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terça-feira, 20 de junho de 2017

Antonio Candido (1918-2017)


Morreu enfim meu imortal preferido: Antonio Candido. Foi tão longevo e lúcido que já me parecia ser de fato imortal. Devo a ele o mais importante encontro intelectual de minha vida. Foi quando o visitei em 1995. À época era amigo de muita afeição e circunstância de Walnice Nogueira Galvão, a mulher mais culta e erudita que já conheci. Antonio Candido deixou uma legião de discípulos de alta qualidade intelectual, mas os dois mais importantes são sem dúvida Roberto Schwarz e ela. Por isso muitas vezes falamos com admiração sobre ele: eu apenas sobre a obra, tão decisiva na minha vida que determinou minha migração das letras para a sociologia da literatura, e ela sobre o homem e a obra. Difícil, talvez impossível, decidir entre o que ela mais venerava e venera. Poderia ter chegado a ele através de Walnice. Mas um certo tipo de timidez ou insegurança sempre anulou qualquer desejo expresso de minha parte.
Por fim, anos mais tarde, acabei visitando-o graças à mediação de José Luiz Passos, sempre à vontade para procurar e seduzir os que admirava e desejava conhecer. Conversamos durante 4 ou 5 horas. Ele e d. Gilda me deixaram tão à vontade que conversamos em tom espontâneo e prazeroso, pelo menos para mim, levados pelo fluxo arbitrário da interlocução associativa. Impressionaram-me seus modos cavalheirescos sem qualquer vinco de afetação ou gosto de brilhar. São assim os que de fato sabem no sentido plenamente intelectual e ético do termo, isto é, aqueles que convertem o conhecimento em experiência ou modo de ser. Antonio Candido prescindia do gosto de impressionar porque era o que era, era o que se tornou de forma lúcida, harmoniosa e coerente.
Devido às razões acima sugeridas, Antonio Candido foi um dos raros intelectuais que me impressionaram não só através da obra, que já conhecia de muita leitura e releitura, mas através da sutil apreensão de uma correspondência entre o autor e a obra, entre o texto e a vida, expressão que dá título a um dos vários volumes de ensaios enfeixados com o propósito de prestar-lhe justa homenagem.
Aludindo de passagem a alguns pontos que retive na memória do nosso encontro, lembro-me do meu desconserto quando me declarou que a obra que gostaria de ter escrito era Casa-Grande & Senzala. Alongou-se em comentários sobre Gilberto Freyre, inclusive de caráter pessoal, num momento em que a reavaliação da obra deste não estava ainda consolidada, sobretudo nos arraiais uspianos. Neste contexto, não podia deixar de animá-lo a evocar memórias dos modernistas e intelectuais uspianos que conheceu intimamente: Mário e Oswald de Andrade, Drummond (este com muita reserva, pois era por temperamento quase inacessível), Paulo Emílio, Décio de Almeida Prado e Ruy Coelho. De Mário revelou-me algo que me causou forte decepção, pois então era o intelectual brasileiro que eu mais admirava, tanto a obra quanto o autor e o homem desvelado pela vasta correspondência e outras fontes íntimas.
Segundo Antonio Candido, no auge da perseguição política que Agamenon Magalhães moveu no Recife contra Gilberto Freyre, um dos mais veementes e corajosos críticos do interventor em Pernambuco, Sérgio Buarque de Holanda tomou a iniciativa de encabeçar um movimento de abaixo-assinados como instrumento de pressão política em defesa de Gilberto Freyre. Mário de Andrade recusou-se a assinar o documento. Isso me causou grande decepção no momento em que ouvi a história narrada por Antonio Candido.
Tão à vontade estava que lá pelas tantas incorri numa séria inconveniência. Somente a civilidade e a discrição do casal explicaria o silêncio discreto com que ouviram o que passo a relatar. Falando livremente de livros e escritores que influenciaram minha experiência de leitor, mencionei a admiração que dedico a Paulo Francis e Millôr Fernandes. De passagem, assinalei o significado que o semanário O Pasquim exerceu sobre a minha juventude no auge dos anos de chumbo da ditadura. Ora, poucos anos antes de 1995 houve um incidente intelectual que com certeza feriu Antonio Candido de forma talvez irremediável.
Situando o incidente, um grupo de intelectuais uspianos, todos discípulos de Antonio Candido, gravou e publicou na revista Remate de Males uma longa entrevista, mesclada a passagens de livre debate, sobre a emergência de um conjunto de romances de cunho realista renovado pela experiência da ditadura e da abertura política e cultural. O entrevistado era Davi Arrigucci Jr. Também participavam João Luiz Lafetá, Carlos Vogt e outros que agora esqueço. Comentando essa produção inusitada, que incluía Em câmera lenta, Quatro-olhos, O que é isso, companheiro?, Davi deteve-se na crítica severa a Cabeça, romance inaugural da trilogia de Paulo Francis. Este prontamente veio a público com um dos seus artigos mais brutais e injustificáveis que o leitor possa imaginar. Além do tom grosseiro, partiu para o ataque em tom puramente pessoal. Seu alvo, que nada tinha a ver com a história, era precisamente Antonio Candido. Soltou os cachorros em tom totalmente inqualificável. Antonio Candido e seus discípulos silenciaram. Que mais restaria dizer contra um polemista que por vezes chegava às raias da brutalidade possessa?
Somente alguns dias depois da visita, refletindo sobre ela, dei-me conta do quanto fui desastrado. Como já frisei, Antonio Candido e d. Gilda ouviram-me em silêncio. Depois a conversa retomou seu tom ameno, novamente prazeroso. Retirei-me já depois das 19h. Chovia uma chuva imprevisível em São Paulo. Prontamente, Antonio Candido me deu um guarda-chuva novinho de presente. Insisti em recusar, aleguei não haver necessidade. Sorriu com aquele ar doce e sereno, porém firme e enérgico, quando necessário, e me disse: “É para você. Tenho aqui outros justamente para presentear meus visitantes imprevidentes”. Despedi-me de alma leve e lavada e continuei lendo e relendo a obra única de Antonio Candido. Tenho-a, aliás, integralmente nas minhas prateleiras. Sua obra crítica é sempre agudamente plástica, inteligente e sensível. Ela está à altura da melhor crítica que já li em algumas línguas escrita pelos melhores críticos de muitas nacionalidades que já li e prosseguirei lendo enquanto tiver vida e lucidez. Antonio Candido é uma das mais belas expressões singulares do Brasil que sonhei possível.
Recife, 12 de maio de 2017.

sábado, 24 de setembro de 2016

Literatura não é biografia


A relação complexa entre a literatura e a realidade é um tema que sempre me apaixonou. Já esbocei em artigos ocasionais algumas reflexões insatisfatórias tentando melhor compreendê-la e traduzi-la em palavra escrita. Algumas circunstâncias recentes conduzem-me de volta a este tema.
Publiquei recentemente um poema intitulado “A voz da insônia”. Trata-se de um poema de tons sombrios no qual a voz narrativa do poema transpira tristeza, solidão, memórias dolorosas do amor perdido atormentando a insônia de um homem castigado pela solidão. Uma amiga generosa, tomada por um impulso comovente, telefonou-me para confortar meu sofrimento. É claro que isso me sensibilizou, inspirou-me gratidão, quando em qualquer circunstância quase ninguém mais me telefona, mas precisei esclarecer que não era o narrador do poema, isto é, a voz lírica tecida por meu discurso poético não era a minha. É claro que injetei no poema algo da minha experiência relativa ao espectro de afetos e vivências condensados no poema. Mas cuidei de esclarecer o mal-entendido, ou a leitura biográfica do poema, acrescentando que felizmente durmo bem e convivo sem conflitos com a minha memória escovada pela minha determinação de nunca abafar perdas e traumas seguindo a via corrente da repressão de tudo que nos causa dor e desprazer. Por isso não duvido de que a voz da insônia atormentada é uma das conseqüências das memórias reprimidas.
Logo em seguida, escaldado por esse tipo de confusão elementar entre literatura e biografia, publiquei uma crônica ficcional cujo narrador é um alcoólatra desbocado e agressivo. Variando uma expressão que ele próprio usa na crônica, meu personagem é o tipo de companhia que me incomodaria e evito na vida real. Por essa e outras razões que não esmiuçarei, adotei o expediente nada original de me dissimular sob as vestes de um pseudônimo. Chama-se Severo Machado. Não o recomendo a ninguém, embora a experiência comprove que atrai muitas mulheres, e tenho muitos outros motivos justificáveis para inventá-lo sem todavia declarar publicamente minha paternidade. Muitos dos seus traços de personalidade me foram inspirados pela leitura dos contos de Rubem Fonseca, meu contista brasileiro preferido na cena literária contemporânea.
II
Literatura não é biografia:

O poema não é um documento biográfico, me disse meu amigo poeta. A frase lhe saiu com sabor de queixa, do desânimo de quem se sente incompreendido pelo leitor. Como todo autor, ele precisa do leitor, é em parte por este que escreve, mas seus poemas não são documentos biográficos. Lidos nestes termos, o leitor concluiria que seus poemas são a confissão de um homem solitário e insone, atormentado por memórias dolorosas. Foi isso o que lhe disse uma amiga com a comovente intenção de o consolar de suas dores derivantes do modo como ela leu o poema. Era um poema, claro, sobre a solidão e a insônia.
Mas o poema, repisa o poeta, não é um documento biográfico. Ele dorme bem, vive em paz com sua memória, embora sofra a carência do amor, a aridez desses tempos difíceis que vivemos: tanta infelicidade e solidão gritadas e dissimuladas nas redes sociais contra os políticos corruptos, com perdão da redundância, contra as mazelas insanáveis do Brasil.
O poeta, ser sensível decerto em demasia, lamenta não apenas a incompreensão da leitora que desastradamente o consola, mas a realidade sem vias de fuga. Ora, dirá quem me lê, como um poeta não encontra na imaginação vias de fuga da realidade? É outra incompreensão que também desola o poeta. Como é banal o preconceito de que a poesia é uma fuga do real. Lembrou-me o dia em que, cuidando de um amigo operado num hospital, recebeu a visita de uma médica enquanto lia Drummond para o enfermo, gravemente enfermo. Nunca esqueceu o que ela disse: "Por favor, não me fale de Drummond. Estou farta de realidade".
Em suma, todo poema verdadeiro é necessariamente belo, mas talvez insuportável para quem se contenta em viver na superfície da realidade. Por fim, reiterando ainda a queixa do poeta, o poema não é o reflexo do que o poeta vive. O poeta é uma antena do que é humano, não Narciso enamorado de si próprio nas águas da arte.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

O botequim de João Ubaldo


Esta crônica, com algumas velas de obituário, é culpa de João Rego. Logo, já começo solicitando ao leitor certa compaixão crítica que não precisa ser estendida a João, xará do que morreu, pois as besteiras que aqui vou verter decorrem do seu encorajamento. Pondo ordem no defunto, pois a morte é definitiva e portanto não se faz com emendas, João Rego me reprovou com razão o fato de escrever com espírito de demasiada responsabilidade. Já nos bastam a seriedade da vida e do trabalho, acrescenta ele astutamente. Desse modo, façamos a revista Será? mesclando alguns grãos de galhofa e cachaça às tolices que escrevemos. E assim, seduzido pelo Vadinho que malandramente salta das cordas do violão de João Rego, vou me aboletando sem nenhuma responsabilidade no botequim de João Ubaldo.
João Ubaldo viveu de modo perigoso para a autonomia da sua obra literária. Quero dizer, fazendo de si próprio um personagem tão sedutor e exposto à corrente mitológica gerada pela mídia, acabou sendo talvez mais importante do que a obra que escreveu, mais personagem do que aqueles tramados por sua imaginação literária. Há por certo nesse velório festivo que seguimos, transportando para o túmulo nosso defunto de botequim, muita gente que conhece o defunto sem todavia conhecer a obra que legou à nossa tradição literária. Muitos que ignoram sua obra e seus muitos personagens sabem muito bem de um outro personagem, o autor, que transportou a ilha de Itaparica para o mapa da nossa literatura.
Como nosso amigo Luciano Oliveira, que infelizmente não cedeu à insistência dos meus telefonemas para escrever esta crônica, João Ubaldo batia o ponto infalivelmente no seu “escritório” onde se misturava “ao povo brasileiro”. Embora as expressões aspeadas suponham a agregação sem fronteiras de gente procedente de todas as origens sociais, o que nelas reponta é antes de tudo o povo narrado e celebrado nas páginas de João Ubaldo e do seu padrinho literário e amigo Jorge Amado, que também já regrediu ao útero da mãe natura a quem abençoo e culpo por estar neste mundo.
João Ubaldo tanto concorria com a sua obra que foi ontem celebrado no Jornal Nacional. Do botequim de Itaparica ao fardão da Academia Brasileira de Letras, cujo patrono supremo jamais abriria a porta daquela instituição vetusta para sentir o bafo de cachaça desse baiano irreverente e despachado, não se ouviu choro nem vela, mas a consagração do ser vivo, do homem João Ubaldo louvado por famosos e anônimos de muitos extratos sociais da nossa cultura. Ora, isso é justo, antes de tudo comovente, mas o leitor espera que aqui exponha alguns fiapos de razão passíveis de justificar a fama do defunto. Afinal, não foi por beber cachaça com o povo e celebrar a vida nas galhofas e estripulias dos botequins que João Ubaldo se tornou um substantivo singular ou um João indivíduo, não o João substantivo comum do Brasil.
E assim me apercebo da encrenca em que João Rego me meteu. Acenou-me um convite para induzir-me a escrever uma crônica de botequim, vertendo no texto antes cachaça do que algumas páginas suadas de cultura literária, e lá fui eu para a folia de João Ubaldo com o violão debaixo do braço e a cabeça vazia. Eis que agora me perco no labirinto que eu próprio construí com o barro da facilidade enganosa e preciso, antes que o defunto deite na vala, cavar uma vereda que de algum modo me transporte para a literatura e a estrada da vida.
Cavo então minha vereda lembrando o óbvio: ninguém, salvo Batata do celebrado Bacalhau do Batata, faz fama deitando na cama dos botequins. João Ubaldo viveu nos botequins misturado à folia cotidiana do povo brasileiro, mas suou muito decifrando os labirintos da cultura letrada. Além de nascer e se formar numa família onde essa modalidade da cultura ocupava papel central, desde cedo ligou-se por amizade e muitos modos de afinidade a gente como Glauber Rocha, prefaciador do seu primeiro romance, Jorge Amado, seu já citado padrinho literário e amigo, e foi ainda jovem reconhecido como escritor de primeira categoria ao publicar Sargento Getúlio. Além da carreira literária, consolidada pela composição de dois romances que se somam ao já citado para elevar o reconhecimento da sua obra (refiro-me literalmente entre parêntesis a Viva o povo brasileiro e O sorriso do lagarto), foi jornalista, roteirista, cronista prestigiado de importantes periódicos nacionais e internacionais. Por fim, já que nenhum escritor vive somente de botequim e cachaça, tanto se excedeu nestes prazeres, os do botequim e da cachaça, que muita gente se enganou supondo bastarem para a consagração literária. Como reza a frase famosa, embora talvez já esquecida, ledo e cego engano que esta crônica irresponsável é a primeira a empurrar para as trevas do dolce far niente dos botequins.
Concluindo, apesar de todos os despropósitos que aqui deito e enrolo, João Ubaldo suou muito o suor de todo artista merecedor de acolhida nos reinos da arte imaginativa que ele soube honrar. Por isso sua morte desperta tantos louvores, inclusive do povo que nunca o pôde ler, mas celebrou seu mais importante romance, O povo brasileiro, convertendo-o em samba-enredo num carnaval já remoto cujo ano esqueci. Mas continuaremos lembrando João Ubaldo. Quero dizer, lembrando e lendo sua obra, pois esta é tudo que fica.
Recife, 19 de julho de 2014

quarta-feira, 12 de março de 2014

Memórias de um Leitor VI


Minha politização coincidiu com o barateamento mercadológico das obras de esquerda, quando não sua pura e simples supressão imposta pela ditadura. Devido a isso, pude adquirir a preço de banana, como reza o lugar comum, obras de Lukács, Antonio Gramsci, Antonio Banfi, Adolfo Sánchez Vásquez e vários autores comunistas incluídos no índex da ditadura. A maior parte dos títulos era publicada pela Civilização Brasileira, que resistiu heroicamente até ir à bancarrota. Foi nesse momento que li boa parte das obras dadas a público pela editora,  comandada pelo editor excepcional e militantemente culto que foi Ênio Silveira. Demonstrando com incontáveis evidências disponíveis ser um comunista de visão cultural ampla, além de empresário consciente dos determinantes do mercado, ostentava um catálogo de obras cuja variedade e riqueza contribuiu de forma decisiva para adensar as forças civilizadoras na contracorrente da ditadura imposta pelos militares. Se de um lado escrevia ele próprio  As cartas ao presidente (cito de memória e infelizmente não tenho como cotejá-la com as fontes devidas, já que há muito me desfiz da minha coleção da Revista Civilização Brasileira), inspirado no modelo homônimo assinado por Norman Mailer endereçado ao presidente Lyndon Johnson, de outro, assessorado por intelectuais como Paulo Francis, contribuiu para divulgar no Brasil a moderna literatura norte-americana (Hemingway, Scott Fitzgerald, James Baldwin e outros), além da crítica e da teoria do teatro. Foi nesse momento que li os escritos críticos e teóricos de autores como Bertolt Brecht, Eric Bentley, Stanislavsky e Francis Fergusson.
A literatura brasileira, sobretudo aquela proveniente dos autores de esquerda (afirmar isso com relação a esse momento soa quase como um truísmo), mereceu grande acolhida da editora. À deriva da memória, digitando o que de imediato me ocorre, citaria a obra de Carlos Heitor Cony, cujo imenso prestígio foi largamente favorecido por sua valente oposição à ditadura condensada no volume de crônicas políticas O ato e o fato, Antonio Callado, Otto Maria Carpeaux, Ferreira Gullar, João Ubaldo Ribeiro, Dalton Trevisan, Hermilo Borba Filho, Moacir Lopes e outros deliberadamente aqui omitidos, pois  temo embaralhar a relação observável entre autores e editoras. É evidente que, em meio a tanta efervescência ideológica, não faltavam os autores menores cuja obra acabava favorecida por sua posição política. Foi o caso, por exemplo, de Moacyr Félix, parceiro militante de Ênio Silveira e editor da Revista Civilização Brasileira, e Thiago de Melo, de cuja poesia militante fazia troça com meus amigos mais lúcidos e ideologicamente isentos quando vivi um verão inesquecível em Porto de Galinhas, então um paraíso ecológico completamente isolado da atmosfera urbana que habitávamos.
Outra editora de catálogo extraordinário, também merecedora de registro sumário, era a Zahar Editores. Foi por certo a mais decisiva na composição de um catálogo imprescindível para o público universitário. O melhor da bibliografia de ciências humanas produzido nas universidades europeias  e norte-americanas de referência tornou-se acessível ao leitor brasileiro graças a esta editora. Poderia citar, ainda e sempre à deriva da memória falível, uma infinidade de títulos. Dentre tantos, escolho um autor: Erich Fromm. Antes, porém, menciono teóricos de larga repercussão à época, no geral lidos através de comentadores. Importaria aqui mencionar os teóricos da escola de Frankfurt, especialmente Herbert Marcuse, moda de inspiração revolucionária cuja recepção constitui um dos capítulos mais fascinantes e contraditórios na história das idéias recente. Marcuse (e secundariamente Adorno, Horkheimer e Benjamin) ingressa nos círculos radicais brasileiros como o teórico da “grande recusa”, também como o articulador de uma das sínteses mais radicais de Marx e Freud (aqui a referência crucial é Eros e civilização), é em seguida apropriado pelo irracionalismo radical propagado por Luiz Carlos Maciel (guru da “nova esquerda” veiculada na sua coluna Underground, do revolucionário periódico O Pasquim) e mais recentemente foi reposto, com toda a escola, nos trilhos do racionalismo radical representado por Sérgio Paulo Rouanet. José Guilherme Merquior, que afinal está sendo reeditado e portanto reavaliado depois de repelido ou ignorado durante décadas nos círculos acadêmicos mais intolerantes da esquerda, dedicou um livro pioneiro à escola intitulado Arte e sociedade em Marcuse, Adorno e Benjamin. Li este livro à época, mas confesso que pouco o assimilei, apesar da prosa clara e precisa do autor. Anos mais tarde, já como estudante de pós-graduação em sociologia, onde ingressei em  1978, li afinal o livro que considero o melhor da bibliografia sobre a escola de Frankfurt: A imaginação dialética, de Martin Jay.
Cuido agora de Erich Fromm. Concedo-lhe atenção especial, antes de tudo, por ter sido uma das grandes influências que recebi quando ainda soletrava obras e teorias visando orientar-me dentro da vasta e perturbadora bibliografia das ciências humanas. Muitos dos teóricos da moda, então como agora, me parecem impenetráveis. O próprio Marcuse, depois de tecer louvores à obra de Adorno, admite o quanto este exige de leitura árdua e tem por fim a honestidade de declarar não entender muito do que ele escreve (conferir a entrevista que concedeu a Bryan Magee no volume Men of Ideas). Castigava-me lutando para penetrar os sentidos obscuros impressos sobre tantas páginas, não raro por dever acadêmico, sobretudo quando, no fim da década de 1970, desloquei-me da literatura para a sociologia, depois de penosamente obter um diploma de graduação em letras que em nada concorreu para refinar minha relação autodidática com aquela.
Embora também originário da escola de Frankfurt, Erich Fromm é de uma transparência luminosa quando cotejado com seus pares cujo reconhecimento e prestígio acadêmico paira muito acima da sua obra. Bastaria lembrar que no gênero tornou-se praticamente um best-seller, se temos em mente as edições correntes de obras de ciências humanas. Erich Fromm e Bertrand Russell foram provavelmente os primeiros a chamar minha atenção para a psicologia como instrumento analítico fundamental para uma compreensão mais adequada da política. A análise psicológica que o primeiro faz dos regimes totalitários, de resto responsáveis por sua fuga para os Estados Unidos, mudou completamente a noção primária que eu tinha da política e das supostas motivações que para ela me atraíram.

A argumentação de fundo psicossocial que desenvolve para explicar o que designa por caráter autoritário, contrapondo-lhe uma perspectiva humanista inspirada nas idéias de Marx e Freud, foi de grande valia para mim. A  política, que é antes de tudo ação, quedava paralisada na consciência inquieta e atormentada, já que a ditadura bloqueou os meios objetivos da ação. Além disso, em meio às minhas perplexidades e dramas insolúveis, determinados antes por minhas condições de origem de família e meio social, do que por enganosos determinantes de base estritamente política, somaram-se à minha experiência viva com o proletariado, antes com o trabalhador da zona açucareira, para reorientar meus vínculos com a política. Acima de tudo, induziram-me a considerar de um ponto de vista renovado e mais consciente o comportamento dos meus amigos de esquerda, em particular suas atitudes dogmáticas e intolerantes, o travo de ressentimento social inconsciente que passei a identificar no ódio com que atacavam pessoas cuja humanidade concreta desprezavam reduzindo-as ou enquadrando-as em abstrações como “pequeno-burguês”, “alienado”, “reacionário”, “liberal”, “luta de classes”, “necessidade histórica”, “sujeito da história”...

segunda-feira, 10 de março de 2014

Memórias de um Leitor V


A áspera realidade da pobreza, não raro resvalando para a miséria, é prodigamente descrita na tradição literária nordestina, também no cinema, nas artes plásticas, na história social e saberes conexos. Vivendo nas ruas e bairros do Recife num tempo em que as fronteiras de classe eram bem menos nítidas, li com familiaridade inconsciente romances como O Moleque Ricardo, de José Lins do Rego e a tetralogia Um cavalheiro da segunda decadência, de Hermilo Borba Filho. Daí passei para a obra de Josué de Castro, notadamente Sete palmos de terra e um caixão. Também João Cabral de Melo Neto, com Morte e vida Severina, marcou de forma profunda minha consciência das condições iníquas que ainda hoje caracterizam nossa realidade social.
Corrigindo-me a tempo, ou sendo mais preciso, o que designo por “familiaridade inconsciente” é meramente a pobreza e a miséria enquanto fatos ou dados objetivos integrados desde a infância à minha experiência social. Reencontrar essa realidade transposta para o registro da invenção ficcional e da análise histórica e sociológica foi passar a encarar com estranhamento crítico algo decisivo para imprimir consciência política à minha percepção de leitor. Foi por essas vias e fontes que politizei minha relação com o mundo próximo e imediato do subdesenvolvimento nordestino, assim como também com o mundo social mais amplo. Noutras palavras, fui gradualmente captando em algumas das leituras que agora registro os determinantes externos do subdesenvolvimento do Nordeste e, por extensão, do Brasil. A isso acrescentei outra ordem de determinação: a das relações de poder interregional. Para integrar esses fatores complexos numa figura dotada de alguma coerência, inserindo o particular imediato, aderente à minha experiência social espontânea, no contexto político global, concorreram de forma decisiva minha leitura de Crimes de guerra no Vietnam, de Bertrand Russell, e a leitura de articulistas políticos como Otto Maria Carpeaux, Paulo Francis, Alceu Amoroso Lima, que na velhice rejuvenesceu politicamente passando a ser um dos críticos mais intransigentes e corajosos da ditadura militar, Antonio Callado, Carlos Heitor Cony e muitos outros que concorreram para politizar minha noção até então inocente da realidade do mundo. Como escreveu Graham Greene em The quiet American, “Innocence is a kind of insanity”. Muitas outras circunstâncias, algumas puramente acidentais, importaram para adensar minha consciência crítica conduzindo-me para a vertente das ideologias de esquerda. Não me detenho na reconstituição desse processo para não me desviar em demasia da rota retorcida dessas minhas memórias primariamente subordinadas à minha experiência de leitor.
Crimes de guerra no Vietnam, de Bertrand Russell, me caiu nas mãos por mero acaso. Alguém emprestou-o a minha irmã Zuleide, que vivia numa outra esfera de realidade e interesse, e assim ele acabou nas minhas mãos. A essa altura, entre 1969 e 1971, tendi progressivamente a envolver-me com a realidade política através da leitura de obras de ciências sociais, da própria literatura e do cinema. Outro fato que decisivamente me despertou para a política foi minha amizade com algumas pessoas de esquerda, no geral confessadamente comunistas. A primeira delas foi Urariano Mota. Conheci-o quando nos candidatamos a um emprego na empresa que editava o guia telefônico do Recife. Perdi um emprego, mas ganhei uma amizade. Nossa conversa revelou-nos de imediato afinidades literárias, políticas e musicais. Daí para a amizade estreita e constante a passada foi curta. Através dele, fiz também amizade com José Antônio Spinelli. Considerado o meio em que eu vivia, a aridez mental e a alienação política nele dominantes, Spinelli impressionou-me intelectualmente. Foi a primeira pessoa que me falou de Sartre, de vários intelectuais comunistas influentes e tudo isso aprofundou meu interesse pelas questões políticas da época. Meu ingresso na Faculdade de Direito, em 1971, consolidou e ampliou meus vínculos políticos com a realidade precisamente nas circunstâncias mais perigosas para quem ousasse envolver-se com essas coisas, já que foi precisamente durante esses anos que a ditadura se extremou na repressão implacável contra a minoria numericamente insignificante que se atreveu a desafiá-la, seja através da luta armada, seja através da oposição pública e ativa. Mas corto caminho para novamente não enveredar por digressões impertinentes.
Viver no Recife, então quanto agora, era esbarrar na pobreza e na miséria a cada esquina da cidade. A diferença que importa neste passo salientar é que então havia menos violência nas ruas, que ainda eram do povo, contanto que não se atrevesse a contestar a ditadura. O centro do Recife, também à diferença de hoje, era o centro da vida social da cidade. Havia os cinemas, as livrarias, os bares e sobretudo uma atmosfera de livre convívio nas ruas isenta das zonas de segregação hoje correntes. Além de freqüentar os cinemas do centro (o São Luiz, o Moderno, o Trianon e o Art Palácio), sem contar as salas de subúrbio já em vias de desaparecimento imposto pela crescente difusão da cultura televisiva, vivia nos bares do centro da cidade com os amigos, todos de esquerda.
Gilberto Freyre enfatiza em Sobrados e Mucambos os processos de mudança social descritos na dimensão da longue durée, como escrevem os historiadores franceses, que modificaram de forma profunda e irreversível os vínculos de confraternização atenuantes dos antagonismos implicados nos extremos senhor e escravo, casa-grande e senzala. O fenômeno da urbanização, desatado ao longo do século 19, alterou radicalmente as zonas de confraternização típicas da nossa sociedade colonial lastreada no patriarcalismo fixado no latifúndio monocultor e na escravidão. A transposição gradual dessa forma de organização social e cultural para a cidade rompeu os elos de confraternização tradicionais. Na interpretação otimista de Freyre, no entanto, eles se refazem no espaço da cidade através das procissões, das festas religiosas, do carnaval e de toda essa agregação festeira que pipoca a cada esquina ou espaço público ainda não privatizado pela sanha predatória das empreiteiras e seus prepostos, os políticos corruptos ou apenas inconscientes do caos urbano e das consequências desastrosas da política insana que praticam.
Se hoje as zonas de segregação tendem a acentuar-se, não obstante toda a ideologia “multiculturalista” e os mitos persistentes da nossa cultura integradora, naquele momento o centro da cidade, como já frisei, era ainda o espaço fundamental de vida associativa do Recife. Apesar da repressão política impiedosa, disseminada na universidade, notadamente na Faculdade de Direito, e nos pontos de maior agregação dos grupos politizados, vivíamos nos bares mais badalados, como o Mustang, na Avenida Conde da Boa Vista, nos cinemas, livrarias e sobretudo nas ruas. Lembro-me ainda dos papos sobre política e literatura, das nossas conspirações inviáveis e românticas às margens do Capibaribe e nas ruas onde circulávamos a qualquer hora do dia e da noite. O perigo que temíamos rondava na sombra e nada tinha a ver com a bandidagem marginal hoje corrente, bandidagem da qual nos protegemos fechados dentro da fortaleza do shopping, do condomínio policiado por câmeras, portões lacrados, alarmes eletrônicos e muros intransponíveis, não raro eletrificados. O Recife era outro. Não muito melhor, talvez pior, mas desse ponto de vista sem dúvida melhor. Em suma, havia ditadura, politização da juventude sem vias de acesso à militância institucionalizada, repressão política feroz. No mais, as ruas e o espaço público, embora sempre precário, eram ainda do povo.
Foi quando esse clima ideológico estava ainda se esboçando na minha vida pessoal que li Crimes de guerra no Vietnam. Diria simplesmente que representou um choque mental e ideológico na minha vida. Até então, minha consciência da cultura americana, assim como do que representava no mundo, era moldada sobretudo pelos filmes made in Hollywood. Noutras palavras, era um inocente do Leblon, lembrando o poema de Drummond. Cultuava os mitos do cinema americano, admirava a democracia americana, a música americana difundida pela cultura radiofônica e fonográfica da época e evidentemente vivia com minha imaginação erótica atormentada por Marilyn Monroe, Ava Gardner, Gina Lollobrigida, Elizabeth Taylor, Natalie Wood, Kim Novak, Doris Day e outras figuras mitológicas. Bertrand Russell revelou-me algo das entranhas da dominação imperialista imposta pelos Estados Unidos não apenas ao Vietnam, onde explodia a primeira guerra totalmente coberta pela mídia mundial, mas também ao Brasil e ao conjunto da América Latina. Foi um choque que suprimiu de vez minha inocência ideológica.
Outro sintoma das turbulências ideológicas da época associadas à minha experiência de leitor foi a emergência do boom da literatura hispano-americana. A difusão internacional desta literatura foi fruto antes de tudo de fatores políticos como o combate às ditaduras impostas praticamente a toda a América Latina, as lutas pela descolonização dentro do clima da guerra fria e o antiamericanismo reativo, fruto da política imperialista desencadeada pelos Estados Unidos em todo o mundo não-comunista. É claro que esse clima ideológico foi decisivo para que muitos jovens se bandeassem para o comunismo. Os de tendência mais moderada, abrangendo um leque que ia do catolicismo socialista ao liberalismo de esquerda, como era o meu caso, tornavam-se companheiros de viagem dos radicais. O clima de antagonismo ideológico, no entanto, reduzia todos esses matizes em termos práticos a dois pólos: direita versus esquerda, capitalismo versus comunismo. Na hora do pega pra capar, as forças repressivas nunca distinguiram quem do outro lado era comunista, simpatizante, companheiro de viagem, nem mesmo o inocente útil ou azarado, pego no “local do crime” na hora em que todos os gatos eram vermelhos.
Apesar da atmosfera ideológica acima grosseiramente pincelada, fui sempre um politizado malgré moi. Fosse outro o tempo, outras as circunstâncias, outra a geração dentro da qual me formei, jamais teria me metido com política, jamais teria feito o pouco que fiz dentro das possibilidades objetivas e subjetivas do tempo. O pouco que fiz foi feito contra o meu medo, minha aversão temperamental à política, minha consciência de que não podia ser indiferente, também um sentimento de solidariedade e compaixão inculcado por anos de leitura e convívio lastreados por valores humanistas cuja abrangência ia do catolicismo ao marxismo. Não preciso declarar que a política constitui um componente fundamental da consciência de todo intelectual digno deste termo, ainda quando se recuse à militância ou seja avesso à ação prática característica das formas e processos implicados no exercício do poder, nos modos de ordenação política da realidade. Sei de tudo isso, incorporo tudo isso à minha representação mental da realidade, mas confesso e reitero minha aversão à política compreendida no sentido prático e dominante do termo.
Voltei a derivar para as considerações político-ideológicas porque, no momento que considero dentro destas memórias de leitor que vou canhestramente compondo à deriva da memória, não há como dissociar minha experiência de leitor desse contexto que teima em enfiar-se nas linhas que vou cosendo tendo os livros como alvo prioritário. Isso explica o desvio que tomei em direção aos autores americanos de língua espanhola. Acho que o primeiro que li foi Gabriel García Márquez. Dele saltei para Juan Rulfo, Alejo Carpentier e Mario Vargas Llosa. Borges, hoje pairando por consenso crítico acima de todos, era então no mínimo silenciado. Li-o bem mais tarde. Um pouco antes conheci a obra de Ernesto Sabato e Manuel Puig. Minha leitura definitiva, direi mesmo suprema e insuperável dentro dessa linhagem procedente da língua espanhola, foi Dom Quixote, de Cervantes, que evidentemente nada tem a ver com os condicionantes ideológicos implicados nessa etapa da minha vida de leitor. Hoje os que mais leio e portanto elejo como preferidos são Borges, Octavio Paz, Mario Vargas Llosa e Ernesto Sabato.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Érico Veríssimo, Jorge Amado e Graciliano Ramos


Memórias de um leitor V: E. Veríssimo, J. Amado e G. Ramos

Do ponto de vista cronológico, Érico Veríssimo foi o primeiro autor brasileiro que marcou de forma mais profunda minha formação literária. Li quase toda a sua obra publicada numa coleção de capa-dura da Editora Globo, onde exerceu papel inestimável na tradução e divulgação da literatura inglesa entre nós. Olhai os lírios do campo, provavelmente ainda seu maior sucesso de público, transformou significativamente minha experiência e sensibilidade. Anos mais tarde incorri no erro de o reler, já evidentemente bem mais amadurecido como leitor. Não preciso dizer o quanto me decepcionei. O livro encolheu muito, pareceu-me empobrecido por uma concepção de humanismo sentimental que o próprio autor anos mais tarde também reconheceu. Mas como negar a importância decisiva que exerceu sobre minha vida e minha imaginação quando o li ainda jovem inexperiente, impregnado de fantasias humanistas e sobretudo carente de viver uma vida mais plena de amor e generosidade?

A obra de Érico Veríssimo me deu isso e muito mais. Através dela, dos seus personagens prematuramente fracassados, inábeis para viver, tateando como eu uma direção mais consistente dentro da vida, consegui esboçar um sentido passível de tornar minha juventude confusa mais tolerável. Na obra de Érico Veríssimo, assim como na de Thomas Hardy, as personagens mais impressivas e determinadas, portadoras de extraordinária energia moral, são quase todas femininas. Olívia e Fernanda, notadamente, tornaram-se modelos sonhados e sofridamente desejados na minha imaginação. No tipo arredio de Vasco, com sua introversão de “bicho do mato”, identifiquei com prazer minha própria e confusa introversão. Sentia-me como se encontrasse no espelho da realidade ficcional meu outro que não somente povoava a solidão da minha adolescência intransparente, mas também me reacomodava nas linhas turvas de minhas irresoluções existenciais. Supria ainda por via vicária, voltando às personagens femininas, como é freqüente na nossa experiência imaginativa, a carência de mulheres na minha infância e adolescência. Privado de mãe, de irmãs e outros modelos femininos, sofria em mim a aridez de uma juventude sem amor, o tipo de amor somente concebível na nossa relação com a mulher: o amor da mãe, da avó, da irmã, da namorada... Já nem direi da amiga, pois na atmosfera ainda asperamente patriarcal em que me formei os gêneros somente se associavam amorosamente ou por via parental ou pela via crua da iniciação sexual nos quartos das empregadas domésticas e nos prostíbulos, como foi o meu caso.

Érico Veríssimo acrescentou à literatura brasileira, num momento de grande renovação e difusão da prosa ficcional, uma vertente do romance de ambientação urbana que me marcou bem mais do que a corrente hegemônica da sua geração: o romance regionalista nordestino. Do ponto de vista ideológico, sua obra abre ou alarga um veio do liberalismo humanista com o qual ainda hoje retenho fortes afinidades. Do ponto de vista da técnica, da renovação da forma narrativa, ele incorporou à nossa literatura contribuições significativas do romance inglês que tanto difundiu no Brasil trabalhando como consultor e tradutor da Editora Globo. A técnica do contraponto narrativo, em particular, emprestada do romance Point Counterpoint, de Aldous Huxley, foi por ele admiravelmente empregada na composição de Caminhos Cruzados, um dos seus romances ainda merecedores de releitura.

Nesse momento, o romancista nordestino que mais li e me impressionou foi Jorge Amado. Se minhas leituras e meu indeciso gosto literário dependessem mais diretamente das minhas origens sociais e geográficas, o mais plausível seria tender para a leitura de José Lins do Rego e Graciliano Ramos. O fato, porém, é que nas linhas erráticas do meu itinerário de leitor o acaso foi quase sempre o fator determinante. Cheguei a Jorge Amado, suponho, de algum modo induzido por minha politização tardia, pelo menos para os padrões da minha geração, uma geração eminente e precocemente política. Minha politização foi praticamente sufocada na raiz porque, em termos geracionais relativos, cheguei a ela, a política, um pouco tarde. Comecei a me politizar em fins de 1968, portanto às portas da decretação do AI-5, que bloqueou todas as vias de militância política institucionalizada. Além da sua popularidade indisputável, nem Érico Veríssimo competia com ele em termos de público, Jorge Amado consagrou-se a uma temática literária cuja recepção foi ainda mais favorecida pelo clima de repressão política que passou a vigorar depois do AI-5. Refiro-me mais precisamente à fração da sua obra anterior a Gabriela Cravo e Canela (1958), isto é, à fase da sua militância comunista de franca adesão ao stalinismo e, no plano literário, de idealização romântica e sentimental do herói popular que, curiosamente, nem nessa fase é o proletário. Esse herói idealizado – como Guma, de Mar Morto, e Jubiabá, do romance homônimo – nutriu a imaginação romântica dos jovens de esquerda com quem convivia na universidade.

A necessidade de sobrevivência, mais do que a opção política de trabalhar em contato direto com o povo oprimido, levou-me a trabalhar no Departamento de Pessoal de uma fábrica muito conhecida no Recife. Essa experiência acabou sendo um meio extraordinário e imprevisível de conscientização política. Em contato diário com o operário em todas as esferas da minha atividade profissional (da admissão e demissão de empregados, processos que passavam obrigatoriamente pelo meu birô, até a linha de montagem e o lazer à base de futebol e cachaça), lavei meus olhos e minha consciência ideológica de todas as mitificações engendradas pela militância de classe média baseada em abstrações literárias e literatura panfletária. Trabalhando na fábrica durante dois anos no auge dos anos de chumbo da ditadura militar, conheci o operário real e assim despojei-me de todas as idealizações românticas e populistas, muitas delas assimiladas através da literatura de Jorge Amado publicada durante sua militância stalinista. Foi também nessa época que li Graciliano Ramos. Desde então passei a reconhecer sua supremacia absoluta entre os escritores dessa vertente literária e sinceramente me desinteressei da obra de Jorge Amado.

Como todo grande criador de literatura, Graciliano Ramos não subordina sua obra aos ditames de nenhuma ideologia, ainda quando fora da literatura se declare militante comunista. Sabemos que aderiu ao comunismo e jamais renegou esta ideologia. Pelo contrário, na sua vida tardia empreendeu uma viagem à União Soviética. Dessa experiência resultou seu livro mais vulnerável, relato das suas impressões de viagem publicado sob o título seco e aparentemente neutro de Viagem. Ele, cuja obra é de um rigor realista intransigente, rigor que se estende da obra ficcional para a autobiográfica, ironicamente esboça nas páginas de Viagem uma representação do mundo comunista que de fato não passava de uma completa liquidação da utopia concebida por Marx e Engels.

Sua percepção da realidade soviética foi por certo induzida pelas fontes oficiais que o guiaram através do pesadelo stalinista revelando-lhe tão-só o que convinha revelar. De qualquer modo, ainda hoje me espanta que um espírito tão negativo quanto o de Graciliano Ramos tenha sido traído tão completamente pela máquina da propaganda e as tramas insidiosas da ideologia. Talvez seu engano seja apenas uma reiteração já banalizada da nossa incapacidade de suportar a realidade isentos do véu transfigurador da fantasia, que no caso corresponde à natureza deformadora da ideologia política. Confesso não haver retido nenhuma memória significativa desta obra para aventurar-me a comentá-la. Lembro apenas o que todo leitor de Graciliano Ramos sabe: ele pinta um retrato demasiado favorável da União Soviética e por isso avesso ao escrutínio impiedoso do seu realismo. Daí o espanto das linhas precedentes e a ênfase que confiro ao engano em que incorreu o realista impenitente. O que importa é sublinhar aqui a forma desse realismo que no registro especificamente estético lhe assegura a supremacia acima mencionada nos quadros da literatura de forte inspiração social e política dos anos 1930 e 1940.

Contrariamente a Jorge Amado, Graciliano jamais incorre na idealização dos seus miseráveis e oprimidos. Fiel à sua aguda percepção da realidade, expressa em prosa seca e intransigente, ele a reinventa sem deformá-la acrescentando-lhe as tintas idealizadoras e românticas da ideologia, como é o caso patente de Jorge Amado. O trabalhador rural, o flagelado e outros tipos humanos que repontam da obra de Graciliano são profundamente reveladores da consistência ética desse grande romancista que se recusa a dissolver sua força criadora povoando seu mundo árido e atormentado com heróis populares positivos cuja função ideológica consistiria em reduzir a literatura à realização de uma causa ou convicção política professada pelo autor. Fiel a seus ideais estéticos, sempre prevalecentes à ideologia que também não se isenta de revelar, Graciliano dá vida a tipos humanos cuja miséria social os reduz às formas elementares da existência. Seres esmagados pelo império da necessidade, Fabiano, Sinha Vitória, Casimiro e outros personagens da sua obra são impermeáveis ao “estalo mágico” da verdade revolucionária que lemos, por exemplo, em várias obras de Jorge Amado publicadas durante seus anos de dócil militância stalinista, quando textualmente reduziu sua literatura a um mero documento social, instrumento de expressão a serviço de uma causa ideológica.

Embora São Bernardo seja a grande realização literária, de Graciliano Ramos, talvez Vidas secas seja a obra que melhor traduza em termos formais a coerência entre fundo e forma, entre a expressão temática da realidade social do sertão nordestino e a linguagem áspera e precisa reveladora do estado de miséria primitiva em que vivem seres como Fabiano e Sinha Vitória. Em Graciliano Ramos, a literatura é um testemunho intransigente de integridade ética diante da ideologia e dos fatos da realidade, que é decantada pelos processos formais de natureza realista não para servir à representação idealizada de uma ideologia particular, mas para representar de forma radical a realidade apreendida e esteticamente formalizada por todo grande escritor realista. Por isso sua obra constitui uma veemente recusa da mitificação da pobreza, do herói popular revestido de virtudes que não passam de projeção idealizada do autor, não por acaso um membro de camadas sociais que vivem da espoliação dos fabianos da seca ou dos zé ninguém dos canaviais, e por isso nunca provaram da poeira da miséria, do nada ou quase nada que é sobreviver equilibrado sobre a linha tênue da necessidade.

O leitor carente de mudar o mundo, ou dele escapar através das muitas vias de fuga imaginária propiciadas pela literatura e a arte, saía da leitura de romances como Jubiabá e Mar morto transformado pela idealização da pobreza e dos personagens populares que nela encontram alimento revolucionário para abolir a servidão de classe, fundar a utopia passível de reconciliar nossa humanidade dividida e cruelmente regida pela dominação imposta pelos poderosos (evito a expressão marxista mais específica, dominação burguesa, porque o conjunto da obra de Jorge Amado pouco nos revela acerca da burguesia e do seu correspondente antagônico, o proletariado) e portanto transpor o céu ou o paraíso das religiões para o reino da imanência. O leitor da obra de Graciliano Ramos, contrariamente, sai mais esclarecido sobre a necessidade que governa seus personagens, a opressão de classe e outros ingredientes fundamentais que regem o mundo dividido e cruel onde habitamos e sobretudo sofremos. Parece-me enganoso, portanto, ler esse mundo inventado pela força ficcional de Graciliano Ramos como um mundo destinado à redenção ou ao ideal de uma humanidade reconciliada fundado numa ideologia.

Certa vez Drummond assinalou metaforicamente a ambiguidade peculiar da literatura observando que ela é uma casa com duas portas: uma conduz o leitor atormentado pela realidade em direção a uma linha de fuga, um meio de escape dessa realidade que é incapaz de suportar ou mudar; a outra, inversamente, transporta o leitor de volta à realidade franqueando-lhe uma percepção mais aguda do mundo e do que ele é dentro do mundo. Refaço a metáfora com termos muito livres e por certo menos precisos e convincentes. Não importa. Importa apenas ser fiel ao cerne da metáfora expressa por Drummond. Não preciso acrescentar que ele e Graciliano Ramos pertencem à vertente literária associada à segunda porta.


quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Memórias de um leitor IV


Retomo minhas memórias de leitor costuradas sem ordem ou método. Elas seguem o princípio de composição implícito em quase toda a prosa que escrevo para o meu blog. Parto sempre de uma vaga intuição (uma frase, uma ideia decorrente da leitura de alguma obra, um fio de memória...) e daí o texto se vai desatando e ganhando forma à medida que escrevo. É claro que nem tudo é improviso e facilidade desatenta no meu anárquico processo de composição. A versão preliminar é sempre revista, às vezes repetidamente revista, e a revisão pressupõe sempre correções, inserções, adição de parágrafos inteiros, também a supressão de palavras ou frases. Mas o fato é que o processo geral não obedece a nenhum plano de composição, sequer um roteiro ordenando as partes gerais do texto.

Sinceramente, nada me parece invejável nessa facilidade de composição. Ela é antes de tudo sintoma da minha formação anárquica, fruto de uma vida sem direção ou propósito orientado, de regra decorrente de uma formação de família e escola adequadamente instituídas. Nesse sentido, minhas próprias memórias de leitor esclarecem as origens e a sedimentação de uma inteligência indisciplinada e arbitrária. Esclarecem ainda muitos dos fracassos da minha vida, notadamente meu fracasso acadêmico. Por isso me vexa ainda dizer que fui incapaz de escrever minha tese de doutorado. Sei de alguns maldizentes que me acusam de haver desperdiçado tempo e dinheiro público durante meus anos de estudo na Inglaterra. No entanto, foram os anos em que mais estudei na minha vida, os anos de mais intensa aprendizagem da minha vida. Eles concorreram de forma decisiva para desprovincianizar minha percepção do mundo, em particular do Brasil. Portanto, não foi por falta de estudo e trabalho intelectual constante que falhei na redação integral da minha tese. Foi por muitas outras razões, algumas até inconscientes. Evito considerar aqui as conscientes, pois abusaria em demasia da composição digressiva deste texto que já se trai por si próprio.

Voltando ao cerne do assunto, minhas memórias de leitor, volto a recuar às leituras mais remotas, já que a cronologia destas memórias é tão arbitrária e caprichosa quanto os demais elementos da composição. A paixão de ler alimentada pela estante do meu tio Edmundo logo se revelou insaciada. Afinal, a fonte que me nutria não passava de uma estante. Melhor dizendo, de meia estante, pois suas pernas ou suportes propriamente ditos correspondiam à metade da sua altura. Em suma, a estante teria 4 ou 5 prateleiras, cuja extensão não ia além de um metro. Não bastasse isso, meu tio, leitor autodidata perdido num fim de mundo iletrado, reuniu naquele móvel solitário um punhado de livros não apenas limitado na quantidade, mas também na qualidade e variedade dos assuntos. Daí proveio minha vontade de me tornar comprador de livros. Mas como adquiri-los em Igarapeba, ou mesmo em todo um vasto recorte geográfico da mata sul de Pernambuco? De Quipapá a Palmares, não havia livrarias ou bibliotecas.

Dando um salto no tempo, para melhor ilustrar a miséria da cultura letrada ainda dominante em grande parte do Nordeste, acompanhei o Quinteto Violado durante uma curta temporada de shows que fez indo de Recife a São Cristóvão, Sergipe, onde havia um festival anual de artes. Isso ocorreu na primeira metade dos anos 1980, quando já era professor de sociologia da Universidade Federal de Pernambuco. Nesse momento mantive ligeira relação com o Quinteto devido à minha amizade com Rita Melo, mulher de Marcelo Melo, líder do Quinteto. Rita foi minha aluna no curso de Ciências Sociais e através dela aproximei-me momentaneamente de Marcelo. Convidado por ambos, aventurei-me a acompanhá-los durante essa curta sequência de shows viajando no ônibus do Quinteto. Há muito cultivava o hábito de sempre viajar levando livros na bagagem. Nessa viagem, porém, tão excepcional, decidi apostar no prazer suficiente acaso propiciado pelos companheiros de viagem. Logo ao fim do primeiro dia me dei conta de que seria difícil integrar-me ao espírito dominante no grupo. Daí sobreveio a necessidade de comprar pelo menos um livro para ocupar as muitas horas vazias da viagem. Atravessamos Alagoas e Sergipe, paramos em Arapiraca, onde o Quinteto tinha um show programado, e nada de encontrar sequer uma pequena livraria. Somente ao chegar a Aracaju pude afinal comprar um livro.

Se nos anos 1980 a realidade do acesso à cultura letrada no Nordeste era a que grosseiramente esbocei no parágrafo precedente, o que dizer de Igarapeba e regiões próximas em meados dos anos 1960? Acabei descobrindo num periódico da época que a Editora Vozes vendia livros por reembolso postal. Já não lembro de que modo recebi ou tive acesso ao catálogo da editora, então ainda muito restrito e especializado em publicações religiosas, dado o fato óbvio de que era e é uma editora criada por membros do clero católico. No início dos anos 1970 a editora renovou-se de forma notável, incorporando e ativamente promovendo até a cultura de vanguarda da época: o concretismo, a poesia processo, o estruturalismo etc. Dilatando o alcance secular dos seus critérios editoriais, a Vozes se renovou de forma extraordinária acentuando no registro empresarial seu processo de renovação mais ampla observável sobretudo no domínio da política traduzida em termos práticos nas formas de oposição possíveis à ditadura militar.
Decidi então comprar vários livros via reembolso postal. Como então estava de férias em Igarapeba, usei o endereço de lá. Infelizmente, Igarapeba não tinha e nunca teve uma agência dos correios. Por isso precisei ir a cavalo até São Benedito do Sul, a cidade mais próxima, que foi aliás onde nasci. Esse breve relato sugere o atraso cultural em que essa região do Nordeste, assim como tantas outras, vivia e ainda vive. Também o acesso a jornais e periódicos era muito precário. Chegavam a Igarapeba através do trem que fazia o percurso Recife-Maceió. Portanto, seria mais apropriado dizer que passava, não que chegava. Havia no trem um jornaleiro, que na verdade era identificado como o gazeteiro. Esperava-o ansioso na plataforma da estação nos dias em que trazia as revistas e gibis que lhe encomendava. Em face dessa aridez, desloco agora o foco das minhas memórias de leitor para o Recife, onde já morava e estudava desde os 10 anos de idade.

Abro parênteses para mencionar um romance de Jorge de Lima, Calunga, cuja trama narrativa tem como fio a viagem feita pelo protagonista nesse trem que ligava o Recife a Maceió. Li o romance só por essa razão. O personagem toma o trem na estação central do Recife e a narrativa se desdobra descrevendo a viagem passo a passo: a sucessão das estações, as paradas, cenas típicas daquele mundo que tanto conheci viajando durante muitos anos de minha vida como o personagem de Jorge de Lima. Reconheci assim meu olhar de passageiro em muitas das páginas do romance onde o autor fixava tipos humanos observados em trânsito, a paisagem humana à espera do trem na plataforma das estações, as moças de vilas e cidades enfeitadas à espera de parentes ou amigos ou apenas vaidosamente expostas à curiosidade dos passageiros.
Além disso, num mundo de tantas vilas e cidadezinhas sufocadas pela rotina e a pobreza de toda sorte de meios de vida e lazer, a passagem do trem era não raro o acontecimento social mais importante. Por isso era frequente alguém convidar amigos para “esperar o trem”. De modo inconfessado, ou inconsciente, esta expressão traduzia o desejo do fato novo, ainda que irrelevante, a aragem do imprevisto num mundo onde tudo era previsível. Esperar o trem, na imaginação de tantas vidas áridas, era figurar no improvável a esperança de uma outra ordem de vida, era fabular o real factível sem contudo ser ficcionista, tão ausente era a ficção literariamente compreendida num mundo ancorado na tradição oral. Com o trem vinham viajantes frequentes ou ocasionais, as notícias da capital estampadas nos jornais vendidos pelo gazeteiro, as revistas e outras atrações procedentes de um mundo inacessível à modorra de um cotidiano regido por ritmos sociais tediosamente martelados. Aludo, em suma, ao tema da “vida besta” explorado por Drummond na sua poesia inicial e tão agudamente captado por Mário de Andrade. É bem significativa essa transição do nosso primeiro modernismo da atmosfera urbana, signo da modernidade técnica celebrada por algumas correntes da vanguarda estética, para o Brasil tradicional, o Brasil dos vastos interiores, dos traços diferenciadores da nossa “vida besta” atada ainda a ecos bem vivos da nossa herança colonial, do Brasil agrário imune ao avanço da modernidade forjada nos grandes centros urbanos.

Retomando o fio solto da minha narrativa de memórias, adentro agora nas memórias da escola onde comecei estudando no Recife. Além de a escola não ter biblioteca, como é ainda a realidade da maioria das nossas escolas, os professores eram bem pouco cultivados para sequer pensar em inculcar nos alunos algum interesse pela literatura, as artes, as disciplinas humanistas. Logo, contava apenas com minha curiosidade espontânea, minha carência de fantasia e vida imaginativa. Acho que parte considerável dessa carência manifestou-se de imediato como necessidade de existência vicária, linha de fuga de uma realidade cotidiana demasiado estreita e opressiva. Linha de fuga sobretudo do ambiente familiar que me infelicitava dolorosamente. Assim, procurei na ficção a vida imaginária e a dilatação de horizontes que compensassem a pobreza da minha vida de família, escola, vizinhança, minha carência de amor e compreensão... No ambiente em que vivia, o acesso à literatura era tão precário e acidental que atribuo a isso minha completa ignorância da literatura infantil de Monteiro Lobato, assim como muitas outras obras que enriqueceram a experiência imaginativa de tantas crianças e adolescentes. Penso, por exemplo, na literatura dos contos de fadas, nas obras de Andersen e dos irmãos Grimm, também nas narrativas fabulosas das Mil e Uma Noites. Infelizmente, meu percurso de leitor passou ao largo de todas essas obras. Ocorreu-me pensar nisso, e lastimar essas lacunas, quando pela primeira vez li um dos melhores contos de Clarice Lispector: Felicidade Clandestina.

Comecei explorando de forma insaciável a literatura barata, os livros de bolso editados pela Bruguera, Monterrey e similares especializadas em coleções de literatura policial e far-west. Mergulhei de forma tão obsessiva nesse tipo de leitura que chegava a ler três livros de bolso em um único dia. Além disso, comprava-os aos montes como tralha de segunda mão nas barracas situadas no oitão do Mercado de São José. Chegava a ler e colecionar cerca de 300 volumes. Revendia-os no mesmo lugar onde os comprava, depois de os ler, somente para ter o prazer de começar do zero uma nova coleção cujo destino refazia o ciclo da compra e venda, leitura e desapego pelos objetos do meu culto. Curioso constatar aqui como agora as duas pontas da minha vida de leitor se atam entretecendo fios desencontrados, senão avessos. No passado remoto, ensaiando meus primeiros passos de leitor, desfazia-me dos livros que lia talvez movido pela obscura consciência de que lia em trânsito, afiava a lâmina do hábito de ler desperdiçando meu tempo com livros descartáveis que por isso são livremente intercambiáveis. No fundo, apesar da sede de aventura e vida vicária que me satisfaziam, cada livro era qualquer um, era matéria impressa similar à edição diária do jornal que lemos para saber das notícias que logo se dissolvem, cedem lugar às que vêm na fila interminável da repetição da vida e por fim acabam servindo apenas para embalar peixe no mercado ou simplesmente ser atiradas à lata do lixo. Hoje, saltando para a outra ponta da vida, o que me seduz é o sonho ou mito da biblioteca essencial, a biblioteca restrita aos poucos livros que definitivamente impregnaram minha experiência de leitor.

Passei logo em seguida aos livros da grande tradição literária européia adaptados para o público juvenil. Descobri essas obras frequentando a seção de livros da Viana Leal, situada na Rua da Palma. Era então uma grande e atraente loja, a primeira, salvo engano, dotada de escadas rolantes. Essas escadas me seduziam e assim era um prazer renovado subir e descer transportado por elas. Na seção de livros para a juventude, meu paraíso inconfessado, comprei muitos volumes editados pela Melhoramentos. Eram obras da grande tradição literária europeia adaptadas, como acima salientei, para o público juvenil. Dentre as que ainda lembro, com atraentes ilustrações sobre capa-dura, comprei e li O Conde de Monte Cristo, O Máscara de Ferro, Os Três Mosqueteiros, todos de Alexandre Dumas; A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas Filho, A Ilha do Tesouro, de Stevenson, Ivanhoé, de Walter Scott, David Copperfield, Oliver Twist e As Grandes Esperanças, de Charles Dickens; Robinson Crusoé, de Daniel Defoe, Dom Quixote, de Cervantes, As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, Quo Vadis, de Henryk Sienkiewicz, e muitas outras obras.

O passo seguinte na minha trajetória errática de leitor está associado à Biblioteca Pública de Afogados. Como era pobre para comprar livros, pois a essa altura o declínio social e econômico da família tinha já descido ao rés do chão, o acervo da biblioteca pareceu-me um mundo inexplorável. Na verdade, era modesto e quase todo composto por volumes já gastos e remendados com fita durex. Foi lá que de fato comecei a descobrir a literatura brasileira, além de acrescentar a minhas leituras da literatura européia autores como Stendhal, Balzac, Flaubert, Thomas Hardy, D. H. Lawrence, Somerset Maugham, Graham Greene e Charles Morgan. Este, sabemos, foi um dos maiores fiascos da crítica brasileira, que inseriu sua obra no círculo dos autores canônicos simplesmente por indução equivocada da crítica francesa. O fato mereceria uma reflexão sobre os mecanismos de recepção da obra literária, com ênfase sobre os nexos entre centro e periferia literária, além do poder dos argumentos de autoridade, mecanismos de resto muito vivos na cultura acadêmica de hoje e do passado.

domingo, 20 de outubro de 2013

Vinícius II


O documentário Vinícius é tão rico de temas e sugestões artísticas e humanas que ao decidir comentá-lo acabei excedendo todas as medidas previsíveis e razoáveis. Afinal, escrevo para blog e bem pouca gente tem ainda a paciência de ler na telinha qualquer texto que ultrapasse a medida de duas páginas, não importando a relevância do tema e a própria qualidade da escrita e do comentário. Digo isso, reconheço limpidamente isso, e no entanto insisto em exceder a própria medida do excesso. É um outro modo, ainda que involuntário, de prestar homenagem ao homem e artista excessivo que foi Vinícius. Se o romântico é por definição um ser de excessos, sobretudo quando cotejado com o seu avesso, o clássico, Vinícius foi romântico tão incorrigível que sustentou a tensão romântica da sua poesia quando o romantismo estava já francamente esgotado enquanto estilo de época ou movimento estético. É claro que num outro sentido, no sentido de atitude existencial em face do mundo, o romantismo é sempre presente.

Essas observações ligeiras favorecem aqui uma retomada do documentário no registro pertinente às amizades de Vinícius. Seria difícil, senão improvável, encontrar na história da nossa cultura um artista mais necessitado de amizade e companhia do que Vinícius. Ele foi no sentido mais excessivo do termo, novamente como romântico típico, um ser entregue ao exercício do convívio fraternal e intenso. É algo que testemunhou na linha da biografia, sempre povoada por gente, festa e confraternização, e também na própria poesia e na música que criou. A ênfase aqui, por razões que explicarei logo adiante, recairá sobre a música. Com certeza, não existe arte investida de maior energia socialmente integradora do que a música. Isso sugere possíveis explicações sociológicas para a hegemonia da música na nossa cultura, tão aderente aos vínculos gregários, à celebração da festa e do prazer grupal.

Vinícius foi poeta e antes de tudo poeta. Mas a poesia que por muito tempo praticou, a canônica e impressa, supõe um estado de recepção oposto ao da música popular. Lemos poesia de ordinário em estado de solidão. O poema, sobretudo o de natureza romântica, como é o caso do de Vinícius, é lido com frequência em voz alta, ou pelo menos sussurrado. Um crítico como Harold Bloom recomenda, com razão, que se leia poesia desse modo. Afinal, a leitura de viva voz acentua os elementos rítmicos e musicais do poema. Ainda que assim acrescentemos à recepção da poesia esses traços socializadores, o fato é que a leitura é por definição solitária. Não que estejamos sozinhos, bem pelo contrário, mas também precisamos estar fisicamente sozinhos quando lemos. É esse paradoxo que explica a verdade profunda e tocante contida nestas palavras de William Nicholson: “Lemos para saber que não estamos sozinhos”.

Vinícius transita, já em meados da década de 1950, da poesia impressa para a música popular. É quando conhece Tom Jobim e se associam para musicar Orfeu da Conceição. E assim nasceu a parceria que foi provavelmente a de mais alta distinção poético-musical do Brasil. A história, inclusive com seus lances anedóticos, é conhecida demais para que aqui volte a repisá-la. O que ligeiramente acentuo é o fato de que a parceria Tom Jobim e Vinícius vai muito além do repertório identificável como característico da bossa nova. Vai tão além que precede e sucede esse estilo. Confiná-los nos limites da bossa nova, como alguns erradamente fazem, é empobrecer a amplitude e variedade da música que produziram tanto juntos quanto sozinhos ou associados a outros parceiros que tiveram.

O documentário, aliás, contém uma das cenas mais engraçadas de pura farra que já vi na tela. Refiro-me à passagem em que Tom e Vinícius estão cantando “Pela luz dos olhos teus” visivelmente de pileque. Tom toca violão e Vinícius, debruçado no seu ombro, canta meio engrolado a letra dessa bela canção. Depois emendam, em tom de humor, as dores de cabeça que dão às mulheres por causa dos excessos etílicos em que incorrem e a cena evidencia. Tom então diz que sua mulher, já desesperada, pegou duas garrafas de uísque e arrebentou-as na cozinha para impedi-lo de continuar bebendo. E ele encerra a anedota observando que não adianta quebrar as garrafas porque ele logo cuida de comprar outras.

Um momento de pura iluminação sensual irrompe quando Mariana de Moraes, a linda neta de Vinícius, canta “Coisa mais linda”. Fiquei simplesmente deslumbrado diante de sua graça, beleza e sensualidade. Só isso já valeria o filme. Um crítico americano, cujo nome me escapa, devastou o cd “Se é pecado sambar” que Mariana gravou há algum tempo. Pra mim ela pode desafinar, brigar com o compasso, errar por becos rítmicos e harmônicos improváveis. Ela precisa apenas aparecer, pecando no samba e sobretudo na vida. Não sei de melhor meio de honrar a ascendência onipresente do avô.

Vinícius teve parceiro em excesso, outra evidência do ser excessivo que foi. Já mencionei acima sua parceria mais alta, a que compartilhou com Tom Jobim. O documentário inclui seus parceiros mais constantes e notáveis, o que é de justiça. Assim, Carlos Lyra, Baden Powell, Edu Lobo, Francis Hime, Toquinho e Chico Buarque passam pela tela, tanto em imagens de época recuperadas de arquivos quanto em depoimentos atuais gravados exclusivamente para o documentário Já no fecho deste Mônica Salmaso canta uma das mais belas composições de Edu Lobo e Vinícius, infelizmente tão pouco lembrada hoje: “Canto Triste”. Se escolhesse as 20 melhores canções brasileiras de todos os tempos, com certeza a incluiria. Não preciso sublinhar o quanto essas seleções são arbitrárias. Se as renovo é tão-só com a intenção de realçar a excelência de “Canto triste”, que tantas vezes cantei acompanhado pelo violão badenpowelliano de Lucivânio Jatobá.
Concluo essas divagações já excessivas inspiradas pelo excessivo Vinícius lembrando que sua trajetória de vida é como uma linha de direção invertida. Melhor diria se trocasse a linha por um percurso em zigue-zague. Quero melhor sugerir que Vinícius foi velho quando jovem e jovem até porra louca, jovem desmedido e retardado quando já velho. Tentou-me aqui o termo ridículo, mas prontamente recuei. É que penso que era tão ele, tão espontaneamente Vinícius nos próprios excessos da velhice, quando se muda para a Bahia no auge do nosso desbunde cultural tupiniquim, que não consigo ver ridículo num comportamento que provavelmente assim seria qualificado fosse um outro velho qualquer.

Como Ferreira Gullar bem observou, mencionei isso na primeira parte deste artigo, ele começou velho impregnado de catolicismo, rabugice direitista e poesia metafísica. Com o tempo e as más companhias, benditas más companhias, foi se despojando das convenções que lhe tolhiam a liberdade individual, que atrapalhavam a infrene manifestação do romântico por temperamento, convicção e espontânea adesão estética. E assim se afirma na vida o diplomata boêmio e radicalmente antiburguês. E assim Vinícius se desprende do livro, da página impressa, para mergulhar de cabeça no mundo do espetáculo musical, o reino congenial do seu narcisismo generoso e irrefreável, carente de convívio caloroso e aconchego protetor contra os abismos da solidão que sempre repeliu, contra o poço do desamor e da indiferença que também passionalmente combateu.

Vinícius tem características pessoais muito divergentes do que sou. Isso todavia não anula a paixão, a comoção com que vejo sua vida e sua arte recompostas no documentário dirigido por Miguel Faria Jr. O registro emocional que assinala minha recepção da obra é também comum, tenho certeza, a muita gente que pouco o conhece, que pouco compartilha de sua figuração passional da vida. Mas como ficar indiferente a uma vida tão intensamente vivida, como passar à margem de uma presença que tão poderosamente iluminou a cena cultural brasileira dos anos 1950 para cá, que tanto impregnou nossas tradições românticas e dengosas, sensuais e festivas com a música e a poesia mais cativantes e comoventes?

Quando vi o documentário pela primeira vez, dentro de um cinema, sai quase chorando de emoção, a alma lavada por uma torrente de beleza, sensualidade e humor. E de repente, em meio à massa anônima que se movia nos corredores do Shopping Guararapes, tomou-me o desejo urgente de voltar correndo para casa, servir-me de uma dose de uísque e me abandonar na solidão da varanda ao canto de todas as suas músicas que sei toscamente acompanhar ao violão. É claro que isso tudo escandalizaria Vinícius, isto é, a emoção inspirada por sua vida e sua música fruída na solidão da minha varanda. Ele me empurraria para o centro ruidoso da vida onde os amigos e meros acompanhantes de ocasião confraternizam, desejam a bela mulher que passa e transfiguram as tintas e linhas banais do cotidiano. Como todo artista iluminado pela força da paixão criadora, Vinícius foi um dos nossos grandes transfiguradores da vida e do cotidiano, que sem ele teriam sido muito mais pobres.
Recife, 16 de outubro de 2010.

Nota: O poema abaixo transcrito foi escrito logo depois que vi o documentário Vinícius pela primeira vez. É apenas um poema de circunstância, modalidade também praticada por Vinícius, Drummond e sobretudo Manuel Bandeira. O que me encoraja a expor meu poema, antes circunstância do que poesia, é o exemplo destes modelos que converteram a matéria do cotidiano, da circunstância e da gratuidade do prazer lúdico numa outra modalidade de manifestação da poesia.
Vinícius
Vinícius, vícios
Quem não os tem?
Melhor que tê-los
É ter alguém.
Alguém pra amar
No ar, no mar
No céu da vida.
Em cada olhar
Reinventar
A voz traída.

Vinícius, vícios
Dor e suplícios
Há que sofrer.
Mas há paixão
Nessa canção
Que é você.

Tua matriz
Outro país
Há de inspirar.
Em Lu, Laís
Outros brasis
Virão cantar.
Recife, 26 de maio de 2006.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Carpeaux e Merquior


Começo por esclarecer ao leitor que este artigo foi escrito há algum tempo. Na ocasião em que meu amigo César Melo o leu, prontamente sugeriu-me propor a Daniel Lopes, nosso editor do blog Amálgama, que o publicasse quando do intervalo entre as datas da morte de Carpeaux e Merquior. Lembro ao leitor desmemoriado, como é o meu caso, que Merquior morreu em 07 de janeiro de 1991; Carpeaux, 03 de fevereiro de 1978. Minha intenção, portanto, era encaminhar o artigo para Daniel em meados de janeiro passado. A data passou, também o mês e somente agora, meio envergonhado de minha memória, proponho afinal a Daniel que publique o artigo. Encerro esta nota introdutória acrescentando uma razão pessoal e outra pública visando justificar a publicação tardia. A pessoal prende-se ao fato de que César, Daniel e eu admiramos a obra de Carpeaux e Merquior, além de nos identificarmos com a tradição do humanismo liberal a que se filiam; a segunda deriva do silêncio, salvo desatenção compreensível num leitor pouco regular da mídia, que cercou as datas acima assinaladas.

Tenho ainda uma outra razão, esta bem recente, para justificar a repostagem deste artigo. Embora pouco informado sobre a produção crítica corrente, até por não ser e nunca ter sido crítico militante, tenho lido dois críticos da nova geração de escritores pernambucanos: Cristiano Ramos e Eduardo César Maia. Além de intervirem com freqüência nas redes sociais e em eventos relacionados à literatura, têm ambos explicitado o quadro ideológico ao qual vinculam sua atividade crítica. Adeptos confessos e combativos do liberalismo humanista, escrevem e debatem publicamente as obras e as idéias correntes salientando a importância que os críticos considerados neste artigo têm na sua formação. A eles acrescentam Octavio Paz, Mario Vargas Llosa, Ortega y Gasset e Álvaro Lins. Dado que a tradição liberal dentro da qual nos alinhamos é ainda tão incompreendida no Brasil e na América Latina, quando não deliberadamente deformada, acolho com vivo entusiasmo estes jovens decididos a intervir no nosso ambiente intelectual tão pobre de obras e idéias, sobretudo neutralizado no seu potencial crítico pela prática longeva da cordialidade literária. Friso conferir ao termo cordialidade o sentido que lhe deu Sérgio Buarque de Holanda. Como foi tão incompreendido, e ainda o é, esforcei-me por esclarecê-lo no artigo Raízes do Brasil, que o leitor interessado pode conferir no meu blog. E assim fecho a nota explicativa antes que ela se torne mais extensa que o artigo original.

Penso que Otto Maria Carpeaux e José Guilherme Merquior realizaram com erudição singular e rara independência ideológica a mais alta expressão do jornalismo cultural que já tivemos no Brasil. Talvez pronunciando-me em termos tão absolutos incorra em alguma injustiça, pois tivemos outros de estatura semelhante. A isso acrescento algumas distinções entre ambos que me parecem dignas de registro. Carpeaux foi jornalista de profissão, enquanto Merquior cedo ingressou na diplomacia e infelizmente morreu no esplendor de sua vitalidade intelectual. Penso que o mérito supremo do primeiro foi transportar para o Brasil, com sua impressionante erudição, a mais alta tradição intelectual europeia. Num país de tradição similar ainda muito restrita, é difícil avaliar o quanto fez no sentido de familiarizar o leitor brasileiro com uma infinidade de autores e obras fundamentais, alguns até então praticamente desconhecidos no Brasil. Embora tenha produzido antes de tudo para o jornal, deixou duas obras únicas que melhor demonstram o que acabo de indicar. Refiro-me à monumental História da Literatura Ocidental e a Uma Nova História da Música. Quanto a Merquior, chamou a atenção de imediato devido à precocidade com que principiou intervindo no debate cultural e ideológico através de suplementos literários extintos pela revolução tecnológica operada no campo da comunicação com efeitos profundos sobre o sistema cultural.

Carpeaux concentrou sua atividade na literatura. Mas nos anos 1960, dentro de um clima de mudanças sociais sem precedente aquecidas pela radicalização do debate ideológico, ele deslocou o foco da sua militância para a política. Essa tendência acentuou-se ao ponto de se impor de forma quase absoluta depois do golpe militar e da imposição do regime que ele combateu até o fim da vida com coragem admirável e corte polêmico impressionante. Nesse sentido, Merquior tem o perfil mais definido do que com certa liberdade designo como crítico cultural. Embora altamente dotado como crítico literário, sua intervenção pública estendeu-se ao debate cultural compreendido numa escala que entendo mais ampla do que aquela descrita pela trajetória de Carpeaux.

Merquior foi dos raros que entre as décadas de 1970 e 1980 evoluíram da esquerda, num clima em que o termo se revestia de muita rigidez, dada a polarização ideológica imposta pela ditadura militar, para o liberalismo. Isso era anátema na atmosfera ideológica da época. De resto, a resistência ao liberalismo nos círculos intelectuais brasileiros, sobretudo nos acadêmicos, parece-me ainda muito grande. É um sintoma, presumo, do circuito restrito de nossa tradição democrática, dentro e fora do ambiente intelectual. Isso explica em parte o silêncio ou indiferença diante da sua obra, mesmo aquela que em princípio deveria ser do interesse obrigatório dos intelectuais acadêmicos. É o caso, especifico, do seu livro duramente crítico contra Foucault, autor que é ainda referência obrigatória na academia. Como é frequente, estudam-no, como a outros autores da moda, ignorando a contribuição de procedência nacional, sobretudo quando o autor em questão, como é o caso de Merquior, não é membro de nenhuma instituição universitária.

Polemista afiado e independente, Merquior atacou o estruturalismo no auge da moda, quando os intelectuais acadêmicos seguiam a moda, como de hábito, com a subserviência costumeira em país de cultura periférica. Atacou ainda as vanguardas, quando elas, não obstante em declínio progressivo, gozavam de tremendo prestígio, que ia da redescoberta de Oswald de Andrade e da antropofagia à tropicália, dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos à revista Vozes de Cultura, que nos anos 1970 abrigou vanguardismos de todos os timbres e vozes. Atacou ainda a psicanálise, que sobrevive no Brasil, dentro e fora da academia, enquanto sua visibilidade decai no horizonte intelectual de países como a Inglaterra e os Estados Unidos. Até na França, onde a releitura psicanalítica de Lacan impôs sua hegemonia irradiando para países como o Brasil, até lá os ataques à psicanálise e a Lacan são crescentes. Mas este é um assunto que me prometo considerar num outro artigo.

Importa ainda anotar a crítica persistente de Merquior ao marxismo. Este é um dos mais exemplares capítulos da nossa história das ideias mais recente. Digo-o exemplar ao considerar que a polêmica por ele desfechada concentrou-se antes de tudo na forma de um diálogo tenso e democrático com seus amigos Leandro Konder e Carlos Nelson Coutinho. A maior evidência do caráter exemplar, bem raro no Brasil, dessa polêmica pautada pela nobreza da tolerância crítica, do conflito sempre conduzido em termos democráticos, consiste na permanência da amizade que ligou Merquior a Konder e Coutinho até o fim da vida. Estes, por sua vez, assim como Luiz Sérgio Henriques e Gildo Marçal Brandão, para ficar na menção a um determinado grupo de marxistas, também mudaram em direção nitidamente orientada para a revisão do sentido da democracia dentro da nossa tradição marxista.

Por fim, ressaltaria que Carpeaux e Merquior realizaram sua obra infelizmente tão desprezada pela academia refinando um estilo de exposição de ideias que timbrava pela profundidade sem prejuízo da limpidez e elegância da forma. Assim procedendo, atuaram como mediadores esclarecidos e esclarecedores entre a obra e o público. Do Brasil à França, da Inglaterra aos Estados Unidos, essa admirável tradição do intelectual público parece esgotada depois que a cultura letrada refugiou-se em nichos acadêmicos ou se acasalou com a grande mídia com o olho e as ideias visando antes o mercado do que a expressão pública da cultura. Também os marxistas acima citados, mesmo quando vinculados à academia, cuidaram de preservar a clareza na exposição das ideais.

Quanto à academia, dela procede Antonio Candido, nosso crítico literário insuperável. Embora suas ideias e docência tenham produzido uma leva de críticos de alta qualidade, sua obra não se disseminou como padrão de estilo expositivo na academia. Mencionando um único exemplo, o da sociologia, até porque a obra de Antonio Candido se sustenta sobre essas duas sólidas vigas, a literatura e a sociologia, o estilo que triunfou impondo-se portanto como padrão foi o de Florestan Fernandes e outros cientistas de mérito inegável, mas escritores de categoria apenas medíocre. O pior é a enxurrada de iletrados letrados, o paradoxo é intencional, produzida em massa pelos programas de pós-graduação. Esses escrevem regidos pelo princípio do método obscuro, que impressiona na mesma proporção em que mascara a pobreza ou banalidade das ideias.Obediente à última moda intelectual importada dos EUA ou da Europa, concluo.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Drummond



Releio Farewell, o último livro de poemas de Drummond. Estou agora vivamente impressionado com o fato de não haver antes concedido a este belo e sofrido livro a atenção merecida. Estava ontem remexendo as prateleiras à procura de uns livros e de repente o vi diante de mim. Abri-o ao acaso e logo o primeiro poema me tocou profundamente. Então deixei-o à cabeceira de minha cama, pois queria ler alguns outros antes de dormir. Foi o que de fato fiz. Novamente senti-me tomado por sensações intensas, como se a voz de Drummond, sussurrando-me segredos provindos do fundo do tempo, misteriosamente ressoasse na madrugada fechada sobre o meu quarto. Lendo os poemas, em muitos, com certeza mais que em qualquer dos livros canônicos de Drummond, retive a dor estoica com que se debruçou sobre a velhice tardia, no fundo de tudo recolhendo a dor do farewell definitivo. Um passo além e me vi retraçando a linha embaçada do niilismo insinuando-se em entrelinhas dolorosas. Por fim me vi a mim próprio lentamente deslizando para a borda do abismo que tragou meu amado Drummond, assim como um dia também me tragará. Foi quando o poema abaixo quase que se fez em mim, pois pouco, bem pouco o trabalhei depois de me sentar à mesa para rabiscar os versos, alterar-lhe duas rimas e acrescentar-lhe a estrofe de fecho.
Drummond
Drummond Drummond
Tão longe vibrava o som
Que o ouvido se confundia
Entre teu nada e teu tom.

Drummond Drummond
Tão perto retinha o som
Que o eco se refazia
E o mundo enfim era bom.

Drummond Drummond
Que trilha percorre o som
Quando o que era poesia
No nada já dissolve?

E nada aqui se resolve
Nada no antes, no além
Pois tudo que o ouvido ouve
Não é Drummond nem ninguém.

Recife, 17 de agosto de 2010.

domingo, 14 de outubro de 2012

Jorge (bem)Amado



O ano de 2012 assinala o centenário de dois dos mais consagrados escritores da literatura brasileira: Jorge Amado e Nelson Rodrigues. Em tempo, acrescentaria ainda Álvaro Lins, hoje infelizmente quase esquecido. Este, contudo, era um crítico literário e a tradição letrada nunca concede a essa categoria, a crítica, o valor atribuído ao criador literário no sentido estrito do termo (explicitando: o romancista, o poeta e o contista). O fato, de resto, deveria importar para que a cultura acadêmica tivesse a humildade de admitir a subordinação da crítica e da teoria à criação literária compreendida no sentido estrito que acabo de especificar. O assunto é de enorme relevância, mas não posso infelizmente considerá-lo sem enredar-me em digressões impertinentes.

Num país cujo público letrado é tão ralo, Jorge Amado e Nelson Rodrigues distinguem-se antes de tudo pelo extraordinário sucesso editorial, notadamente o primeiro. Jorge Amado alcançou o raro privilégio de viver de literatura bem antes do advento da televisão e da expansão da universidade brasileira. Enquanto a primeira contraiu ou desviou o público potencial da literatura, a segunda pouco concorreu para ampliá-lo. Com isso ou contra isso, Jorge Amado foi o mais afortunado dentre os representantes de uma corrente ficcional que conciliou de forma inusitada na nossa tradição literária a qualidade estética e o sucesso editorial. O leitor sabe que me refiro à corrente do romance social nordestino, cuja irrupção, no início dos anos de 1930, afetou a orientação da literatura experimental da década precedente e pouco mais tarde deslocou para segundo plano o romance de cunho psicológico e metafísico de Cornélio Pena, Octavio de Faria, Lúcio Cardoso e alguns outros. A cristalização e ápice desta última corrente é constituída pela obra de Clarice Lispector.

Já que o mercado é a única ideologia que nos sobra no presente, não é à toa que inicio este artigo ressaltando o singular sucesso editorial de Jorge Amado. É certo que, a julgar pelas estatísticas correntes, Paulo Coelho o superou como expressão desconcertante da literatura globalizada. Ainda assim, Jorge Amado detém trunfos estranhos ao sucesso colossal do rival. Além da amplitude da sua obra, acumulada dentro de um ritmo de progressão regular que se estendeu do início dos anos 1930 a 1994, data de publicação do seu último romance, teve grande parte da sua obra adaptada para o cinema, a televisão, o teatro e o rádio. Não bastasse tanto, Jorge Amado foi dos raros escritores brasileiros inventores de uma mitologia nacional. Ele traduziu em termos estritamente ficcionais o Brasil mítico inventado por Gilberto Freyre no âmbito das ciências sociais. O Brasil da sua ficção, sobretudo a Bahia, é uma reinvenção sua de tal modo impregnada no imaginário nacional que com ele, assim como com Gilberto Freyre e alguns poucos, aprendemos a ver e sentir o país real transfigurado por sua imaginação lírica, romântica, porejante de sensualidade e idealização imantada não no que somos, mas no que desejamos, não na tradição realista que ele sempre subverteu, mas numa forma de idealização romântica que nos representa como certamente gostaríamos de ser.

Diante do que acima esbocei, é previsível que a magnitude da data, o centenário de Jorge Amado, pouco encoraje apreciações pautadas pela isenção crítica, pela avaliação indiferente ao espírito de celebração. Lembrando ainda os soberanos interesses do mercado, a pressão é grande e espontânea o suficiente para que fiquemos apenas no batuque do samba exaltação, virtude de resto distintamente brasileira. Friso, portanto, que este artigo desdobra-se deliberadamente na contracorrente dessas manifestações previsíveis. Antes, porém, ressalto que Jorge Amado, como aliás qualquer autor de obra e biografia complexas, pode ser abordado em consonância com inúmeras perspectivas e escalas de valor. O que cabe ao crítico é explicitar seu ângulo de apreciação argumentando de forma coerente com o que se propõe a explorar. Antes de explicitar o meu, cuido de reconhecer alguns méritos inegáveis do autor e da obra.

Um dos grandes méritos de Jorge Amado, extensivo aos melhores representantes do romance nordestino dos anos 1930, foi conferir expressão palatável para o público leitor mais amplo conquistas estéticas propostas e limitadamente experimentadas pela linha de ponta do modernismo difundido no curso da década anterior. Refiro-me mais precisamente à incorporação do povo na literatura, à introdução bem sucedida da linguagem coloquial no discurso literário, à representação ficcional da cultura do povo. Estes são postulados pelo modernismo a partir de sua guinada nacionalista, isto é, a partir de 1924. Mas essa tradução de postulados estéticos e ideológicos do modernismo em clave regionalista não se fez sem alguns problemas que foram bastante discutidos pela crítica. Mário de Andrade, por exemplo, enfrenta essa questão no texto da sua célebre conferência de 1942 quando, a pretexto de celebrar os 20 anos do modernismo, procede a um balanço do movimento em tom isento de complacência mesclando crítica objetiva e apreciação impiedosa do papel que individualmente desempenhou no processo cultural.

Considerando o lugar central ocupado na literatura brasileira pela corrente do romance nordestino, Mário de Andrade louva as conquistas compreendidas pelos postulados que acima indiquei. Não o faz, entretanto, sem na outra dobra criticar nesses romancistas (à parte Graciliano Ramos, ressalva minha) o excesso de inspiração e improviso. Noutras palavras, a ausência de rigor construtivo que sempre exigiu do artista. O fato de empenhar-se em produzir uma obra comprometida com ideais humanistas e politicamente progressistas, apreensíveis na sincera identificação com o povo iletrado e oprimido, não isenta o artista do domínio da técnica e da linguagem artística, dos meios culturais necessários à criação literária.
Ora, sabemos que essa crítica afeta diretamente a obra de Jorge Amado, pois nele sempre prevaleceu, de par com seu notável talento para a fabulação e a transfiguração lírica da realidade, o desleixo relativo ao estilo e à linguagem. Por isso, mesmo a crítica mais favorável e simpática à sua obra (destacaria aqui Álvaro Lins, Antonio Candido, Alfredo Bosi e Luiz Costa Lima) critica sua imaginação sensualista e primitiva, sua representação sentimental e idealizada do povo expressa na solução mágica dos conflitos e na caracterização psicológica das suas personagens demasiado esquemática. Parece-me de fato muito pobre a caracterização psicológica das suas personagens. À diferença de um Graciliano Ramos, que articula com maestria ação e caracterização subjetiva, ambiente e personagem, quando não um termo através do outro, Jorge Amado tende sempre para a caricatura quando formaliza literariamente antes tipos sociais (como o personagem de extração popular investido de virtudes idealizadas ou o pequeno-burguês, contra quem investe seu espírito satírico) do que representações realistas convincentes.

Aparentemente, o romancista nunca deu muita importância a essas restrições. Pelo menos é o que se deduz de uma frase conhecida com que à vontade se definiu: “Sou apenas um baiano romântico e sensual”. Alfredo Bosi não deixa por menos e assim comenta a frase: “Definição justa, pois resume o caráter de um romancista voltado para os marginais, os pescadores e os marinheiros de sua terra que lhe interessam enquanto exemplos de atitudes ´vitais`: românticas e sensuais...” (Ver História concisa da literatura brasileira, 34ª edição, pp. 405-6). Bosi vai adiante frisando que essa poética espontânea passou ao largo do realismo crítico contentando-se em fornecer ao leitor “...pieguice e volúpia, em vez de paixão, estereótipos em vez de trato orgânico dos conflitos sociais, pitoresco em vez de captação estética do meio, tipos ´folclóricos` em vez de pessoas, descuido formal a pretexto de oralidade... Além do uso às vezes imotivado do calão: o que é, na cabeça do intelectual burguês, a imagem do eros do povo. O populismo literário deu uma mistura de equívocos, e o maior deles será por certo o de passar por arte revolucionária. No caso de Jorge Amado, porém, bastou a passagem do tempo para desfazer o engano” (Id., p. 406).

Cito e, além de citar, subscrevo o juízo crítico. Mais longe ainda que Bosi foi Walnice Nogueira Galvão, outra grande representante da crítica acadêmica. É dela a crítica mais devastadora que conheço sobre a obra de Jorge Amado. No auge da ditadura militar brasileira e do sucesso editorial do ficcionista baiano, 1973, ela escreveu um ensaio crítico a propósito do lançamento de Tereza Batista Cansada de Guerra (Ver “Amado: respeitoso, respeitável”, in Saco de Gatos).
Walnice abre seu ensaio esboçando uma equação complexa, mas essencial à análise da relação entre o escritor, o Estado e o mercado na tradição literária brasileira. Depois de louvar a coragem cívica com que Jorge Amado e Érico Veríssimo ousavam pronunciar-se contra a censura dentro dos limites de expressão impostos pela ditadura, contrapõe estes romancistas, significativamente independentes do Estado, já que dependentes do gosto público na esfera do mercado de livros, aos intelectuais dependentes do Estado, isto é, aqueles que são empregados públicos por não lograrem viver profissionalmente do exercício da literatura. Esboçadas essas linhas (remeto o leitor interessado ao ensaio de Silviano Santiago que replica e desdobra as consequências do teorema de Walnice, como escreve ele, no livro Vale quanto pesa), Walnice explora em termos críticos a relação entre a dependência do mercado e a qualidade da obra examinando em tom devastador o romance Tereza Batista Cansada de Guerra.

Analisando aspectos fundamentais do romance com corte preciso e polêmico, a ensaísta demonstra nesta obra particular as insuficiências formais e ideológicas da obra de Jorge Amado. Argumentando contra o caráter populista da sua ficção, sempre marcada pela idealização dos oprimidos, que são antes de tudo figuras da marginalidade baiana, ou do lumpemproletariado, fato que parece no mínimo irônico num escritor que foi militante comunista durante grande parte de sua vida, Walnice contrasta Tereza Batista com Moll Flanders, protagonista do romance homônimo de Daniel Defoe. O paralelo resulta constrangedor para nosso fabulista baiano. Bastaria lembrar que Tereza Batista é uma prostituta dotada de grande consciência política, portadora das melhores virtudes populares. Isso se aplica a ela quanto a todos os heróis marginais de Jorge Amado, o que contradiz liminarmente o conceito de lumpemproletariado.

Citando a própria Walnice, “Já Tereza não resvala, única personagem sempre virtuosa do romance. Se puxamos à memória os pobres de Brecht e de Buñuel, pensamos que Jorge Amado está brincando uma brincadeira sem graça; tudo se passa em seu romance como se a ética da miséria fosse outra e pobre virtuoso não morresse de fome; a idealização da miséria nada fica a dever a Gilberto Freyre. A tessitura ficcional interrompe-se a todo instante para dar ocasião a enunciados abstratos e polêmicos sobre a miséria; concretizada em Tereza, jamais aparece. Ela é, de fato, um ser moral, como alguma duquesa riquíssima de Balzac; no quadro frio e cruel das altas esferas francesas do século XIX, onde todos se entredevoram, de vez em quando há uma personagem assim. E Balzac aponta a condição, necessária mas não suficiente, pois só como exceção se dá, em que pode surgir um ser moral: em cima de um monte de dinheiro” (op. cit., p. 16).
Além dessa idealização da miséria, Walnice também ressalta um dispositivo formal, o discurso indireto livre, empregado por Jorge Amado para resolver em termos ambíguos, que variam da representação realista à mítica ou mágica, conflitos sociais evidenciadores da sua ideologia populista. Trocando novamente em miúdos: a heroína do povo é sempre virtuosa e vencedora, as divindades africanas sempre intervêm em defesa dos heróis populares. A isso se soma o discurso saturado de baixo calão, quando não da pura e simples pornografia e da perversão sexual. Walnice alinha exemplos convincentes da sua crítica relativa a esses aspectos do romance, também presentes noutras obras de Jorge Amado.

Seria simplista, como alguns supõem, considerar a crítica acima como evidência da polaridade entre rejeição da crítica acadêmica da obra de Jorge Amado versus aceitação unânime do público. Há sem dúvida alguns críticos acadêmicos que reconhecem no romancista baiano um dos mais importantes da literatura brasileira. Por outro lado, seria um engano traduzir seu extraordinário sucesso de público como evidência de unanimidade. O que me parece todavia previsível é o clima de irrestrita celebração assinalando a passagem do centenário desse extraordinário inventor de um Brasil mitológico. E o fato é que a mitologia é avidamente consumida e amada não apenas pelos brasileiros carentes de uma representação mítica e romântica da nossa cultura cujos traços predominantes são a sensualidade, o excesso desatado de culpa e governo, a idealização das nossas misérias seculares e o sincretismo mágico mesclando em tom confraternizador o arcaico e o moderno, os grupos e classes que não são o que são, mas por certo são o que o típico leitor amadiano (brasileiro ou estrangeiro ávido de exotismo cultural) gostaria que fossem.
Recife, 25 de setembro de 2012.