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segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

No Mural do Facebook XXVI


Consciência e alienação:
Tudo já foi dito, mas importa repetir o que não deve ser esquecido ou é ignorado pela maioria. Esta é de Bernard Malamud: Não é a loucura que põe o mundo às avessas, mas a consciência. Revolucionou a minha quando eu era jovem e vi o filme O homem de Kiev, baseado no livro cujo título é The Fixer. Foi traduzido no Brasil pela Bloch Editores. É irônico que o marxismo, a ideologia cujo objetivo era dissolver a alienação humana através da consciência de classe, se tenha degradado numa religião secular. Portanto, numa farsa da religião. Por isso disse que o religioso sabe que crê, enquanto o ideólogo que crê que sabe. O Brasil está vivendo essa repetição da ideologia como farsa religiosa que não ousa dizer o seu nome. Melhor dizendo, é tão alienada que não sabe que é religião.
(Publicado no Facebook, 29 de dezembro 2016).

A diferença entre o religioso e o ideólogo:
O religioso sabe que crê, enquanto o ideólogo crê que pensa. Como tudo já foi dito pelo menos desde o Eclesiastes, com certeza alguém escreveu isso antes de mim.
(Publicado no Facebook, 29 dezembro 2016).

A bondade dos estranhos:

Tenho um amigo que se diz afortunado por receber a bondade dos estranhos. Embora tenha ajudado a tantos amigos e conhecidos, nas horas adversas nunca esses lhe prestaram a ajuda de que precisava. Sua sorte, portanto, é quase sempre aparecer-lhe o estranho bondoso na hora da carência ou necessidade. A bondade dos estranhos é não-só imprevisível, mas também desinteressada. Feliz do necessitado que, desamparado pelos supostos amigos, encontra um ancoradouro na bondade dos estranhos. Mais que impagável, o bem que lhes deve, e para sempre guardará na memória da gratidão, renova sua precária confiança na imperfeita natureza da nossa condição.
(Publicado no Facebook, 20 dezembro 2016)

Vida, amizade e reciprocidade:
Comentando meu post mais recente, A bondade dos estranhos, alusivo à peça e filme escritos por Tennessee Williams, Heloisa Pait observou com razão que a vida não é feita de ações baseadas na reciprocidade. Relacionando a vida estritamente ao tema um tanto vago que aqui discuto, entendo a vida como uma rede complexa de ações e reações imponderável. Encurtando a rédea do meu galope toscamente filosófico, a ponderação ética que me ocorre ressaltar consiste no reconhecimento de que é insensato fazer o bem movido pela intenção de reciprocidade. O ideal seria praticá-lo como disse fazê-lo o estranho bondoso. Este, até por não conhecer a quem doa, faz o bem de forma desinteressada. Se no entanto consideramos a amizade neste contexto, suponho que ela implica reciprocidade. Não digo que isso esteja implicado no plano da intenção do amigo que faz o bem, mas na natureza da amizade. Se de fato sou amigo de alguém, este pode contar comigo na hora da necessidade, naquela ordem de circunstância que diferencia a amizade da mera relação de conveniência, interesse ou cálculo. Entendo, portanto, que a reciprocidade está necessariamente compreendida na amizade, não na vida compreendida no sentido genérico com que acima intentei caracterizá-la.

Declaração de omissão:

Que os militantes da minha geração me desculpem, mas declaro que optei pela omissão. Quero dizer, não quero e nunca quis envelhecer frequentando o Facebook e coisas semelhantes para desabafar minha revolta e impotência diante dos impasses insolúveis do Brasil. Já vivi e refleti o bastante (detestaria viver uma vida sem exame e revisão impiedosa da minha experiência e de minhas ilusões) para repetir o que há muito penso: o Brasil é inviável. Poderia expor evidências históricas e pessoais infindáveis para justificar esse juízo que para muitos não passa de pessimismo ou omissão. Para mim é apenas realismo. A história do Brasil nem chega a ser farsa, lembrando a frase célebre de Marx; é apenas a comprovação de que somos "the centre of paralysis", como escreveu o "apolítico' Joyce definindo a Dublin que imortalizou na sua obra.
O Brasil é um fazendão incivilizável. Falta-me o pessimismo (isto é, realismo) heroico de Antonio Callado e o otimismo delirante, também heroico, de Darcy Ribeiro. Fico com o primeiro, diante de quem me envergonho de propor qualquer comparação pessoal. Depois de tanto lutar para civilizar o fazendão, ele, que foi um modelo de civilidade e coragem, afirmou que o Brasil tinha apenas grandeza geográfica.
Melhor voltar a cultivar o meu jardim. Minhas flores não brigarão comigo como brigaram tantos "revolucionários, amigos, democratas, salvadores da pátria, órfãos da utopia, comissários do povo, viciados no otimismo a qualquer preço". Fico com a minha omissão, meu jardim voltariano, minha arrière boutique montaigniana.
Pena que tudo isso sequer nos ajude a reconhecer nossa intolerância, nossa indiferença à realidade iníqua que alegamos combater, nossa servidão voluntária, nossa sujeição eterna à esperança. Não foi à toa que, no auge da ditadura, um show intitulado "Brasileiro: profissão esperança" alcançou tanto sucesso. É a nossa cara. Vivemos de esperança, futebol, carnaval e retórica vazia. O Brasil perdeu o trem da modernidade de forma tão aberrante que nos restaram apenas as rodovias (obra de empreiteiras corruptoras associadas a políticos corruptos) e o inferno do trânsito nosso de cada dia. Espero que todos continuem brigando em paz.
(Publicado no Facebook, 10 de janeiro de 2017).

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

No Mural do Facebook XXIV


O brasileiro e seus hábitos culturais:

Embora brasileiro já cansado de guerra e de tentar decifrar nossos códigos culturais, sou ainda e certamente morrerei como um aprendiz perplexo da minha própria cultura. Como ninguém consegue viver sem conferir sentido e expectativa às formas de convívio que estabelece com o semelhante, tento sempre traduzir certas atitudes básicas ou cotidianas, mas com frequencia me confundo ou sigo meu caminho solitário sem explicações convincentes. Espremo o assunto demasiado complexo num único item: a amizade.
Um dos mitos culturais do qual muito nos orgulhamos refere-se à facilidade com que fazemos amigos. Ora, essa facilidade já por si só diz muito do sentido da nossa amizade. Amizade é uma conquista rara e preciosa. No entanto, dela falamos como se fosse algo banal. Isso já me parece uma evidência do quanto somos volúveis e inconsequentes nas nossas relações afetivas. Há muitos anos, quando era idiota ao ponto de confundir amizade com coisas apenas semelhantes, disse a alguém que tinha quatro grandes amigos. Ele prontamente respondeu: então você tem muita sorte, pois não tenho nenhum. Achei isso estranho porque esse alguém é uma das pessoas mais queridas, sedutoras e engraçadas que conheço. Depois compreendi melhor sua resposta e, pior, a experiência dissolveu meus quatro amigos, reduzidos a um, que aliás morreu há alguns anos.
Como preciso concluir, antes que desistam de ler o que segue, somos demasiado gregários, demasiado presos aos vínculos de família, cujos valores contaminam nossas relações públicas, para construir amizades verdadeiras. Não nego que existam, claro, mas numa cultura tão familista e gregária como a nossa, tão afeita a resultados fáceis e imediatos, a amizade não é nada fácil como parece. Se parece tão comum num país onde estranhos se tratam calorosamente como "amigões" e "amigos do peito" é porque quase sempre a confundimos com outra coisa.
(Publicado no Facebook, 23 de agosto 2016).

Vítimas da democracia:

Sérgio Buarque de Holanda, que para a maioria dos brasileiros supostamente cultos é apenas o pai de Chico Buarque de Hollanda (tão mais importante que dobrou um l no sobrenome), disse que no Brasil a democracia não passava de um lamentável mal-entendido. Errou apenas no tempo verbal, isto é, a democracia continua sendo um mal-entendido. Acentuo apenas duas das múltiplas faces desse mal-entendido: o abuso da democracia e o culto da vitimização. Como a democracia nunca se entranhou de fato na nossa cultura, ela existe antes de tudo como institucionalização formal. Longe de mim depreciar a que temos. Antes ela do que nada ou a regressão a estados de exceção ou autoritarismo nu e cru.
Mas convenhamos: o que é mesmo que Dilma Rousseff, essa carpideira da história (ou da istória, como escrevia Millôr Fernandes), quer dizer quando clama contra o golpe de que é vítima em nome da democracia? Ela, seu criador e todos seus fieis sectários clamam contra um golpe político em curso perpetrado em nome da democracia. Martelam essa denúncia obsessiva ao mesmo tempo em que legitimam democraticamente todo o processo de impeachment, já que participam dele segundo todas as regras estabelecidas pela lei. Não desdobro a argumentação por saber que quem está do outro lado confunde, intencionalmente ou não, lógica argumentativa com fé dogmática.
Passando ao segundo ponto, a vitimização, não vou falar das vítimas da história recente, que são muitas. Abusando um pouco da imaginação histórica, já que hoje tantos abusam da imaginação histérica, fico pensando no que hoje seria o Brasil, se ele houvesse lutado nos campos de batalha como a Alemanha, Inglaterra, Rússia, Estados Unidos... Em suma, acho que estaríamos ainda carpindo nossas vítimas entre as ruínas literais da grande devastação. Como ninguém vive apenas de chorar, milhões estariam nas filas do INSS requisitando pensão de vítima da guerra. Fico por aqui porque vou pegar meu lugar na fila: vou requerer pensão por ser vítima da democracia. E ai do INSS se não acatar e remunerar substancialmente meus direitos. Afinal, sou também vítima da democracia, esse lamentável mal-entendido.
(Publicado no Facebook, 29 de agosto de 2016).


quarta-feira, 4 de junho de 2014

Máximas e Mínimas XI


Muita gente ama a vida porque não suporta a realidade. Raros os que amam a vida real.
Amo você como você é. Não se ouve frase mais banal e inconsciente na linguagem dos amantes. Por isso os amantes mentem tanto. Se eu pudesse realizar meu ideal de felicidade no amor, diria que esse ideal consiste no seguinte: amar dentro da verdade, ser feliz tendo a verdade como princípio. Infelizmente, me confesso incapaz disso e nunca conheci ninguém capaz de converter esse ideal em realidade. Portanto, convém amar nossa imperfeição tantas vezes mentirosa ou consolar-se amando gato e cachorro.
Uma relação de ódio pode consumar-se no flash de um gesto ou palavra. O amor, entretanto, precisa sempre e sempre dar provas de si: do quanto é generoso, atencioso, desprendido, quente, protetor, fiel, luz acima das meias tintas cotidianas dentro das quais movem-se nossas existências insignificantes. Ai dele se não transpirar no calor e espirrar encolhido dentro do frio. Ai dele se, depois de dez anos de estrita fidelidade, chover no verão ou menstruar em pleno desfile de moda. Ai dele se entoar uma marcha fúnebre na madrugada do segundo dia de carnaval ou dançar um frevo no velório da sogra assassinada. O ódio, por outro lado, não requer qualquer talento ou virtude. É tão fácil quanto ferver água ou dormir de olhos fechados. Por isso às vezes não resisto à recorrência do fracasso e assim me rendo desolado: "Caramba, estou cansado de amar!" (agosto de 1993).
O Brasil passou de colonial a subdesenvolvido, em seguida a país em desenvolvimento, daí a país emergente. Subimos tanto e todavia continuamos atolados no mesmo buraco.
A política denuncia como uma fratura exposta o pior da nossa natureza. É por isso que corro dela. Não é que me suponha apolítico, já que ninguém o é. Simplesmente admito ter o nariz delicado demais para suportar a cru meu próprio cheiro.
Ideologia é a fé secular de quem é incapaz de andar sem a muleta de uma religião.
O otimista é um pessimista mal informado.
Otimista é quem despreza os fatos que desmentem sua expectativa.
O pessimista não é quem vê e espera o pior da realidade; é simplesmente quem aceita a realidade como ela é.
Tanto buscamos o amor, por certo o sentimento e a experiência suprema da nossa vida, e todavia como tão mal e erradamente o vivemos. Juramos amar aceitando o outro como ele é. No entanto, contradizemos essa promessa generosa, pois somos incapazes de transcender o egoísmo que rege nossa natureza. Se amar é um ato de doação, sair de si para se dar ao outro, por que tantos amantes não saem de si próprios?
Se houvesse no ser humano um grão de sabedoria, ele adotaria como princípio ser fiel à sua natureza. Somos, contudo, tão inconscientes do que somos que confundimos a função do papel higiênico com a do guardanapo.
Os céticos antigos diziam que a vida não era para ser levada a sério. Mas no Brasil, convenhamos, a gente exagera.
Inconsciência, teu nome é Brasil!
A vaidade é uma variação ruidosa da estupidez.
As pessoas não suportam o silêncio porque temem ouvir a sua voz irredutível.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Facebook e amizade


O Facebook é uma das evidências definitivas da transição de um mundo baseado nas relações face a face, expressão cunhada pela sociologia e logo estendida à linguagem corrente, para as relações virtuais. Trocando isso nos meus miúdos, deixamos de nos encontrar, de nos ver e tocar materialmente para nos relacionar como signos verbais e imagéticos, ou ainda audiovisuais. Por isso o Facebook é a grande esquina global onde todos se cruzam, se veem e se falam sem sequer precisar levantar-se da cadeira. Basta agora um clique no mouse e logo todos nos conectamos, nos fazemos milagrosamente presentes, não obstante ausentes, fechados cada um na sua ilha ou casulo.
Todos os dias vejo e converso com pessoas que nunca encontro. Estou só, cada vez mais só, e todavia povoado, aturdido por vozes e imagens, textos e palavras que já não vivo como um estado de vivência alucinada, mas como o novo estado de normalidade e modo de ser inventado pela tecnologia digital. Aprendemos a prescindir do outro e a lavrar ainda mais fundo nosso egoísmo e solidão porque nos tornamos essa inefável figura remota e imediata, ausente e presente, solidária e indiferente, ávida de vida e notícia e todavia aridamente entediada. A revolução que nos refaz é tão inusitada e contraditória que corrói as categorias lógicas mediante as quais a linguagem expressava a identidade e a contradição, as noções de espaço e tempo, de velocidade e duração. Em suma, estamos todos aprendendo a ser outro a cada dia. As condições do ser e do tempo foram viradas de ponta cabeça e não sabemos ainda o que fazer deste admirável mundo novo.
Embora declare minha incompetência que tem algo de geracional para lidar com a tecnologia digital, longe de mim pintar o Facebook com tintas sujas e paletas tortas. Aliás, se assim procedesse seria apenas contraditório de modo inconsequente. Pois não sou parte da rede, não me conecto quase diariamente para saber dos amigos, próximos e remotos, íntimos e estranhos? Apesar de ser um navegante bem seletivo e inconstante, tenho olhar atento para captar tudo que me parece interessante, inteligente, tudo que confere sentido e presença às pessoas que amo – agora virtualmente, vá lá, mas antes isso do que nada.
Cadastrei-me no Facebook por sugestão de um amigo. Além de ser incompetente para fazer essas coisas, ele me deu um conselho muito razoável: como tenho um blog e quero ser lido, então deveria cadastrar-me para postar o link de tudo que publico no blog. Segui o conselho com uma intenção, mas, como é freqüente, a realidade engendrou outras – ou outros efeitos, melhor direi. Bem pouca gente freqüenta meu blog, mas em compensação acabei sabendo do paradeiro de amigos há muito desaparecidos da minha vida. Passei a saber onde estão, com quem estão, o que comem, o que opinam e tudo que expõem na vasta esquina global. Aprendi inclusive a me valer da hiper-exposição da rede para melhor evitar quem não desejo, a melhor saber de quem quero, a rir com as postagens que me desatam o riso, a me comover com a beleza que irrompe na telinha numa multiplicidade de formas.
Em suma, encurtando o caminho, pois ninguém mais tem paciência para ler mais de uma página, o Facebook é o que já disse: a grande vitrine ou esquina global do mundo revolucionado pela tecnologia digital. É ainda tribuna, antro de fofoca e narcisismo sem freios ou senso de conveniência, palco de afetos e insultos, de indignação e conformismo. É ainda o palco onde todos nos supomos artistas e portanto importantes. Aqui todos se concedem uma importância indevida, uma relevância que ilude até os mais anônimos. Aqui, como tudo que é invenção humana, planta-se tudo e tudo frutifica, até o que já nasce podre. Há gosto para tudo e desgosto idem. Por isso importa recortar, cada um a seu modo, o seu jardim e lavrar o que resulta em colheita coletiva e portanto incontrolável. Quero dizer, cada um faz o que quer com o jardim alheio: há quem distinga a flor e amorosamente a recolha para enriquecer seu próprio jardim, assim como há quem a esmague ou simplesmente ignore. Somos assim ambivalentes em tudo: no amor como na guerra, no condomínio como no Facebook. Somos o bem e o mal porque estes pólos indissociáveis estão entranhados na nossa natureza. Concorre ainda para agravá-la o fato de que o bem não raro produz o mal e vice-versa. Agora ninguém mais precisa visitar ninguém, pois a internet fundou definitivamente a aldeia global. Se você não gosta, não importa de que ou de quem, basta desconectar. Desconectei.
já que este texto vai agora para o meu blog, então posso esticá-lo à vontade. Mas não ao ponto de entediar o típico leitor de blog, que nesse contexto é apenas uma variante do feicebuqueiro (que vá o neologismo). Quero dizer, um leitor algo mais paciente, que não larga o autor no meio de uma frase simplesmente porque este excedeu a medida de uma página, não importando sua qualidade. Seguindo uma sugestão de leitura de Fátima Duques, li uma crônica bem curta, mas certeira, de Ronaldo Monte, blogueiro mais experimentado do que eu. Ele critica com humor seco e preciso a diluição do conceito de amizade introduzida pelas redes sociais. É um fato que muito me incomoda. Embora tenha noutro texto deplorado essa nova noção de amizade, o amigo de Facebook, aproprio-me das sugestões oportunas de Ronaldo para acrescentar à minha improvisada caracterização do Facebook um aspecto cuja omissão empobreceria ainda mais minhas ponderações.
Importaria lembrar que a depreciação do conceito de amizade independe em certo grau da erosão afetiva causada pelas redes sociais. Na realidade, ela está entranhada na nossa mentalidade cultural, tendente ao desleixo e inconsequência das relações afetivas. Não é à toa que qualquer estranho, a propósito de tudo ou de nada, bate nas nossas costas e efusivamente nos chama de amigo ou amigão. No Brasil, dentro ou fora das festas e bares, todo mundo é amigo, todo mundo pulveriza na inconsequência das nossas relações este ser tão precioso e raro: o amigo. Outra evidência consiste na leviandade com que nos prometemos visitas e marcamos encontros sem que nunca umas e outros se tornem realidade. São coisas que dizemos por dizer com a inconsciência com que respiramos ou dormimos. Os estrangeiros que conheci ou acolhi no Brasil ficam desorientados quando se apercebem de que os convites e supostas visitas são apenas “para inglês ver”. Nada disso é para valer, assim como uma infinidade de coisas que prometemos e juramos não são para valer. Charles de Gaulle foi muito generoso quando disse a frase que ficou registrada na nossa história: Le Brésil n´est pas un pays sérieux.
Ronaldo Monte tem razão quando pisa no pé do Facebook irritado com essa banalização da amizade, que na rede se faz e desfaz com um simples clique no mouse. Mas volto a insistir neste ponto: somos um povo de amizades inconsistentes e fantasiosas. Somos amigos de carnaval, de festas que a troco de nada pipocam em qualquer terreiro ou esquina. Isso diz muito sobre a nossa futilidade e há muito me educou para desconfiar do foguetório dos amigos que me cercam nas circunstâncias convenientes ao egoísmo, à leviandade, ao mero acaso das circunstâncias. Amigo é outra coisa e não se faz no ruído momentâneo das festas e bares. Amigo é jóia rara que precisamos lavrar durante anos, sobretudo nas circunstâncias adversas e até extremas, pois é quando a amizade de fato reponta nas linhas puras da sua raridade.
O Facebook dissolveu o sentido real da amizade, que agora se faz ou refaz num simples clique, mas a cultura brasileira minou há muito, entre festa e batuque, misturando e diluindo cores e afetos, o sentido ontológico da amizade. Quem duvidar que procure um amigo na hora da necessidade, aquela que define quem é quem, quem é amigo ou simples parceiro de copo e de passo carnavalesco. Se amizade não se faz no Facebook, também não se faz num país onde todo mundo é amigo e amigão, onde as crianças aprendem desde os primeiros dias de escola a chamar a professora de tia e tiazinha. Uma cultura que assim socializa suas crianças está lavrando desde a origem o culto da amizade inconseqüente e confundindo amor e amizade com falso parentesco. Portanto, não culpemos o Facebook por males entranhados na nossa cultura que tanto celebramos, como se essa manifestação de amizade fosse algo além da futilidade dos afetos. Quantos estrangeiros não se enganam com esse foguetório, esses braços abertos para a amizade que não passa de festa? Quando a festa acaba e os bares se fecham, quando a escuridão desce sobre nossas vidas, quase sempre descobrimos desamparados que não há e nunca houve nenhum amigo real.

domingo, 20 de outubro de 2013

Vinícius II


O documentário Vinícius é tão rico de temas e sugestões artísticas e humanas que ao decidir comentá-lo acabei excedendo todas as medidas previsíveis e razoáveis. Afinal, escrevo para blog e bem pouca gente tem ainda a paciência de ler na telinha qualquer texto que ultrapasse a medida de duas páginas, não importando a relevância do tema e a própria qualidade da escrita e do comentário. Digo isso, reconheço limpidamente isso, e no entanto insisto em exceder a própria medida do excesso. É um outro modo, ainda que involuntário, de prestar homenagem ao homem e artista excessivo que foi Vinícius. Se o romântico é por definição um ser de excessos, sobretudo quando cotejado com o seu avesso, o clássico, Vinícius foi romântico tão incorrigível que sustentou a tensão romântica da sua poesia quando o romantismo estava já francamente esgotado enquanto estilo de época ou movimento estético. É claro que num outro sentido, no sentido de atitude existencial em face do mundo, o romantismo é sempre presente.

Essas observações ligeiras favorecem aqui uma retomada do documentário no registro pertinente às amizades de Vinícius. Seria difícil, senão improvável, encontrar na história da nossa cultura um artista mais necessitado de amizade e companhia do que Vinícius. Ele foi no sentido mais excessivo do termo, novamente como romântico típico, um ser entregue ao exercício do convívio fraternal e intenso. É algo que testemunhou na linha da biografia, sempre povoada por gente, festa e confraternização, e também na própria poesia e na música que criou. A ênfase aqui, por razões que explicarei logo adiante, recairá sobre a música. Com certeza, não existe arte investida de maior energia socialmente integradora do que a música. Isso sugere possíveis explicações sociológicas para a hegemonia da música na nossa cultura, tão aderente aos vínculos gregários, à celebração da festa e do prazer grupal.

Vinícius foi poeta e antes de tudo poeta. Mas a poesia que por muito tempo praticou, a canônica e impressa, supõe um estado de recepção oposto ao da música popular. Lemos poesia de ordinário em estado de solidão. O poema, sobretudo o de natureza romântica, como é o caso do de Vinícius, é lido com frequência em voz alta, ou pelo menos sussurrado. Um crítico como Harold Bloom recomenda, com razão, que se leia poesia desse modo. Afinal, a leitura de viva voz acentua os elementos rítmicos e musicais do poema. Ainda que assim acrescentemos à recepção da poesia esses traços socializadores, o fato é que a leitura é por definição solitária. Não que estejamos sozinhos, bem pelo contrário, mas também precisamos estar fisicamente sozinhos quando lemos. É esse paradoxo que explica a verdade profunda e tocante contida nestas palavras de William Nicholson: “Lemos para saber que não estamos sozinhos”.

Vinícius transita, já em meados da década de 1950, da poesia impressa para a música popular. É quando conhece Tom Jobim e se associam para musicar Orfeu da Conceição. E assim nasceu a parceria que foi provavelmente a de mais alta distinção poético-musical do Brasil. A história, inclusive com seus lances anedóticos, é conhecida demais para que aqui volte a repisá-la. O que ligeiramente acentuo é o fato de que a parceria Tom Jobim e Vinícius vai muito além do repertório identificável como característico da bossa nova. Vai tão além que precede e sucede esse estilo. Confiná-los nos limites da bossa nova, como alguns erradamente fazem, é empobrecer a amplitude e variedade da música que produziram tanto juntos quanto sozinhos ou associados a outros parceiros que tiveram.

O documentário, aliás, contém uma das cenas mais engraçadas de pura farra que já vi na tela. Refiro-me à passagem em que Tom e Vinícius estão cantando “Pela luz dos olhos teus” visivelmente de pileque. Tom toca violão e Vinícius, debruçado no seu ombro, canta meio engrolado a letra dessa bela canção. Depois emendam, em tom de humor, as dores de cabeça que dão às mulheres por causa dos excessos etílicos em que incorrem e a cena evidencia. Tom então diz que sua mulher, já desesperada, pegou duas garrafas de uísque e arrebentou-as na cozinha para impedi-lo de continuar bebendo. E ele encerra a anedota observando que não adianta quebrar as garrafas porque ele logo cuida de comprar outras.

Um momento de pura iluminação sensual irrompe quando Mariana de Moraes, a linda neta de Vinícius, canta “Coisa mais linda”. Fiquei simplesmente deslumbrado diante de sua graça, beleza e sensualidade. Só isso já valeria o filme. Um crítico americano, cujo nome me escapa, devastou o cd “Se é pecado sambar” que Mariana gravou há algum tempo. Pra mim ela pode desafinar, brigar com o compasso, errar por becos rítmicos e harmônicos improváveis. Ela precisa apenas aparecer, pecando no samba e sobretudo na vida. Não sei de melhor meio de honrar a ascendência onipresente do avô.

Vinícius teve parceiro em excesso, outra evidência do ser excessivo que foi. Já mencionei acima sua parceria mais alta, a que compartilhou com Tom Jobim. O documentário inclui seus parceiros mais constantes e notáveis, o que é de justiça. Assim, Carlos Lyra, Baden Powell, Edu Lobo, Francis Hime, Toquinho e Chico Buarque passam pela tela, tanto em imagens de época recuperadas de arquivos quanto em depoimentos atuais gravados exclusivamente para o documentário Já no fecho deste Mônica Salmaso canta uma das mais belas composições de Edu Lobo e Vinícius, infelizmente tão pouco lembrada hoje: “Canto Triste”. Se escolhesse as 20 melhores canções brasileiras de todos os tempos, com certeza a incluiria. Não preciso sublinhar o quanto essas seleções são arbitrárias. Se as renovo é tão-só com a intenção de realçar a excelência de “Canto triste”, que tantas vezes cantei acompanhado pelo violão badenpowelliano de Lucivânio Jatobá.
Concluo essas divagações já excessivas inspiradas pelo excessivo Vinícius lembrando que sua trajetória de vida é como uma linha de direção invertida. Melhor diria se trocasse a linha por um percurso em zigue-zague. Quero melhor sugerir que Vinícius foi velho quando jovem e jovem até porra louca, jovem desmedido e retardado quando já velho. Tentou-me aqui o termo ridículo, mas prontamente recuei. É que penso que era tão ele, tão espontaneamente Vinícius nos próprios excessos da velhice, quando se muda para a Bahia no auge do nosso desbunde cultural tupiniquim, que não consigo ver ridículo num comportamento que provavelmente assim seria qualificado fosse um outro velho qualquer.

Como Ferreira Gullar bem observou, mencionei isso na primeira parte deste artigo, ele começou velho impregnado de catolicismo, rabugice direitista e poesia metafísica. Com o tempo e as más companhias, benditas más companhias, foi se despojando das convenções que lhe tolhiam a liberdade individual, que atrapalhavam a infrene manifestação do romântico por temperamento, convicção e espontânea adesão estética. E assim se afirma na vida o diplomata boêmio e radicalmente antiburguês. E assim Vinícius se desprende do livro, da página impressa, para mergulhar de cabeça no mundo do espetáculo musical, o reino congenial do seu narcisismo generoso e irrefreável, carente de convívio caloroso e aconchego protetor contra os abismos da solidão que sempre repeliu, contra o poço do desamor e da indiferença que também passionalmente combateu.

Vinícius tem características pessoais muito divergentes do que sou. Isso todavia não anula a paixão, a comoção com que vejo sua vida e sua arte recompostas no documentário dirigido por Miguel Faria Jr. O registro emocional que assinala minha recepção da obra é também comum, tenho certeza, a muita gente que pouco o conhece, que pouco compartilha de sua figuração passional da vida. Mas como ficar indiferente a uma vida tão intensamente vivida, como passar à margem de uma presença que tão poderosamente iluminou a cena cultural brasileira dos anos 1950 para cá, que tanto impregnou nossas tradições românticas e dengosas, sensuais e festivas com a música e a poesia mais cativantes e comoventes?

Quando vi o documentário pela primeira vez, dentro de um cinema, sai quase chorando de emoção, a alma lavada por uma torrente de beleza, sensualidade e humor. E de repente, em meio à massa anônima que se movia nos corredores do Shopping Guararapes, tomou-me o desejo urgente de voltar correndo para casa, servir-me de uma dose de uísque e me abandonar na solidão da varanda ao canto de todas as suas músicas que sei toscamente acompanhar ao violão. É claro que isso tudo escandalizaria Vinícius, isto é, a emoção inspirada por sua vida e sua música fruída na solidão da minha varanda. Ele me empurraria para o centro ruidoso da vida onde os amigos e meros acompanhantes de ocasião confraternizam, desejam a bela mulher que passa e transfiguram as tintas e linhas banais do cotidiano. Como todo artista iluminado pela força da paixão criadora, Vinícius foi um dos nossos grandes transfiguradores da vida e do cotidiano, que sem ele teriam sido muito mais pobres.
Recife, 16 de outubro de 2010.

Nota: O poema abaixo transcrito foi escrito logo depois que vi o documentário Vinícius pela primeira vez. É apenas um poema de circunstância, modalidade também praticada por Vinícius, Drummond e sobretudo Manuel Bandeira. O que me encoraja a expor meu poema, antes circunstância do que poesia, é o exemplo destes modelos que converteram a matéria do cotidiano, da circunstância e da gratuidade do prazer lúdico numa outra modalidade de manifestação da poesia.
Vinícius
Vinícius, vícios
Quem não os tem?
Melhor que tê-los
É ter alguém.
Alguém pra amar
No ar, no mar
No céu da vida.
Em cada olhar
Reinventar
A voz traída.

Vinícius, vícios
Dor e suplícios
Há que sofrer.
Mas há paixão
Nessa canção
Que é você.

Tua matriz
Outro país
Há de inspirar.
Em Lu, Laís
Outros brasis
Virão cantar.
Recife, 26 de maio de 2006.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Denis Bernardes


No fecho de uma das obras-primas de Bergman, O sétimo selo, a morte conduz o séquito das suas vítimas recortadas na linha do horizonte. Seguem-na, os mortos, enfileirados e dançando. Dançam uma dança solene rumando para a escuridão irreversível. A cena é narrada por um obscuro artista ambulante. À luz do amanhecer, descreve a cena para sua mulher que traz o filho pequeno ao colo. A visão do narrador se dilui quando a mulher sensatamente observa: você e suas fantasias... E se vão puxando a carroça através dos campos desertos da vida. Cito de memória, daí a omissão das aspas.

Foi a morte de Denis Bernardes, no último sábado, 1 de setembro, o que me induziu a evocar o filme e a cena acima descrita com as tintas borradas da memória. Quem conhece o filme sabe que é uma luta entre o cavalheiro medieval (Max von Sydow) e a morte. A luta se trava na forma de uma partida de xadrez. O cavalheiro é um jogador exímio, um adversário refinado na arte do jogo, que é o jogo da vida, mas sabemos que está fadado à derrota. Pois quem teria gênio, astúcia e poder para dobrar a Inescapável nesse longo e fatal combate que contra ela travamos?

Setembro chegou privando-me, sem aviso prévio, de mais um dos grandes amigos de minha vida. O primeiro, Daniel Lima, morreu em abril. Com sua imaginação irreverente, Daniel habituou-se nos últimos anos do nosso convívio a aludir à morte como a Magra Caetana. Na visão do saltimbanco do filme de Bergman, ela lidera o séquito dos mortos portando a foice e a ampulheta. Nunca conversei com Denis, a sério ou brincando, sobre essa figura mítica e aterradoramente real. Lembro-me de que falamos com muito humor da velhice. Meu último encontro com ele e Gildo Marçal foi com certeza o mais divertido de tudo que com ambos compartilhei. Entramos a falar da vida e da velhice com a imaginação transfigurada pela magia do vinho tinto (que Gildo há muito estava proibido de beber e por isso nos acompanhava com a sobriedade lúdica dos viciados em Coca-cola) e daí fantasiei nosso internamento numa clínica geriátrica em tom bem mais delirante do que o da personagem de Bergman descrevendo a Magra Caetana e seu séquito dançando rumo à escuridão definitiva.

Além da beleza da cena que encerra o filme de Bergman, achei belo fantasiar meus amigos Daniel e Denis somando-se ao séquito da morte dançando como crianças. Ambos reverteram, fatalidade dos que morrem, à escuridão que ata os dois extremos de nossa passagem por este mundo: a escuridão do útero, de onde brotamos, e a escuridão do desconhecido, obra da foice e da ampulheta empunhadas pela Magra Caetana. Nada me custa imaginar Daniel saltitante, dançando a dança incontornável da morte. Custou-me um pouco figurar Denis despedindo-se da vida e dos que o amam, e aqui ficam, seguindo as pegadas dionisíacas de Daniel, a este dando uma mão, a Gildo a outra, enquanto mergulhavam na escuridão que doravante nos separa.

A memória involuntária, entretanto, astuta como a Magra Caetana no jogo de xadrez da vida, salta do fundo do meu inconsciente e repõe na luz transparente do dia uma cena de certo carnaval de Olinda. De repente, me vi na folia ao lado de Denis, Rita, Marjorie e Natan Sarmento. Logo que Denis e Rita casaram, depois de um namoro que começou no meu apartamento, o casal Marjorie e Natan a ambos somou-se criando uma espécie de confraria de farras de fim de semana. Participei de poucas, duas ou três, mas foi o suficiente para avaliar o quanto se ligaram através dos elos profundos da amizade feita de convívio alegre e festivo. Até onde pude perceber, esse foi o momento mais feliz da vida de Denis. A partir de então, nossa amizade encolheu e foi recuando para encontros esparsos e ocasionais. Outros amigos bem mais importantes entraram na sua vida. De uns dez anos para cá, diria que são eles, não eu, que melhor poderiam pronunciar-se sobre Denis, sobre fatos e experiências que mais profundamente vincaram seus últimos anos de vida.

Mas a imagem do carnaval que brotou do meu inconsciente traduz algo do espírito festeiro de Denis, avesso das suas características mais notáveis, aquelas que moldavam as linhas de um temperamento introspectivo, não raro dissimulado atrás de muitas portas inacessíveis. O Denis que aqui reponta, em plena folia do carnaval de Olinda, é o folião fantasiado como Dom Quixote, galopando um cavalo de fantasia escudado por seu fiel Sancho Pança, Natan Sarmento. Poucas vezes me diverti tanto no carnaval de Olinda seguindo-os rua afora na caça dissimulada, mas sempre sintomática, das mulheres lindas enfeitiçadas por esse circo colossal, esse delírio da imaginação coletiva que é o carnaval. Essas impressões me marcaram de forma tão profunda que na mesma tarde, recolhendo-me momentaneamente da folia, comecei a compor um longo poema intitulado Carnaval de Olinda. Por isso tomo a liberdade de abaixo transcrever os versos inspirados nas fabulosas aventuras que a fantasia carnavalesca os impeliu a desatar pelas ruas coloridas de Olinda:
De repente, um homem magro e recluso
se transfigura em Quixote
erra pelas ruas perseguindo mulheres
belas e atormentadas pela falta de amor ou pura carne.
Outro homem, um que fazia concursos e que já foi comunista
agora se chama Sancho e é louco qual o seu amo.
Mulheres vão libertando
que vivam o que desviveram.
A virtude atirem contra o diabo
que o corpo será dos homens,
amém.

São essas as memórias e imagens que quero reter nesta crônica dedicada a Denis Bernardes. Já que não era Bernardo, mas Bernardes, ficam aqui implícitos os muitos que foi. Outros com certeza melhor diriam sobre a obra de historiador que produziu, tão pouco conhecida. Mas o fato de Evaldo Cabral de Mello, um dos maiores historiadores brasileiros, distingui-lo com referências elogiosas a seu O Patriotismo Constitucional: Pernambuco, 1820-1822, sugere um pouco do que esta obra representa para o estudo do processo histórico complexo, e ainda pouco estudado, da nossa independência. Outros ainda, a maioria, poderiam opinar sobre sua vida de professor e pesquisador. Outros sabem melhor da coerência discreta com que militou em nome de causas e movimentos políticos temperados por sua presença sempre admirável no seu timbre de tolerância e civilidade, no senso de virtude agregadora que assinalava sua participação em muitos grupos intelectuais e políticos.

Alguns amigos comuns ocasionalmente me falavam nos últimos tempos de um Denis transformado por experiências dolorosas associadas à doença e circunstâncias privadas alheias ao nosso convívio direto, que se estendeu, com as interrupções inevitáveis, de 1974 à época em que casou com Rita de Cássia, sua segunda mulher. Depois disso nossos encontros foram sempre, como acima salientei, esparsos e ocasionais. Costumo dizer que a amizade é o privilégio da intimidade. Tive a ventura de compartilhar isso com Denis e alguns poucos, pois amizades autênticas não se fazem nem perduram em redes sociais ou no circuito volátil das festas e reuniões sociais. E a intimidade é por natureza inconciliável com a exposição. Denis foi dos raros dotados de um senso não somente ético e político, mas também temperamental, nitidamente discriminativo da fronteira entre vida pública e vida privada, entre o privilégio da intimidade, expressão maior da amizade, e a vida pública.

A propósito, conviria religá-lo neste ponto a Daniel Lima. Ato assim, por mero arbítrio associativo, as duas pontas da crônica, já que comecei juntando-os num mesmo parágrafo e agora volto a reuni-los para concluir a crônica. Foram ambos homens afortunados, pois tinham o dom de se fazer amar. Embora tão distintos em termos de personalidade e temperamento, desfrutaram sempre do privilégio de serem bem amados, de preservarem amizades fiéis ao longo da vida. Até onde sei, essas amizades essenciais se prolongaram até à linha fatal onde foram colhidos pela Magra Caetana portando sua foice e sua ampulheta. Um dia, nós que aqui ficamos e lhes preservamos a vida que sobrevive na memória e nos ritos simbólicos que atualizam no tempo os que partiram, um dia seremos também colhidos pela Inescapável. Tudo que desejo (que mais desejar em face da necessidade?) é que ambos, Daniel e Denis, tenham partido dançando de mãos dadas com Gildo Marçal, Paulo Medeiros e tantos outros que já percorreram a linha irreversível da vida. Tudo que desejo é também saber dançar a dança da morte, que se aprende na vida, no momento em que a foice e a ampulheta sobre mim descerem.

Recife, 3 de setembro de 2012.

sábado, 1 de setembro de 2012

Minha avó Hannah


A foto que ilustra esta crônica não é infelizmente a que a inspira. Procurei-a, a inspiradora, no Google e noutras fontes possíveis. Não a encontrei. Sendo assim, peço ao leitor benevolente um certo exercício de imaginação visual ao ler o que segue.
Um dia vi uma foto de Hannah Arendt. Lembro-me de que foi pouco depois de ler a tradução brasileira, Companhia das Letras, de Homens em tempos sombrios. Aliás, andei remexendo minhas prateleiras, agora bem encolhidas, pois me desfiz de muito que erradamente julguei não mais precisar, na esperança de encontrar nessa edição a foto que procuro, a inspiradora desta crônica. Não encontrei meu exemplar. Certamente dei-o a algum amigo. Resta-me o exemplar de uma edição em inglês, mas nesse não há sequer uma foto. Privado da foto que procuro, valho-me tão só da minha memória.

Recuando no tempo, foi ao ver a foto de Hannah Arendt que me comovi prontamente, pois ela me fez evocar a imagem de minha avó Joaquina, a quem sempre chamei de vovó Quininha. Achei extraordinária, à altura da vida de ambas, a semelhança – semelhança estritamente física, acentuo. Em tudo mais que poderia considerar, tendo em mente o pouco que sei da vida e da obra de Hannah Arendt, associo mulheres de mundos e experiências totalmente diferentes. Mas espanta-me ainda a semelhança física que me leva sempre a associar a imagem de minha avó à de Hannah.

Sugiro ao leitor cultivado na obra de Hannah Arendt que largue a crônica por aqui, se acaso espera ler em qualquer sentido uma apreciação crítica da sua obra. Não é meu propósito. Esta crônica, deixo claro, não passa de um exercício arbitrário de memória inspirado por uma foto dessa extraordinária pensadora, tão independente e corajosa na defesa de suas convicções que induziu meu amigo Luciano Oliveira, estudioso de sua obra, a chamá-la de “velhinha irritante”. Antes que o confundam no sentido que imprime ao aposto com seu toque tão pessoal de humor, o tom e a intenção de Luciano é de admiração e afeto.

A foto de Hannah tocou-me de modo singular. Não apenas levou-me prontamente a evocar a imagem de minha própria avó, como já afirmei, mas me mordeu a consciência com um travo de culpa sem reparação. A imagem de minha avó que me veio à memória foi a da última vez em que a vi. Eu estava dentro de um ônibus cheio de passageiros trafegando na Rua Imperial, que foi cenário tortuoso da minha infância e adolescência. Ia na direção de Afogados quando, por alguma razão que me escapa, fiquei retido em meio ao trânsito paralisado, fenômeno então incomum. Daí dizer que a razão desse fato me escapa.

Coincidência ainda mais singular foi o fato de o ônibus parar bem próximo à casa onde minha avó vivia com meu tio Nelson. Depois que deixei minha família e passei a mudar de endereço como um judeu errante, minha avó foi viver nessa casa apenas compartilhada com meu tio Nelson. Como este vivia pelo mundo, rodando pelas estradas no exercício itinerante de sua profissão de caminhoneiro, ela ficou reduzida a uma solidão quase absoluta. Em pé no ônibus cheio de passageiros, vi-a no centro da porta de entrada, os cotovelos apoiados na parte inferior da porta que se dividia em duas partes. A parte superior estava logicamente aberta.

Lembro-me de que era tardinha, aí pelas cinco da tarde. Minha avó fitava a rua sem prender os olhos em nenhum objeto preciso. Seu olhar era portanto o olhar vago de quem olha para fora como se olhasse para dentro, ou simplesmente neutralizasse a visão dispersando-a numa sucessão de sensações móveis. Dentro do ônibus imobilizado no rio congelado do trânsito, esqueci-me de mim e de tudo que me rodeava enquanto concentrava minha visão em minha avó. Separava-nos a distância de uns cinquenta metros. A imagem que dela irradiava era a da velhice abandonada e solitária. Vendo-a paralisada na tarde, o olhar perdido no movimento da rua, senti uma dor imensa, um dó imenso da minha avó. Não bastasse a imagem para sempre pregada na minha memória, leio ainda naquele ser miúdo e solitário todo um longo e doloroso percurso de privação fechando o círculo estreito e opressivo de sua vida.

E assim salto da imagem para a memória distendida no tempo carente de reter na crônica os vincos dominantes da passagem de minha avó por este mundo. Ela pouco falava de si própria, das dores que acumulou ao longo de uma longa vida. O que sei de mais pessoal e doloroso é de certo modo parte da memória comum da família. O marido era um bruto, por um tudo, sobretudo por um nada, tratando os filhos a pancada, não raro impondo aos mais rebeldes, como minha mãe e meu tio Aloísio, surras impiedosas. Quando morreu, deixou a família praticamente desamparada: minha avó e cinco filhos. Foram salvos por meu pai que, depois de casar com minha mãe, abrigou a família inteira na sua casa de comerciante solteirão e abastado.

Na verdade, meu pai não casou com minha mãe, mas com a família dela. Minha avó continuou prisioneira da casa e da cozinha, espaço natural da mulher dentro da ordem patriarcal. Depois vieram os filhos das suas filhas, netos quase sempre entregues aos cuidados de minha avó. Quanto aos filhos dela, foram cuidar de suas vidas e ela ficou entre as famílias constituídas por minha mãe e minha tia Vitória. Encurtando o enredo, esse foi seu destino: cuidar até à velhice dos filhos das filhas, além do filho Nelson, homem de nervos abalados, miseravelmente escravo de uma avareza intransigente.

Prisioneira de uma vida tão áspera, marcada pela privação e a rudeza do trato, além da violência sem reserva do marido, não é de estranhar fosse minha avó uma mulher também áspera e pragmática. Via a realidade através do filtro estreito do grupo familiar, a vida regida por interesses materiais. Cuidava dos filhos, mais tarde dos netos, com um senso de dever impecável, mas nada punha de amor, de expressão afetuosa manifesta nesse trato com os parentes. Pelo contrário, vivia quase sempre resmungando pelos cantos da casa, sempre cuidando das tarefas repetitivas e repreendendo com severidade, embora não me lembre de vê-la uma única vez castigando fisicamente nenhum filho ou neto.

Um dia me dei conta de que aquela aspereza de trato, a função provedora isenta de afeto, neutra de amor e carícia, era apenas uma couraça defensiva, o meio que desde cedo precisou aprender para lidar com a brutalidade do mundo. Descobri um dia, noutras palavras, que minha avó era apenas um ser carente de amor, privado portanto de tudo que era incapaz de nos dar de forma manifesta em ato e palavra. Minha avó não me dava amor. Resmungava comigo como se eu fosse apenas um objeto de dever maternal devido à razão muito simples de que não sabia o que era dar e receber amor.

Menino carente de amor, privado de amor de mãe e de necessária regência paterna, comecei timidamente, em tom meio de brincadeira, a alisar os cabelos de minha avó, acercar-me dela e de repente tocá-la com uma carícia corrida, curta o suficiente para prevenir qualquer rejeição. Ela reagia crispada, resmungava um “vai pra lá” sem convicção, e assim fui lentamente dissolvendo-lhe a couraça. De tanto cercá-la com gestos cada vez mais ousados e firmes de afeto, acabei conquistando seu amor. Não que tenha passado a me tratar com carícia e afago, mas passou a aceitar sem reservas meus gestos de afeto. Foi assim que me tornei seu neto favorito.

Preocupada com meu futuro, passou a seguir-me com advertências pragmáticas ao me surpreender com frequência absorto na leitura de algum livro. É que certo dia, por um desses acasos felizes e simplesmente inexplicáveis, pus-me a remexer o topo da estante do meu tio Edmundo, já falecido, que ocupava lugar central dentro da sala de estar. Essa estante era uma figura ambígua, símbolo do lugar que a cultura letrada ocupava num mundo povoado pelo analfabetismo e as tarefas imediatamente orientadas para o duro exercício da sobrevivência. Num mundo tão primitivo, de cultura letrada tão raquítica, o livro e a estante ocupavam lugares desprezíveis e enigmáticos, objeto tanto de desprezo quanto de admiração. Daí a ambiguidade acima assinalada.
Meu tio Edmundo, leitor de jornal e gramática, de romances e outras matérias intrigantes, foi até colaborador ocasional do Jornal do Commércio, um dos dois principais periódicos de Pernambuco. Morto ainda relativamente jovem, deixou no mundo minha tia Vitória e seus quatro filhos. De quebra, essa estante de livros intocáveis dominando com silêncio inquietante para minha curiosidade de adolescente a sala de estar quase sempre deserta, pois há muito a família morava em Recife. E eis que chegou esse dia em que, mordido pela curiosidade, desandei a catar a chave da estante. Encontrei-a afinal, já recoberta pela ferrugem do esquecimento. Abri-a sem ainda saber que estava descortinando um mundo, o mundo que se sobreporia à minha paixão febril pelo futebol, às vagabundagens pelo desgoverno de Igarapeba com seus canaviais, sua gente pobre e rude, seus horizontes que, na minha imaginação, aquelas milhares de páginas já desbotadas pelo tempo ampliariam até os confins da Sibéria, guiado por Dostoiévski, até as múltiplas e míticas paisagens europeias traçadas pela pena de Alexandre Dumas, o pai e o filho, Walter Scott, Charles Dickens, Thomas Hardy, Eça de Queiroz e folhetinistas como Lorenzo Gualtieri, autor de Maria, a fada do bosque.

A descoberta desse mundo fabuloso da imaginação, até então silenciado e protegido pelo vidro e a poeira da estante do meu tio, foi sem exagero uma mudança radical na minha vida. Para começar, como já sugeri, afastei-me das vagabundagens da vila e até o futebol ficou um pouco encolhido dentro da fatias de tempo que dividiam as rotinas do meu dia. Os amigos, dando pela minha falta, surpreendendo-me encolhido na solidão dos livros, retido no silêncio da sala deserta, não entendiam o que se passava comigo. A oposição mais firme, embora recoberta de cuidados antevistos no futuro sombrio que me aguardava, procedia de minha avó. Temendo ver-me reduzido à solidão inútil de um leitor de livros mofados, avessos à ordem prática do mundo, minha avó continuamente se acercava de mim e me advertia: “Vai cuidar da vida, menino. Livro não dá dinheiro a ninguém. Por que não segue o exemplo de Antônio Costa? É um ativo, um sacudido, sempre ganhando dinheiro...”

Era assim que minha avó procurava salvar-me da inutilidade, da catástrofe que seria tornar-me mais um letrado desocupado no mundo regido pelo trabalho árduo e a necessidade vigilante. Não sabia ela, coitada, nem teria como, que aqueles livros obscuros e desprezados, mas também portadores de segredos invejados pelos iletrados, salvaram-me das rotinas tediosas da vila, descortinaram na minha imaginação e na minha inteligência relutante, mas carregada de interrogações, um rastro de luz e entendimento que passei a seguir diligentemente através de minha vida. O que de melhor fiz de mim, não tenho dúvida, teve início na solidão e no silêncio daquela sala de estar no dia em que abri a porta da estante com a chave enferrujada e um sopro de vento correu as páginas dos livros mofados contaminando-me para sempre.

Quem diria que meu errático percurso de leitor me transportaria da estante do meu tio às páginas da “velhinha irritante”? Mais improvável ainda pareceria essa semelhança física que surpreendi espelhada entre a foto de uma e a memória da outra. Para além da minha culpa, ainda latejante, por não ter naquela tarde distante descido do ônibus para espantar a solidão desamparada da minha avó, enredo-me em vagos e improváveis símbolos que me prendem à lenda do judeu errante ou à semelhança física entre uma judia, a mais extraordinária judia da cultura do século vinte, e minha pobre e obscura avó. Como não me decidi a descer do ônibus para ir ao encontro de minha avó, aquela foi a última imagem que dela retive. Logo mais tarde segui errando pela vida, enquanto ela foi viver em Salvador acolhida pelo amor do meu tio Aloísio.

E segui errando, errando através de cidades, estradas, ruas e endereços como um judeu errante. Errando nos bares, no trânsito promíscuo de corpos sem aderência, meros móveis de carne e prazer momentâneo. Errando através de pousos, refúgios, pensões e camas sempre moventes. Errando também através de livros, dos labirintos traçados pelo pensamento e a imaginação de escritores e artistas incontáveis. Esse é meu melhor e mais fiel modo de erro. Não daria completa razão à minha avó, quando me advertia vaticinando um futuro de fracasso para seu neto querido, porque, vindo de um mundo tão obscuro, tão crivado de erros e fracassos, chegar aonde cheguei é inegavelmente um triunfo. Portanto, o fantasma de Judas, o obscuro, o trágico e pungente personagem de Thomas Hardy que tão poderosamente vincou minha imaginação com linhas sombrias, não se converteu na realidade que poderia ter sido a minha vida. Mas acreditem que cheguei bem perto dele, do seu fracasso irreparável.

Voltando a Hannah e minha avó, presto minha humilde memória a esta ao lhe emprestar o nome de uma das mulheres mais admiráveis do século. Houvesse eu descoberto a judia, “a velhinha irritante” durante o tempo em que convivia ainda com minha avó, teria com certeza falado de uma à outra, teria sobretudo ressaltado a semelhança física que entre elas identifico. Receio porém que minha avozinha, prisioneira irredimível do seu orgulho obscuro, atado à medida crua da razão utilitária, confinaria sua curiosidade a uma pergunta curta e direta: “Quanto ela ganha pra escrever esses trastes?”
Recife, 14 de agosto de 2012.

domingo, 12 de agosto de 2012

Deus me livre de ser mulher -Epílogo


A generosa atenção crítica que algumas amigas concederam à minha série de crônicas sobre as relações de gênero, digamos assim sumariamente, induziu-me a acrescentar este epílogo. Antes de tudo, tenho muito apreço pela opinião das minhas amigas. Aliás, é curioso observar como de ordinário apenas a mulher manifesta interesse especial por essa ordem de problema. Não sei de nenhum homem que conceda atenção refletida às questões de gênero, às relações amorosas etc, salvo por dever profissional ou acadêmico. Nos limites de minha experiência, os homens consideram as questões que discuti ao longo da minha série de crônicas em termos de fofoca, humor, queixa ressentida ou certo travo de misoginia que se dissolvem na epiderme dessas questões. É uma pena, pois afetam obviamente tanto a mulher quanto o homem, como procurei ressaltar numa das crônicas.

Tento agora explicar melhor parte do que erraticamente fui respigando nas minhas crônicas. Como já observei, esses meus escritos não têm maior ambição. Brotam de alguma intuição, algo que afeta minha experiência, ilumina bruscamente a andadura rotineira da minha vida, e de repente me sinto movido a plasmar a intuição em palavra, reter na duração da escrita algo do que intento salvar do fluxo contínuo das sensações e experiências. Por isso escrevo meio à deriva do momento. Retenho o facho de luz que anuncia a treva. Além disso, dada minha indisciplina intelectual, minha vexatória falta de método e ordenamento da matéria abordada, vou enfiando assunto por via associativa, pegando aqui, largando adiante, seguindo as curvas e tropeções do itinerário errático de um escritor bêbado. Logo, sei que há muitos furos nos meus argumentos, muita coisa silenciada ou esquecida nas entrelinhas do discurso. Daí minha necessidade de retomar o texto no seu conjunto para de certo modo comentá-lo visando melhor esclarecê-lo.

Começando pelo título, somente uma leitura muito apressada pode autorizar a interpretação de desapreço pela mulher. A expressão, tal como correntemente usada (Deus me livre de ser mulher) traduz antes de tudo um alívio de desapreço. Noutras palavras: que bom não ser mulher. Na minha crônica, porém, fica claro, por tudo que nela escrevo, que o sentido conferido ao título é irônico e provocativo. Minha intenção ao adotá-lo foi provocar a atenção da leitora para no desdobramento da crônica propor questões críticas, questionar experiências comuns à mulher e ao homem introduzindo na relação entre ambos diferenças de ordem social e natural que, no meu entender, afetam negativamente bem mais a mulher do que o homem.

Talvez a maior prova do quanto me alio à perspectiva da mulher consista na alusão aprovativa que faço a Eric Hobsbawm, quando se refere ao século 20 como o século da mulher. Não é exatamente isso o que diz. Portanto, traduzo em termos pessoais e mais simples. Também a crítica que faço à nossa tradição patriarcal, ainda tão viva no Brasil e notadamente no Nordeste, não dá margem a ambiguidade sobre meu ponto de vista. O paralelo que traço em tom de crônica de memórias entre mim e minha irmã deixa patente a subordinação social da mulher, o preço altíssimo que pagava para viver reclusa num estado de segurança que eu equivocadamente invejava.

Retomando a clave memorialística ou autobiográfica, atribuo minha sensibilidade à condição oprimida da mulher no mundo da minha infância e juventude a certas características singulares do meu pai que julgo haver herdado. Opostos incompatíveis, ele e minha mãe reverteram na minha experiência normas dominantes da nossa tradição patriarcal. Enquanto ela era voluntariosa e autoritária, não raro indo ao extremo da violência imposta aos filhos, meu pai era, como diz a expressão corrente, um doce de pessoa. Papai foi o homem mais delicado e amoroso que conheci. Não é pouco dizer isso num mundo povoado por machões, por cabras-machos que identificam na delicadeza de atitudes e sentimentos uma ofensa, ou fraqueza feminina. Além de herdar muitos desses traços, nosso convívio na minha infância com certeza os reforçou no meu modo de ser. Afinal, ele andava de mãos dadas comigo, me punha para dormir, cercava-nos, a mim e a meus irmãos, com uma delicadeza única, ademais acentuada pela perda da minha mãe, que nos abandonou fugindo para São Paulo na companhia do amante. Pois é, isso foi no tempo em que a mulher que ousava ir a esse extremo não se separava, fugia apagando as pegadas da fuga, pois doravante cavava sua própria desonra e a da família rejeitada.
Ferido por esse trauma, o maior da minha vida, tive que sofrer, entre outras consequências, os efeitos devastadores que causou dentro da minha família. Confuso diante da catástrofe, na adolescência os sintomas das dores e perdas agravaram-se ao ponto de me compelirem a procurar explicações, meios de compreender e assimilar o desastre em tudo que concorresse para iluminar a longa noite solitariamente atravessada. Num dado momento, descobri a psicologia, depois Freud e a psicanálise. Também Flaubert cuja obra-prima, Madame Bovary, foi minha fonte maior de compreensão da vida de minha mãe que eu completamente ignorava. Tudo através de leitura, da experiência refletida, das vias tortas do autodidatismo que está na raiz do que fui aprendendo pela vida.

Se algo aprendi ousando lidar com meus traumas e perdas, foi a necessidade de buscar a verdade sobrepondo-a sempre às ilusões consoladoras que tanto nos seduzem, mas ao preço da prisão na fuga da realidade, no autoengano, na ignorância que nunca ajudou ninguém. Nesse sentido, tornei-me um racionalista intransigente. Devo isso, claro, não às luzes do acaso, mas à leitura de gente como Freud, já citado, Bertrand Russell e muitos outros filósofos, psicólogos, romancistas, poetas... Não duvido de que fui salvo pelas luzes da razão, do conhecimento que vira pelo avesso nossas noções estreitas da vida, as convenções estúpidas que imitamos feito cãezinhos amestrados.

Foi graças às lições condensadas no parágrafo precedente que corrigi minha compreensão enganada do amor, em particular do amor romântico. Sei que o que escrevi sobre o amor romântico incomoda as mulheres confessadamente românticas. Queria por isso frisar que minhas críticas não são intencionalmente escritas contra elas. Escrevi-as antes de tudo contra mim próprio, contra uma noção herdada do amor romântico que me levou a amar tangido pela inconsciência da ilusão, pela idealização insensata da mulher. Quando a perdi, a que marcou profundamente minha revisão do amor, perdi-a confundido pelo amor ferido que se mescla ao ódio, ao ressentimento, à rejeição, todo esse complexo de emoções característico das separações amorosas traumáticas.

Precisei remover toda a fumaça romântica da minha percepção amorosa para afinal concluir que não perdera a mulher real, mas um objeto que idealizara. Se odiei a mulher que traiu minhas fantasias (jurávamos um ao outro amor eterno com toda candura dos jovens enceguecidos pela paixão de Romeu e Julieta), não poderia culpá-la por não corresponder às expectativas da minha idealização. Por isso afirmei que o amor romântico pode ser uma projeção do nosso narcisismo. Longe de mim afirmar que seja apenas isso. É claro que há muitos modos de ser romântico. Eu próprio tenho e quero preservar muito de romântico, pois ninguém ama com a razão. Amor é antes de tudo sentimento, expressão de desejos que não raro fogem ao nosso governo e às interdições sensatas da razão. No embate entre razão e emoção, as vitórias da primeira são sempre parciais e expostas ao risco da regressão. Não tenho dúvida de que o exercício da razão no ser humano é antes de tudo uma conquista penosa. Entretanto, também não duvido da luz que irradia.

Como assinalei, existem muitos modos de ser romântico. Enfatizei nas crônicas aqueles que me parecem nocivos, pois nos impõem, sobretudo à mulher, perda e sofrimento excessivos. Acima de tudo, procurei me concentrar na crise inegável dessa forma de amor. Ainda que tivesse competência para analisá-la em toda sua complexidade, na sua pluralidade de ângulos, não caberia fazê-lo em crônicas escritas para um blog. Os interessados mais esclarecidos sabem onde encontrar a bibliografia adequada para melhor examinar e conhecer a crise que abala o amor romântico.

Também lamentaria se a leitora enxergasse nas minhas crônicas apenas uma crítica impermeável a qualquer possibilidade de alternativa ou saída. Deixei claro que importa proceder à crítica do amor romântico, às ilusões e expectativas que envolve, não para mergulhar no desespero ou na descrença relativa ao amor. O sentido da crítica consiste em propor medidas passíveis de modificarem nossos modos de amor, a necessidade de revisar nossa compreensão do que seja nas nossas vidas. Como escreveu Malcolm Lowry, “non se puede vivir sin amar”. Por outro lado, não se pode amar dentro do figurino romântico dominante. Melhor dizendo, é claro que se pode, muita gente o faz, mas o final é previsível e o preço desastroso.

Os casais que sobrevivem bem ao chão movediço das relações conjugais são precisamente aqueles capazes de modular o amor de acordo com a realidade dos sentimentos e desejos humanos. O que não me parece razoável, nem realista, é acreditar que o amor romântico pode sobreviver indefinidamente como um movimento passional inexaurível indiferente ao tempo, à rotina, à realidade adversa, a todas as forças que tramam para esgotá-lo ou induzi-lo a mudar de objeto. O amor que sobrevive casado e durável, fonte das gratificações humanas de que mais carecemos, é o amor amizade. Quem disse isso há séculos foi Montaigne, o filósofo mais sábio que conheço. Como frisei, a expressão é muito vaga e portanto substituível. Se preferirem, chamem-no amor companheiro, amor parceiro... O essencial é esclarecer que aludo ao amor, precioso e raro, que sobrevive à fase passional e propriamente romântica gestando no convívio, na intimidade, nas vicissitudes compartilhadas o único modo de duração amorosa factível.

Casar o amor romântico, atar romantismo e duração, romantismo e rotina conjugal, é aspirar à realização de um paradoxo refutado pela história amorosa de figuras românticas modelares como Rousseau, Byron, Vinícius de Moraes e Oswald de Andrade. Sem contar toda a grande, também a pequena, tradição literária e artística que rendeu obras como a já citada Madame Bovary e Anna Karenina. No mais, ninguém precisa conhecer estas obras e a tradição de que são parte. Basta olhar com lucidez dentro e fora da nossa experiência. Em suma, o amor que casa e sobrevive precisa de algum tipo de juízo, coisa que o amor romântico desembestado nunca conheceu e até despreza.
Recife, 8 de agosto de 2012.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Deus me livre de ser mulher III


Concluo minha série de crônicas sobre as relações entre o homem e a mulher invocando razões sobremodo pessoais para gostar de ser homem. Antes de tudo, é por ser homem que posso amar a mulher num sentido incogitável para uma mulher. Não esqueço de que existe o amor lésbico, cada vez mais corrente. Confesso que sempre achei belo e delicado o amor entre mulheres. Talvez meu modo de figurá-lo seja apenas fantasioso, mas o fato é que sempre me sensibilizou. Nunca me incomodou, pelo contrário, saber que minhas namoradas, quando o amor lésbico era bem mais reprimido, tinham amigas lésbicas. Embora não tenha nenhum preconceito contra o homossexualismo masculino, nunca consegui fantasiá-lo ou simplesmente imaginá-lo revestido dos tons de beleza e lirismo que associo ao amor lésbico.

Já que comecei aludindo ao amor homossexual, aproveito a cadeia associativa (quase sempre meu processo de composição escrita, como ressaltei no segundo texto desta série) para declarar minha posição ética e ideológica acerca do assunto. Sou liberal. Não o confundam com o sentido recentemente adotado em sites de prostituição. Se bem entendo este novo sentido adicionado a um termo tão polissêmico e incompreendido, ser liberal é topar tudo, como antes se dizia nos ambientes de língua solta. Sendo mais preciso, talvez convenha dizer que é topar tudo, em particular sexo anal. Voltando ao sentido que tinha em mente e de resto aqui defendo, sou liberal dentro da tradição do liberalismo anglo-americano. No Brasil, infelizmente, liberal é quase sempre um insulto ideológico, mesmo depois que a hegemonia do pensamento de esquerda ficou confinada na academia, sindicatos e outros nichos da política avessa ao liberalismo e à direita em geral.

Liberalismo e socialismo são linhagens ideológicas que ganharam força na primeira metade do século 19. No decurso desse período eles se afastaram, já que a burguesia triunfante traiu os ideais progressistas contidos no liberalismo. Mas este, tão ou mais ambíguo do que o socialismo, desenvolveu a tendência com a qual me identifico: a que postula a igualdade de gênero, a autonomia do indivíduo perante o Estado, com certeza sua característica essencial, e a democracia social. A direita liberal tende a reduzir a democracia a fundamentos puramente econômicos, isto é, reivindica antes de tudo a autonomia do indivíduo perante o Estado como se tal autonomia se reduzisse à liberdade econômica. Neste sentido, concordo com a crítica curta e seca de marxistas e afins: de que me serve a liberdade para morrer de fome?

Ora, é justamente por lutar pela autonomia do indivíduo não apenas enquanto agente econômico, mas também enquanto cidadão e membro de um gênero, que o liberalismo esteve e está na raiz dos movimentos de liberação hoje mais ativos do que os movimentos políticos convencionais. Refiro-me, noutras palavras, ao feminismo, aos movimentos em defesa dos direitos das minorias etc. É pena que o desenvolvimento do liberalismo no Brasil, associado sobretudo aos movimentos de direita, nos impeça de reconhecer o papel decisivo que a tradição liberal desempenhou no sentido de ampliar a conquista e exercício dos direitos humanos. Por essas e outras, acima de tudo por considerar a representação político-partidária do liberalismo no Brasil, sempre me constrangeu afirmar minha filiação ao liberalismo. Tanto me constrangeu que somente há bem pouco tempo ousei declarar-me liberal. Friso ainda que, em termos de representação política oficial, não seguiria nenhum dos partidos que se declaram baseados em ideais liberais. Noutras palavras, liberalismo para mim é um conceito investido de conotações antes culturais do que políticas.

Retomo o veio do meu argumento relativo ao homossexualismo para salientar que é precisamente por me definir como liberal que me sinto livre para defender os direitos do amor homossexual, os direitos de todas as minorias, em suma, a autonomia do indivíduo perante o Estado. Especificando: autonomia política, econômica, religiosa, sexual etc. Saindo dessas abstrações que por vezes me confundem, pois bem pouco conheço a história das ideias políticas, há muito me espanta o fato de tanta gente ser moralmente tolerante, quando não cúmplice, de políticos comprovadamente corruptos, de criminosos cujas infrações à lei resultam em danos sociais devastadores e todavia ser impiedosa no exercício do preconceito contra o homossexualismo. Ainda que se admita que este é moralmente recriminável, que mal ele causa a mim ou a quem não o pratica? Nesse sentido, acredito que a intolerância encerra um ingrediente inequívoco de insegurança psicológica acerca do que somos. A norma que deveria reger nossa atitude moral perante o homossexualismo parece-me simples: na medida em que não interfira na liberdade do outro, o indivíduo é livre para fazer sexualmente o que quiser.

Dei tantas voltas, errei acima através de tantos becos que acabei perdendo a mulher de vista. Como dizia, preciso ser homem para desfrutar do privilégio de amar a mulher como somente o homem a pode amar. Minha grande ventura foi amar e ser amado pela mulher. É uma experiência indizível que, na medida do que pude e precisei, notadamente quando sofri a dor e a perda, quando precisei limpar a chaminé da minha memória atormentada pelo amor ido e perdido, tentei toscamente traduzir em poema, em prosa lírica, em estados de epifania irredutíveis à palavra. Além disso, senti-me sempre tolhido pela consciência de que trato de uma ordem de experiência privada. Quando falo de amor, implico o outro, a mulher que não me autorizou a identificá-la e despi-la nas linhas da minha crônica. Portanto, além de defender minha própria reserva, minha própria privacidade, importa ainda mais preservar a privacidade de quem amei, de quem mergulhou comigo nos labirintos inconfessáveis da carne, da intimidade inefável.

De resto, é devido às razões acima grosseiramente expostas que detesto a cultura da exposição narcisista dominante no cenário contemporâneo. Repisando um trocadilho preciso, as pessoas se evadem da privacidade com um gozo de ostentação e vulgaridade que me inspira aversão. Não vou, portanto, incorrer nas práticas que reprovo. Sendo assim, encerro minhas três crônicas num tom decerto banal para quem se meteu a levantar tanta poeira nas páginas precedentes. Seguindo com uma distinção que me parece oportuna, critico o discurso sobre o amor e o sexo na medida em que se confunde com a vulgarização que sempre o rebaixa, além de remover seus objetos da esfera privada para a exposição contaminada pelo exibicionismo, a vaidade, a inveja, a ostentação de poder, todos esses modos de ser negativos incompatíveis com o amor e o sexo tal como os entendo e procuro vivê-los.

Esclarecendo a distinção acima proposta, afirmo hoje que o amor precisa manifestar-se em palavra, precisa sempre prodigamente declarar-se ao outro amado. Num poema tardio (“Quero”, incluído em As impurezas do branco), Drummond enfatiza o quanto precisa do amor declarado, o amor traduzido em palavra à exaustão repetida. Somente assim, frisa o poema, o poeta se sente amado. Lendo um dia esse poema, lembrei-me do quanto durante muito tempo me deixei trair pelo engano de que o amor deveria manifestar-se em ato, não em palavra. A palavra é fácil e frequentemente falsa. Isso todavia não anula a necessidade que temos de acreditar no amor do outro porque ele o declara. Talvez precisemos desse tipo de certeza precária ou confirmação simplesmente porque somos demasiado vulneráveis à incerteza, duvidamos demais do amor, duvidamos ainda da medida em que o merecemos. Além do mais, não bastasse a dúvida latejando na raiz do ser, duvidamos da sua duração quando o acreditamos real. Ele é hoje, mas será também amanhã? Essa insensatez corrói o amor, chega com frequência a ameaçá-lo, mas é com toda essa fragilidade insensata que no geral amamos.

O que sei é que aprendi, decerto tardiamente, porém ainda a tempo, aprendi a dizer o amor. Quando doravante voltar a vivê-lo, pois há ainda tempo para amar e amar com a maturidade serena que em mim tenho lavrado, direi o amor sempre que possível e necessário, sempre até quando prescindível. Nossa experiência do amor, nossa carência dele, tudo isso é incerto demais, precário demais para que a gente se contente simplesmente em vivê-lo enquanto ato. O poeta tem razão: é preciso dizer sempre o amor, dizê-lo todos os dias, quando de fato amamos. Contudo, é preciso antes encontrar o amor. E a verdade que antes a mim me toca, que antes em mim me fere, além da que observo à minha volta, é que andamos pobres de amor, andamos desavindos do amor. Assim, como tem sido difícil valer-me do privilégio de ser homem para amar a mulher num sentido somente concebível para quem é homem!

Já que acima aludi a Drummond, que até em matéria de amor é mais meu poeta do que românticos extremos como Vinícius de Moraes, concluo citando a quadra inicial de um dos seus poemas que não me canso de ler:
“Onda e amor, onde amor, ando indagando
ao largo vento e à rocha imperativa,
e a tudo me arremesso, nesse quando
amanhece frescor de coisa viva”.
Recife, 7 de agosto de 2012.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Deus me livre de ser mulher II


Contei meio conto, agora a outra metade. Emendando associação de ideias, que é quase sempre meu modo de compor um texto, pois me falta disciplina e método para esboçar sequer um roteiro de composição, o andamento pré-traçado de um argumento, uma tese, uma demonstração organicamente estruturada, começo atando a segunda metade do meu conto à fantasia feminina da outra metade amorosa. Quantas vezes não ouvi, quantas vezes não li a expressão impensada dessa fantasia: a busca da outra metade? As mulheres a repetem como repetem outras fantasias amorosas que resistem inabaláveis às impossibilidades objetivas de realização de fantasias tão insensatas. Se se detivessem para refletir um minuto, logo constatariam que a fantasia da outra metade é apenas um sintoma narcisista. A outra metade é uma fantasia especular: a imagem do outro me refletindo no espelho. Noutras palavras, o ideal do amor seria encontrar fora de mim o outro que me reflete, o outro que completa minha metade cindida.

Penso precisamente o contrário dessa fantasia narcisista. Penso que o amor, o amor adulto que eu pelo menos procuro, se realiza na dimensão da diferença complementar, do outro que nunca será meu eu. É por isso que dele preciso, que, quando o tive, ele ampliou minha vida, enriqueceu-a com expressões de ser que me faltavam, que não sou e não posso ser. O outro que amo é minha diferença e meu igual, alguém que nunca poderia ser o que sou nem quero que seja. Se amasse o outro para ser minha outra metade, minha fração especular, então estaria procurando a mim próprio. Por isso afirmei que essa fantasia da outra metade é uma fantasia narcisista. Ora, a grande singularidade do amor, e aí reside sua fonte de generosidade e entrega ao outro, consiste na experiência de sair de si, de se desatar da tirania da nossa força egocêntrica.

Depois de tudo, depois do século da mulher, como antes observei citando Eric Hobsbawm, muita coisa deu e continua dando errado. A mulher conquistou a liberdade num grau sem precedente histórico, mas as relações entre gêneros, as relações de amor e família entraram em curto-circuito. O amor romântico, que passou a reger a consumação e duração dos casamentos e da constituição da família, vaza água por todas as juntas, inunda nossos desejos e fantasias mais profundos. Se fosse sociólogo, mobilizaria dados empíricos, acessíveis a qualquer pessoa letrada no site do IBGE, antes de tudo na nossa experiência refletida, para comprovar o que todos sabem, ainda quando não o queiram saber: o amor romântico está na UTI (O Teu Inferno, de acordo com minha tradução) das relações amorosas.

O amor romântico, que tem atrás de si uma história de séculos, segrega contradições insolúveis entre o que contém de fantasia amorosa e o teste da realidade, que tem sempre a última palavra. Para começar, ele consiste na idealização do outro amado. Não há idealização que resista à prova da intimidade e da rotina. Como disse alguém, nenhum homem é grande para seu criado de quarto. Traduzo mal, e de memória, mas sei que quem me lê entende perfeitamente o que quero dizer. A intimidade é demasiado reveladora para encobrir nossas idealizações. Viver sob o mesmo teto, compartilhar o mesmo cotidiano, a mesma cama, os mesmos odores, rotinas e reações em face da realidade é o modo mais banal e infalível de ver o outro como ele é, na medida em que ele se revela. Se não o vemos nessa medida aferível pela experiência, é porque nossas fantasias, nossa necessidade de ilusão é mais poderosa do que a força dos fatos que a todo momento nos dizem: ele é apenas humano e falível, apenas um homem, apenas uma mulher. Mas o amor romântico se lixa para essas evidências comezinhas da vida conjugada, do cotidiano doméstico, da família despida de romantização. O amor romântico precisa acreditar que o céu é sempre azul, que a vida é sempre bela, que o amor é sempre magia.

A realidade – ou o princípio de realidade, como repisava o estoico do charuto ao pé do divã – a realidade desmente todas essas nossas fantasias. No fim, sabem os iludidos mais renitentes, no fim é sempre ela quem triunfa. O amor se esfarela, o casamento se desmancha e cada um volta para sua solidão e endereço. Acaso insinuo, como um analista sadicamente negativo, que não há solução, que precisamos sempre sofrer essa via crucis? Bem pelo contrário, acho que a gente precisa mudar de disposição amorosa, reinventar o amor, ajustá-lo a uma medida humana mais realista. A leitora romântica certamente retrucará observando que o amor é sempre assim, assim romântico como ela o figura e compreende. Para ela o amor é um dado inalterável da natureza. Não, minha iludida leitora. O amor humano muda, como quase tudo que é humano muda, pelo menos nas formas sancionadas pelo costume, pelas formas históricas de organização da sociedade. Bem ao contrário do que espontaneamente imaginamos, durante a maior parte da história do Ocidente o amor e o casamento obedeceram a interesses inteiramente alheios à realização amorosa tal como idealizada pelo movimento romântico, obra de circunstâncias históricas apreensíveis por quem se disponha a estudá-lo, pesquisá-lo e interpretá-lo nas suas características distintivas.

Chego a este ponto e me detenho para avaliar espantado o estrago que acabo de causar. Ia desdobrar meu argumento visando justificar por que não quero ser mulher e todavia vejam onde acabei. Peguei o atalho do amor romântico, empurrado por uma arbitrária associação de ideias (relembrando: a metade do meu conto e a metade romântica sonhada pela mulher) e a essa altura nem eu sei mais onde estou, ou estava. Como precisamos sempre invocar alguma causa nobre ou suprema para justificar nossas imperfeições e erros, invoco Montaigne, meu herói filosófico e literário. Quem o leu com alguma atenção sabe que ele usa e abusa desse tipo de procedimento na composição dos seus ensaios. Quero dizer, promete falar sobre determinado assunto, por vezes já enunciado no título do ensaio, e logo deriva para outra matéria: entra por um beco, percorre uma vereda, atravessa uma ponte e quando damos por ele está nos revelando verdades insuspeitadas e imprevisíveis. Longe de mim presumir que a leitora conclua que me comparo a Montaigne. Afinal, se há em mim um orgulho que confesso à vontade, é o orgulho da humildade. Portanto, comparo-me a Montaigne tão-só em termos de forma de composição do texto ou argumento, não de valor. Afinal, interroga-se perplexo o narciso de TV, quem é Montaigne para se comparar comigo?

Retomo meu refrão: Deus me livre de ser mulher! Querem ainda razões que me justifiquem ou desgracem diante do olhar sombrio da leitora que teima ainda em descobrir aonde quero chegar? Pois invoco agora o argumento que me parece mais poderoso e por isso é talvez a fonte maior da infelicidade e da angústia feminina. Invoco a crueldade da mãe natura. Invoco-a para aludir mais precisamente ao corpo, ao lugar do corpo na nossa vida, à centralidade do corpo que por isso se projeta indomável na vaidade feminina, no seu senso de identidade e autoestima, no porte arrogante ou humilhado com que se move nas ruas, praias, festas, badalações, shoppping, no grande cenário do narcisismo de espetáculo em que foi convertido o mundo em que vivemos.

O corpo é nossa fração do ser mais falível, a mais vulnerável aos humores e movimentos mutáveis da nossa subjetividade. Isso é patente até no corpo de uma mulher linda e jovem. Basta-lhe uma noite de insônia, uma farra mal curada, um vinco de depressão ou desânimo e logo essas rachaduras do ser repontam no corpo. Se é assim quando somos jovens, o que dizer quando já ultrapassamos a fronteira da idade confessável, da idade que recobrimos com os disfarces que nos tornam ou semelham tornar-nos, não raro ao custo de um ridículo que a vaidade cega se recusa a admitir, aquilo que já não somos? Apesar de todos os avanços maravilhosos da ciência posta a serviço da beleza, do prolongamento da juventude, apesar da indústria do cosmético, dos muitos adornos e falsas fachadas, a rigidez e vitalidade da carne são parte da nossa natureza mais falível.

É aí que as mulheres são mais vulneráveis e com certeza sofrem mais que os homens. Estes, que evidentemente não passam impunes por essas mutações, continuam levando vantagens patentes sobre a mulher. Bastaria considerar a fragilidade do amor romântico, o amor que, como acima assinalei, está vazando água por todos os furos e juntas. Como rege ainda de forma imperativa o amor e o casamento, estes duram na medida em que ele é. Para a mulher isso parece ser condição inegociável. Os homens, escolados em milênios de dominação, além de dotados de uma força libidinal que se ramifica por muitas vias de gratificação (a política, o poder, o sucesso profissional, os esportes, as artes e o cultivo das práticas intelectuais...), raramente elegem o amor romântico como fundamento dos seus vínculos amorosos, mais exatamente do casamento e constituição da família.

Duvido que esta regra se aplique à mulher. Conheço mulheres inteligentes, cultivadas, com trunfos de sucesso profissional invejável etc. Nunca nenhuma me disse que isso lhe bastava, que se sentia realizada por alcançar essas formas de afirmação social e triunfo tão caras ao homem. O que sempre me dizem é: quero ser feliz no amor, quero ter filhos com o homem que amo e coisas parecidas. Por isso provavelmente a atmosfera confusa do amor contemporâneo, os abalos que sacodem a família, diretamente associados ao fenômeno precedente, atingem mais dolorosamente a mulher. Não bastasse tanto, ela envelhece (perdão, nesse mundo de eufemismo dissimulador da realidade não convém usar expressão tão ofensiva; digamos terceira idade, ou até boa idade, deixo a expressão ao gosto de quem mais queira ou não iludir-se) mais solitária ou mais privada de amor, de oportunidades amorosas do que o homem.

Quantos homens, já idosos e não raro barrigudos e carecas não se acasalam com uma mulher jovem no dia seguinte à separação da mulher mais velha que já não querem? Pior, mas não incomum, é descobrir que a causa da separação foi a opção inconfessada do homem pela mulher mais jovem e bela. Tenho amigas, além de conhecer outro tanto, que nunca mais voltaram a casar, a ter um homem permanente depois da separação conjugal. Mas se olhamos à volta, se deitamos o olhar sobre a paisagem onde transitam os homens maduros e idosos – barrigudos ou não, carecas ou não, feios ou bonitos – vemos quase sempre uma mulher jovem e bonita enlaçando seu braço, quando não mimando-o com modos servis. Portanto, apesar de reconhecer e louvar tudo que de admirável a mulher conquistou, concluo repisando meu irritante refrão: Deus me livre de ser mulher!
Recife, 3 de agosto de 2012.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Amor e Memória


De tudo fica um pouco, como diz o poema de Drummond. Do amor fica muito. Quero dizer, fica muita memória. Fica sempre a memória do amor com seus bons e maus bocados, com seu rastro de iluminação e devastação, pois o amor, por ser humano, contém forças ambivalentes na sua própria e impura raiz. Por ser uma força humana tão poderosa, ninguém o vive impunemente. Também não o vive sem a coragem do risco e da perda. O amor, disse um poeta passionalmente corajoso, é incompatível com a covardia.

O amor acaba, sempre acaba enquanto ato, enquanto viagem e aventura compartilhada. O que fica, o que sobrevive, acaba por força da natureza das coisas domesticado pela acomodação e a rotina. Logo, sobrevive antes como modo especial de amizade. Dou-lhe esse nome impreciso. Que outros melhor o definam. O que sei é que não há amor que sobreviva por muito tempo quando é movido pelas forças que associamos à noção do amor romântico, isto é, o amor movido à paixão. A paixão que todo dia provoca uma revolução cósmica, queima uma floresta, descarrilha um trem, devasta uma cidade, introduz a turbulência dos sentidos nos códigos ordeiros e tediosos da vida corrente. Essa corrente do amor passional é dominadora e indizível, mas realisticamente condenada ao tédio ou esgotamento. Por isso sempre acreditei que o amor romântico não deve casar. Ele começa como negação radical do mundo da rotina e acaba calculando orçamento, brigando por bens, detido na vara da família. É cruel dizê-lo, mas esta é a força dos fatos.

O amor acaba, no sentido romântico do termo acima esboçado, mas dele sobrevive a memória. A memória é infalível. Nos seus labirintos indecifráveis lateja, como duração, a presença consoladora do que perdemos, do amor que já não é. Mas aqui a ambiguidade é novamente reposta, pois a memória tanto consola quanto dói, sublima a perda na medida em que também renova a dor do amor perdido. Essa memória ambígua que transportamos pode sempre nos ensinar a amar ainda o que perdemos, mas também ensina que lembrar é uma ferida insanável. Por que insanável? Porque não há como decantar a memória, mesmo do amor mais belo e pleno, expurgando-a da dobra negativa que em tudo existe.

Estendamos a noção do amor para aqui também abrigar o amor que nos vincula à família, sobretudo aos pais que são nossos modelos primários. Indo além disso, acrescento os amigos a esse cortejo de sombras colado à própria sombra que somos movendo-se pelos incertos caminhos da vida. Essas sombras inapartáveis são a evidência de que nunca estamos sozinhos. Ao mesmo tempo, são também a evidência de que estamos sempre sozinhos, já que a sombra é apenas o resíduo, o caldo simbólico da vida vertida na corrente que passa.

A memória é já passado e todavia é sempre presente. Por isso convém moer com zelo o grão de sabedoria que nos liberta do peso do passado. O passado que mais dói é o passado da memória represada, o passado reprimido como defesa contra a memória sempre provando que nos movemos na corrente do tempo, um tempo cujas margens sempre avançam e recuam mesclando passado, presente sensível e nossas projeções factíveis, imaginárias ou puramente delirantes.

Por que tantos tendem a reprimir a memória do amor depois que ele acaba ou se separa, sobretudo quando o desenlace se faz de forma conflituosa, ressentida, traiçoeira...? Talvez a explicação genérica para esse tipo de reação ou defesa do ego decorra da força poderosa com que o princípio do prazer atua no nosso psiquismo. Se lembrar o amor separado ou perdido é sempre doloroso, pior ainda é quando a memória vem sempre envenenada pelo ressentimento, o sentimento de rejeição, a hostilidade em face da traição ou engano tolerado além das medidas razoáveis. No entanto, nosso engano maior e mais danoso é supor que a memória sufocada resultará em libertação do amor perdido ou arruinado.

Por tanto importar, por tanto vincar de forma profunda nossa experiência afetiva, ele teima sempre em voltar, arrombar as portas que aferrolhamos, as janelas vedadas pelo ego ferido. Ele volta, por exemplo, como memória involuntária, fenômeno que ninguém traduziu melhor em palavras e imagens, em análise psicológica iluminada, do que Proust. Quem o leu, direta ou indiretamente, sabe muito bem o que significa memória involuntária. O exemplo mais conhecido, acenando brevemente para a sua obra, é o da madeleine imersa na xícara de chá. Há muitos outros estímulos que atuam sobre nossos sentidos acionando a memória involuntária: sons, palavras, a música, certas imagens, nossos modos múltiplos de percepção da realidade. De repente, no som de uma canção irrompe a memória do amor perdido, não raro encadeada a imagens irreprimíveis.

Que fazer de todas essas forças psíquicas, dessa memória involuntária, ou até voluntária, que conspira para que o amor perdido sobreviva, bata sempre e sempre à nossa porta encrespada pela dor da perda inconsolada? Não tenho lições para dar a ninguém, salvo a que procuro dar a mim próprio. Em que consiste? Numa atitude inoperante se apartada do que chamaria de memória generosa. Quero dizer, não tente sufocar o amor ido ou perdido. Até porque, como acima salientei, ele não se vai, ele não pode ser apagado, suprimido da nossa memória como suprimimos um pesadelo depois que acordamos e refazemos nossos elos mecânicos com a vida consciente. Portanto, a única saída é a reconciliação com a memória impotente para expulsar o amor perdido ou rejeitado que nela se aloja. E a reconciliação se faz com o acolhimento da memória que nos magoa e desejaríamos suprimir.

Se não há como esquecer o outro perdido, melhor reconciliar-se com ele, ir lenta e dolorosamente decantando a memória, abstraindo os bons e os maus bocados do vivido e compartilhado. Esse processo se realiza na medida em que somos capazes de acionar na memória sua dobra generosa. Dizendo isso de um modo menos impreciso, se o amor foi tão grande e profundo, e por isso não pode nem deve ser suprimido, importa então concentrar a memória voluntária em tudo isso que lhe conferiu beleza e prazer. Os maus bocados, fonte do nosso tormento e dor, irão gradualmente refluindo, deslocando-se para o fundo da memória, cedendo o passo à rememoração do que houve de melhor no amor. Até que um dia descobrimos que o amor perdido foi salvo do desastre sobrevivendo no que a memória retém de momentos de beleza, prazer, afinidades compartilhadas, imagens e momentos que no passado o fizeram tão belo e intenso. Por isso importa salvá-lo na memória decantada depois da separação, do luto simbólico, da perda que por fim acolhemos isentos de ódio e ressentimento. Se somos capazes disso, podemos nos reconciliar com o amor perdido, convertê-lo em amizade, em memória pacificada liberta da repressão como meio desastroso de lidar com o passado do amor.
Recife, 30 de julho de 2012.

sábado, 28 de julho de 2012

A Vida Mesquinha


Alguém disse, com razão, que a vida é curta demais para ser mesquinha. Suponho que todos concordariam com isso. No entanto, a maioria das pessoas tende para a mesquinharia e assim vivendo concorre, claro, para tornar a vida geral mais mesquinha. Vivemos pouco e mal. Friso que o advérbio não remete à medida quantitativa corrente na nossa mentalidade estatística, mas sim à medida da qualidade, também já corrompida pela força onipresente e corruptora do mercado.

Longe de mim a presunção de definir plenamente o que seria a vida mesquinha, menos ainda ditar regras sobre o seu avesso, a vida generosa, a vida vivida com a plenitude que conferisse sentido à vida curta. Aliás, como dizê-la curta sem antes precisar um sentido de medida? Entendo que o autor da frase – suspeito tenha sido Shakespeare, embora lembre agora que um amigo costumava atribuí-la a Disraeli – usa o termo curta no sentido temporal, mas sobretudo qualitativo, fixando assim uma relação simetricamente oposta entre o ser curta e o ser mesquinha. Já que é temporalmente curta, deduzo, cuidemos de vivê-la com espírito avesso à mesquinharia do avarento, do ressentido, de todos que vivem envenenados por sentimentos, intenções e atos que apequenam a vida.

Até onde percebo, a maioria das pessoas tende a associar automaticamente a vida mesquinha à avareza. Sem dúvida, há um vínculo semântico forte entre o ser mesquinho e o avarento. Mas penso ser enganosa a identificação redutora entre os termos. Conheço muitas pessoas generosas no trato com as coisas materiais que, não obstante, são pessoas mesquinhas. São ressentidas, invejosas, incapazes de atos morais generosos. Além disso, usam a generosidade material não raro com fins espúrios: a ostentação, o comércio pequeno dos interesses e relações, o exercício inconfessado de poder sobre o outro. Quantos políticos corruptos não são generosos com o dinheiro que roubam? Quantos pais tirânicos ou indiferentes às práticas básicas da paternidade e do amor não enchem seus filhos de excessos materiais? Quanto não vemos de consumo conspícuo nas famílias infelizes e hostis? O generoso avarento é inconcebível, mas não o perdulário mesquinho, aquele que reduz as relações humanas ao fácil comércio e ao desperdício dos bens materiais tão corrente na sociedade de consumo.

Penso que somente a inconsciência com que vivemos, a inconsciência do que somos, pode justificar a justaposição banal do discurso romântico com o comércio mesquinho das relações humanas. Vivemos docilmente subjugados às pressões onipresentes do mercado e todavia continuamos falando de amor como relação de gratuidade, avesso dos cruéis interesses mercantis, com a mais completa inconsciência do mundo. O exemplo emblemático poderia ser esta frase: amar é dar presente, refrão socializador de toda criança.

A colonização mercadológica das relações íntimas, das relações afetivas em geral, é também patente no reboliço com que a mídia e toda a rede complexa do mercado orquestram o consumo delirante em datas fabricadas para vender o amor e sentimentos correlatos: dia das mães, dia dos pais, dia da criança, dia dos namorados e não sei mais quantos. Ah, também já inventaram o dia dos amigos. Enfim, nada escapa à força voraz do consumo. Tudo é mercadoria, ou pelo menos veste o corpo sedutor do mercado. Consumir, vender e vender-se tornaram-se tão onipresentes que se converteram numa espécie de segunda natureza humana, a que recobre a propriamente natural. Como entretanto acima observei, nada disso afeta a inconsciência com que continuamos reiterando um discurso amoroso completamente corroído pelo mercado.

O contexto acima explica por que alguém pode sem contradição ser mesquinho e perdulário, cobrir filhos e parceiro, conjugal ou não, de presentes e todavia ser mesquinho ao extremo da incapacidade amorosa. Esses fenômenos de dissociação estão presentes numa infinidade de situações humanas. Também na literatura, claro, que talvez nos traduza melhor que qualquer outro discurso. Bastaria considerar dois curtos contos de Rubem Fonseca. Refiro-me a “Passeio noturno (Parte I)” e “Passeio noturno (Parte II)”, incluídos no livro Feliz ano novo. Talvez precise ressaltar, para quem conhece os contos citados, que o exemplo dos contos de Rubem Fonseca vai a um extremo confundível com o mal imotivado. Ademais, como toda obra literária de qualidade, encerra múltiplos significados, entre os quais o que ressalto em benefício do meu argumento não é com certeza o mais importante.

Descendo a expressões mais pedestres da vida mesquinha, ocorre-me lembrar a matéria das nossas conversas correntes, também de muito do que se fala no convívio entre amigos íntimos, entre pessoas ligadas por vínculos afetivos profundos. Custa-me ainda compreender nossa fixação nos aspectos mesquinhos da vida. Por isso não me conformo com a conversa dominante no nosso convívio corrente. Falamos invariavelmente do que a vida encerra de pior, quando não simplesmente brutal. Falamos da violência em suas infindáveis e chocantes formas de manifestação. Falamos do outro mordidos pelo veneno da fofoca, da hostilidade e do ressentimento confessos ou latentes. Falamos de amor e sexo como experiências banais reduzidas a suas materializações mais mesquinhas, traduzível na moeda universal do mercado.

Não bastasse tanto, amesquinhamos ainda mais a vida domesticados pelo sentido de duração fabricado pela publicidade farmacêutica. Segundo esta, o que importa perseguir é o ideal da vida longa e saudável. Novamente, não importa aqui a vida que vivemos, mas sua duração. O que nos prescrevem - da proscrição do cigarro à infinita obsessão preventiva confinante com a paranoia e a hipocondria – é a utopia da sociedade terapêutica que lembra a assepsia totalitária de Admirável mundo novo, de Aldous Huxley.

Ora, o mero bom senso, que portanto prescinde das lições pretensiosas ditadas pelos especialistas de todo tipo, basta para que a gente se dê conta desta verdade elementar: não se vive sem risco; não se vive uma vida digna de ser vivida, se possível bem e prazerosamente vivida, sem uma margem necessária de exposição ao risco. Melhor dizendo, isenta dos danos que fatalmente causamos ao outro e a nós próprios quando nos aventuramos a amar, perseguir nossos desejos, sonhos, ideais e nossas melhores ambições. Somente um covarde paralisado pelo medo à vida pode seguir ao pé da letra as prescrições de vida saudável hoje impostas pela sociedade terapêutica em que passamos a viver.

Essas considerações acima me fazem lembrar uma anedota envolvendo dos farristas incorrigíveis: Vinícius de Moraes e Antônio Maria. Segundo lembro, voltavam bêbados, para variar, de mais uma noitada. Era já manhã clara na praia de Ipanema. De repente, vislumbraram um corpo correndo, um corpo fiel ao ideal da vida saudável correndo areia e praia afora à primeira luz do dia. A simples visão daquele corpo atlético e disciplinado era o avesso do que faziam com o próprio corpo, a negação do que viviam como relação entre a vida intensamente vivida, a vida votada ao prazer, e o corpo. Por isso ali mesmo, estarrecidos diante daquele sacrilégio, prometeram solenemente nunca ceder àquela tentação intolerável.

Friso que o relato da anedota não supõe adesão ao modo de vida de pessoas como Vinícius e Antônio Maria, cujos excessos, familiares a quem sabe da vida de personalidades tão célebres, são o oposto simétrico dos excessos que caracterizam a sociedade terapêutica alvo da minha crítica. Quando circunstancialmente vivi durante alguns anos excessos semelhantes aos que constituíam marca distintiva desses artistas, errei através de bares, festas, badalações infindáveis, droga e sexo movente e sem aderência não bem por escolha, menos ainda ideal de vida, mas por força de circunstâncias pouco subordinadas à minha consciência e vontade.

Retomando o plano das relações íntimas, do cotidiano que compartilho com os amigos, quando ainda os vejo e converso, perdi a memória de quando compartilhei momentos de pura epifania. Não exagero ao escrever este termo que entrou no meu vocabulário através de minha leitura da obra de James Joyce. Aludo a um estado de revelação espiritual, de sensação momentânea e inefável no convívio com o outro. O móvel desse estado de epifania pode emergir subitamente de um momento de intensa intimidade amorosa, sexual, ou simplesmente de uma conversa singular, dessas apenas concebíveis na companhia de alguém a quem nos prendem elos profundos de afinidade, de compreensão não raro isenta de palavras.

Por que esses momentos de epifania há muito não se renovam na minha vida? Por que no próprio convívio íntimo, na companhia dos que mais amo e me dão prazer, fecharam-se as vias iluminadas por esses estados supremos de convívio e intimidade humana? Não encontro resposta satisfatória para minha interrogação. Sei porém que ela remete à prevalência da vida mesquinha no horizonte espiritualmente árido que habitamos.

Recife, 26 de julho de 2012.