Mostrando postagens com marcador George Steiner. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador George Steiner. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Lições sobre Hannah Arendt


As coleções ideadas pelos editores para servirem de pórtico ou introdução didática à obra de grandes escritores e pensadores são uma faca de dois gumes. O gume cego tende a embalar a inércia mental do leitor. Nos casos mais graves, quando este é também intelectualmente desonesto, corta o corpo da obra com gume alheio escondendo a arma do crime. O gume afiado, pelo contrário, ilumina a ignorância do leitor motivando-o a ir do comentador à obra comentada. Este é o mérito que antes de tudo destaco ao resenhar o livro 10 Lições sobre Hannah Arendt. Luciano Oliveira, o autor, condensa em dez lúcidas e transparentes lições o conjunto da obra de Hannah Arendt.

Ele começa ressaltando um fato animador: a trajetória ascendente da obra de Hannah Arendt no contexto da cultura brasileira, intra e extra acadêmica. De fato, como apropriadamente informa o leitor, o essencial da obra de Hannah Arendt é correntemente acessível ao leitor interessado. Leigos como eu, por exemplo, já leram Hannah Arendt, além de possuírem pelo menos parte significativa da sua obra. Além de desconcertar o leitor, não raro também indigná-lo, ela o ilumina, termo que Luciano Oliveira faz questão de sublinhar em certa passagem do seu livro.

Por que Hannah Arendt tanto desconcerta o leitor não relutando em afrontar suas convicções e pressupostos mais enraizados, também as verdades cômodas dentro das quais nos instalamos e assim aliviamos nossa consciência do fardo das interrogações éticas e humanas mais inquietantes? É por essas e outras, de resto bem esmiuçadas no seu livro, que Luciano, de mangas de camisa no convívio com os amigos e até inimigos mais cordiais, costuma brincar com Hannah Arendt chamando-a de “velhinha irritante”. Como todo humorista usa e abusa da hipérbole como figura de retórica, Luciano, sendo dos bons, não foge à regra. No caso de Hannah Arendt, porém, ele errou de figura retórica. Isso sugere o quanto ela, intransigente no exercício de pensar, excedeu as medidas convencionais da polêmica. Pois o fato é que mais de uma vez jogou contra o leitor tomada pela paixão de pensar isenta de qualquer tipo de concessão. E ao jogar, expondo-se a todos os riscos e reações éticas, políticas e epistemológicas, ela provocou algo que vai muito além da irritação do leitor contrariado ou contestado dentro dos limites que com frequência opõem o autor e o leitor, os sentidos ambíguos da obra e a recepção equívoca que no geral suscita.

No sentido acima indicado, o melhor do livro de Luciano concentra-se na sétima e na oitava lições, respectivamente dedicadas a Eichmann em Jerusalém e a “Reflexões sobre Little Rock”, incluído no volume Responsabilidade e Julgamento. Outras controvérsias em que Hannah Arendt se meteu são também consideradas pelo comentador. Estas, porém, notadamente a que envolve Eichmann e questões conexas, se inscrevem em contextos bem mais momentosos, para não dizer politicamente explosivos. Quando se ofereceu ao famoso periódico The New Yorker para cobrir o julgamento de Eichmann em Jerusalém, Hannah Arendt escolheu mergulhar no olho do furacão. Luciano contextualiza e critica nos termos devidos esse episódio comparável ao Caso Dreyfus, que sacudiu a opinião pública francesa entre fins do século 19 e início do século 20 fixando de forma indelével na história da cultura a função pública do intelectual.

Não vou evidentemente reconstituir nesta resenha o processo que Luciano tão bem delineia e aprecia no seu livro. Minha intenção é tão-só recortar algumas questões mais relevantes contidas na obra e atadas ao contexto de que é fruto e efeito. Talvez a celebridade conquistada por Hannah Arendt graças à coragem radical do seu pensamento possa ser sintetizada na expressão que cunhou para traduzir seu juízo acerca do carrasco nazista Eichmann: a banalidade do mal. Esta expressão ganhou curso, provocou reações exaltadas e foi a extremos de ruptura de grandes amizades, como a que existia entre Hannah Arendt e Gershom Scholem. Friso, para o leitor apressado, não afirmar que a ruptura se deva apenas à expressão que anoto, mas ao fato de ela encapsular as reações extremas desencadeadas pela intervenção de Hannah Arendt no processo, que por certo vai muito além da pura qualificação jurídica.

Luciano escolheu com senso de propriedade impecável as epígrafes que encabeçam cada um dos capítulos do seu livro. No que tem por título “A banalidade do mal – Eichmann em Jerusalém”, ele recorta uma penetrante passagem de uma carta de Hannah Arendt endereçada a Gershom Scholem. Nela Hannah nega a radicalidade do mal. Noutras palavras, o mal é apenas “banal”, pois se manifesta na epiderme do mundo. O mal não teria o poder de se entranhar nas profundezas do mundo, apenas o bem. Portanto, só este é radical. Transpondo seu juízo para a personagem que desencadeou todo esse tumulto que ocupa Luciano e o leitor em geral, Hannah se põe literalmente diante de Eichmann, enjaulado sob a proteção de paredes de vidro transparente, e talvez chocada tenha constatado não estar diante de um ser demoníaco, um monstro inqualificável. Aliás, monstro é um substantivo que prescinde de qualificação.

Hannah Arendt mira, escrutina e devassa as linhas apreensíveis do carrasco e nada encontra além de um homem banal, um homem normal, um burocrata eficiente que se esmerou no exercício da sua função com zelo exemplar. Não é chocante ler isso quando ponderamos que o burocrata em questão coordenava a mais terrível operação de extermínio de um povo? Não é chocante pensar que Hannah Arendt, judia como o seu povo aniquilado em campos de concentração, escreve sobre um dos mais terríveis carrascos do nazismo qualificando-o apenas como um ser banal, um burocrata eficiente, decerto pai de família modelar? A propósito, George Steiner, outro intelectual judeu que estica ao limite a coragem de pensar, escreveu algo semelhante no seu livro Linguagem e Silêncio. Neste livro, assim como em muitas entrevistas e depoimentos, ele reitera esta verdade desnorteante: o oficial nazista que comandava os campos de concentração era um homem como eu e você. Enquanto durante o dia, servidor zeloso do regime a que servia, coordenava as operações de extermínio dos judeus, à noite, cercado pela família, lia Shakespeare e Goethe, ouvia Bach e Mozart, cultivava, em suma, a mais alta tradição da cultura humanista europeia. Logo, o humanismo sublime que tanto cultuamos não constitui nenhuma garantia contra a barbárie. Ponto.

Espremendo o sumo da verdade, ou antes da coragem de pensar o que poucos ousam, foi isso o que Hannah Arendt ousou ao escrever sobre o julgamento de Eichmann em Jerusalém. Mas Luciano nos lembra de que ela foi além disso, pois também introduziu na polêmica a colaboração dos judeus com os nazistas no processo de gradual extermínio do seu próprio povo. Esta variante do livro polêmico está bem documentada na introdução sumária de Luciano, que naturalmente não se estende além do devido. Durma-se com o barulho que essa “velhinha irritante” provocou no mundo e entre seu próprio povo. Gershom Scholem, assim como outros judeus indignados, não dormiu, mas com certeza perturbou o sono da velhinha irritantemente ousada. Como não imaginar que ela não tenha sofrido durante essas batalhas ideológicas tão momentosas? Afinal, ela sabia da radicalidade do amor, tanto sabia que foi capaz de continuar amando seu mestre, herói filosófico e amante: Martin Heidegger, nazista confesso que nunca se retratou. Amou ainda mais Heinrich Blüchner, seu marido devotado, com quem compôs, como dizia o amigo comum Randall Jarrell, uma monarquia dual. Ela amou a amizade com a integridade com que poucos o fazem. Bastaria lembrarmos o amor que devotou a Karl Jaspers, Hermann Broch e Mary McCarthy. Esta, a propósito, incluiu em Occasional Prose um belo e comovente obituário intitulado “Saying Good-bye to Hannah (1907-1975)”.

Como todos que ousam pensar o pensamento na sua radicalidade, ainda quando sabendo que não existe verdade absoluta, Hannah Arendt pagou a essa convicção o tributo que outros, antes e depois, pagaram e continuarão pagando. Penso, por exemplo, em Sócrates, epítome do pensador radical, Émile Zola e, entre os contemporâneos de Hannah, Bertrand Russell e George Orwell. Foram todos de algum modo punidos, além de transtornarem o léxico ideológico corrente. Talvez por isso Luciano inaugure sua série de epígrafes extraindo de uma entrevista a interrogação incontornável: onde situar Hannah Arendt ideologicamente? Conservadora ou liberal (no sentido americano do termo, conviria frisar)? Ela responde sem aparentar maior inquietação a respeito do assunto. Tanto que alega não acreditar que as questões do século em que viveu tivessem relação relevante com essas qualificações. Parece-me significativo registrar que, no obituário acima mencionado, Mary McCarthy a identifica como “conservationist”, termo que remete antes à ecologia do que à ideologia. Intentando ser fiel a McCarthy, esclareço que ela usa o termo no sentido seguinte: Hannah Arendt acreditava que devemos conservar tudo que já foi pensado.

Voltando à lição que dedica ao “Caso de Little Rock” , Luciano descreve com brevidade suficiente o que me parece sugerir o processo de pensar de Hannah Arendt, processo que acabava lançando-a no olho do furacão. Visando conferir precisão ao que segue, preciso acentuar brevemente que “O Caso de Little Rock” foi um episódio crucial na luta contra a segregação racial nos EUA. De que modo Hannah Arendt interveio? Ela simplesmente se perguntou o que faria se fosse a mãe de uma menina branca. Em seguida, o que faria se fosse a mãe de uma menina negra atirada - esta literalmente, a outra em termos hipotéticos - no cerne da batalha racial.

Ora, deixando de parte as respostas que propõe, e é aí que ela se encrenca com todos os bem e mal pensantes do mundo, o que ressalto é o fato de Hannah pensar o real com empatia. Esta é a forma mais radical de pensar, se podemos concentrá-la numa única palavra. Pois o que é o pensamento empático, senão esse procedimento com que ela própria ilustra sua atitude mental e política diante da realidade da segregação racial? O procedimento pode ser transposto para sua interpretação do totalitarismo, do nazista Eichmann, do comprometimento do seu mestre e amante Heidegger com o nazismo etc. Hannah pensava colocando-se imaginariamente no lugar do que pensava. É daí que me parece proceder a radicalidade do seu pensamento que projetou luz e entendimento no mundo, mas também irritação e ódio, fúria e rejeição. Pensar aderindo à perspectiva do outro, sobretudo quando este é o nosso avesso, é manifestação raríssima de liberdade e generosidade espiritual. É daí, suponho, que procede a radicalidade do pensamento de Hannah Arendt.

Não posso concluir esta resenha sem antes lhe acrescentar uma nota de frustração pessoal. Deploro o fato de Luciano simplesmente ignorar no seu estudo do conjunto da obra de Hannah Arendt o livro dela que é o meu favorito. Refiro-me a Homens em tempos sombrios. Conhecendo tão bem o autor, e portanto sabendo o quanto aprecia a literatura, causa-me certa estranheza o silêncio que aqui deploro. Afinal, ele também compartilha com Hannah Arendt um profundo apreço pela literatura, apreço que de resto se espelha na sua escrita tão avessa à padronização instituída pela cultura acadêmica. Espelha-se ainda na sua admiração de leitor fiel de Machado de Assis e Graciliano Ramos, que dele mereceram um volume de ensaios críticos. (Ver O Bruxo e o Rabugento. Rio de Janeiro: Vieira & Lent, 2010).

Em Homens em tempos sombrios, como sabemos, Hannah Arendt reúne um grupo de grandes intelectuais marcados em circunstâncias variáveis pelos horrores do século em que viveram. A exceção é Lessing, poeta, dramaturgo e filósofo do século 18. Sua inclusão deve-se ao fato de merecer no ensaio de abertura do volume um tratamento equivalente ao de um contemporâneo dos demais estudados em seguida. Esse livro sobre o qual Luciano Oliveira infelizmente silencia revela os dotes extraordinários de Hannah Arendt como ensaísta consagrada ao ofício da biografia intelectual sintética. Retenho ainda na memória de minhas leituras desse livro as belas e comoventes páginas que escreveu sobre o caráter melancólico de Walter Benjamin. Não bastasse isso, e os horrores do século em que viveu, teve a infelicidade de estar sempre nos lugares errados.

Embora o título do livro seja extraído de um poema de Brecht, um dos artistas nele estudados, e o título bem a propósito condense a relação crucial entre o intelectual e o contexto histórico, a ensaísta é sensível aos traços distintivos que individualizam seus personagens (Abro parênteses, literalmente, para lembrar que o livro inclui dois capítulos sobre personalidades de natureza distinta: o papa João XXIII e Waldemar Gurian). Afinal, como ela própria ressalta, deles emana a luz, ainda que tênue, que nos anima a continuar vivendo e lutando quando a escuridão desce sobre as nossas vidas. É antes dessas obras e dos espíritos criadores excepcionais que lavramos um sentido para nossas vidas e para o mundo, bem mais neles do que em teorias e conceitos procedentes de outras fontes de saber e representação da realidade humana.
10 Lições sobre Hannah Arendt.
Autor: Luciano Oliveira. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

George Steiner


George Steiner é um dos últimos sobreviventes da grande tradição humanista cultivada por judeus nascidos e/ou formados na Europa central. Deste tronco poderoso brotaram nomes tais como Karl Marx, Sigmund Freud, Robert Musil, Wittgenstein e Hermann Broch. Embora ficcionista ocasional, Steiner é sobretudo um scholar de imenso prestígio no ambiente acadêmico europeu e americano, comentador agudo e frequentemente polêmico das obras e personalidades que sacodem a atmosfera cultural contemporânea. Testemunha e vítima da caçada nazista movida contra os judeus, desde a infância Steiner aprendeu a encarar de frente a máscara da tragédia que indelevelmente o atingiu. Quando certa feita evocou comovido esse aprendizado ao conceder entrevista a Jeremy Isaacs na BBC Television, identificou na figura do pai a força que o dirigiu para a crua observação da realidade.

Menino ainda, mas já exposto aos tumultos de massa alastrados pelas ruas de Paris, assistiu ele à ascensão da violência antissemita lançada contra a população judaica. Encurralado entre Hitler e o antissemitismo enraizado na tradição cultural francesa, educou-o o pai contra o medo, ilustrando-o na prática crua da Europa pré-Segunda Grande Guerra acerca da torrente destrutiva prenunciadora de Auschwitz.

Os tormentosos eventos históricos acima grosseiramente sugeridos, mas de modo algum estranhos ao leitor culto, embasam o admirável conjunto de ensaios que integra o volume Linguagem e Silêncio. Dado que o tema predominante dos ensaios é a literatura, parecerá decerto extravagante verificar que no cerne de tudo ele explicitamente inscreve a barbárie nazista, ápice da ruína por ele assim apreciada:
"Essa ruína é o ponto de partida de qualquer reflexão séria sobre literatura e sobre o lugar da literatura na sociedade. A literatura lida essencial e constantemente com a imagem do homem, com a forma e o estímulo da conduta humana. Não podemos agir agora, seja como críticos ou como simples seres racionais, como se nada de importância vital tivesse afetado nosso senso da possibilidade humana, como se o extermínio pela fome ou pela violência , de cerca de 70 milhões de homens, mulheres e crianças na Europa e na Rússia, entre 1914 e 1945, não tivesse alterado de modo profundo a propriedade de nossa consciência". (p. 22)

Como fica claro na citação acima, não é apenas o nazismo que está em jogo, detonando e ao cabo dissolvendo sonhos devastadores nas cinzas dos infernos que acendeu. Agentes e efeitos estendem sua ação histórica direta, frisa Steiner, ao período que cobre os anos de 1914 a 1945. Se entretanto antes de 1933 a ruína estava em curso, a partir da ascensão do nazismo ela atinge escalas sem precedente. Se as escalas de destrutividade não encontram precedente no conjunto da história humana, mais devastadoras ainda foram as formas como se processaram. A interrogação ainda hoje suspensa no ar turvo da nossa consciência, mas genericamente respondida por Freud em O Mal-Estar na Civilização, ocupou a mente e fração decisiva da obra realizada por intelectuais como Erich Fromm, Adorno, Primo Levi, Bruno Bettelheim, Elias Canetti e, claro, o próprio George Steiner.

Opondo-se a interpretações históricas tendentes a explicar o nazismo fundadas no papel satânico desempenhado por Hitler, ou quando muito em fatores contingentes da estrutura sócio-econômica, Steiner assinala que foi na Europa Central, onde elevados eram os padrões de difusão da tradição humanista encarnada em símbolos intelectuais da estatura de Shakespeare, Voltaire e Goethe, que foram acesos os fornos e instalados os campos de concentração. Como afirma Steiner, "A barbárie predominou no próprio berço do humanismo cristão, da cultura renascentista e do racionalismo clássico. Sabemos que alguns dos homens que conceberam e administraram Auschwitz foram educados lendo Shakespeare ou Goethe, e continuavam a lê-los".

Dado que é verdadeiro o que afirma, a questão se desenha de modo muito mais inquietante na nossa consciência. Formados dentro de um espírito humanista que aparentava constituir-se como negação necessária da barbárie, eis-nos aqui confrontados com esses perturbadores fatos da história. Os líderes e homens investidos de posição de mando dentro da organização nazista não eram monstros, malfeitores privados do acesso à tradição humanista que presumimos incompatível com a onda de barbárie alastrada pela Europa, centro da civilização ocidental. Eliminada a confortadora disjuntiva entre civilização e barbárie, impõe-se deduzir que a primeira não constitui garantia necessária contra a segunda. Uma outra dedução, de natureza ainda mais inquietante, parece-me seguir-se à primeira: ao invés de caracterizar-se como monstros, produtos anti-humanos cuja real natureza seria impermeável a nossas possibilidades de explicação racional, são os nazistas seres humanos como nós outros. Mas de outro lado convenhamos, é ilusório presumir uma explicação racional suficiente para questões históricas dessa natureza.

A força desta verdade aparenta ser tão perturbadora que governos liberais e de esquerda resistem a esse modo de tratamento do problema concernente às bases sociais e humanas do nazismo. É sintomático que o filme de Agnieszka Holland, Europa Europa (título adotado no Brasil: Filhos da Guerra), talvez o melhor já realizado sobre a relação entre nazistas e judeus, tenha tido sua participação na categoria melhor filme estrangeiro, prêmio Oscar de Hollywood, vetada pelo atual governo alemão. O veto sugere a força inquietante do filme que representa carrascos e vítimas dentro da complexa rede humana sobre a qual se estrutura nossa obscura humanidade.

Sem qualquer concessão aos clichês do humanismo vulgar, nazistas e judeus são no fundo nem monstros nem anjos indefesos, mas gente como a gente. Eis aí, límpido e desconcertante, o clichê repelido. Pois é, gente como a gente, eis o que aparenta em suma exprimir Agnieszka Holland com seu filme extraordinário. O surrado clichê entretanto não autoriza, deixo claro, perdão ou condescendência para com o carrasco. Em nenhuma circunstância, a impureza da vítima, falta-me expressão mais adequada, justifica a ferocidade do opressor.

As esquemáticas observações acima servem ao menos para sugerir, assim espero, possibilidades analíticas incompatíveis com versões difusas de humanismo ingênuo, assim como com mais elaboradas interpretações culturalistas ao cabo confortadoras, já que identificam as causas da destrutividade humana em fatores de natureza puramente histórico-cultural. Ora, parece-me que Freud atira mais perto do alvo quando sustenta a existência de um cerne biológico destrutivo e, em última instância (era assim que costumávamos concluir um argumento intentando resguardar a força universal da teoria marxista exaurida por tantas ações e manipulações procedentes de mal orientados discípulos), indomesticável pelas normas reguladoras da civilização.

A inserção do ensaísmo literário na moldura histórica do nazismo e suas conexões de fundo ético-intelectual bastam para distinguir Steiner da produção acadêmica característica desta segunda metade do século. Mais e mais especializada, reclusa em esotéricas investigações cuja espessa esterilidade evoca ecos da castália idealizada por Hermann Hesse no seu romance O Jogo das Contas de Vidro, a cultura acadêmica produz montanhas de obras indiferente ao som e à fúria do século.

Exemplo frisante das distorções intelectuais geradas nesse contexto é visível na própria função e prestígio de que goza o crítico literário. Se no veio da grande tradição humanista dentro da qual sobrelevam nomes como Edmund Wilson, Lionel Trilling, George Orwell, Antonio Candido, Otto Maria Carpeaux, para mencionar apenas alguns pertencentes ao nosso século, o crítico operava como um mediador entre o autor e o público, atualmente o crítico acadêmico instala-se no lugar do efetivo criador de literatura. Sendo um mero criador de segundo grau, não importando a grandeza da obra crítica que produza, torna-se ele, entretanto, o agente de uma grave inversão de valores derivada do processo de organização da cultura acadêmica. Como bem observa George Steiner,
"O crítico vive de segunda mão. Ele escreve sobre. O poema, o romance ou a peça têm de ser dados a ele; a crítica existe pela graça do gênio de outros homens". (p. 21) Nas castálias acadêmicas da nossa contemporaneidade, todavia, lê-se cada vez mais crítica e teoria literárias em detrimento da literatura propriamente dita. O estudante modelar dos cursos de letras estará por certo familiarizado com a produção de críticos tais como Fredric Jameson e Terry Eagleton, Jacques Derrida e Roland Barthes (já meio fora de moda), Antonio Candido e Roberto Schwarz, mas provavelmente não terá lido a sério nenhum criador canônico da literatura nacional ou internacional.

George Steiner compartilha com os humanistas judeus acima mencionados uma sólida atitude internacionalista, mirada além-fronteiras em mundo mais e mais retalhado por particularismos sangrentos contraditoriamente atados à realidade da acelerada universalização promovida pela vertiginosa dinâmica deste capitalismo fin de siècle. Internacionalista consequente, a um judaísmo beligerante, armado em fronteiras fechadas, sobrepõe valores que o impelem a opor-se ao sionismo e à política adotada pelo Estado de Israel.

Pessimista quanto ao destino da arte num mundo superpovoado e subordinado às regras do capitalismo de consumo, Steiner acentua a íntima e milenar ligação entre arte e religião. Tal ligação, também assinalada por Freud em O Mal-Estar na Civilização, está à perfeição demonstrada nas palavras de um antecessor de gênio: "Aquele que tem ciência e arte, tem também religião; o que não tem nenhuma delas, que tenha religião!" (Goethe, apud Freud, O Mal-Estar na Civilização, Ed. Imago, p. 31).
Qual o sentido atual da arte, que durante milênios abrigou no próprio centro dos símbolos que articula certas possibilidades religiosas hoje erodidas pelas condições dominantes de mercantilização de valores e sentidos enraizados no solo humano-material onde se constitui? Para Steiner, a raison d'être da arte, i.e. as possibilidades religiosas que encerra, se encontra posta em risco no inquietante universo do nosso fin de siècle. Como identificar, menos ainda discutir, uma grande obra de arte quando uma atordoante proliferação de valores, muitos de natureza antagônica, lutam para impôr um princípio de hegemonia cuja aparente inviabilidade põe em risco a possibilidade mesma de consenso em torno de princípios instauradores de um referencial canônico no plano da tradição literária?

Às voltas com outros temas polêmicos, como intelectual empenhado no bom combate, Steiner não poupa críticas ao ideário (hoje transformado em ideologia, aqui tomada em sentido pejorativo) forjado por dois gênios da sua raça: Marx e Freud. Da filha dileta do último, a psicanálise, disse não passar de "vingança judaica contra a ciência cristã". Melhor registrar suas próprias palavras gravadas de "Fin de Siècle", série de debates transmitida pelo Channel 4, Inglaterra, em 1991.
"I regard psychoanalysis as a completely ephemeral mithology. To me, it's a Jewish vengeance on Christian science. Nothing is more charged with animism than psychoanalysis".

Não é de espantar que tenha constrangido Julia Kristeva, diante de quem disparou a crítica no debate de que participaram ao lado de Terry Eagleton. Por outro lado, entra em desacordo com este, ainda mais acaloradamente com Michael Ignatieff, "liberal pós-moderno" da mídia inglesa, graças aos ataques devastadores que tem movido contra a acelerada mercantilização da cultura pilotada pela mídia norte-americana. Em 1990, por exemplo, pouco depois da euforia que se seguiu à queda do totalitarismo soviético, publicou virulento artigo no "The New Yorker" contra a forma como os recém-abertos mercados do Leste Europeu estavam sendo invadidos pela cultura de massa do Ocidente. Simbolizando na dupla Madonna e Maradona os valores destrutivos e anti-humanos gerados pela cultura produzida em série segundo critérios perversamente mercadológicos, George Steiner clama em defesa de um humanismo que me parece, para minha pessoal inquietação, condenado a sobreviver na oprimida atmosfera de uma escassa elite.

Bearer of ashes, ou Cassandra da alta tradição europeia, assim ocorre-me caracterizá-lo, numa mão empunha a memória perturbadora da ruína produzida pela barbárie deste século, noutra a determinação de afirmar contra uma nova onda bárbara as virtudes do seu humanismo acuado. É admirável e comovente assistir a esse tresloucado Quixote, a cavaleiro de um arfante humanismo-rocinante, arremeter contra os mortíferos poderes deste mundo da vertigem técnica capaz de produzir catástrofes apreciadas pelo público universal como se fossem eletrizantes videogames.

Vendo-o de lança em riste, sobre uma campina solitária, e imaginando-o a braços, bastaria um só dia, com a mídia brasileira, não resisto à tentação de compará-lo a um humanista brasileiro que, em contexto evidentemente muito distinto, assim foi caracterizado por Mário de Andrade: "E se é certo que já agora ele é uma das mais fortes figuras de crítico que o país produziu, desconfio que os futuros não-sei-o-quê vivendo nestas terras do Brasil terão ao lê-lo o espetáculo dum homem querendo desviar uma enchente, apagar o incêndio dum mato, ou parar um raio com a mão".
Referia-se Mário de Andrade, sabem os leitores familiarizados com a literatura brasileira deste século, a Alceu Amoroso Lima, humanista (então da direita católica) empenhado em salvar o Brasil, ambição rotineira em intelectual nativo, com armas retrógadas e quixotescas fornecidas pelo catolicismo da época. O paralelo aqui grosseiramente proposto assenta, claro, sobre profundas diferenças de contexto histórico-ideológico. Mas acredito-o pertinente dada a similaridade da empresa movida tanto por George Steiner quanto por Alceu Amoroso Lima.

Diário, 1 de agosto de 1993.