seleciona algumas obras da literatura escritas entre os séculos 19 e 20 para ilustrar seu argumento. Dentre os autores que estuda, há dois que desconheço completamente e, até onde sei, são praticamente desconhecidos no Brasil. Refiro-me a Vassili Grossman e Sebastian Haffner. Os demais são autores canônicos da literatura moderna: Dostoiévski, Joseph Conrad, Henry James, Karen Blixen (também conhecida como Isak Dinesen, seu pseudônimo literário), Albert Camus, Milan Kundera e Philip Roth. De cada um desses autores, Finkielkraut seleciona uma obra específica e daí se empenha antes em descrever do que demonstrar o coração inteligente que esses grandes ficcionistas narram.

A insuficiência do livro me parece consistir precisamente nisso: na prevalência da descrição sobre a demonstração. Quero noutras palavras dizer que Finkielkraut, ao estudar uma obra determinada de cada um dos ficcionistas acima mencionados, limita-se quase sempre a parafrasear ou transpor em estilo próprio as narrativas que no seu entender justamente traduzem no plano do imaginário ficcional a experiência do coração inteligente. O livro seria com certeza bem melhor se ele se aventurasse a melhor demonstrar seu argumento em defesa da literatura contra a filosofia e as ciências sociais.

Na página de abertura do capítulo dedicado a um conto de Karen Blixen, A festa de Babette, Finkielkraut opõe francamente a literatura à filosofia e às ciências sociais tomando o partido da primeira. Ele acredita que o sentido do conto de Karen Blixen consiste em nos revelar na forma de uma narrativa, ou de uma história, o que significam grandes valores humanos como a civilização, a arte, o ideal e a graça. Quando se propõem questões dessa natureza, o filósofo e o cientista social recorrem ao pensamento especulativo, no caso do primeiro, e aos métodos indutivo e comparativo, no caso do segundo. O narrador ficcional, por sua vez, simplesmente inventa uma história, traduz na forma de uma narrativa as abstrações mentais do filósofo e do cientista social. Assim procedendo, e essa é na verdade a natureza do seu ofício, ele reconcilia a sensibilidade e a razão.
Traduzindo no plano do imaginário ficcional as questões fundamentais da experiência humana, o narrador converte a atividade especulativa e os conceitos abstratos em ação humana reinventada num enredo vivido por personagens portadores das qualidades sensíveis características de todo ser humano. Assim procedendo, ele reconcilia na obra de arte o coração e a inteligência, a sensibilidade e a razão. Em suma, ousaria afirmar que ser um grande criador literário, assim como ser um grande leitor, é ter o privilégio de possuir um coração esclarecido.

Alain Finkielkraut. Um coração inteligente.
Tradução: Marcos de Castro.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Fotos, as fotos



Fotos, as fotos. São centenas organizadas em álbuns ou acumuladas dentro de pastas. Imagens de ruas, cidades, campos, monumentos sugerindo um mapa de viagens e experiências desmembradas no tempo e no espaço. São antes de tudo imagens de gente que amei e convivi. Também de gente tão transitiva e fugaz quanto a duração do flash congelando a imagem impressa sobre papel.
Uma foto é sempre mais que uma foto. Uma foto fere e comove e bouleversa não pelo que visualmente expõe, mas pela cadeia de vivência que subtrai e desata na memória involuntária quando esta lhe sofre os estímulos pulsantes no momento ou gesto miraculosamente gravados. A foto é a madeleine proustiana no cerne da visualidade infinitamente reprodutível.

Por exemplo assim: uma mulher alemã é surpreendida no momento em que remove uma luva da mão na minha cozinha. É linda e ri quase de perfil contra a janela aberta para a solidão noturna. Sobre o chão uma sacola na qual recolhera os objetos que lhe presenteara. Era minha última noite no meu apartamento da Mersea Road, Colchester. Na manhã seguinte me mudaria para o apartamento de Isabel, em Londres, onde morei e fui feliz, como talvez nunca fui feliz, até o dia em que retornei ao Brasil. A mulher é Anita. Rever sua foto é como restaurar na linha do presente nossos intraduzíveis momentos de beleza e comunhão afetiva. Um sopro, não sei se de melancolia ou saudade, move-me a interpelar o silêncio que nada me responde: onde andará Anita? Onde sua doçura e limpidez e generosa humanidade?
Por exemplo assim: a casa da Roman Road que frequentei durante uns dois anos. Nela morou Renato, meu amigo paulista ausente de todas essas fotos, e Paulo Branco, meu amigo de Brasília. Frequentá-la foi também um outro modo de frequentar outros moradores, todos estudantes da Universidade de Essex, e sobretudo pessoas de todas as nacionalidades e procedências que acorriam a suas festas e reuniões sociais. Isso explica a presença do norueguês John Skâtun e do chileno Claudio Andia bebendo cerveja na cozinha. Certa vez gravei uma fita com música brasileira, com ênfase sobre Tom Jobim e a bossa nova, e dei-a de presente a John. Como sobrara fita no lado b, gravei minha própria voz cantando Dreamer (Vivo sonhando) e me acompanhando ao violão. Quando me identifiquei, reagiu surpreso e me disse supor que se tratasse de um cantor e violonista profissional. Desmenti-o com minha melhor falsa modéstia.

Agora uma foto externa e noturna no quintal da mesma casa em Roman Road. Brian e Kate contra o fundo impenetrável da noite fechada sobre o Castle Park. Kate ri enquanto Brian se esforça. Kate foi meu grande e frustrado amor inglês. Durante uns dois anos ocupamos uma sala comum no Departamento de Literatura da Universidade de Essex. Como ela trabalhava numa tese sobre o teatro de Tennessee Williams, foi este o ponto de partida para uma longa e sensível e luminosa amizade antes de tudo literária. A ela incorporamos o teatro e a literatura americana e antes de tudo a literatura e o teatro inglês. Chegamos a ir juntos a Londres exclusivamente para ver After the Fall, de Arthur Miller, no National Theatre. Freqüentávamos ainda o teatro de Colchester e o teatro da universidade.

Um dia, passados já muitos meses de convívio e afetuosa amizade, não resisti à tentação de lhe confessar meu amor arduamente dissimulado por força da sua continência inglesa e da minha timidez. Na verdade, o episódio ocorreu pouco depois da foto de que me ocupo. Como morava no lado oposto do Castle Park – no Dutch Quarter, onde também vivi em três diferentes endereços -, acompanhei-a até sua casa. Animado pelo vinho, pela conversa sempre afetuosa e a beleza da noite deserta, disse-lhe assim entre esperançoso e apertado: Kate, I love you. Ela se voltou para mim, não sei se contrariada ou perplexa, e retrucou: Fernando, how can you say that? Love is a very serious matter. Nada mais disse nem me encorajei a argumentar.

Outra foto da Roman Road. No quarto de Phenia Stephanie, minha amiga grega. Com o chinês Chen, o africano Lau-Au, Paulo Branco e Phenia. Paulo e eu estamos fantasiados com coroas reais. Uso de acréscimo um leque vermelho entreaberto. Numa outra foto, dentro do mesmo cenário, representamos Chen e eu: enquanto faço pose de monarca, ele me abana servilmente com o leque.

Agora o cenário é a casa de Suzy e Maggie em Wivenhoe Park. Suzy linda, fazendo pose, olha a câmera de baixo para cima. Claire, ao fundo, também mira a câmera sorvendo uma tragada de cigarro. Na mesma casa, porém noutro cenário, fixo a imagem de Suzy e Leonor dançando. Leonor, minha amiga espanhola residente em Londres, era a dona da casa de Rebow St., Colchester, onde morei durante mais de um ano.

Neve, a neve. Com Justin Spencer, um dos meus melhores e mais constantes amigos ingleses. Descreve com a mão esquerda um gesto engraçado sobre a minha cabeça enquanto sorrio embrulhado em roupas de frio e cachecol. Flocos de neve, caindo do céu, imprimem à foto uma composição estranha. É noite e tudo é noite em Boxford, cenário da foto.

Os flocos ressurgem mais brancos e nítidos na foto em que estou de costas contra o campus deserto. Minhas luvas pretas, minha calça preta e uma bem dissimulada inquietação diante do frio e do isolamento que vêm com a neve borrando todo o fundo da foto. É neve e tudo é neve.

Neve no Square Four da universidade. Estou encolhido no centro da foto. No mesmo plano, uma mulher de preto caminha de costas. Algumas pessoas, ao fundo, circulam no Square já recoberto de neve. A piscina, no centro do Square, também recoberta de neve. Visão parcial das vidraças do Top Bar, onde bebia cerveja e jogava pool com meus amigos gregos e mexicanos.

Estou agora literalmente afundado na neve que chega quase aos meus joelhos. Meu chapéu inglês, presente de Paulo Branco, um casaco mais pesado e quente. O fotógrafo, lembro-me bem, foi Richard Waller, meu amigo residente do Dutch Quarter. Ao fundo, a fachada sombria do castelo romano que dá nome ao Castle Park. Relíquia inglesa do tempo em que Roma dominava o mundo. O mundo romano, bem entendido.

Rebow Street e alguns amigos que nela circulavam. Primeiro eu próprio lendo solitário sobre a poltrona vermelha. O livro, recém adquirido, é identificável pela foto de Freud na capa. Trata-se da aclamada biografia escrita por Peter Gay. Lia ou fingia ler. Quem sabe o que vai entre a pose ostensiva e o flash congelando o gesto ou atitude espontânea?

Agora os amigos. Richard Waller, que sempre me visitava na Rebow Street depois que deixei de ser seu vizinho no Dutch Quarter. Era um dos poucos ingleses expansivos e espontaneamente sociáveis que conheci. Tanto é verdade que partiu dele o primeiro movimento de aproximação e amizade. Bebíamos chá nas nossas casas e falávamos da África, onde sua irmã se engajara em trabalhos de missionária, ou coisa parecida, bem ao estilo da tradição colonialista inglesa. Falávamos sobretudo de religião e educação. Richard era um religioso dedicado. Aliás, quase todos os religiosos ingleses que conheci eram religiosos de verdade. O oposto, por conseguinte, do nosso catolicismo de conveniência ou fachada, um catolicismo inteiramente dissociado das nossas verdadeiras práticas de vida.

Com Nick e Phenia, que moraram comigo durante umas três semanas. A foto antes da desavença que definitivamente nos separou. Nick, pianista e compositor, está sentado entre mim e Phenia no sofá vermelho onde muito nos divertimos e cantamos. Guardo de Phenia uma foto ainda mais bela. É uma foto em preto e branco feita por um profissional grego, também estudante da Universidade de Essex.

No mesmo ambiente, porém com nítida variação de ângulo, Phenia, Paulo Branco e Carol. Mesclando sangue inglês e espanhol, Carol Hernandez era nossa linda amiga, musa de Paulo e minha que insensatamente namorava um bestalhão inglês chamado Simon. Como vivera alguns anos em Portugal, Simon tinha uma peculiaridade divertida e inesquecível: falava português com sotaque idem. Era um misto de estranheza e graça.
Um dia fui visitar Carol no apartamento em que morava na universidade. Ela começou a passar mal e a suar frio sozinha comigo no quarto fechado. Tocado por seu estado de perturbação de fundo inequivocamente sexual, sugeri que passássemos para a cozinha de uso comum aos outros estudantes. Seguiu-me com uma mug de chá fumegante na mão e prontamente se recompôs. Como sou às vezes estupidamente delicado com as mulheres.

Alícia. A espanhola que era de Múrcia. Nunca ouvira falar de Múrcia. Indicou-me sua cidade num mapa. Toco violão a seu lado. Ouve-me concentrada, direi mesmo meditativa. Novamente minha delicadeza. Abriguei-a no meu apartamento quando rompeu com o namorado inglês, um dos poucos ingleses ostensivamente ciumentos que encontrei na vida. Dei-lhe minha cama de casal, onde afundou solitária encolhida dentro do frio que às vezes feria minhas paredes desprovidas de central heating, e fui dormir na sala. Fiquei assim longo tempo dividido entre a hospitalidade civilizada e inofensiva e o desejo de ir para a cama com ela.

Estou sozinho em muitas fotos tanto da Rebow Street quanto de Mersea Road, meu último endereço em Colchester. Confesso gostar muito dessas fotos. Aliás, não apenas delas, mas da maioria das minhas fotos em cenário europeu. Acho isso muito curioso, senão mesmo intrigante, porque nunca antes demonstrara maior interesse em ser fotografado. Talvez porque não me ache um homem bonito, ou fotogênico. Tanto isso é verdadeiro que possuí apenas uma máquina fotográfica na minha vida. Somente depois, cerca de dois anos depois de viver na Inglaterra é que comprei uma câmera de boa qualidade. A que usei aqui no Brasil, quase que restrita ao tempo em que estive ligado a Cilene, fotografou mais paisagem e “natureza morta” do que gente. Muito pouco eu. Pois findei na Europa gostando de ser fotografado. Por isso acumulei tantas imagens em quatro anos de viagens, festas e reuniões sociais.

As fotos minhas que mais amo são as de Paris. Paris é uma cidade tão bela que qualquer sujeito feio acaba realçado pela beleza dos seus cenários. Isso talvez explique minha beleza fixada nessas fotos, beleza que sei nem de longe corresponder à verdadeira composição física do modelo. Fotografado às margens do Sena, diante do Arco do Triunfo, diante da Torre Eiffel, em Montmartre, além de múltiplos ângulos fixando no plano de fundo a Catedral de Notre Dame, sou eu um outro infelizmente não-eu, um Fernando ficcional transfigurado pela luz e a paisagem de Paris.

Se entretanto penso não só na beleza da cidade, mas também nas pessoas com as quais a compartilho e poso para fotos, não hesitaria em dizer que a série mais preciosa para a minha memória de turista ocasional é a de Roma. Pois foi em Roma, num belo domingo romano, que conheci por mero e feliz acaso a mais bela brasileira com quem cruzei em terras estrangeiras. Cristiane viajava com Cristina, que a seu lado compunha um quadro físico ironicamente contrastivo. À parte a semelhança dos nomes, no mais uma constituía o cabal desmentido da outra. Cristiane, a musa que aqui cultuo, era uma morena baiana alta e doce irradiando um sorriso envolvente. Cristina, pobrezinha, era uma curitibana gorda, baixa e castigada por um certo ar resignado de quem tem consciência de não estar aqui para seduzir e virar a cabeça dos homens. A natureza é cruel, talvez ainda mais cruel que a própria sociedade humana que desequilibradamente construímos. Há duas fotos de Cristiane que amo em particular. Por isso integram a seleção de fotos emolduradas que enfeitam as paredes do meu apartamento. Nesta seleção figuram quase todas as pessoas que dentro e fora do Brasil vivi e amei: Cilene, Isabel, Clara, Camila, Cristiane, Raíssa, Suzy, Justin e Gisela, Anita, Paulo Branco, Alex e Iarinha, Lisa, Angélica, Nice e Andrew, Antonella, Kate. O passado é apenas uma fotografia na parede. Mas como dói!

Fotos, as fotos. Meu amigo Sean ri com ar abstrato ou fatigado enquanto me abraça sentado no sofá da Mersea Road. Sean era um marxista de filiação trotskista. Militante convicto, encontrava-o todos os sábados no centro de Colchester fazendo campanha agressiva contra o governo de Margaret Thatcher e vendendo jornais radicais nas ruas mais movimentadas. Por amizade, também por interesse de fundo sociológico, viajei com ele e Suzy para participar do congresso anual marxista promovido pelos trotskistas ingleses na Universidade de Londres.
Fotos de Isabel. Uma, a que tenho diante dos olhos, evoca Mersea Road, meus últimos dias em Mersea Road intensamente vividos a seu lado. Noutra dançamos sorridentes, vagando numa onda de prazer antecipatório, como se a dança e o riso sem reservas anunciassem toda a imprevisível felicidade que usufruiríamos na dobra da primeira esquina. Foi a dança da primeira noite, quando nos conhecemos em Londres e celebramos o aniversário da carioca Olga Becker. Estávamos a um passo de tudo, a um passo do que já não sonhava, e todavia nada pressentíamos. A dança e o riso premonitórios são decerto invenção tardia de quem escreve mirando as fotos do passado irreversível.

Fotos, as fotos. Margaret, mãe de Peter, acolhendo-me em Poole e me guiando através dos cenários de Dorset. Soubera, através de Peter, do meu amor pela obra de Thomas Hardy, que lera traduzido para o português aí por volta dos meus vinte anos. Pois, embora não me conhecesse, telefonou-me do outro lado da Inglaterra convidando-me para visitá-la e para participar das celebrações que assinalaram o sesquicentenário do nascimento de Hardy.

Foi comovente viajar, guiado por ela e Jack, pai de Peter, através da paisagem rural de Dorset que antes eu procurara imaginariamente visualizar lendo Jude The Obscure, Tess of the D´Urbervilles, The Mayor of Casterbridge, Far from the Madding Crowd. A leitura dessas vidas malogradas, sobretudo as de Jude, Sue e Tess - seres tão plenos do possível, tantas as possibilidades do futuro iluminado, e no entanto fadados à ruína na luta contra as restrições opressivas do ambiente - marcou na juventude minha própria construção identitária para além do que eu poderia conscientemente determinar.
Na foto que tenho diante de mim estamos Margaret e eu contra o fundo do cenário no qual se ergue a cottage onde Thomas Hardy nasceu. Margaret está protegida por uma capa vermelha enquanto porto um impermeável azul e uma sombrinha vermelha, ambos por ela emprestados. Era um fim de manhã de chuva, o que explica o uso da sombrinha e dos impermeáveis. Chuva inglesa, fina e quase invisível, mas insistente e importuna. A imagem não alcança sequer sugeri-la no momento em que Jack aciona o dispositivo da câmera.

Outro tempo e cenário. Cruzo o Mar do Norte no ferry boat. Muitas vezes o fiz em diferentes horários e condições climáticas. Quase sempre solitário. Gosto dessas fotos que repicam, lá no mais fundo da memória, um intraduzível gosto de viagem e de descoberta. Gosto não somente intraduzível mas também intrigante, talvez mesmo contraditório com o que julgo compor meus traços dominantes de personalidade. Pois sou antes de tudo um sedentário e, não obstante autoeducado para viver sozinho, definitivamente não me acostumei a viajar sozinho. Aprendi até a fazer prazerosamente sexo sozinho, mas nunca aprendi a viajar sozinho. Não obstante, aí estou eu cruzando as águas que separam a Inglaterra do continente. E como gostava disso, como me entretinha observando, dentro da luz do dia ou imerso na treva da noite, o movimento no geral tumultuoso das águas.

E assim viajei quase sempre solitário através de terras inglesas e européias. As fotos documentam esse percurso, retêm sob o silêncio instantâneo da imagem o vinco da memória na qual se depositam os passos, as visões e imprevistos da viagem. De Dover a Calais. De Calais a Bruges. De Bruges a Amsterdam. De Amsterdam a Ghent e Antuérpia. Ou de Bruges a Bruxelas. Outros roteiros: de Calais a Paris. De Paris a Malesherbe, onde viveu meu amigo Flávio Brayner e onde me embriaguei numa festa promovida por seus amigos franceses e portugueses. Antes disso fui delicadamente posto para fora da casa de uma antropóloga francesa que me hospedara equivocadamente supondo que nos tornaríamos amantes. Os desencontros e ambiguidades envenenando as relações humanas e minha quase incapacidade de dizer não a uma mulher.

Fotos, as fotos. Antonella na varanda do último andar do Royal Festival Hall. Ao fundo, o Tâmisa, Charing Cross Station e Embankment. O dia retorna em ondas, como se as águas vistas ou pressentidas me devolvessem a magia de um dia londrino com Antonella. Talvez somente a convergência dos sangues ou temperamentos latinos possa explicar esse amor tão fantasioso e divertido encenado dentro da frieza e rigidez dos costumes ingleses. Antonella saía na noite de Colchester comigo e me beijava nos restaurantes. Ou seria eu, já meio bêbado, que a beijava? Já não me lembro de quem partia a iniciativa. Lembro porém com clareza a reprimenda puritana dos poucos ingleses presentes ao restaurante. E nosso humor, nosso prazer de viver incontaminado pelo arrepio puritano dos que invejam quem vive para além da letra dos códigos e convenções sociais. Saíamos do restaurante para a noite deserta e dançávamos liricamente sobre as pedras frias da rua, e desafiávamos a paisagem fantasmal do Castle Park around midnight. It begins to tell `round midnight.

Antonella temia os trovões e relâmpagos assaltando o frio e a solidão da noite. Grudava-se a meu corpo sob os cobertores lutando contra os fantasmas acordados pela fúria dos elementos. Eu ria, ria para apaziguá-la, enquanto lhe acariciava o clitóris e sentia o toque umedecer-lhe a vagina e a penetrava em meio ao ribombar dos trovões e ela gemia fundindo gozo e temor nas trevas de Mersea Road.
Fotos, as fotos. Sou eu de óculos escuros fotografado em Swansea por Alex e Iarinha. As águas e barcos ancorados. Swansea de Dylan Thomas e Anthony Hopkins. As fotos documentam a beleza da cidade onde nasceram esses dois ilustres alcoólatras. Fotografo Alex a Iarinha ao pé da estátua de Dylan Thomas. Precisaram talvez reduzi-lo ao estado de estátua imortal para que se aguentasse de pé.

Seguindo ainda as rotas de Alex e Iarinha, hoje vivendo em algum inssabido endereço de Porto Alegre, movem-se as fotos de Swansea para Brighton. Depois de Colchester e Londres, Brighton foi a cidade mais vivida e amada nos percursos que as fotos documentam. Brighton e seus sebos onde adquiri mais livros, quase todos impecavelmente preservados, do que nos próprios sebos da Charing Cross Road. Brighton e seu mar onde no verão as velhinhas se banhavam com os seios expostos. Brighton e um show de Stéphane Grappelli que me comoveu não apenas com seus inefáveis solos de violino mas também com uma desconcertante exibição pianística. Brighton e seus parques onde jogava tênis com Bernardo e Mariana. Brighton e a Universidade de Sussex.

E a roda do tempo gira movida pelas imagens. Agora no Top Bar da Universidade de Essex. Gonzalo, Sandrine, Claudio e Carmen, entre outros. Esta foto evoca o mais quente e belo verão vivido na Inglaterra. Tão quente que cheguei a mergulhar nas águas de Clacton-on-Sea, às onze da manhã, já meio de pileque.
Carmen, a espanhola de Segovia, foi a musa dessa estação feita de festas noturnas à beira dos lagos da universidade, de farras e música na minha casa e nas towers onde residiam muitos desses amigos hoje dispersos pelo mundo. Sua beleza e acima de tudo o deleite com que nos seduzia prontamente a distinguiram dentre todas as mulheres latinas e inglesas que frequentavam nossas noites. Entre seus cultores e pretendentes alinhavam-se Claudio, John Mcgee, meu lírico e gordo amigo irlandês de Cork, Christopher, Walter, um paulista que fazia o tipo trator num jardim, e eu próprio. Entre tantas camas sedentas, Carmen escolheu a de Walter, o trator que, não bastasse ser trator, queria apenas gozar transitivamente no seu corpo.
A queixa deriva não tanto da minha frustração, contaminada por desejos igualmente voláteis, mas do amor mais belo e dedicado dos meus líricos amigos Claudio e John Mcgee. Feridos ao compararem sua medida de amor àquela que Carmen escolhera, não resistiam nos desabafos do Top Bar à generalização ressentida: as mulheres preferem sempre os brutos. Abandonada por Walter, Carmen nem foi para os braços de Claudio ou John Mcgee nem tampouco para os meus. Saiu da tórrida brutalidade do paulista para a fria sexualidade do inglês Christopher. Foi quando na verdade viveu mais perto de mim. Encontrava-me no Top Bar onde bebíamos chopp e, entre um e outro, insinuava sua insatisfação com o modo inglês de amor praticado por Christopher. Mas falávamos, falávamos, insatisfações recíprocas escorrendo entre um chope e outro, até que Chris aparecia e sentava conosco e falava do clima, dos mesmos e previsíveis assuntos e depois se iam os dois para casa frustrados como eu que me retardava no bar.

Fotos, as fotos. Há muitas outras, algumas que já nem lembro, que poderia interminavelmente traduzir em clave verbal, converter em matéria de memória escrita o que repousa em álbuns e gavetas esquecidas como uma cadeia de imagens da vida ida fruída e dissipada. Se acaso deplorasse o tempo irreversível, o que flui sem margem de regressão ou errata, em vão buscaria nessas fotos a vida perdida ou desperdiçada. Mas isso que escrevo é apenas um exercício de memória, que de resto também pratico valendo-me de outros meios e circunstâncias. Pois que isso é tudo o que resta ou fica: a memória generosa da vida ida com seu inumerável cortejo de sombras humanas e paisagens, com expressões de amor, tantas apenas esboçadas e intransitivas. A vida ida acrescida de erros irreparáveis que hoje em mim acolho como resignado sintoma de minha imperfeição. As fotos são, assim, bem mais que fotos, bem mais que neutras imagens impressas sobre papel ou tela. As fotos retraçam na memória e sentidos as mesmas obscuras veredas que no nosso corpo subjazem às rugas, cicatrizes e sopros de som e luz pontilhando o percurso de uma vida. Mais que puras imagens, as fotos condensam muito do que fui e converto em memória.

Diário - Recife, 20 de Fevereiro de 1998

Leia também: England, my England

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Carrington e o Amor Romântico


Começo citando uma definição do famoso grupo de Bloomsbury vazada em termos de humor primoroso: “ They were couples who lived in squares with triangular relationships”. Li-a antes num livro de Michael Holroyd, biógrafo de Lytton Strachey e George Bernard Shaw, com variações que merecem registro: “...all the couples were triangles and lived in squares”. Infelizmente a definição é intraduzível, pois sua engenhosidade e witticism, falta-me termo adequado em português, é fruto precisamente de um jogo de palavras sem correspondente na nossa língua.

O parágrafo acima está longe de qualquer laivo de pedantismo. Comecei por ele por acreditar que condensa muito do que o espectador apreciará num filme como Carrington. Dirigido e escrito por Christopher Hampton, um dos meus roteiristas favoritos, o filme é livremente baseado na biografia de Lytton Strachey escrita por Michael Holroyd. Além de ser um dos membros mais típicos do grupo conhecido como Bloomsbury, por envolver um grupo de intelectuais sofisticados que se reuniam em algumas casas deste bairro onde se situam o Museu Britânico e a Universidade de Londres, Lytton Strachey (Jonathan Pryce) viveu com Carrington (Emma Thompson) uma longa relação amorosa cuja excentricidade ilustra à perfeição alguns dos valores fundamentais adotados pelo grupo. A casa para a qual convergiam os membros do grupo era a da família das irmãs Virginia Woolf e Vanessa. Depois que esta casou com Clive Bell, doravante identificando-se como Vanessa Bell (Janet Mcteer) o grupo passou a frequentar prioritariamente dois endereços: Gordon Square, onde vivia o casal Clive e Vanessa Bell, e Fitzroy Square cujo número 29, antes ocupado por Shaw, tornou-se a residência de Virginia e seu irmão Adrian Stephen.

Dora Carrington conheceu Lytton na casa de campo de Vanessa e Clive Bell. Adotando atitudes deliberadamente masculinas, cabelos cortados de modo sexualmente ambíguo, Lytton confundiu-a à primeira vista com um rapaz e sentiu-se prontamente atraído por ela. As cenas que narram esse encontro inicial transitam do cômico para o embaraçoso desdobrando-se por vias imprevisíveis. Encurtando a história, pois não é minha intenção aborrecer o leitor comprimindo o enredo do filme neste artigo, Carrington, que detestava seu primeiro nome, e Lytton se envolvem numa história amorosa de características e desfecho absolutamente singulares.

O roteiro obedece a um princípio de divisão em sessões temáticas baseadas nos personagens mais importantes da trama: Lytton e Carrington, evidentemente; Mark Gertler (Rufus Sewell), pintor então famoso cujo envolvimento tumultuoso e malogrado com Carrington acabou em ruptura; Rex Partridge (rebatizado Ralph por Lytton e interpretado por Steven Waddington) componente de um dos triângulos fundamentais da vida promíscua de Lytton e Carrington; Gerald Brenan (Samuel West), um dos amantes de Carrington; Ham Spray, a casa onde Carrington e Lytton viveram até a morte deste e o consequente sucídio dela. O título da sessão final é simplesmente Lytton.
O filme é fascinante em muitos sentidos. Destacaria, por exemplo, a forma como recria a atmosfera de convívio das pessoas associadas ao grupo Bloomsbury. Algumas cenas são filmadas em Garsington, casa de campo de Ottoline Morrell (Penelope Wilton) e Philip Morrell, que aparece na sequência em que Lytton comparece ao tribunal que o intimou a depor por defender publicamente uma política pacifista contra a Primeira Guerra. O grande símbolo intelectual desta facção foi Bertrand Russell, por isso apropriadamente citado no filme, que foi condenado à prisão. Ottoline, figura excêntrica e lendária, foi a grande amante de Russell, a que teve o poder de desatar as amarras racionalistas do matemático que acabou se tornando o sátiro supremo da pouco libertina intelectualidade inglesa.

Já que aludi a Russell enfiando na alusão dois termos porejantes de sensualidade, um dos pontos fortes do filme é precisamente a vida sexual promíscua de Carrington e Lytton para muitos ainda hoje chocante, apesar da fachada permissiva de muitos moralistas que aparecem na televisão praticando a mercantilização dos costumes. Intentando ser breve na exposição deste assunto, volto ao parágrafo inicial deste artigo detendo-me nas relações triangulares compreendidas na definição do grupo de Bloomsbury. O filme compreende muitas relações triangulares, para não falar de outras que não saberia como adequadamente designar. A primeira compreende o trio Carrington-Lytton e Mark Gertler; a segunda, Carrington-Lytton e Ralph Partridge; a terceira, Carrington-Ralph e Gerald Brenan; a quarta, Carrington-Ralph e Frances, que mais tarde casou com Ralph; a quinta, Carrington-Lytton e Beacus (Jeremy Northam). Algumas dessas relações seriam quadrangulares, se compreendêssemos a relação amorosa entre Carrington e Lytton como uma relação sexual isenta de relação genital. Dentro desse mesmo critério, outras ainda seriam triangulares. Penso, no caso, nas várias relações homossexuais de Lytton mencionadas ou mesmo explícitas no filme.

Condensada a rede de relações eróticas no parágrafo precedente, cabe agora introduzir o que me parece ser o aspecto mais original do filme. Como explicar que um amor tão excepcional quanto o de Carrington e Lytton tenha perdurado até a morte? À parte o enredo acima esquematicamente descrito, que pode sugerir ao leitor moralmente estreito um filme de sacanagem, Carrington e Lytton tinham uma qualidade rara nas histórias amorosas do seu e do nosso tempo: a que os tornava capazes de aceitar o outro amado tal como é. Esta expressão está demasiado corrompida pelos arroubos românticos de amantes que inconscientemente a repisam de pés e corações juntos: amo você como você é. Isso dura até o momento em que o outro ousa revelar-se tal como é.

Há no filme uma cena na qual Carrington comenta com Lytton os transtornos que lhe causam o amor exigente e possessivo de Gerald Brenan. Depois de justamente ressaltar o mal que os idealistas de qualquer natureza causam ao mundo, Lytton faz uma crítica devastadora e certeira ao amor romântico. Observa, noutras palavras, que as pessoas que se amam passionalmente não devem viver juntas. Se o fazem, ou o amor acaba, corroído pela rotina e outros venenos letais da realidade, ou um amante enlouquece o outro. Penso que aí radica o cerne do filme. O amor que Carrington e Lytton compartilham é singular e a tudo sobrevive, até à frustração dolorosa sofrida por Carrington - que ama e devotadamente aceita amar e servir a um homem incapaz de lhe dar amor sexual, filhos e tudo mais que uma mulher apaixonada deseja – porque ambos se aceitam e se querem como são, ambos acolhem a medida imperfeita do amor humano.

Carrington amou devotadamente Lytton e desejou com ele viver dimensões impossíveis do amor passional, mas era uma mulher de personalidade notável. Ainda jovem, tinha consciência do malogro do casamento, do que há de sórdido e hipócrita no amor casado e corroído pelas engrenagens insidiosas da instituição e da rotina. Há cartas dela, ainda jovem, reveladoras dessa consciência arguta e corajosa. Tinha noção bem crítica do que era o casamento dos seus pais e nunca quis para si própria uma vida de amor convencionalmente casado. O filme, por outro lado, é em muitos momentos revelador da consciência que ambos tinham dos limites e imperfeições do amor. Isso decerto explica o bom senso e o pragmatismo com que negociam e contornam conflitos amorosos previsivelmente comuns na experiência erótica tão promíscua que viveram. Aposto como os moralistas sentimentais se arrepiam diante das cenas em que desatam conflitos decorrentes das demandas e turbulências geradas pelos amantes com quem se envolvem valendo-se de recursos como o egoísmo esclarecido e a franca negociação dos interesses que os românticos encaram como sórdidos e incompatíveis com o amor.

Sabemos que o ideal do amor romântico, de longeva existência cujas raízes modernas remontam a Rousseau e outros românticos da segunda metade do século 18, está vazando água por todos os canos e juntas. No entanto, a maioria das pessoas, sobretudo as mulheres, resiste às evidências gritantes da realidade. Vivendo numa etapa do capitalismo de consumo hedonista que funciona no sentido de promover a realização com frequência ilusória da felicidade compreendida num sentido ferozmente narcisista, continuamos atados à idealização romântica do amor. O clichê que melhor sintetiza esse delírio neurótico da felicidade perseguida através do amor romântico é a frase: encontrar minha alma gêmea. É preciso uma poderosa força de autoengano para acreditar nessa ficção que não resiste a um minuto de análise sensata. Aspirar à fusão com a alma gêmea é claramente aspirar a si próprio, ao amor narcisista que se consome na fantasia de reduzir o outro à nossa imagem e semelhança. Isso me parece assim clamorosamente evidente e todavia milhões de pessoas continuam vivendo embaladas por esse sentimentalismo barato, por essa compreensão absurda e desonesta dos sentimentos amorosos, da intimidade amorosa. Os amores se desmancham como sorvete exposto ao sol dos trópicos, os casamentos se dissolvem em traição, hostilidade e ressentimento, mas continuamos devorando a porcaria sentimental e hipócrita que nos vendem como mercadoria a serviço da felicidade. Basta pensar na produção em cadeia de revistas sentimentais e baratas, na engrenagem da ficção folhetinesca difundida em escala global pela mídia.

Ouça um bom conselho que lhe dou de graça: inútil refugiar-se no amor aos cachorros, gatos e outros objetos de projeção narcisista do amor nutrido pela engrenagem feroz desse sistema reificador das relações amorosas. É inútil porque a dor não passa, a dor produzida pelo amor romântico nutrido por fantasias como o encontro da alma gêmea não cessa de doer. Além disso, nosso destino humano é o outro. Não há aqui nenhuma alusão ao humanismo sentimental, que é de resto uma variante do sentimentalismo desonesto que corrói o amor romântico. Afirmo que nosso destino humano é o outro porque, gostemos ou não, é no convívio, na busca e no encontro e nos desencontros com o outro que realizamos nossa condição humana. Nesse sentido, acho que Carrington poderia ensinar-nos algumas lições preciosas acerca da sobrevivência do amor numa época de individualismo feroz, de narcisismo e consumismo infrenes absolutamente incompatíveis com os ideais de amor que nutriram os três últimos séculos da cultura ocidental.
Recife, 4 de fevereiro de 2011.