quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Memórias de um leitor IV


Retomo minhas memórias de leitor costuradas sem ordem ou método. Elas seguem o princípio de composição implícito em quase toda a prosa que escrevo para o meu blog. Parto sempre de uma vaga intuição (uma frase, uma ideia decorrente da leitura de alguma obra, um fio de memória...) e daí o texto se vai desatando e ganhando forma à medida que escrevo. É claro que nem tudo é improviso e facilidade desatenta no meu anárquico processo de composição. A versão preliminar é sempre revista, às vezes repetidamente revista, e a revisão pressupõe sempre correções, inserções, adição de parágrafos inteiros, também a supressão de palavras ou frases. Mas o fato é que o processo geral não obedece a nenhum plano de composição, sequer um roteiro ordenando as partes gerais do texto.

Sinceramente, nada me parece invejável nessa facilidade de composição. Ela é antes de tudo sintoma da minha formação anárquica, fruto de uma vida sem direção ou propósito orientado, de regra decorrente de uma formação de família e escola adequadamente instituídas. Nesse sentido, minhas próprias memórias de leitor esclarecem as origens e a sedimentação de uma inteligência indisciplinada e arbitrária. Esclarecem ainda muitos dos fracassos da minha vida, notadamente meu fracasso acadêmico. Por isso me vexa ainda dizer que fui incapaz de escrever minha tese de doutorado. Sei de alguns maldizentes que me acusam de haver desperdiçado tempo e dinheiro público durante meus anos de estudo na Inglaterra. No entanto, foram os anos em que mais estudei na minha vida, os anos de mais intensa aprendizagem da minha vida. Eles concorreram de forma decisiva para desprovincianizar minha percepção do mundo, em particular do Brasil. Portanto, não foi por falta de estudo e trabalho intelectual constante que falhei na redação integral da minha tese. Foi por muitas outras razões, algumas até inconscientes. Evito considerar aqui as conscientes, pois abusaria em demasia da composição digressiva deste texto que já se trai por si próprio.

Voltando ao cerne do assunto, minhas memórias de leitor, volto a recuar às leituras mais remotas, já que a cronologia destas memórias é tão arbitrária e caprichosa quanto os demais elementos da composição. A paixão de ler alimentada pela estante do meu tio Edmundo logo se revelou insaciada. Afinal, a fonte que me nutria não passava de uma estante. Melhor dizendo, de meia estante, pois suas pernas ou suportes propriamente ditos correspondiam à metade da sua altura. Em suma, a estante teria 4 ou 5 prateleiras, cuja extensão não ia além de um metro. Não bastasse isso, meu tio, leitor autodidata perdido num fim de mundo iletrado, reuniu naquele móvel solitário um punhado de livros não apenas limitado na quantidade, mas também na qualidade e variedade dos assuntos. Daí proveio minha vontade de me tornar comprador de livros. Mas como adquiri-los em Igarapeba, ou mesmo em todo um vasto recorte geográfico da mata sul de Pernambuco? De Quipapá a Palmares, não havia livrarias ou bibliotecas.

Dando um salto no tempo, para melhor ilustrar a miséria da cultura letrada ainda dominante em grande parte do Nordeste, acompanhei o Quinteto Violado durante uma curta temporada de shows que fez indo de Recife a São Cristóvão, Sergipe, onde havia um festival anual de artes. Isso ocorreu na primeira metade dos anos 1980, quando já era professor de sociologia da Universidade Federal de Pernambuco. Nesse momento mantive ligeira relação com o Quinteto devido à minha amizade com Rita Melo, mulher de Marcelo Melo, líder do Quinteto. Rita foi minha aluna no curso de Ciências Sociais e através dela aproximei-me momentaneamente de Marcelo. Convidado por ambos, aventurei-me a acompanhá-los durante essa curta sequência de shows viajando no ônibus do Quinteto. Há muito cultivava o hábito de sempre viajar levando livros na bagagem. Nessa viagem, porém, tão excepcional, decidi apostar no prazer suficiente acaso propiciado pelos companheiros de viagem. Logo ao fim do primeiro dia me dei conta de que seria difícil integrar-me ao espírito dominante no grupo. Daí sobreveio a necessidade de comprar pelo menos um livro para ocupar as muitas horas vazias da viagem. Atravessamos Alagoas e Sergipe, paramos em Arapiraca, onde o Quinteto tinha um show programado, e nada de encontrar sequer uma pequena livraria. Somente ao chegar a Aracaju pude afinal comprar um livro.

Se nos anos 1980 a realidade do acesso à cultura letrada no Nordeste era a que grosseiramente esbocei no parágrafo precedente, o que dizer de Igarapeba e regiões próximas em meados dos anos 1960? Acabei descobrindo num periódico da época que a Editora Vozes vendia livros por reembolso postal. Já não lembro de que modo recebi ou tive acesso ao catálogo da editora, então ainda muito restrito e especializado em publicações religiosas, dado o fato óbvio de que era e é uma editora criada por membros do clero católico. No início dos anos 1970 a editora renovou-se de forma notável, incorporando e ativamente promovendo até a cultura de vanguarda da época: o concretismo, a poesia processo, o estruturalismo etc. Dilatando o alcance secular dos seus critérios editoriais, a Vozes se renovou de forma extraordinária acentuando no registro empresarial seu processo de renovação mais ampla observável sobretudo no domínio da política traduzida em termos práticos nas formas de oposição possíveis à ditadura militar.
Decidi então comprar vários livros via reembolso postal. Como então estava de férias em Igarapeba, usei o endereço de lá. Infelizmente, Igarapeba não tinha e nunca teve uma agência dos correios. Por isso precisei ir a cavalo até São Benedito do Sul, a cidade mais próxima, que foi aliás onde nasci. Esse breve relato sugere o atraso cultural em que essa região do Nordeste, assim como tantas outras, vivia e ainda vive. Também o acesso a jornais e periódicos era muito precário. Chegavam a Igarapeba através do trem que fazia o percurso Recife-Maceió. Portanto, seria mais apropriado dizer que passava, não que chegava. Havia no trem um jornaleiro, que na verdade era identificado como o gazeteiro. Esperava-o ansioso na plataforma da estação nos dias em que trazia as revistas e gibis que lhe encomendava. Em face dessa aridez, desloco agora o foco das minhas memórias de leitor para o Recife, onde já morava e estudava desde os 10 anos de idade.

Abro parênteses para mencionar um romance de Jorge de Lima, Calunga, cuja trama narrativa tem como fio a viagem feita pelo protagonista nesse trem que ligava o Recife a Maceió. Li o romance só por essa razão. O personagem toma o trem na estação central do Recife e a narrativa se desdobra descrevendo a viagem passo a passo: a sucessão das estações, as paradas, cenas típicas daquele mundo que tanto conheci viajando durante muitos anos de minha vida como o personagem de Jorge de Lima. Reconheci assim meu olhar de passageiro em muitas das páginas do romance onde o autor fixava tipos humanos observados em trânsito, a paisagem humana à espera do trem na plataforma das estações, as moças de vilas e cidades enfeitadas à espera de parentes ou amigos ou apenas vaidosamente expostas à curiosidade dos passageiros.
Além disso, num mundo de tantas vilas e cidadezinhas sufocadas pela rotina e a pobreza de toda sorte de meios de vida e lazer, a passagem do trem era não raro o acontecimento social mais importante. Por isso era frequente alguém convidar amigos para “esperar o trem”. De modo inconfessado, ou inconsciente, esta expressão traduzia o desejo do fato novo, ainda que irrelevante, a aragem do imprevisto num mundo onde tudo era previsível. Esperar o trem, na imaginação de tantas vidas áridas, era figurar no improvável a esperança de uma outra ordem de vida, era fabular o real factível sem contudo ser ficcionista, tão ausente era a ficção literariamente compreendida num mundo ancorado na tradição oral. Com o trem vinham viajantes frequentes ou ocasionais, as notícias da capital estampadas nos jornais vendidos pelo gazeteiro, as revistas e outras atrações procedentes de um mundo inacessível à modorra de um cotidiano regido por ritmos sociais tediosamente martelados. Aludo, em suma, ao tema da “vida besta” explorado por Drummond na sua poesia inicial e tão agudamente captado por Mário de Andrade. É bem significativa essa transição do nosso primeiro modernismo da atmosfera urbana, signo da modernidade técnica celebrada por algumas correntes da vanguarda estética, para o Brasil tradicional, o Brasil dos vastos interiores, dos traços diferenciadores da nossa “vida besta” atada ainda a ecos bem vivos da nossa herança colonial, do Brasil agrário imune ao avanço da modernidade forjada nos grandes centros urbanos.

Retomando o fio solto da minha narrativa de memórias, adentro agora nas memórias da escola onde comecei estudando no Recife. Além de a escola não ter biblioteca, como é ainda a realidade da maioria das nossas escolas, os professores eram bem pouco cultivados para sequer pensar em inculcar nos alunos algum interesse pela literatura, as artes, as disciplinas humanistas. Logo, contava apenas com minha curiosidade espontânea, minha carência de fantasia e vida imaginativa. Acho que parte considerável dessa carência manifestou-se de imediato como necessidade de existência vicária, linha de fuga de uma realidade cotidiana demasiado estreita e opressiva. Linha de fuga sobretudo do ambiente familiar que me infelicitava dolorosamente. Assim, procurei na ficção a vida imaginária e a dilatação de horizontes que compensassem a pobreza da minha vida de família, escola, vizinhança, minha carência de amor e compreensão... No ambiente em que vivia, o acesso à literatura era tão precário e acidental que atribuo a isso minha completa ignorância da literatura infantil de Monteiro Lobato, assim como muitas outras obras que enriqueceram a experiência imaginativa de tantas crianças e adolescentes. Penso, por exemplo, na literatura dos contos de fadas, nas obras de Andersen e dos irmãos Grimm, também nas narrativas fabulosas das Mil e Uma Noites. Infelizmente, meu percurso de leitor passou ao largo de todas essas obras. Ocorreu-me pensar nisso, e lastimar essas lacunas, quando pela primeira vez li um dos melhores contos de Clarice Lispector: Felicidade Clandestina.

Comecei explorando de forma insaciável a literatura barata, os livros de bolso editados pela Bruguera, Monterrey e similares especializadas em coleções de literatura policial e far-west. Mergulhei de forma tão obsessiva nesse tipo de leitura que chegava a ler três livros de bolso em um único dia. Além disso, comprava-os aos montes como tralha de segunda mão nas barracas situadas no oitão do Mercado de São José. Chegava a ler e colecionar cerca de 300 volumes. Revendia-os no mesmo lugar onde os comprava, depois de os ler, somente para ter o prazer de começar do zero uma nova coleção cujo destino refazia o ciclo da compra e venda, leitura e desapego pelos objetos do meu culto. Curioso constatar aqui como agora as duas pontas da minha vida de leitor se atam entretecendo fios desencontrados, senão avessos. No passado remoto, ensaiando meus primeiros passos de leitor, desfazia-me dos livros que lia talvez movido pela obscura consciência de que lia em trânsito, afiava a lâmina do hábito de ler desperdiçando meu tempo com livros descartáveis que por isso são livremente intercambiáveis. No fundo, apesar da sede de aventura e vida vicária que me satisfaziam, cada livro era qualquer um, era matéria impressa similar à edição diária do jornal que lemos para saber das notícias que logo se dissolvem, cedem lugar às que vêm na fila interminável da repetição da vida e por fim acabam servindo apenas para embalar peixe no mercado ou simplesmente ser atiradas à lata do lixo. Hoje, saltando para a outra ponta da vida, o que me seduz é o sonho ou mito da biblioteca essencial, a biblioteca restrita aos poucos livros que definitivamente impregnaram minha experiência de leitor.

Passei logo em seguida aos livros da grande tradição literária européia adaptados para o público juvenil. Descobri essas obras frequentando a seção de livros da Viana Leal, situada na Rua da Palma. Era então uma grande e atraente loja, a primeira, salvo engano, dotada de escadas rolantes. Essas escadas me seduziam e assim era um prazer renovado subir e descer transportado por elas. Na seção de livros para a juventude, meu paraíso inconfessado, comprei muitos volumes editados pela Melhoramentos. Eram obras da grande tradição literária europeia adaptadas, como acima salientei, para o público juvenil. Dentre as que ainda lembro, com atraentes ilustrações sobre capa-dura, comprei e li O Conde de Monte Cristo, O Máscara de Ferro, Os Três Mosqueteiros, todos de Alexandre Dumas; A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas Filho, A Ilha do Tesouro, de Stevenson, Ivanhoé, de Walter Scott, David Copperfield, Oliver Twist e As Grandes Esperanças, de Charles Dickens; Robinson Crusoé, de Daniel Defoe, Dom Quixote, de Cervantes, As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, Quo Vadis, de Henryk Sienkiewicz, e muitas outras obras.

O passo seguinte na minha trajetória errática de leitor está associado à Biblioteca Pública de Afogados. Como era pobre para comprar livros, pois a essa altura o declínio social e econômico da família tinha já descido ao rés do chão, o acervo da biblioteca pareceu-me um mundo inexplorável. Na verdade, era modesto e quase todo composto por volumes já gastos e remendados com fita durex. Foi lá que de fato comecei a descobrir a literatura brasileira, além de acrescentar a minhas leituras da literatura européia autores como Stendhal, Balzac, Flaubert, Thomas Hardy, D. H. Lawrence, Somerset Maugham, Graham Greene e Charles Morgan. Este, sabemos, foi um dos maiores fiascos da crítica brasileira, que inseriu sua obra no círculo dos autores canônicos simplesmente por indução equivocada da crítica francesa. O fato mereceria uma reflexão sobre os mecanismos de recepção da obra literária, com ênfase sobre os nexos entre centro e periferia literária, além do poder dos argumentos de autoridade, mecanismos de resto muito vivos na cultura acadêmica de hoje e do passado.

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