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sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Sus! é o SUS


O político ou publicitário que rebatizou o sistema de saúde brasileiro é por certo um erudito. O que não sei é se tramou a sigla sombria movido pela ironia sádica ou a compaixão cristã, uma das virtudes brasileiras que Gilberto Freyre louvava num dos seus surtos líricos. Como não sou erudito (tendo bem mais para o erro dito), vou logo desmanchando o mistério diante do leitor intrigado ao ler o título desta crônica. Descobri há muitos anos, quando era leitor apaixonado da poesia de Manuel Bandeira, esta interjeição intrigante: sus! Ele a enfiou num dos seus poemas, cujo título já não lembro. Fui do poema ao dicionário e assim fiquei sabendo que sus quer dizer eia, ânimo, coragem!
Os azares da vida e da idade tangeram-me ontem e hoje para o posto médico do bairro. Parado diante da fachada aterrorizante - recoberta por sujeira, buracos e ferrugem – li num arrepio a sigla do Sistema Médico de Saúde: SUS. A interjeição há tanto esquecida, eco do poema de Manuel Bandeira, repicou na minha memória. Armando-me de coragem, sobretudo resignação, subi lentamente a escada que conduz ao primeiro andar. Sus!, segui subindo os degraus toscos enquanto suava escada acima. Do térreo vazavam, através de uma porta, o ruído e a poeira de uma reforma. Onde quer que eu ande constato esta verdade dolorosa: vivemos arruinando a civilização que fomos incapazes de construir. Chego afinal à sala de espera e deparo o quadro previsível: gente pobre e feia, gente resignada e sofrida, gente vergada ao peso da opressão social que a castiga do berço ao túmulo. Enquanto uns tagarelam na sala quente e desconfortável, outros quedam desanimados, como que imersos num pesado torpor. A única coisa que me surpreendeu foi o fato de não divisar um aparelho de TV pendurado na parede ou preso a um cabo suspenso do teto. Sus!
Minha reação habitual é murar-me no meu egoísmo humilhado. Mas logo me lembrei de que o remédio mais eficaz para nossa dor egoísta é a dor alheia. Assim, virei-me para as pacientes mais próximas e comecei a entabular conversa. Logo fiquei sabendo que a Dra. Vera falta com freqüência. Como é de praxe nos consultórios, públicos ou privados, ninguém dá satisfação ao paciente, que no Brasil justifica o substantivo. Paciente no Brasil, notadamente do SUS, existe para isso mesmo: para ser paciente, apanhar calado, esperar sentado ou de pé exposto à vontade e aos caprichos médicos com a resignação fatalista de boi de matadouro. A Dra. Vera falta há três semanas e há três semanas dona Maria vem, espera e depois faz o caminho de volta resignada a voltar na próxima semana amparada pela esperança de que na próxima vez a Dra. Vera virá aliviá-la das suas dores. Sus!
Se eu fosse psiquiatra do SUS, prescreveria para meus pacientes este remédio milagroso: se quer esquecer sua desgraça, abra os ouvidos para ouvir a desgraça alheia. Não digo que se compadeça dela, já que nosso egoísmo é cada vez mais espesso e rugoso; basta ouvi-la com atenção suficiente para esquecer a própria. É um santo remédio e não custa nada. De quebra, o paciente infeliz que verte sua dor no nosso ouvido atento fala de si comovido com a nossa atenção. Quem não quer e precisa ser ouvido, ainda mais na adversidade? Abra os ouvidos para a dor do paciente ao lado e logo você esquecerá a sua. Foi o que fiz e assim perdi noção do tempo escoado naquele ambiente desolador.
Quando dei por mim, sentindo dor na minha coluna egoísta, foi porque gritaram meu nome do corredor. A Dra. Virgínia atendeu-me muito atenciosamente. Nada fez por mim, nem o SUS permitiria que fizesse, mas me atendeu com atenção e respeito. Preencheu um formulário informando-me de que estava me encaminhando a um oftalmologista, pois nada poderia fazer para desembaraçar os trâmites do meu processo. É claro que antes do oftalmologista virá uma nova fila cedo da manhã para obter uma ficha, se evidentemente muitos outros pacientes não se anteciparem ao meu relógio. Depois disso, outras horas de espera, outros transtornos previstos e imprevistos. Encurtando a consulta, como felizmente tenho o privilégio de trocar a burocracia fria e sórdida do SUS pelo dinheiro que gastarei comprando tudo no mercado, despedi-me da Dra. Virgínia com um buraco no bolso, mas muitas horas de vida e indignação poupadas. Sus! é preciso ser muito pobre ou demasiado avarento para obter remédio caro no SUS, ou qualquer outro serviço. Sus!
Quem diz que o Brasil é uma democracia social, ou que Fernando Henrique Cardoso, Luís Inácio Lula da Silva e Dilma Roussef (arengas ideológicas à parte) elevaram-no a esta invejável condição, é inconsciente, iludido ou beneficiário irresponsável do sistema de dominação há séculos instaurado neste cativeiro tropical. Quem louva nossa suposta democracia social é quem nunca precisa mourejar dependendo de transporte coletivo, depositar sua segurança nas nossas instituições públicas, educar-se nas nossas escolas públicas, adoecer assistido pelo SUS. Sus! pois a servidão social continua viva e poderosa neste país formado sob os tacões do Estado patrimonial, do colonialismo e da escravidão.
Recife, 2 de setembro de 2014

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Aforismos e desaforos VII


O único passado feliz é o que nunca existiu.
Por que atormentar-se com o futuro, se nem a Deus ele pertence? Como ser proprietário do que não é?
Quando o futuro é, é já presente. Logo, o futuro nunca é.
O Brasil é ruim, mas o Nordeste é muito pior.
O Brasil não existe nem deveria ser inventado.
O povo que elege Lula, vulgo Mula Nine Fingers, o presidente mais popular da nossa história política, merece o país que somos.
Nunca subestimo a classe dirigente brasileira: ela é sempre capaz de ir além de minhas piores previsões.
A justiça é cega, mas no Brasil ela sabe perfeitamente o que quer ver.
Há mulher capaz de qualquer tipo de coisa para ter um homem, inclusive o homem de qualquer tipo.
Como levar a sério um país que tem 32 partidos políticos? Isso não é pluralismo democrático, mas circo ideológico.
Sempre que se pronuncia sobre a economia brasileira, o ministro Guido Mantega confunde manteiga com margarina. Vai ver que a culpa é do sobrenome.
O suicida malogrado não quer morrer, quer apenas chamar a atenção de alguém que o ajude a suportar a dor de viver.
Só há uma solução para quem quer viver sem sofrer: o suicídio.
Para Manuel Bandeira, materialista místico, o que estraga o amor é a alma. E coerentemente nos aconselha: deixe que o seu corpo se entenda com outro corpo. Quando no entanto o corpo é já velho, não será razoável, senão necessário, amar além do corpo, ainda que aquém da alma? As almas são incomunicáveis, diz ainda o poeta. Mas os corpos se fartam corroídos pelo tempo e a rotina. Esta é uma lei fatal da matéria que a cultura do presente, desvairada pelo hedonismo, não quer admitir nem na cama dos amantes já velhos.

domingo, 5 de maio de 2013

Como lemos, como nos lemos, como nos leem


Precisamos sempre explicar tudo. Sei que me repito citando Machado de Assis. O que me desculpa a repetição é o fato de sabê-la oportuna. Somente as pessoas muito primárias acreditam que as palavras e a totalidade dos signos que regem a comunicação humana são transparentes e unívocas, assim como somente os hermeneutas herméticos acreditam que a linguagem é um solo minado soterrando sentidos sempre indeterminados. Baixando a bola, o fato é que a linguagem e portanto a comunicação humana não são nunca transparentes. Isso evidentemente não impede o comum das pessoas de aspirarem a mitos como a alma gêmea, a comunhão e transparência propiciadas pelo amor, a comunidade ideológica ou religiosa etc.
O amor não é nunca transparente. O que nele os afortunados encontram, e talvez apenas nele, é um estado de comunhão sensível ou carnal, uma iluminação intelectualmente inexplicável. Daí dizê-lo, nesses estados ou momentos miraculosos, daí dizê-lo inefável. Ou ainda: estados de epifania, de iluminação espiritual irrompendo dentro da banalidade da vida. Mas lembremos o verso de Manuel Bandeira: “Os corpos se entendem, mas as almas não”. Uma evidência banal: sei de muita gente, inclusive eu, que viveu no amor o estado acima descrito, estado de êxtase e epifania, com parceiros em tudo diferentes e desiguais. Como conceber uma comunhão de almas, ou simples afinidade espiritual, entre amantes tão desavindos? Logo, é na carne que se entendem, é na misteriosa mina dos sentidos (carnais, friso) que lavram o gozo e o êxtase, não nas abstrações transcendentes da alma.
Se a comunhão e o entendimento transparentes são alcançáveis através do amor, então isso se dá talvez numa ordem distinta de amor: na ordem do amor amizade, do amor baseado na comunidade espiritual e mística. Seria talvez o caso de lembrarmos o amor de Abelardo e Heloísa, ou ainda a amizade de Montaigne e Étienne de La Boétie. Como Montaigne escreveu numa frase célebre, até transposta para uma canção de Chico Buarque: “porque era ele; porque era eu”. O rebaixamento da experiência amorosa a expressões boçais tão correntes no nosso tempo bem que pode dar margem a que se leia a amizade de Montaigne e La Boétie num registro vulgarmente homossexual. Bem posso imaginar alguém insinuando que ambos teriam inventado a parada gay na França do século xvi. Aliás, este modo de ler, o anacrônico, é outro modo de ler errado. Consiste em ler no passado sentidos que somente têm sentido no presente. Mas isso é outra história.
Não bastasse a inerente indeterminação de sentido das palavras, portanto também das nossas experiências fundamentais expressas na linguagem, agravamos nossos erros de leitura, nossas interpretações arbitrárias, projetando no texto e na vida uma angulação subjetiva que não raro distorce sentidos objetivamente expostos no texto e no âmbito da experiência. A leitura subjetiva, que facilmente se converte em subjetivismo, deforma o sentido objetivamente dado do escrito. Ela pode ser qualificada de muitos modos: subjetivismo de classe, de raça, de gênero, de religião, idade, nação etc. Mas o mais grave subjetivismo é o decorrente da ignorância.Em suma, o sentido lido pelo leitor tem a medida da sua ignorância.
Lembrando um exemplo pessoal, evoco uma personagem irrelevante que ficou um bom tempo na moda, o que prova a irrelevância cultural e ética dominantes na nossa cultura. Refiro-me a Geisy Arruda, que aliás foi até estrela do carnaval de Recife. Escrevi dois artigos sobre ela apenas com a intenção de pegar carona na sua celebridade supondo que ela poderia arrancar-me do meu infeliz anonimato. Tolo engano meu: Geisy entrou na moda enquanto eu afundei num anonimato ainda mais obscuro e amargo.
Mas o que ia observar a propósito de Geisy, já isento do tom de ironia talvez notado por meu improvável leitor ou leitora, é que fui grosseiramente incompreendido no que escrevi, assim como no que declarei num programa de televisão. Foram inúteis todos os meus esforços no sentido de me fazer claro, no sentido de fazer com que as pessoas me compreendessem. Por fim, já desanimado diante de tanta incompreensão, concluí que tudo que me restava era o refúgio do silêncio. A isso acrescentaria a memória remota de um seminário de literatura a que assisti quando era ainda estudante de letras. Discutia-se a interpretação do texto literário quando uma professora narrou uma anedota exemplar. Propôs a seus alunos a leitura de um belo e curto poema de Manuel Bandeira: Consoada. Nele o poeta usa uma metáfora para aludir à morte: a Indesejada das gentes. A professora perguntou a um aluno o que o poeta queria significar com esta metáfora. Resposta: a sogra do poeta. E pensar que Manuel Bandeira, como eu, nem sequer foi casado. Melhor cair no passo de olho no microvestido de Geisy Arruda.
Esta crônica ilustra, à revelia de minha intenção, o estado de decadência cultural em que mergulhamos. Comecei com Machado de Assis e Manuel Bandeira, passei por Montaigne e Étienne de La Boétie e acabei em Geisy Arruda. Difícil imaginar melhor exemplo de degradação do sentido e da cultura no presente.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Lendo Bandeira em Freyre



Nem o menino de oito anos se deixou, em Bandeira poeta, vencer, em tempo algum, por esse precoce velho de oitenta, nem o antecipado velho de oitenta, pelo renitente menino de oito. Sempre se completaram, sem muita desarmonia entre os dois. Como avô e neto dentro do mesmo indivíduo.
Gilberto Freyre.

Em vão te diz o espelho
no fato a crua verdade:
mira tua face de velho
a vida já te vai tarde.
II
Sim, velho, que hei de fazer
do que me vai e vai tarde
se um sopro de amanhecer
inda no peito me arde?

III
Na curva que me desenha
um vago perfil da idade
vislumbro um acordo na senha
que me perfaz a idade
IV
a idade mais eu e exata
além do ser convenção
fundindo no céu de prata
a idade do coração.
V
Não miro assim nem o velho
nem o menino em meu ser
mas ambos na flor do espelho
fundidos num só viver
de extremos entretecidos.
VI
Assim me vou in-ferido
Num mar além da aparência
rindo do golpe bandido
que não me tira a inocência.
VII
Lá se vão unos fundidos
em mim o velho e o menino
retendo os tempos vividos
no ser que é ser sendo sido.

Fernando da Mota Lima
Recife, 25 de setembro de 2001.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Pasárgada e o Espírito de Província




O leitor acaso atento à precária e desequilibrada produção cultural que flui à margem do eixo hegemônico Rio-São Paulo sem dúvida acolherá com entusiasmo o espírito polivalente que enforma a recém-lançada revista Pasárgada. Como foi já observado no editorial da revista, tem sido invariavelmente incerto o destino dos periódicos culturais no Brasil, sejam eles sustentados ou não por organismos oficiais. Este fato sugeriria aos mais pessimistas a necessidade de se encarar Pasárgada como raridade também no sentido quantitativo.

Mas o que aqui desejo enfatizar é a dimensão qualitativa da publicação. E tal dimensão poderia ser resumida no espírito polivalente acima indicado. Grosseiramente explicitado, esse espírito se traduz no modo como certos articulistas acentuam vínculos entre a cultura brasileira, a nordestina em particular, e o movimento intelectual europeu; entre a correção factual e a mais que discutível reivindicação de prioridades e excelências; entre a citação iluminadora, fundada no justo cotejo dos textos, e a referência pedante, ciosa de exibir provas de elevada ilustração; entre a celebração dos valores da província, tantos deles vazios, e a necessária revisão crítica tingida de irreverência e iconoclastia.

Apesar do que comportava de superficial, atitude da qual nunca se libertaram diluidores e propagandistas irrelevantes como Joaquim Inojosa, o espírito imediato do modernismo derivante da Semana de Arte Moderna foi eminentemente irreverente e iconoclasta. Esse espírito sobrevive, como sabemos, à evolução mais reflexiva e pesquisadora do movimento na investida primitivista dos antropófagos no fim da década de 1920. Não obstante sua curta vigência, ele foi e continua sendo objeto de grosseiras incompreensões. É grosseira incompreensão, por exemplo, identificá-lo como sendo o espírito predominante do modernismo paulista, como o fizeram José Lins do Rego e Gilberto Freyre no livro do último intitulado Região e Tradição.
Movidos pelo propósito de reacender velhas disputas bairristas, não resistem os celebrantes das excelências regionalistas à tentação de torcer e retorcer fatos da historiografia literária e cultural brasileiras movidos pelo vão, duplo senso, propósito de afirmar prioridades. É curioso como nisso se aproximam as atitudes dos vanguardistas em geral e dos provincianos idem. Movidos os primeiros pela busca obsessiva, mas sempre inalcançável, do marco zero e os segundos pelo ressentimento diante dos centros hegemônicos que justa ou injustamente os removem para o fundo da cena, persistem ambos nessa luta sem fim em torno de prioridades e excelências. Isso decerto explicaria, ainda que por alto, a recorrência de embates tantas vezes fúteis entre oswaldianos “marco zero” e mariandradinos “nacionalistas”, entre “vanguardistas” paulistas e “revolucionários-tradicionalistas” nordestinos a modos de casa-grande ou de senzala. Que assim sobrevivam eternamente desentendidos. Isso, confesso, é o que eu faria, se essa briga sem fim entre eles se esgotasse. Infelizmente, não é o caso. Como brigam na arena pública onde por definição se desenvolve a história cultural, parte do que torcem e retorcem, excluído o que se dissolve em anedotário e vaga contingência, corre o risco de converter-se em história.

Como não é minha intenção trocar em miúdos o que acima discutivelmente expus sem diretamente fundamentar minha apreciação num confronto direto com os textos que compõem o número inaugural de Pasárgada, decidi-me pela escolha de um artigo que me parece conter muitas das insuficiências que venho intentando criticar. Trata-se de “O Significado do Modernismo no Brasil”, de César Leal. Francamente inspirado pelo espírito de província que na figura intelectual de Gilberto Freyre concentrou suas melhores e piores características, o articulista, que dizem ser poeta e teórico respeitado no ambiente intelectual do Recife, reescreve a seu gosto e desgosto fatos e interpretações concernentes à história do modernismo. E nisso tanto se esmera que chega a produzir verdadeiros primores de leitura subjetivista, senão meramente grosseira desinformação.

Vamos portanto aos fatos. Dele e meus. Ou melhor, dele e da historiografia correntemente acessível ao estudioso movido por propósitos analíticos quanto possível isentos. Celebrando virtudes de Manuel Bandeira, como justa e injustamente o fazem outros articulistas, César Leal afirma que Manuel Bandeira orientou intelectualmente Mário de Andrade. Grande poeta, sim; grande estudioso da literatura também, mas não convém abusar do espírito de província. Sabe-se da grande amizade que os uniu desde o início dos anos vinte e do quanto mutuamente se respeitavam no plano da criação poética. Daí à afirmação de César Leal a passada é longa. Bastaria uma leitura atenta, descuidada de fúteis reivindicações provincianas, das cartas de Mário de Andrade a Manuel Bandeira para que se verificasse a inconsistência da afirmação. Se Mário não foi orientado por Bandeira nem mesmo em matéria de teoria e técnica poéticas, terreno no qual o último era inegavelmente notável, muito menos o foi em outros domínios de realização intelectual nos quais se distinguiu como artista e estudioso muitas vezes pioneiro.

Mas César Leal vai ainda mais longe ao afirmar que Mário e Oswald de Andrade eram portadores de verdadeira indigência intelectual. O juízo é de tal natureza subjetiva, para servir-me aqui de delicado eufemismo, que parece dispensar argumentação. Nem mesmo a Oswald de Andrade, que era reconhecidamente um improvisador, não obstante tantas vezes genial, movido mais pelo gosto das intuições desordenadas que pelo estudo consistente e metódico, nem mesmo a ele pode-se com justiça chamar de artista intelectualmente indigente.

Mais adiante, recorrendo ao velho artifício retórico do elogio contra o outro, César Leal declara que, comparado ao modernismo “o movimento concretista apresentou muito maior solidez”. O argumento é mais do que discutível, embora não me detenha aqui para discuti-lo. Por isso vou ao fim do mesmo parágrafo onde ele adiciona às virtudes dos concretistas o fato de não terem entrado em luta com os nordestinos e de elevarem João Cabral à categoria de “uma de suas divindades tutelares”. A expressão soa um tanto pomposa, mas talvez traduza algo do orfismo para o qual tenderam alguns oficiantes do “marco zero” da estética teológica. Se se pode deduzir um valor estético do fato de não se entrar em luta contra os nordestinos, César Leal deveria lembrar que Mário de Andrade, para ficar restrito ao exemplo que mais importa, nunca entrou em luta contra nossa nordestinidade, ou contra os nordestinos.
Limito-me à menção de dois exemplos. Embora tantas vezes injustamente considerado por José Lins do Rego, que neste campo polêmico conduziu-se sempre como um discípulo provincianamente deslumbrado de Gilberto Freyre, Mário criticou a obra do nordestino em tom de alto apreço e reconhecimento das suas melhores qualidades de romancista. Tanto isso é verdadeiro que chegou a afirmar, aí por volta de 1940, que Lins do Rego era o mais importante romancista brasileiro contemporâneo. Poucas vezes Mário de Andrade esteve tão errado. Talvez porque lhe faltasse um pouco mais de espírito de província.

Segundo exemplo: qualquer leitor corrente da nossa historiografia literária sabe do profundo amor que Mário de Andrade devotava à cultura nordestina. Isso é tão evidente, tanto matéria factual, que me parece desnecessário expor aqui provas do que afirmo.

Passemos a Blaise Cendrars. Acho duvidoso que Cendrars seja a fonte mais recomendável para uma apreciação crítica do modernismo, a não ser que o propósito do articulista seja o de depreciar o último. Se é este o caso, o Prof. César Leal não precisaria ir tão longe. Sem sair do ambiente intelectual do Recife, ele teria à mão apreciações assinadas por Gilberto Freyre e discípulos maiores e menores tão pouco isentas e tanto inspiradas por interesses estreitamente bairristas quanto os que informam o artigo de César Leal.

Sem pretender negar a influência de Blaise Cendrars sobre os modernistas, e vice-versa, que foi considerável, parece-me evidente que ele não é um observador significante do modernismo brasileiro, menos ainda da nossa realidade cultural mais ampla. Como César Leal se declara familiarizado com a grande poesia ocidental de Baudelaire, senão de Dante, a João Cabral, ele decerto não ignora que a experiência brasileira de Cendrars, limitada demais, não pode ser tomada como referência para uma apreciação consistente do modernismo.

Embora fosse um homem de vivência cosmopolita e fascinante vagabundo das estradas, Cendrars observou o Brasil, como o fizeram e ainda o fazem intelectuais europeus em geral, fixado no que este lhe sugeria de pitoresco e exótico. Sua ignorância da nossa cultura chegava ao ponto de sequer grafar corretamente nomes de intelectuais paulistas com os quais conviveu e aos quais dedicou um dos seus livros mais celebrados.

Como intento provar o que afirmo, e talvez impressionar o leitor que louva articulistas familiarizados com a grande tradição poética ocidental em cinco ou seis línguas de alta cultura, cito aqui uma edição bilíngue (francês-inglês) cuja tradução para o inglês se deve a Monique Chefdor: Complete Postcards from the Americas. O volume reúne Documentaires, Feiulles de Route e Sud-Américaines. O segundo, Feiulles de Route, foi dedicado aos amigos paulistas de Cendrars cujos nomes estão assim grafados: Mário Andrade, Serge Millet, Jasto de Almeida, Conto de Barros, Rubens de Mosaes, Luiz Aranhas, Graza Aranha, Guillermo de Almeida, Américo Faco. A dedicatória é extensiva a outros intelectuais, mas limito-me a reproduzir apenas os nomes erradamente grafados. Talvez convenha frisar para o leitor mais cético que reproduzo a própria dedicatória manuscrita de Cendrars cujo fac-simile a
obra acima citada estampa na página 116.
Outra prova da grosseira ignorância de Cendrars é fornecida pelo próprio César Leal quando assim o cita: “Mário de Andrade morreu em 1938, eu acho”. Se o propósito do articulista era desmerecer Mário de Andrade, provando com isso o quanto este era irrelevante para o poeta suíço-francês que hesitantemente o mata no ano de 1938, o que ele de fato prova é o quanto Cendrars estava pouco qualificado para ajuizar acerca do modernismo e seu desdobramento histórico.

A propósito de estudiosos e comentaristas estrangeiros da literatura brasileira, o artigo assinado por Mário Hélio, “Enganos e Omissões”, fornece exemplo ainda mais convincente do que tudo que venho observando acerca de Blaise Cendrars. Mencionando o historiador Harri Meier, a quem atribui a autoria de um resumo sobre a história da literatura brasileira incorporado à obra História das Literaturas Universais, o articulista denuncia erros grosseiros de informação cometidos pelo autor.
Gostaria apenas de sugerir que tipo de tratamento intelectuais e acadêmicos provenientes dos centros hegemônicos de cultura dariam a um estudioso brasileiro que incorresse em erros de natureza semelhante com relação às literaturas de que eles são parte. Aliás, nem precisariam disso tomar conhecimento. Antes que se dessem a tal trabalho, não faltariam intelectuais brasileiros ávidos por dar lições ao ignorante que a tais vexames se expusesse.

Não resisto à tentação de encerrar estas notas ligeiras sobre nosso deplorável estado de subserviência mental aludindo a uma prática de uso generalizado que a experiência fora do Brasil me permitiu mais amplamente observar. Qualquer brasileiro, não importa de que categoria intelectual, que fale um inglês ou francês razoável, a troco de tudo, ou de nada, espinafra o compatriota que nisso lhe seja inferior. O nome dessa prática corrente entre brasileiros é colonialismo mental. Observem, porém, que não é meu propósito extrair dos exemplos acima nenhuma justificação da ignorância baseado no princípio, que irrestritamente louvo, da independência mental.

Como o leitor pode deduzir, quando convém reivindicar valores e interesses de fundo nacionalista ou regionalista, ou ainda mesquinhamente local, acusamos como alienados os intelectuais que se inspiram em fontes norte-americanas ou europeias. Se é porém o caso de desmerecer um movimento brasileiro em favor de reivindicações provincianas ou grupais, toma-se como justificado recorrer a uma fonte europeia desprovida de efetiva familiaridade com nosso ambiente cultural.

César Leal conclui afirmando que a literatura brasileira pouco deve ao modernismo, embora tenha antes reconhecido que Carlos Drummond de Andrade, “o mais completo poeta da língua portuguesa no século”, é um produto espiritual do movimento que procurou do início ao fim desmerecer movido pelo espírito de província contra o qual venho argumentando. Na própria revista Pasárgada o leitor pode verificar que outro grande poeta, para muitos maior ainda que Drummond, confessou dever muitíssimo ao modernismo. Refiro-me, claro, a Manuel Bandeira. Embora os atos de modéstia por ele praticados, sobretudo o cansativo “sou poeta menor, perdoai”, fossem com frequência mero artifício retórico, aqui ele alcança uma medida de isenção e humildade diante do movimento estético coletivo que lastimavelmente não mereceu no artigo de César Leal tratamento semelhante. No mais, encarar a literatura brasileira como produto direto do intercâmbio internacional, como o faz o articulista, é desprezar o que foi precisamente uma das grandes conquistas do modernismo: o movimento de atualização intelectual e artística do Brasil. Noutras palavras, a causa assinalada por César Leal com o objetivo de depreciar o sentido de renovação e atualização do modernismo é nada mais que um efeito deste mesmo movimento.

Poderia também aqui alinhar provas em defesa da minha tese. É porém bem mais recomendável relembrar ao leitor a justamente celebrada conferência de Mário de Andrade, “O movimento modernista”. Embora apresentada no distante ano de 1942, prova factual de que Mário sobreviveu à ignorância hesitante com que Cendrars o matou em 1938, é ainda o mais importante documento de interpretação deste movimento que inspira ainda, setenta anos mais tarde, celebrações e ataques, preconceitos e reverências, que são de resto formas de preconceito. Pessoalmente, prefiro a atitude crítica na revista proposta, ou praticada, por Roberto Martins, Marcelo Coelho e Mário Hélio. Não obstante as atitudes que aqui declaradamente combato, servem ao menos para sugerir o quanto o legado do modernismo inscreveu-se na memória coletiva de um país tantas vezes justamente criticado por sua falta de memória coletiva. Não será isso uma prova de permanência e vitalidade do melhor espírito de um movimento que tantas vezes tropeçou no mito bandeirantista do “marco zero” nisso confundindo-se com o suposto antagonismo do “espírito de província”?
Colchester, Inglaterra, junho de 1992.
Nota: este artigo de corte polêmico foi publicado na revista Pasárgada, Ano II, nos. 2 e 3, setembro de 1993, pp. 4-6.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Gildo Marçal e a Indesejada das Gentes


Começo por advertir meu suposto leitor, talvez um dos muitos amigos de Gildo Marçal, que esta é uma crônica de memória e perda escrita ao sopro do subjetivismo mais elementar. Acrescentaria que muito relutei antes de aventurar-me a escrevê-la. Afinal, não posso com justiça e verdade incluir-me na categoria dos amigos mais verdadeiros e constantes de Gildo. Assim, penso que outros testemunhariam com maior largueza de fato e sentimento, também com experiência mais intensamente compartilhada, o sentido da vida que Gildo entre nós viveu e a memória que dele reteremos. Penso, por exemplo, em Denis Bernardes, provavelmente sua mais íntima e duradoura amizade. Vieram ambos, imaginem, das noites na Praça Deodoro, em Maceió. Lá, numa já remota juventude, sem com isso insinuar que sejam velhos, começaram a conversar e a conspirar para mudar o mundo e nosso confuso sentido de justiça e beleza e nunca mais pararam de conversar. Dizem as más línguas que falavam de tudo, menos do marechal.

Penso ainda em Edmilson Azevedo, carinhosamente identificado numa crônica de memórias deste blog como o Filósofo Desvairado. A idade, novamente sem insinuar que falo de um velhinho, tornou-o tão mais sensato que agora é ele quem risonhamente se reconhece e reconcilia nos desvairismos vividos. Edmilson foi amigo de Gildo quando graduandos de filosofia na Universidade Federal de Pernambuco. Aliás, confessa haver sido antes discípulo do que amigo. Dentre os amigos que Gildo deixou e preservou a vida inteira em Recife, poderia acrescentar Enilda e Emília. Também elas teriam incomparavelmente mais o que dizer e sentir do que eu.

Saltando para amigos de história mais próxima, penso também em Marcos Costa Lima. Com ele Gildo concebeu muito trabalho, política e aliança acadêmica e extra-acadêmica. Recentemente Marcos me falou de Hannah Arendt com o propósito de invocar a dignidade da política. Confesso que raramente identifico esta esquiva e equívoca senhora (friso aludir à dignidade da política, não à mais que digna Hannah Arendt) na política de que tenho notícia. Neste contexto, todavia, a alusão se faz oportuna, diria até necessária. Gildo Marçal foi um animal político como talvez não tenha conhecido outro. Dentro do meu livre entendimento, era político num sentido muito preciso e talvez arbitrário. Era político no sentido de aceitar e brigar com o outro respeitando-lhe a integridade de ser e viver. Embora militante da política, sobretudo em tempos de ditadura que exigiam coragem e convicção extremas dos poucos que a ela se opuseram com atos e palavra pública, nunca nele testemunhei a mais vaga intolerância ou sectarismo tão rotineiros nos círculos da esquerda que frequentei. Também lhe era estranho o ressentimento, outra doença juvenil e talvez ainda mais senil no círculo dos injustiçados e perseguidos.

Evoco um breve episódio do nosso convívio para melhor ilustrar a anotação do parágrafo precedente. Certo dia, hospedado por ele e Simone em São Paulo, conversávamos sobre política na sua biblioteca. Quando entramos a discutir alianças partidárias, esbocei uma crítica que poderia ser compreendida como ilustração do que Max Weber chama de ética de convicção. Ele então me fez um reparo que ainda hoje retenho como expressão de uma verdade indiscutível: disse que eu era moralista demais para fazer política. Confesso não lembrar com certeza se disse moralista ou puritano, mas no contexto da conversa os termos se equivaliam. Foi por esse e outros muitos motivos que me dei conta de minha insanável inabilidade e até inapetência para a militância política. Meu individualismo, não bastasse tanto, é tão insofreável que vivo discordando de mim próprio, discordando de mim e de todos e tudo, antes de tudo.

Gildo seguiu pela vida aceitando-me como sou e aceitando outros, talvez piores, assim como eram. Um bem melhor, mas impenitente gozador, é Paulo Carneiro, divertidamente tratado pelos íntimos como Capitão América. Aliás, o Capitão imita Gildo quase com perfeição. Queria tê-lo agora a meu lado para que melhor avivasse nos meus sentidos a fala inconfundível de Gildo. Pois Gildo gargalhava homericamente com o histrionismo e irreverência do Capitão. Outros ainda, logo desiludidos ou confusos na atmosfera da esquerda dos anos 1970, caíram no desbunde ou erraram pela vida desviando-se de Gildo e de tudo o que ele representava. Gildo aparentava compreender tudo isso, tanto que continuou lembrando com afeto, outras vezes com humor, muitos desses que seguiram ou se perderam por outras vias. Um outro, mais hipocondríaco do que amigo, perguntava-me repetidamente sobre a saúde de Gildo. Um dia ocorreu-me responder assim: Gildo já teve oportunidade demais para morrer. Se continua vivo, é porque é imortal. Logo, cuidemos da nossa mortalidade.

Mas que posso eu escrever do Gildo militante político? Deixo isso a cargo de Marco Antonio Coelho, Luiz Sérgio Henriques, Marco Aurélio Nogueira, Carlos Nelson Coutinho e tantos outros que bravamente lutaram em tempos sombrios, novamente evocando Hannah Arendt, ou ainda in dark times, como escreveu no original. A luta destes e tantos outros não consistiu apenas em manter vivo o comunismo sob a ditadura, mas sobretudo em renová-lo democraticamente. Como fui quando muito companheiro de viagem, o que posso dizer é que tive sempre um fraco pelos comunistas vencidos. Melhor dizendo, é o comunista que nunca conquistou o poder.
Luiz Sérgio Henriques acaba de me enviar um e-mail ressaltando através da citação de um verso famoso de Mário de Andrade a admirável pluralidade humana de Gildo.
Procurei nesta crônica acentuar antes de tudo minha memória do Gildo devotado à amizade. Daí haver intencionalmente citado alguns dos muitos amigos verdadeiros que conquistou e manteve ao longo dos anos. Materialistas ou não, o que de nós sobrevive é a memória preservada no amor dos amigos, pois a mortalidade é a nossa condição comum. Ademais, como Shakespeare escreveu, devemos uma morte a Deus. Gildo pagou a dívida que nós outros também pagaremos. Por isso, e por amor à memória generosa do que amamos, prefiro reter nestas linhas o Gildo que amava a vida e os amigos, o Gildo das gargalhadas que continuarei ouvindo na solidão onde enterramos e cultuamos nossos mortos.

Pergunto-me por fim se Gildo acaso alcançou diante da morte a serenidade tão singularmente expressa por Manuel Bandeira em Consoada, o poema do qual extraí metade do título que conferi a esta crônica. Não seria belo e confortador imaginar que partiu deixando “...lavrado o campo, a casa limpa, / A mesa posta, / Com cada coisa em seu lugar”?
Recife, 21 de fevereiro de 2010.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Mário de Andrade e as duas Éticas



Ética da Forma e Ética da Participação

Orientado para a atualização estética do Brasil, como bem sintetiza Oswald de Andrade na frase “Acertar o relógio império da literatura brasileira”, o Modernismo inicial se desdobra sob o signo da experimentação. Acertar o relógio significava regular nossa expressão estética em consonância com as vanguardas européias, atualizar nosso código expressivo assimilando-o às trepidações estético-culturais da modernidade. Já aí, no alvorecer modernista regido pela revolução da forma, ou da linguagem artística, Mário de Andrade se distingue como o mais informado participante das hostes modernistas. Essa circunstância, somada a outras de lastro moral necessárias ao exercício da militância artística, concorre para logo convertê-lo num dos dois líderes incontestes do movimento.
No curso dos anos vinte, incorporados à nossa historiografia literária como a fase heróica do Modernismo, a ética da forma se exprime na obra de Mário tanto na dimensão teórica, contida na formulação de uma poética da nova arte, quanto na prática (o poema e a narrativa ficcional materializando as proposições teóricas na criação literária estrita). Se nesse momento de ruptura dos códigos expressivos o projeto estético se sobrepõe ao ideológico , logo mais ambos se contaminam, sobretudo a partir do momento em que a dinâmica do processo modernista assimila o nacionalismo e a busca da nossa identidade cultural como dados fundamentais de particularização. Este ponto de inflexão está bem documentado, entre outras múltiplas fontes, na correspondência que em meados do decênio Mário de Andrade mantém com Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, além da colaboração ativa que empresta às páginas do periódico nacionalista Terra Roxa e outras terras. Em suma, a conversão do Modernismo internacionalista em nacionalismo militante vai gradualmente imprimindo nitidez ao relacionamento complexo entre a estética e a ideologia no cerne movente do movimento.
Retomando a distinção proposta por Lafetá entre projeto estético e projeto ideológico, pode-se corretamente repetir que o primeiro prevalece no curso dos anos vinte, enquanto o segundo rege o processo artístico-cultural do decênio seguinte. O processo é todavia complexo, como já o sugeri antes, pois na prática viva da arte e da cultura ambos se contaminam e interagem. Especificando essa relação – melhor direi correlação – tensional e ambígua na obra e na militância intelectual de Mário de Andrade, intentarei demonstrar como ele luta fora e dentro de si com e contra esses dois demônios: a ética da forma e a ética da participação. Embora o processo de maturação criadora concorra para que mais tarde encontre meios de imprimir mais nítida formulação a esses termos ora polares, ora paralelos, ora convergentes, mas sempre indissociáveis, o fato é que não logrou até o fim da vida repousar numa solução definitiva ou conciliadora.
Intentando, já um tanto em lugar impróprio, precisar o título desta comunicação, talvez a alguns cause estranheza a expressão Ética da Forma. Um exame apressado do fluxo das vanguardas deste século poderia induzir à crença de que muitas delas, inspiradas numa militância belicosa e destrutiva, cindiram na prática qualquer elo significativo entre ética e forma. Se é fato que Mário, como os vanguardistas em geral, usou e abusou da arma do choque - épater le bourgeois, como é evidente num poema como Ode ao Burguês - da irreverência, do escândalo, da provocação dirigida pelo cálculo pragmático, sua ação de vanguardista não deslizou nunca para o cinismo, a negatividade absoluta ou o niilismo. A história, seja a política, seja a cultural, não se faz, nos momentos de ruptura ou mudança brusca, à margem da destrutividade e da violência. O Modernismo brasileiro constitui uma ilustração amena desta verdade, mas é de qualquer modo um momento de eclosão destrutiva comandado pelas correntes renovadoras do nosso processo artístico-cultural. Assim, Mário de Andrade foi muitas vezes irreverente, muitas vezes cabotino, muitas vezes agressivo e destrutivo, mas há sem dúvida uma intencionalidade ética dirigindo sua ação substantiva.
A intencionalidade ética se evidencia, por exemplo, em pleno fervor experimental das vanguardas, quando exigia do artista o domínio artesanal – e mais amplamente estético – da arte que se propunha transformar. Crítico impenitente do vanguardismo, assim como do formalismo (entendendo-se aquele e este como inconsequentes ou gratuitos, friso), reclamou sempre do artista um princípio de responsabilidade social e estética perante a obra, em primeiro lugar, e em seguida perante o público. Do mesmo modo que dizia não acreditar na obra gratuita, esteticamente desinteressada, também criticava qualquer tentativa de experimentalismo que não se baseasse no conhecimento daquilo que se queria transformar, ou “fazer errado”, como dizia, no sentido de transgredir a norma, qualquer tipo de norma contra a qual o artista investisse sua negatividade. Noutras palavras, só se transforma consequentemente aquilo que se conhece.
Como se evidencia no parágrafo precedente, embora tenha eu condensado fatos e argumentos atribuídos a Mário de Andrade sem me deter em citações diretas, há uma ética dirigindo sua ação intelectual em pleno fervor da revolução formal. Ela se adensa e tensiona a partir do momento em que ele abraça o nacionalismo cultural com ênfase militante e até proselitista. É aí que emerge a questão: como conciliar arte experimental e funcionalidade social? Pode o artista ser ao mesmo tempo socialmente útil e esteticamente hermético? Mário se propõe de modo explícito esta contradição já em 1924, antes mesmo de a corrente da vida e da política exacerbarem o conflito entre a ética da forma e a da participação.
Eis o que diz a respeito escrevendo para Manuel Bandeira no ano acima indicado: “Toda e qualquer rebusca literária que prejudicar a clareza da expressão literária relacionada é defeito. Daí o pouco interesse que tenho por Mallarmé, Góngora, Reverdy e porção. O próprio Rimbaud em muitas das suas páginas me desagrada agora. Só foi supremo no Saison en Enfer. Daí também a minha evolução para uma arte cada vez mais simples e natural, arte de conversa que toda a gente entenda”.
Mário de Andrade nunca solucionou essa contradição compreendida entre a forma e a participação, entre a liberdade expressiva e a arte dirigida para um fim utilitário ou momentâneo. Traduzindo a contradição em outros termos alternativos, a função expressiva e a função comunicativa da literatura lutam no cerne da obra de Mário uma luta sem repouso, embora antes mesmo de 1930 se tenha empenhado em acentuar a segunda em detrimento da primeira. Talvez não exista simplesmente solução para o problema e ao cabo reste ao artista optar seja pela soberania da expressão – como o fizeram James Joyce, os pintores abstratos e a vanguarda musical erudita, para ficar nestes exemplos imediatos -, seja pela arte participativa tantas vezes diluída em banalidade e fôrma sem forma.
Mas se com uma mão confere prioridade à função comunicativa, com outra - a que redige Macunaíma, por exemplo – repõe a contradição. Uma mão, observe-se, escreve esta autêntica profissão de fé participante na qual a obra, enquanto valor especificamente estético, se dissolve em pregação utilitária: “Minha arte, se assim você quiser, tem uma função prática, é originada, inspirada dum interesse vital e pra ele se dirige. (...) Minha arte aparente é antes de mais nada uma pregação. Em seguida é uma demonstração. (...) Minha vida é uma erupção de ardências de amor humano, eu só vivo pensando nas realizações desse amor. É natural pois que os motivos da inspiração nasçam do que toma todo o meu motivo de viver. Daí o lado intelectual, pregação, demonstração da minha pseudo-arte. Arte que se o for tem sempre um interesse prático imediato que nunca abandonou”.
A outra mão, todavia, já o frisei acima, entrega-se com rigor e paixão à longa e maturada forma de Macunaíma. E esta obra, que é em termos de criação ficcional a mais alta expressão do nosso nacionalismo cultural, reitera em Mário a contradição entre expressão e comunicação na medida em que imprime relevo e prevalência ao primeiro termo, daí resultando uma obra inventiva no andamento deliberado e consciente da composição formal, uma obra polissêmica e como tal crivada de ambiguidade, ironia e inversão paródica dos códigos convencionais.
Esticando ainda um pouco mais a corda das tensões dialéticas no intento de precisar essa contradição vivida por Mário de Andrade, ela não se esgota na formulação polar acima impressa. Mário vai além do questionamento da literatura experimental incorporando à contradição o artista que opta pela obra, ou pela literatura, em lugar da vida generosamente vivida. O exemplo aqui suposto nos remete para o seu ensaio sobre Machado de Assis. Escrevendo sobre o nosso artista supremo durante as celebrações do seu centenário, começa Mário por se propor uma pergunta retórica: amas Machado de Assis? A tentativa de resposta é já a imediata transpiração de uma luta que se estende pelo corpo do ensaio sem que ao cabo se resolva. Mário admira Machado de Assis, curva-se humilde diante da sua supremacia literária, nele identifica o grande vitorioso da forma, o dominador irrecusável de todas as técnicas e meios expressivos, mas lhe recusa amor, mas conclui por admitir a impossibilidade de se entregar amorosamente à obra de Machado de Assis. Em suma, Machado deve ser objeto de admiração e de culto, mas não de amor. Na visão exaltada e missionária de Mário, faltou a Machado o sopro de amor generoso recobrindo a aspereza do gênio. No plano da linguagem e do estilo, de uma ética da forma, Machado a tudo se impõe e serenamente se guarda na sua permanência de gênio da arte brasileira; no plano da ética da participação, entretanto, Mário decreta sua influência negativa:
“... Machado de Assis não profetizou nada, não combateu nada, não ultrapassou nenhum limite infecundo. Viveu moral e espiritualmente escanchado na burguesice do seu funcionarismo garantido e muito honesto, afastando de si os perigos visíveis. Mas as obras valem mais que os homens. As obras contam muitas vezes mais que os homens. As obras dominam muitas vezes os homens e os vingam deles mesmos. É extraordinária a vida independente das obras-primas que, feitas por estas ou aquelas pequenezas humanas, se tornam grandes, simbólicas, exemplares. E se o Mestre não pode ser um protótipo do homem brasileiro, a obra dele nos dá a confiança do nosso mestiçamento e vaia os absolutistas raciais com o mesmo rijo apito com que Humanitas vaiou o sedentarismo das filosofias de contemplação. E se o humorismo, a ironia, o cepticismo, o sarcasmo do Mestre não o fazem integrado na vida, fecundador de vida, generoso de forças e esperanças futuras, sempre é certo que ele é um dissolvente apontador da vida como está”.
Espichei intencionalmente a citação para bem sugerir a natureza fraturada da crítica que Mário endereça a Machado, para igualmente sugerir o modo como a contradição, aparentando de início resolver-se, se repõe e se instala atravessada entre o coração e a consciência crítica do nosso Mário tão vibrantemente passional e desavindo de si. Sei que me excedo no tom e no estilo, sei que não convém à suposta objetividade do discurso acadêmico de corte positivista derrapar no tom confessional e amoroso, mas o fato é que Mário é assim: não se contendo no metro apertado da nossa humanidade convencional, ele vem e se derrama e quando o leitor dá por si já está também se derrramando.
Exigente e contraditório, exige Mário antes de tudo de si próprio em si próprio se contradizendo de forma continuada. Se combate a própria supremacia olímpica de Machado de Assis, como acabamos de observar, supremacia que supostamente lhe teria fechado as portas de uma expressão artística mais humana e calorosa e mais generosamente repartida com os leitores dele, combate a forma impermeável à participação, assim como combate a participação desarmada do rigor construtivo da forma artística. Por isso coerentemente entra em desacordo com o experimentalismo mais radical de Oswald de Andrade nos anos vinte para logo mais tarde, no decênio assinalado pelo predomínio do projeto ideológico, combater tanto a literatura participante de esquerda acomodada no gosto fácil da mimese naturalista quanto o absenteísmo metafísico de Tasso da Silveira, Cornélio Pena, Lúcio Cardoso e outros escritores de formação católica.
Como está visto, eu não resolvo a contradição que pontua este texto. Não a resolvo, antes de tudo, por estar consciente de que o próprio Mário de Andrade não a resolve no conjunto da sua obra, nem tampouco da sua vida sob muitos aspectos indissociável daquela. Acrescentaria que, até onde alcanço compreender, a contradição não se resolve aqui por ser ela própria insolúvel. Sendo assim, talvez o mérito desta comunicação consista em trazer a público uma questão ideal para o exercício do debate: a questão insolúvel. Não concluiria, entretanto, sem antes procurar sugerir grosseiramente algumas linhas de avanço na reflexão de Mário apertado, e até atormentado, pela tensão irredutível entre a ética da forma e a ética da participação.
Em 1938 Mário de Andrade escreve um texto, “O Artista e o Artesão” , no qual procura refinar conceitos estéticos passíveis de resolver, ou pelo menos conciliar em termos práticos, a contradição que observava existir entre a liberdade expressiva do artista e a função utilitária e comunicativa compreendida na arte que pratica. Operando com os conceitos de artesanato e técnica, principia frisando a necessidade universal do primeiro. Todo artista verdadeiro, enfatiza, tem que por força ser um artesão, isto é, dominar os processos e exigências compreendidos pelo material da sua arte. O artesanato, ou o conjunto dos meios elementares envolvidos na fatura da obra, é uma necessidade e é também a parte verdadeiramente ensinável da técnica. Esta, por sua vez, compreende um outro grau, que Mário designa como sendo a virtuosidade ou, noutras palavras, a ciência da técnica tradicional. Embora frise que esta parte da técnica é também ensinável, observa não ser ela imprescindível. Aliás, Tomá-la por imprescindível seria correr graves riscos. Como ele próprio assinala, a virtuosidade pode representar um grande perigo “Não só porque pode levar o artista a um tradicionalismo técnico, meramente imitativo, em que o tradicionalismo perde suas virtudes sociais para se tornar simplesmente ´passadismo` ou, se quiserem, ´academismo`; como pode tornar o artista uma vítima de suas próprias habilidades, um ´virtuose` na pior significação da palavra, isto é, um indivíduo que nem sequer chega ao princípio estético, sempre respeitável, da arte pela arte, mas que se compraz em meros malabarismos de habilidade pessoal, entregue à sensualidade do aplauso ignaro”.
Por fim, a técnica compreenderia um último e mais importante grau, aquele que Mário designa como sendo a técnica pessoal. Se de um lado compreende os dois modos antes referidos, o artesanato e a ténica tradicional, a ambos transcende não só por ser inensinável e imprescindível, mas sobretudo por ser uma expressão do que chamamos de ´talento`, por encerrar na sua manifestação complexa “a solução pessoal do artista no fazer a obra de arte”.
Seria demorado discutir as implicações técnicas e estéticas desses conceitos e distinções propostos por Mário de Andrade. O que me interessa acentuar, tendo em vista a natureza desta comunicação, é a articulação desses conceitos, sobretudo o de técnica pessoal, com o problema que nos ocupa: a contradição entre liberdade expressiva e funcionalidade social na obra de arte moderna. Segundo entendo, o conceito de técnica pessoal proposto por Mário em “O Artista e o Artesão”, tenderia a retificar a contradição que enquanto tal repousaria mais na formulação conceitual do que na natureza da relação que encerra. Ao propor um conceito de técnica pessoal passível de compreender não só o artesanato e a virtuosidade, mas também “a objetivação, a concretização de uma verdade interior do artista” , Mário tenta, segundo me parece, uma formulação conciliadora dos pólos contraditórios que atravessam muito da sua obra e das suas reflexões e dilaceramentos estético-ideológicos.
Se esta interpretação é sustentável, convém todavia lembrar que nela Mário não encontra repouso ou solução pacificadora para a sua obra posterior. Bastaria pensar em textos como “A Elegia de Abril”, de 1941, e “O Movimento Modernista”, do ano seguinte, ambos reunidos em Aspectos da Literatura Brasileira, e um conjunto de crônicas musicais inicialmente publicadas na Folha da Manhã, em 1944, nos quais a contradição entre o individualismo expressivo do artista e os imperativos de funcionalidade social da arte se elevam a um nível extraordinário de tensão.
Concluiria aludindo a um verso que, sei, já se tornou clichê. Se Mário foi 350, muito dessa multiplicidade significou não só alargamento de experiência e expressão, mas também de fratura e dilaceramento. Parte disso deriva por certo dessa luta sem trégua travada no trato com a obra, dentro de si próprio e nos embates contra o meio social. Disso também resultou um modo de superação dos fatores adversos sem a qual seria bem mais falível a dimensão de beleza e permanência, o sopro de humanidade conquistada que lhe surpreendo na obra entretanto bastante desequilibrada. O fato é que Mário está morto enquanto matéria física e tangível, mas a contradição prossegue seu curso imperturbável através da história da arte. No entanto, me pergunto, que artista perderia hoje o sono lutando em si e contra o mundo movido pela ambição de resolver a contradição entre a ética da forma e a ética da participação?

Recife, 19 de Junho de 2000.