segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Mioca e Nino


Iam a caminho da praia, já noite fechada, quando ouviram um sopro débil vindo do beco escuro. Detiveram-se, deram alguns passos em direção ao beco. Ouviram outro sopro, este bem nítido: miau... Apuraram a vista e logo divisaram, no canto da parede, a gatinha encolhida e assustada. Depois de alguma hesitação, Marilena, tocada pela visão da gata encolhida e abandonada no beco, estendeu as mãos trazendo-a para perto de si.
“Minhoca. Agora você se chama Minhoca”. Batizou-a assim sem refletir.
Logo Cláudio, que a tudo assistia silenciosamente, corrigiu-a: “Não é Minhoca. Ela tem cara de Mioca. Não acha?”. Marilena assentiu e logo trocaram a caminhada na praia pelo socorro a Mioca. Voltaram para casa sentindo os pelos úmidos e sujos da gatinha cujos olhos assustados seguiam fixos e tensos os movimentos dos pais adotivos. Sim, sem que nada discutissem ou acordassem, desde já Marilena e Cláudio sabiam que iriam doravante cuidar de Mioca.
Mal chegaram em casa, cuidaram de lavá-la. Mioca trazia nos pelos e em todo o corpo as marcas sujas das ruas, dos buracos onde por certo se refugiou de longos dias de abandono. Marilena sentira o tremor do seu corpo magro, o arrepio dos pelos ao contato com seu próprio corpo. Imaginaram, ela e Cláudio, que sobrevivera a muitas privações. Depois do longo e cuidadoso banho, enxugaram-na com carinho e por fim lhe serviram leite e carne moída. Apesar da fome, Mioca começou comendo ainda desconfiada, olhos fixos em Marilena e Cláudio. Depois de se afastarem discretamente, temendo ainda assustá-la, deixaram-na comendo na cozinha e foram cuidar das medidas práticas para alojá-la na casa. No fundo do armário embutido, que era quentinho e recolhido dentro do quarto que compartilhavam, arrumaram o cantinho onde Mioca passaria a viver. E assim Mioca ganhou um lar e pais.
Na manhã seguinte, tão logo acordou, Marilena acercou-se do quartinho de Mioca, já de olhos abertos, sempre fixados nela com um misto de desconfiança e temor. Depois de tomá-la nos braços para levá-la à cozinha, notou-lhe o corpinho quente, como se estivesse febril. No decorrer do dia, apesar dos cuidados que lhe dispensaram, Marilena e Cláudio notaram que a temperatura do corpo indicava o estado febril que desde cedo lhes inspirara desconfiança. Resolveram então ligar para Rosa, a veterinária do bairro que uma amiga, protetora de gatos e animais de estimação, lhes indicara.
“Ela está realmente muito febril”, observou Rosa visivelmente preocupada. Depois de examiná-la demoradamente, enquanto Marilena e Cláudio aguardavam inquietos, Rosa decidiu que o mais seguro seria ficar com ela durante o dia na clínica para proceder a um diagnóstico mais preciso. Quando voltaram à tarde, Rosa lhes disse que o estado febril de Mioca era indício de uma enfermidade mais grave do que de início supusera. Em suma, não haveria como curá-la sem submetê-la a uma cirurgia.
Mioca foi operada no dia seguinte. Voltou para casa nos braços de Marilena com o corpinho magro protegido por uma roupa cirúrgica. Marilena e Cláudio acomodaram-na no seu cantinho e desde então passaram a cuidar dela com amor inquieto e sempre vigilante. O pior é que continuava doente e a cirurgia não cicatrizava. Todos os dias precisavam remover com paciência e zelo a roupa cirúrgica para renovar a aplicação de medicamentos e ataduras. Mioca miava temerosa e encolhia-se desconfiada, o que dificultava os curativos obrigatórios feitos por Marilena com a ajuda de Cláudio.
O tempo passou e nada de Mioca ficar curada. Diante disso, Marilena e Cláudio precisaram recorrer a outros veterinários indicados por Rosa, que se confessou incapaz de prover a cura necessária. Por isso numa certa manhã Marilena e Cláudio acomodaram Mioca numa cestinha confortável e bem aquecida e levaram-na de carro para ser examinada por Carmen, professora-veterinária da Universidade Federal Rural de Pernambuco. Notando a expectativa apreensiva com que aguardavam a conclusão do exame, Carmen disse sorridente para Marilena e Cláudio:
“Pois é, amor dá trabalho. Qualquer amor, inclusive de bicho”.
“É o que vivo dizendo a Marilena, que aliás me dá muito mais trabalho do que Mioca”, respondeu Cláudio com laivos estudados de rabugice que sempre provocavam risos em Marilena e nos amigos já afeitos a seu humor travosamente divertido.
Ao fim dos exames, apesar do clima descontraído desatado pela conversa errática e carregada de simpatia recíproca, Carmen não lhes deu solução nem sossego. Seria preciso submeter Mioca a mais uma cirurgia. Depois desta vieram outras, assim como novas idas e vindas à Rural. Em casa, Mioca continuava submetida aos curativos diários. Apesar do cuidado amoroso com que lhe ministravam medicamentos e medidas de assepsia preventivas de agravamento da infecção, Mioca sempre se contraía temerosa.
Não obstante a constância e o amor de Marilena e Cláudio, bastante para desatar-lhe o olhar antes fixo e assustado, Mioca parecia viver assombrada por temores insondáveis. Se acaso recebiam uma visita, ela se entocava no seu cantinho. Como viviam rotineiramente reservados, as visitas eram raras. A mais freqüente era a de Gastão Fortuna, cuja notória avareza inspirava recorrentes piadas à língua cortante de Cláudio. Marilena ria com ambos. À medida que a amizade entre ela e Gastão se estreitava, apesar de ela aprender a defender-se da avareza dele escondendo algumas garrafas de vinho para forçá-lo à contrariedade de trazer alguma, Marilena foi gradualmente substituindo a reserva inicial pelo tom brincalhão e zombeteiro de Cláudio. Assim, a presença ocasional de Gastão somou-se ao ambiente da casa. Até Mioca, que sempre corria para a sua toca tão logo via Gastão entrando, até ela foi se resignando ao convívio com Gastão como se dissesse: entre tantas desgraças, que mal me pode fazer mais uma que de resto não me fere o corpo? Numa noite extraordinária, com a sala cheia de convidados alegremente bebendo e tagarelando, Mioca entrou na sala, para espanto risonho dos pais, e saltou sobre o corpo de Gastão. Como o feito inusitado não lhe custou nenhum dinheiro, Gastão riu com gosto enquanto alisava os pelos do corpinho magro e castigado de Mioca. Foi uma cena memorável na crônica daquela família minúscula cujo centro expectante era a possibilidade da cura de Mioca.
Econômico até no gasto dos afetos, Gastão Fortuna contava meticuloso os investimentos que fazia no convívio dos amigos. Talvez por isso fosse observador atilado dos comportamentos. Assim, passou a perceber o quanto a presença de Mioca curiosamente humanizara Cláudio. Pois este nunca fora de gastar muito afeto, nunca dele repontavam os desmandos carentes e efusivos do brasileiro movido pela indisciplina e o excesso. Suas motivações, distintas das de Gastão, emanavam de fontes improváveis, talvez de certa disposição cética que não raro deslizava para modos de cinismo pouco condizentes com as naturezas mais amorosas. Esse grão de amor e desvelo entrou-lhe na casa depois que passou a viver com Marilena. À percepção de Gastão, todavia, o vinco de ternura, de vulnerabilidade afetiva, isso proveio de Mioca arrastando pelos cantos da casa o seu martírio miado, sua dor renovada a cada cirurgia, a cada curativo, a cada infecção renitente e renovada. O certo é que passou a sofrer no cotidiano, Marilena ainda mais, a doença incurável de Mioca. Embora tanto dela cuidassem, tanto fizessem para curá-la, os fracassos das cirurgias sucessivas findou por abatê-los em certos momentos. Uma noite, enquanto bebiam vinho conversando sobre a sorte infeliz de Mioca, Cláudio acabou desabafando:
“Se Mioca não ficar curada, ou infelizmente um dia morrer dessa doença, não mais cederei à tentação de trazer outro gato para a nossa casa”.
Marilena assentiu, embora no fundo sentisse que aquela onda quieta e secreta de amor materno circulante no seu ser não seria abafada pelos desastres provenientes do seu amor por Mioca. Resignaram-se a sofrer por Mioca, a continuar lutando para curá-la, mas ficou ajustado que depois dela nenhum outro gato entraria no seu mundo privado.
9h da noite. O interfone toca. Cláudio e Marilena olham-se intrigados. “Quem será, Leninha?”
A voz do porteiro: “Professor, seu Gastão e uma amiga dele perguntam se podem subir”.
“Agora essa, Leninha. Basta a gente se esquecer de passar a chave na porta e logo Gastão vem se enfiando casa adentro. Filho da puta!”
Cláudio lembrou-se a tempo de pedir a Marilena para esconder as garrafas de Bordeaux e os dois litros de Jack Daniel`s comprados naquela manhã no Carrefour. Tinham feito a feira etílica precisamente naquele dia. Quando Marilena levantou-se para remover as garrafas da mesa, Gastão e a amiga entraram.
“Ora viva! Temos bebida fina na mesa. Isso quer dizer que chegamos na hora exata”. Abraçou Cláudio, que remoia o desejo de estrangular o sovina impertinente, e disse para Marilena: “Marilena, esta é Miss Haig, minha amiga de aventuras literárias e sobretudo de copo”.
Marilena trocou dois beijos convencionais com Miss Haig e foi logo perguntando:
“Seu nome é mesmo Miss Haig?”
“Não. Na verdade me chamo Maísa. Fui rebatizada por um amigo de Gastão cujas garrafas de Haig bebi com tanta avidez que ele, por vingança ou troça, passou a me chamar assim. Eu e Gastão gostamos tanto da brincadeira que prontamente adotamos minha nova identidade. Como acho que a nossa identidade é uma ficção ou mera convenção social, troquei de nome tão à vontade que passei a me reconhecer como Miss Haig. Portanto, querida, fique à vontade para me chamar Miss Haig. Aliás, já que temos Jack Daniel`s na mesa, não faço nenhuma discriminação. Sou pluralista em matéria de uísque.”.
Depois do primeiro gole, Gastão desviou o rumo da conversa para justificar a inconveniência da visita: “Cláudio, você sabe que sou um humanista, talvez o último. Preocupa-me ver você e Marilena fechados nessa devoção anti-humanista à doença de Mioca. Quero resgatar vocês para o convívio humano, para os inefáveis prazeres do convívio humano”.
Mais uma vez Cláudio ficou com os inefáveis de Gastão atravessados na garganta. Se havia um adjetivo que Gastão usava com reiteração perdulária, era por certo inefável. Na voz de Gastão, os poetas pernambucanos eram inefáveis, fossem quem fossem. O que parecia importar para seu gosto poético era o timbre do registro de nascimento. Se era poeta pernambucano, era com certeza autor de poemas inefáveis. Inefável era também o futebol de Gérson e, no presente, de Toni Kroos, o cérebro da seleção alemã. Inefável era a música de Roberto Carlos. Inefáveis eram os vinhos franceses, que por alguma razão insondável bebia sempre nas adegas alheias.
Depois de muita bebedeira e tagarelice, Mioca entrou na sala cosendo o corpinho frágil pelos cantos da parede. Para surpresa de Marilena e Cláudio, voltou a saltar sobre a barriga de Gastão cujo humanismo estava bêbado demais para afagar-lhe os pelos. Mioca recolheu sua ousadia, escorregou do sofá para o chão e se foi de volta para o seu refúgio novamente cosendo o corpo aos cantos da parede. Cláudio observou a cena acabrunhado e por fim cuspiu entredentes: “Monstro sovina!”
Gastão e Miss Haig saíram tarde da noite, ambos visivelmente embriagados. Cláudio e Marilena, exaustos e também bêbados, foram dormir desejando que a blitz da tolerância zero no trânsito obrigasse o casal de salteadores a engolir o bafômetro.
No dia seguinte, ainda remoendo as agruras da véspera e a ressaca, tiveram que pegar a estrada, pois Mioca precisava submeter-se a uma nova cirurgia na Rural. O trânsito estava mais infernal do que o previsível. Assim, a viagem foi longa e lentíssima, exigindo de ambos uma paciência excepcional. Na verdade, Cláudio logo esgotou a que lhe restava e danou-se a maldizer a imobilidade progressiva do trânsito recifense. Não fosse o amor que devotavam a Mioca, jamais atravessariam quilômetros esburacados e intransitáveis para alcançar um destino tão distante. Mas Mioca precisava daquele sacrifício e o amor custa caro, lembrou Cláudio rosnando contra o ruído das buzinas impacientes.
Voltaram já no início da noite. Mioca, acomodada na sua cestinha confortável, miava miúdo, por certo sentindo dores provocadas pela nova cirurgia à medida que o efeito do anestésico regredia. O desejo de Marilena e Cláudio era dar conta das necessidades imediatas, tomar um banho e depois cair na cama. Mas estavam tão exaustos, tão estressados pelos rigores do dia e da véspera que decidiram caminhar um pouco no calçadão da praia. Assim talvez relaxassem e pudessem voltar para afundar no sono restaurador de que tanto precisavam.
Iam a caminho da praia, próximos ao beco escuro de onde há meses recolheram Mioca, quando de repente ouviram um sopro nítido provindo do mesmo lugar: miau. Detiveram-se, deram alguns passos em direção ao beco escuro e logo divisaram um gato lindo de pelos negros e abundantes. Miau, miau, repetiu o gato olhando-os com a confiança dos deserdados aventureiros e saudáveis. Cláudio não se conteve:
“Nino. O nome dele é Nino, Leninha. O nome desse moleque safado é Nino”.
Marilena assentiu: “Que gato lindo, Cláudio. Vamos levá-lo para casa”.
E assim Nino entrou afinal nesta história que começa com quatro patas de gato e acaba com oito. O resto não conto. Adianto apenas que o final não foi feliz, pois Mioca continua vivendo seu martírio sempre amorosamente assistida por Marilena e Cláudio. Em compensação, Nino tem beleza e saúde para humilhar Mioca e de resto provar que no reino da natureza, assim como no dos humanos, a justiça é um acidente e assim as desgraças e fortunas estão sempre desigualmente distribuídas. Aliás, já que falei em fortuna, Cláudio e Marilena mandaram Gastão Fortuna e Miss Haig ir beber noutra bodega. Já que até o amor custa caro, preferiram sensatamente gastar o que têm e podem com a doença incurável de Mioca. Nino compensa as perdas.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Sus! é o SUS


O político ou publicitário que rebatizou o sistema de saúde brasileiro é por certo um erudito. O que não sei é se tramou a sigla sombria movido pela ironia sádica ou a compaixão cristã, uma das virtudes brasileiras que Gilberto Freyre louvava num dos seus surtos líricos. Como não sou erudito (tendo bem mais para o erro dito), vou logo desmanchando o mistério diante do leitor intrigado ao ler o título desta crônica. Descobri há muitos anos, quando era leitor apaixonado da poesia de Manuel Bandeira, esta interjeição intrigante: sus! Ele a enfiou num dos seus poemas, cujo título já não lembro. Fui do poema ao dicionário e assim fiquei sabendo que sus quer dizer eia, ânimo, coragem!
Os azares da vida e da idade tangeram-me ontem e hoje para o posto médico do bairro. Parado diante da fachada aterrorizante - recoberta por sujeira, buracos e ferrugem – li num arrepio a sigla do Sistema Médico de Saúde: SUS. A interjeição há tanto esquecida, eco do poema de Manuel Bandeira, repicou na minha memória. Armando-me de coragem, sobretudo resignação, subi lentamente a escada que conduz ao primeiro andar. Sus!, segui subindo os degraus toscos enquanto suava escada acima. Do térreo vazavam, através de uma porta, o ruído e a poeira de uma reforma. Onde quer que eu ande constato esta verdade dolorosa: vivemos arruinando a civilização que fomos incapazes de construir. Chego afinal à sala de espera e deparo o quadro previsível: gente pobre e feia, gente resignada e sofrida, gente vergada ao peso da opressão social que a castiga do berço ao túmulo. Enquanto uns tagarelam na sala quente e desconfortável, outros quedam desanimados, como que imersos num pesado torpor. A única coisa que me surpreendeu foi o fato de não divisar um aparelho de TV pendurado na parede ou preso a um cabo suspenso do teto. Sus!
Minha reação habitual é murar-me no meu egoísmo humilhado. Mas logo me lembrei de que o remédio mais eficaz para nossa dor egoísta é a dor alheia. Assim, virei-me para as pacientes mais próximas e comecei a entabular conversa. Logo fiquei sabendo que a Dra. Vera falta com freqüência. Como é de praxe nos consultórios, públicos ou privados, ninguém dá satisfação ao paciente, que no Brasil justifica o substantivo. Paciente no Brasil, notadamente do SUS, existe para isso mesmo: para ser paciente, apanhar calado, esperar sentado ou de pé exposto à vontade e aos caprichos médicos com a resignação fatalista de boi de matadouro. A Dra. Vera falta há três semanas e há três semanas dona Maria vem, espera e depois faz o caminho de volta resignada a voltar na próxima semana amparada pela esperança de que na próxima vez a Dra. Vera virá aliviá-la das suas dores. Sus!
Se eu fosse psiquiatra do SUS, prescreveria para meus pacientes este remédio milagroso: se quer esquecer sua desgraça, abra os ouvidos para ouvir a desgraça alheia. Não digo que se compadeça dela, já que nosso egoísmo é cada vez mais espesso e rugoso; basta ouvi-la com atenção suficiente para esquecer a própria. É um santo remédio e não custa nada. De quebra, o paciente infeliz que verte sua dor no nosso ouvido atento fala de si comovido com a nossa atenção. Quem não quer e precisa ser ouvido, ainda mais na adversidade? Abra os ouvidos para a dor do paciente ao lado e logo você esquecerá a sua. Foi o que fiz e assim perdi noção do tempo escoado naquele ambiente desolador.
Quando dei por mim, sentindo dor na minha coluna egoísta, foi porque gritaram meu nome do corredor. A Dra. Virgínia atendeu-me muito atenciosamente. Nada fez por mim, nem o SUS permitiria que fizesse, mas me atendeu com atenção e respeito. Preencheu um formulário informando-me de que estava me encaminhando a um oftalmologista, pois nada poderia fazer para desembaraçar os trâmites do meu processo. É claro que antes do oftalmologista virá uma nova fila cedo da manhã para obter uma ficha, se evidentemente muitos outros pacientes não se anteciparem ao meu relógio. Depois disso, outras horas de espera, outros transtornos previstos e imprevistos. Encurtando a consulta, como felizmente tenho o privilégio de trocar a burocracia fria e sórdida do SUS pelo dinheiro que gastarei comprando tudo no mercado, despedi-me da Dra. Virgínia com um buraco no bolso, mas muitas horas de vida e indignação poupadas. Sus! é preciso ser muito pobre ou demasiado avarento para obter remédio caro no SUS, ou qualquer outro serviço. Sus!
Quem diz que o Brasil é uma democracia social, ou que Fernando Henrique Cardoso, Luís Inácio Lula da Silva e Dilma Roussef (arengas ideológicas à parte) elevaram-no a esta invejável condição, é inconsciente, iludido ou beneficiário irresponsável do sistema de dominação há séculos instaurado neste cativeiro tropical. Quem louva nossa suposta democracia social é quem nunca precisa mourejar dependendo de transporte coletivo, depositar sua segurança nas nossas instituições públicas, educar-se nas nossas escolas públicas, adoecer assistido pelo SUS. Sus! pois a servidão social continua viva e poderosa neste país formado sob os tacões do Estado patrimonial, do colonialismo e da escravidão.
Recife, 2 de setembro de 2014

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Máximas e Mínimas XII


Os sonhadores sonham com a inconsciência de que há sonhos que produzem pesadelos.
Cheguei enfim à idade em que as mulheres amáveis me vêem fotografado à beira mar e dizem: “Que bela foto! Que bela paisagem marítima!”
A vaidade é uma doença incurável que se agrava com o passar dos anos.
Somente um materialista grosseiro acha que pão é necessidade e circo é apenas diversão e alienação política.
A única contribuição da Inglaterra à história do futebol foi o pontapé inicial.
Cheguei afinal à idade em que entro na fila dos idosos sem que ninguém proteste chamando-me de fura-fila.
Se os ingleses pecam por excesso de civilização, os brasileiros pecam por excesso de esculhambação.
Intercâmbio cultural:
Os melhores daqui vão para lá
Os piores de lá fogem pr`aqui.
O que caracteriza o cético autêntico é o estado de dúvida permanente inspirada pela busca da verdade decorrente da argumentação racional. Por isso seus principais inimigos são o dogmático, o crédulo e o cínico.
A saudade é uma traição da memória.
Uma das poucas virtudes da democracia é provar que não há diferença significativa entre Fernando Collor e Luís Inácio Lula da Silva. Basta elegê-los para a presidência e ver o que fazem no exercício do poder.
Não é por não acreditarem em belas abstrações como “a grandeza do futuro do Brasil” que não levo a sério os políticos brasileiros. Queria apenas que acreditassem e lutassem por um futuro melhor para os seus filhos. Essa forma salutar de egoísmo traria benefícios enormes para o país. Infelizmente, até o egoísmo deles é cego.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

O Ouvido


Um ouvido vaga pela cidade
Em busca de uma voz musical.
Na longa jornada do dia
Vai de um ao outro extremo
Através de uma compacta massa de veículos
Aspirando fumaça tóxica num mar congelado.
Ouve o ruído incessante
Impropérios e buzinas
Sangue no asfalto, corpos
Abatidos como aves mecânicas.

Um ouvido vaga pela cidade
Em busca de voz humana.
O estampido de assaltos
Armas de fogo abatendo
Ratos errantes nas ruas.
O mar poluído recolhe
Suas ondas e sobre a areia recoberta de lixo
O ruído das gentes se alastra
E a festa, o batuque se sucedem
Ressaca sobre ressaca.

Um ouvido luta no deserto, na noite
No escuro da sala captando em meio às balas e o fogo
A música suprimida da cidade.
As janelas, invadidas do dia à noite,
Estremecem com o ruído da construção civil.
Nos andaimes suspensos sobre o vazio
Os escravos martelam sua servidão.
Um corpo cai, outro é soterrado e segue
Indiferente o imperturbável ruído do século.

Um dia o silêncio reinará sobre o Brasil
Talvez apenas quando tudo seja já extinto
E reste apenas o vento soprando
No deserto de tudo o deserto que regamos
E empilhamos sobre a terra devastada.
Mas então já não haverá ouvido.

Recife, 19 de julho de 2014

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Condicional


E se a gente chorasse
Chorasse como quem risse
Como quem lembra e esquece?

E se a gente partisse
Partisse como quem fica
Como um ateu reza a prece?

E se a gente amasse
Amasse como quem perde
E ganha? E então recomece

O incerto jogo da vida
Que até cansada e falida
Já quase desfalecida

Dá outra volta, outro giro
E morre com o suspiro
De quem da morte adormece?

E se a gente morresse
Morresse como quem vive
Como a manhã que anoitece?

E se enfim no meu nada
No fim dessa longa estrada
Deus tudo fosse e pudesse?

Recife, 02 julho 2014.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

O botequim de João Ubaldo


Esta crônica, com algumas velas de obituário, é culpa de João Rego. Logo, já começo solicitando ao leitor certa compaixão crítica que não precisa ser estendida a João, xará do que morreu, pois as besteiras que aqui vou verter decorrem do seu encorajamento. Pondo ordem no defunto, pois a morte é definitiva e portanto não se faz com emendas, João Rego me reprovou com razão o fato de escrever com espírito de demasiada responsabilidade. Já nos bastam a seriedade da vida e do trabalho, acrescenta ele astutamente. Desse modo, façamos a revista Será? mesclando alguns grãos de galhofa e cachaça às tolices que escrevemos. E assim, seduzido pelo Vadinho que malandramente salta das cordas do violão de João Rego, vou me aboletando sem nenhuma responsabilidade no botequim de João Ubaldo.
João Ubaldo viveu de modo perigoso para a autonomia da sua obra literária. Quero dizer, fazendo de si próprio um personagem tão sedutor e exposto à corrente mitológica gerada pela mídia, acabou sendo talvez mais importante do que a obra que escreveu, mais personagem do que aqueles tramados por sua imaginação literária. Há por certo nesse velório festivo que seguimos, transportando para o túmulo nosso defunto de botequim, muita gente que conhece o defunto sem todavia conhecer a obra que legou à nossa tradição literária. Muitos que ignoram sua obra e seus muitos personagens sabem muito bem de um outro personagem, o autor, que transportou a ilha de Itaparica para o mapa da nossa literatura.
Como nosso amigo Luciano Oliveira, que infelizmente não cedeu à insistência dos meus telefonemas para escrever esta crônica, João Ubaldo batia o ponto infalivelmente no seu “escritório” onde se misturava “ao povo brasileiro”. Embora as expressões aspeadas suponham a agregação sem fronteiras de gente procedente de todas as origens sociais, o que nelas reponta é antes de tudo o povo narrado e celebrado nas páginas de João Ubaldo e do seu padrinho literário e amigo Jorge Amado, que também já regrediu ao útero da mãe natura a quem abençoo e culpo por estar neste mundo.
João Ubaldo tanto concorria com a sua obra que foi ontem celebrado no Jornal Nacional. Do botequim de Itaparica ao fardão da Academia Brasileira de Letras, cujo patrono supremo jamais abriria a porta daquela instituição vetusta para sentir o bafo de cachaça desse baiano irreverente e despachado, não se ouviu choro nem vela, mas a consagração do ser vivo, do homem João Ubaldo louvado por famosos e anônimos de muitos extratos sociais da nossa cultura. Ora, isso é justo, antes de tudo comovente, mas o leitor espera que aqui exponha alguns fiapos de razão passíveis de justificar a fama do defunto. Afinal, não foi por beber cachaça com o povo e celebrar a vida nas galhofas e estripulias dos botequins que João Ubaldo se tornou um substantivo singular ou um João indivíduo, não o João substantivo comum do Brasil.
E assim me apercebo da encrenca em que João Rego me meteu. Acenou-me um convite para induzir-me a escrever uma crônica de botequim, vertendo no texto antes cachaça do que algumas páginas suadas de cultura literária, e lá fui eu para a folia de João Ubaldo com o violão debaixo do braço e a cabeça vazia. Eis que agora me perco no labirinto que eu próprio construí com o barro da facilidade enganosa e preciso, antes que o defunto deite na vala, cavar uma vereda que de algum modo me transporte para a literatura e a estrada da vida.
Cavo então minha vereda lembrando o óbvio: ninguém, salvo Batata do celebrado Bacalhau do Batata, faz fama deitando na cama dos botequins. João Ubaldo viveu nos botequins misturado à folia cotidiana do povo brasileiro, mas suou muito decifrando os labirintos da cultura letrada. Além de nascer e se formar numa família onde essa modalidade da cultura ocupava papel central, desde cedo ligou-se por amizade e muitos modos de afinidade a gente como Glauber Rocha, prefaciador do seu primeiro romance, Jorge Amado, seu já citado padrinho literário e amigo, e foi ainda jovem reconhecido como escritor de primeira categoria ao publicar Sargento Getúlio. Além da carreira literária, consolidada pela composição de dois romances que se somam ao já citado para elevar o reconhecimento da sua obra (refiro-me literalmente entre parêntesis a Viva o povo brasileiro e O sorriso do lagarto), foi jornalista, roteirista, cronista prestigiado de importantes periódicos nacionais e internacionais. Por fim, já que nenhum escritor vive somente de botequim e cachaça, tanto se excedeu nestes prazeres, os do botequim e da cachaça, que muita gente se enganou supondo bastarem para a consagração literária. Como reza a frase famosa, embora talvez já esquecida, ledo e cego engano que esta crônica irresponsável é a primeira a empurrar para as trevas do dolce far niente dos botequins.
Concluindo, apesar de todos os despropósitos que aqui deito e enrolo, João Ubaldo suou muito o suor de todo artista merecedor de acolhida nos reinos da arte imaginativa que ele soube honrar. Por isso sua morte desperta tantos louvores, inclusive do povo que nunca o pôde ler, mas celebrou seu mais importante romance, O povo brasileiro, convertendo-o em samba-enredo num carnaval já remoto cujo ano esqueci. Mas continuaremos lembrando João Ubaldo. Quero dizer, lembrando e lendo sua obra, pois esta é tudo que fica.
Recife, 19 de julho de 2014

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

A Arrogância do Futebol Brasileiro


Alguém teve acaso a curiosidade de ler as frases escritas na fachada dos ônibus das seleções participantes da Copa do Mundo? O que atraiu minha curiosidade foi ver hoje numa reportagem do Jornal Nacional, ainda sobre a humilhante derrota do Brasil para a Alemanha, a que escolheram para o ônibus da seleção brasileira: “Preparem-se! O hexa está chegando!” Cotejei-a com as das demais seleções. Quase todas invocam o espírito de orgulho nacional, unidade nacional, exaltação mítica da nação, espírito competitivo e guerreiro, valores enfim previsíveis em um contexto de competição esportiva entre nações.
Embora grande parte dos atletas participantes de fato já não representem seleções nacionais, diluídas pela expansão do capitalismo global (basta pensar na seleção brasileira, integrada por muitos jogadores desconhecidos da nossa torcida), o fato é que a Copa desperta um sentido de orgulho nacional que sobrevive antes de tudo como ideologia. Quero dizer, os valores nacionais que celebramos, ou nossas projeções míticas, não mais correspondem aos fatos que regem o futebol global. Dizendo melhor, grande parte dos jogadores não representa de fato suas nações de origem. São uma legião estrangeira. Se quiserem uma expressão mais forte, são como um exército mercenário, ávido de vestir a camisa do clube que paga melhor. Acabada a Copa, com ou sem título, cada um volta para o seu clube, que no geral nada tem a ver com a nação de origem dos jogadores. E convenhamos: o sonho de todo Neymar, de todo craque brasileiro, é jogar na Europa para conquistar fama e fortuna. Defender a seleção brasileira é apenas a cristalização desse sonho.
Voltando ao assunto inicial, a frase adotada pelo Brasil é muito significativa pelo que contém de previsão arrogante. É a única que dá como favas contadas o grande vencedor, o campeão supremo. O hexa foi anunciado antes mesmo de a Copa começar. Isso diz muito da arrogância que sempre regeu a cadeia emotiva do povo brasileiro, um espírito sempre marcado pela arrogância de ser o melhor. É por isso que mergulhamos sempre no apagão e afundamos na perplexidade quando sobrevém alguma derrota decisiva. Não bastasse tanto, a mídia, de forma praticamente absoluta, despreza a mais elementar noção de critério ético, isto é, de isenção informativa. Por mais discutível que seja a ética regente da ação da mídia, investida de força persuasiva e manipulativa num mundo unificado pela revolução comunicativa, ela precisa atender a um ponto mínimo de consenso irrefutável: a isenção informativa.
É claro que os profissionais do esporte, em qualquer lugar do mundo, cultivam suas paixões individuais irredutíveis, sobretudo as que envolvem competições internacionais. No entanto, o fato de torcer não anula a possibilidade, diria mesmo o dever ético, de preservar na medida do possível o caráter isento da informação. Galvão Bueno, locutor simbólico de todas as participações da seleção brasileira em competições internacionais, desmente de forma deslavada o critério de ética midiática elementar que aqui invoco. Este fato está tão entranhado na nossa mentalidade futebolística que nunca ouvi ninguém, nem o mais isento e consciente dos torcedores, dizer uma palavra sobre essa aberração nacionalista, com freqüência levada ao extremo da incitação à arrogância e desapreço pelos adversários.
No fundo, desde pelo menos o tri-campeonato de 1970, trocamos nosso espírito de vira-lata, como disse Nelson Rodrigues, pelo do “melhor futebol do mundo”. Um pouco de humildade, ou pelo menos realismo, não faz mal nem ao maior dos vencedores. Nesse sentido, a seleção alemã e várias outras nos dão uma lição que não sei se somos efetivamente capazes de aprender, ou sequer perceber. Eis o que diz a frase adotada pela Alemanha: “Uma nação, uma equipe, um sonho!” Talvez eles, os alemães, tenham ainda memória do que lhes custou, também ao mundo, sua utopia racista de cujas entranhas irrompeu a maior catástrofe da história da humanidade. Sei que a analogia é um tanto descabida, mas nos dois casos ela tem a ver com o que o nacionalismo agressivo e arrogante tem de pior, seja no futebol, seja na política. Felizmente nossa arrogância, nosso orgulho nacional, tantas vezes acintoso, fica confinado à esfera do esporte. Mas só um fanático ou um inconsciente encara o futebol, e o esporte em geral, como mera expressão gratuita e louvável do prazer lúdico inscrito na natureza humana. Embora o futebol esteja longe de ser uma guerra, nem por isso deixa de ser uma guerra domesticada pela civilização.
Queria por fim ressaltar duas coisas: 1-Minha convicção, reiterada durante toda essa histeria das massas orquestrada por uma mídia privada de qualquer critério de ética informativa, de que o irracionalismo do rebanho está entranhado no psiquismo humano; 2-O caldeirão do inconformismo popular vai voltar a ferver, infelizmente de forma anárquica, no geral como expressão de revolta sem nenhuma organicidade política. A desintegração humilhante do sonho do título, num país cujas carências são cotidianas e extremas, vai concorrer para agravar a rebelião reativa. Prevejo tais desdobramentos baseado apenas na minha percepção da realidade. Gostaria sinceramente de estar errado, tanto que espero ser desmentido pelo que virá. Mas é isso sinceramente o que prevejo isento de qualquer presunção de adivinho ou derrotado ressentido. Aliás, como ser um derrotado ressentido, se sempre vi e vivi o futebol como ele é para mim: apenas futebol? Minha convicção foi sempre e é a busca das reformas democráticas, que nunca interessaram aos que governam um país cujo povo nunca foi qualificado para adotá-las e defendê-las.
Recife, 9 de julho de 2014