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quinta-feira, 14 de novembro de 2013

A esperança


Esperança, paixão triste
expressa sempre temor
sobrepondo ao que existe
sua tenaz impotência.

Expressa ainda fraqueza
ante a desordem do mundo
que com alheia crueza
esmaga os sonhos no fundo
do humano mais desejante.

Esperança é correnteza
que raro flui pr´adiante
levando as águas pro porto
onde se agita a espera
Esperança é o desejo
que raramente prospera.

O seu avesso é a vontade
o estoico senso do ser
que acolhe a realidade
tal como é, como o que
nega a esperança, o desejo
que é de ordinário o sonho
traído pelo real.

Potência que inspira medo
o real é o que é
não o que sonho e desejo.
Mas que potência humana
pode anular a ilusão
que nosso engano sustenta?
O que do real promana
é nada além do que é.
A esperança engana
mas é refúgio da fé.

Recife, maio de 2013.

sexta-feira, 25 de março de 2011

A Utopia Existe




Sabem os leitores cultos, ou meros ratos de dicionário etimológico, que utopia quer dizer lugar nenhum ou lugar inexistente. A maior evidência da nossa natureza entranhadamente descontente, ou possuída pela miragem do irrealizável, consiste no fato de havermos convertido a utopia no mais extraordinário, insaciável e despótico capítulo da história das ideias. Nela inspirados, por ela cegamente movidos, milhões de seres humanos converteram um sonho, o lugar inexistente ou a sociedade utópica, numa assombrosa corrente de ideias, projeções imaginárias e fantasias infrenes. Mais poderoso e inquietante do que tudo isso é o fato de que essas maquinações humanas se desataram do reino das ideias e da imaginação para se converterem numa outra ordem de realidade ou expressão histórica. Quero dizer, passaram da ordem das ideias e da imaginação para a dos fatos.

O primeiro marco dessa epopeia que viso erraticamente esboçar é a Utopia de Thomas Morus, que aliás perdeu literalmente a cabeça. Não por conceber a sua utopia, marco nominal desse fantasma perene que assombra nossa passagem pelo mundo, mas por se opor, como autoridade suprema da religião na Inglaterra do seu tempo, às maquinações políticas e amorosas do soberano Henrique VIII. Aliás, corrigindo a tempo minha ignorância, antes de Thomas Morus houve Platão, Santo Agostinho e outros utópicos e utopistas.

Sendo antes de tudo uma projeção imaginária, a utopia encerra duas características fundamentais. Em primeiro lugar, constitui uma crítica do presente, não raro de forma críptica ou velada, um libelo contra as injustiças da sociedade enquanto tal. Impedida de realizar-se como crítica nua e crua da tirania inscrita na face do presente, ela se dissimula sob as vestes imaginárias da ficção projetando em um lugar inexistente, a utopia, o mundo que sonhamos e por isso constitui a negação do mundo real que combatemos. Dando provas de que no século 20 o mar não estava mesmo para peixe, muito menos para miragens paradisíacas, nele emergiram, na contracorrente do totalitarismo, várias obras que inverteram o gênero utópico fundando na literatura a distopia ou antiutopia. Bastaria lembrar Zamiatin, Arthur Koestler, Aldous Huxley e George Orwell.

O mundo que sonhamos, esse produzido pela imaginação utópica, constitui, noutras palavras, a segunda característica fundamental do pensamento utópico. Assim, a crítica do presente, ou do real enquanto dado opressivo e empírico, se enlaça à projeção do mundo impossível ou inexistente. Sucede que nossa natureza, cindida entre a realidade e a imaginação, que são de resto indissociáveis, daí distingui-las antes de tudo por razões de conveniência argumentativa, nossa natureza, dizia eu, é possuída pelo desejo de converter a utopia em realidade.

Quando descamba para o reino da política a utopia finda convertendo-se em tirania sanguinária. Em nome dos mais belos e impossíveis ideais, ela se instala como utopia e acaba como terror instituído sob as vestes dos mais belos ideais concebidos pela imaginação humana. Basta lembrar a Revolução Francesa, inspirada pela trindade Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Quantas cabeças não rolaram em nome desses bens inatingíveis, quanto sangue a guilhotina não verteu no reino do terror que se dizia libertário e fundador da utopia? Mutatis mutandis, o enredo se repete na Revolução Russa de 1917. O mais impressionante é constatar o quanto nosso desejo da utopia é sempre mais poderoso do que a realidade, cujos fatos logo comprovam o quanto a política inspirada por ideais utópicos logo se corrompe em tirania e terror. Os próprios intelectuais, suposta consciência crítica da sociedade, embarcam servilmente na defesa da tirania exercida em nome da utopia. Quantos durante décadas não prosseguiram louvando e lutando pela Revolução Russa, Stálin e outros “benfeitores” marxistas da humanidade? Utopia, quantas mentiras não inspiraste?

Catástrofes semelhantes ocorreram quando a utopia nutrida pela religião contaminou-se da política, isto é, aliou-se ao Estado para realizar neste mundo, ou reino da imanência, ideais utópicos que antes convêm ao reino da transcendência. Trocando em miúdos, ao céu ou nossas delirantes projeções do céu. Aliás, bem que podemos nesse sentido dizer que o marxismo não passou de religião secularizada. Como bem observou Chesterton, quando paramos de acreditar em Deus, passamos a acreditar em qualquer coisa.

Há quem acredite em Papai Noel e Xuxa; há quem acredite numa revolução existencial a cada passagem de ano, embora nossas vidas individuais continuem as mesmas, quando não piores. O processo de acelerada secularização da cultura e da religião decisivamente concorreu para que as pessoas passassem a acreditar em Deus apenas como uma mercadoria rentável. Outra consequência da secularização ou racionalização da cultura se espelha na deificação do artista pop e do jogador de futebol. Diante de tudo isso, parece-me insensato, ou pura perda de tempo, querer persuadir as pessoas de que a utopia não existe, de que suas maquinações imaginárias, que vão de Deus ao Shopping Center como expressão do paraíso mercadológico, não passam de delírio facilmente desmontável pela evidência objetiva da realidade, ou pelo discurso racionalista.

É evidente que aludo agora à utopia num sentido bem amplo, confundindo-a assim com qualquer tipo de invenção imaginária carente de comprovação empírica. Tomando-a nestes termos, reitero minha afirmação: a utopia existe. Parece-me pura perda de tempo tentar convencer os carentes de mito e fantasia, de ilusão e esperança, de que a realidade se esgota nos limites do comprovável, do aferível, do que se pode objetivamente assinalar no âmbito da nossa experiência.

A utopia existe e muita gente decerto seria incapaz de suportar a realidade privada desse tipo de projeção imaginária. O que pragmaticamente procuro imaginar é uma expressão de ordem utópica dissociada de qualquer poder político. Nesse sentido, é fundamental preservar a distinção entre Estado e Igreja, conquista da modernidade que felizmente nos põe a salvo da insanidade que, invocando a utopia, aspira a fundar no século a sociedade ideal. A experiência histórica comprova que esse foi o caminho mais curto para a realização do inferno neste mundo. Aliás, não sei de outro.
Encerro o artigo com a transcrição parcial de um diálogo travado pelos dois personagens de um conto meu cujo título é “A nudez do escritor tímido”:
“É possível tolerar nossa vida individual regida pela dúvida?
Penso que sim. A aprendizagem é longa e tormentosa, mas alguns se libertam da rede de crenças ilusórias que escoram nosso medo e o vazio flutuando à borda do abismo. Não esqueça de que as mais terríveis atrocidades produzidas pela história humana são fruto de alguma crença, alguma convicção cega e poderosa, algum sistema de fé. A crença, transformadora ou reativa, convertida em energia de ação social, tem sido a grande geradora de devastação da humanidade e do mundo natural. O mal que causei a este mundo derivou quase sempre do impulso vindo de alguma fé consciente ou obscura. Seríamos mais livres e menos destrutivos se aprendêssemos o dom da dúvida liberadora”.
Recife, 1 de janeiro de 2011.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Máximas e Mínimas III


Amigos? São os que ficam depois que a festa acaba. Quantos? É difícil estimá-los no país do carnaval, onde frequentemente confundimos festa com amizade. O brasileiro folião confunde sempre uma coisa com a outra. Por isso acredita ter tantos amigos, quando na verdade não tem nenhum.

Sei de um poeta famoso, imortal da Academia Brasileira de Letras, o que basta para esclarecer que falo de imortalidade tópica, que cultivava o hábito saudável de falar mal dos seus convivas tão logo se retiravam de suas festas. Alguns mais perceptivos, à força de lhe frequentarem a casa, acabaram notando-lhe esta particularidade e prudentemente passaram a retirar-se já no último minuto, quando a manhã já se anunciava. Sugiro que o leitor coteje esta anedota com a definição precedente de amizade e por fim tire suas próprias contas. Melhor dizendo, responda-me esta pergunta: quantos amigos tinha o poeta imortal?

Liberto enfim da esperança, eu nada espero. É portanto com fundamento no desespero que nego o absurdo da vida e na minha nudez acolho o quinhão de felicidade que me cabe ou tem a medida do meu contentamento.

Há muitos anos, bracejando no pessimismo atormentado, incorri num paradoxo inconsciente ao escrever: eu nada espero e assim me poupo de desesperar. Somente agora me apercebo do quanto era escravo de minhas esperanças malogradas ao escrever esta frase que apenas teria sentido na medida em que encerrasse um paradoxo intencional. Agora sei que ser livre para não ter esperança é escolher o desespero.

Esperança não é força, mas impotência, pois esperamos o que por definição está além de nossa vontade e realidade. Seria acaso dizer-se que a profissão do brasileiro é a esperança? Ou ainda e melhor: que o Brasil é o país do futuro?

Com frequência hoje me pergunto se minha vida progride (ou regride?) para uma atmosfera de serena reclusão. A esse propósito, é curioso ou sintomático observar como a memória – tocada por filmes que ninguém vê e livros que ninguém lê, salvo eu – me transporta para a solidão inglesa que profundamente me transformou ao enraizar minha maturidade num solo de vida habitada por modos de convívio muito restrito. Não brinco quando afirmo que o mundo, como idealmente o concebo, teria uma população de 1000 habitantes. É fato que não há muitas pessoas que verdadeiramente importem para mim. Direi que falo de um mundo de serena reclusão ou de quase misantropia? Terá a solidão voluntária, à força de repetir-se, me desabituado do mundo, ou merecerá o mundo insolúvel a redução de minha drástica medida?

A vida banal, feita de repetições e máscaras que nos protegem do outro, é talvez o que mais me desencoraja do convívio rotineiro. Sem pretender subordinar a vida à literatura, não me furto ao pensamento de que num breve capítulo de Brás Cubas penetro verdades humanas infranqueáveis a uma amizade de 10 anos, por vezes de uma vida inteira. Acaso insinuo nas linhas de tal contraste a convicção de que pessoas reais são rasas, quando não vazias? De modo algum. É por assim pensar que me inconformo com o fato de que seres humanos, dotados de possibilidades e experiências tão ricas e complexas, se acomodam a um convívio de trivialidade e desperdício. Prisioneiro da experiência trivial, quando enredado no convívio ordinário, mais e mais me recolho ao cultivo do meu jardim.

Most of my life I´ve been living in wrong places with wrong people. Learning to live by myself was a way of avoiding complete moral debasement.

Vivi a maior parte de minha vida nos lugares errados entre pessoas erradas. Aprender a viver sozinho foi um meio, entre outros, de não me acanalhar completamente.

O Brasil é uma porção de terra muito grande ocupada por uma porção de gente muito pequena.

If Brazil is the country of the future, then I can surely foresee that the future will be called Brazil.

A civilização é uma conquista penosa e sempre reversível.

Conflito de geração: Os pais desejam que seus filhos sejam o que eles não puderam ser, enquanto os filhos não querem ser o que seus pais foram.

Sou humildemente um self-failed man. Posso portanto orgulhosamente afirmar que não devo meus fracassos a ninguém.

Nossa identidade é uma costura consistente de muitas máscaras não porque queremos ser hipócritas ou mentirosos, mas porque precisamos dissimular para conviver e ser aceitos, medida necessária de nossa própria aceitação. Não obstante toda a reivindicação de transparência e verdade que inscrevemos no cerne de nossos ideais éticos, a nua transparência do que somos constitui uma verdade intolerável para as convenções que regem o funcionamento do mundo. Eliot assinala num dos Four Quartets o quanto é limitada nossa medida de suportação da verdade. Se igualmente pouco toleramos a mentira nua e crua, como então determinar a medida do que somos e fingimos?

Pensando melhor, não fui eu que envelheci, foi o tempo que se apressou. Mais que pressa, há nele uma progressiva aceleração que se manifesta no espaço e dentro de nossa medida subjetiva. Um dia deixarei de ser um nome para me tornar gerúndio: um tempo sempre sendo. Um dia deixarei de ser Fernando para ser apenas Fernada.Um dia inventarão a parada móvel, o sono acordado, o presenteando: presente sempre em processo. Um dia, carente de identidade, um dia sonhei ser eu. Sei agora que ser é sempre ser outro. O outro é nosso incerto destino. E nosso destino, universal e inescapável, é nossa medida mais humana suprimida pela cultura da alienação narcisista.