quarta-feira, 22 de maio de 2013

A cidade incivil III


A beleza imortal

A beleza que mais busco
é bem liberto do corpo
de solo grego ou etrusco
do frágil madeiro torto
matéria da humanidade.

A beleza a que aspiro
é uma cidade ideal
presente no céu que giro
em rotação imortal
além de mapa e cidade.

Por isso não se confunde
com o humano que a cria.
Embora o mortal afunde
ela se eleva em poesia
entre a noite e o dia

que vivem além do tempo.
Eis que eu passo, ela fica;
eu sou poeira, sou vento
ela o presente habita
sempre inspirando meu mito.

Recife, maio de 2013.

terça-feira, 21 de maio de 2013

A cidade incivil II

            
Universal

Recife é meu endereço
mas viso o universal.
Meço o direito e o avesso
com metro transcendental.

Aspiro à cidade isenta
do relativo mesquinho.
Humano que a mim me tenta
é universal como o vinho

que medra no relativo
e envelhece em barril
cujo fermento ativo
não é da França ou Brasil.

O vinho assim decantado
liberto do relativo
é o mesmo de qualquer lado
meu ser mais livre e mais vivo.

Recife, maio de 2013.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

A cidade incivil I


Caráter

O caráter da cidade
trai muito do que nós somos
nossa virtude e maldade
o que fizemos e fomos.

A cidade é obra humana
é vida que nos espelha
tal como a casa e a cabana
o piso a fachada a telha.

Por isso o Recife feio
sujo e incivil que habito
é obra que de nós veio
e pouco tem de bonito.

A beleza objetiva
transcende o boçal bairrismo
de quem confunde urbe viva
com cego sonambulismo.

Recife, maio de 2013.

sábado, 18 de maio de 2013

Indagações


Como saber o que sou
Se sou o modo de tantos
Que aos crimes cego me dou
Como se fossem meus santos?

Como em meu mapa traçar
As trilhas do meu caminho
Se em meio a tudo que há
Sou todos sendo sozinho?

Como no fundo do espelho
Amar o humano que sou
Se passo e ao meu fazer velho
O tempo me enganou?

Como alcançar a montanha
Que o mito opaco escalou
Se embaixo pouco se ganha
E em cima o céu se fechou?

Como dar forma e sentido
Ao ser que me quer dizer
Se estou fadado ao olvido
Pois vivo para morrer?

Curitiba, 15 de abril de 2013.




domingo, 12 de maio de 2013

Dia das mães ou Poema barato


Mãe Bovary
compro um presente
só para ti.

Compro o presente
que é todo bem
que o shopping center
vende a quem tem
muito dinheiro
para comprar
sem nada isento
para doar.

Amor é compra
ou doação?
Um bem sem preço
e sem comércio
em falta há muito
no coração.

Portanto, saia
saia correndo
logo pro shopping.
Compre um presente
que vale amor.

O preço a loja
já tabelou
mas você paga
com juro e amor
o amor que a mãe
tanto merece.

Amor presente
é o que sente
que dar presente
é amor que cresce.
Viva o gerente
que agradece.
Recife, 12 de maio de 2013.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Sentimento da morte


O sentimento da morte
há tanto vive comigo
que já nem sei se morrê-la
será meu prêmio ou castigo.

Passam o rio e as águas
num fluxo sem pausa ou fim.
Lavam meu ser, minhas mágoas
e me libertam de mim.

E quando enfim nada for
apenas um corpo morto
serei estrume da flor
barco sem alma no porto.

Serei a brisa no mar
liberta do mundo torto
e o vento enfim cantará:
ele que é nada está morto.

Recife, 9 de maio de 2013.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Nonada


Se me mato ou me morro quem chora
Quem um vago suspiro murmura?
Se me mato não sou, fui embora
Sou passagem e nada perdura.

Se me perco de mim e do mundo
Nada importa nem há de importar
Sou um grão submerso no fundo
De um jarro suspenso no ar.

Nosso ser é uma folha ao vento
Tateando em busca dos céus
Mas ao cabo tudo é passamento
E o mundo se fecha num adeus.

Curitiba, 18 de abril de 2013.