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segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

No Mural do Facebook VII


A Política e a Degradação da Língua Portuguesa:

Como a operação Lava Jato e suas derivações ideológicas parecem já não saciar nossa sede de ódio, o incidente envolvendo Chico Buarque caiu como uma luva nos punhos fechados do país intolerante que curiosamente é de todos e mistura tudo. O que vejo correndo no mural do Facebook lembrou-me um ensaio de George Orwell sobre a degradação da língua inglesa . Sei que para muita gente George Orwell é ainda um agente da CIA e coisas semelhantes. É outro sintoma da nossa paralisia ideológica que me faz ir adiante enquanto os cães ladram.
Alguém que já admirei afirmou que temos muito a aprender com os intelectuais. É um juízo típico de quem não aprendeu nada com a história. Por isso retruco: depende do intelectual, depende de quem você fala. Acreditei ingenuamente na minha juventude que os intelectuais eram a consciência da sociedade. A única coisa que desculpa meu erro é minha ignorância. Hoje a única coisa que me faz continuar acreditando nos intelectuais é o fato de saber que os intelectuais canalhas acabam sempre desmascarados por outros intelectuais. Leiam os livros de revisão histórica.
Indo ao que importa, vamos de mal a pior. A direita e a esquerda, seja lá o que isso hoje signifique, continuam vertendo ódio como se a gente aludisse a conceitos claros e precisos como vieram do berço, isto é, do alvorecer da Revolução Francesa. Quem diz isso é de direita, quem diz aquilo é de esquerda e estamos conversados. Nunca se falou tanto em fascismo. É grave ler pessoas escoladas, intelectuais e professores, a chamada elite intelectual brasileira, usando este termo a troco de tudo e de nada. Só quem ignora a história catastrófica do séc. xx, só os ignorantes ou dogmáticos recorrem a este termo com tamanha frivolidade.
E por aí vamos. Poderia multiplicar os exemplos ao infinito. mas sei que ninguém tem tempo para ler nada além de dois parágrafos no Facebook. reitero apenas este fato que Freud e outros homens lúcidos observaram em distintos momentos históricos: nada como um motivo aparentemente nobre para justificar nossa cruel necessidade de um objeto de ódio. Odeie, mon semblable, mon frère (Baudelaire: meu semelhante, meu irmão) porque sua causa é nobre e você se sentirá iluminado pela justiça humana, talvez divina.
(Postado no Facebook, 26 de dezembro 2015)

O País do Futuro:
É muito fácil ser profeta no Brasil. Basta prever o pior. Imodéstia à parte, essa é a futurologia que pratico. Observo o que os ídolos da minha geração estão fazendo, eles que tão corajosamente se opuseram à ditadura, e concluo: como tantos se envilecem quando envelhecem. Já nada deploro nem me desolo porque os céticos, desde Sócrates e Montaigne, temperaram minha experiência com a dúvida e a tolerância. Alguns dos que politicamente me decepcionam legaram ao Brasil obras intelectuais e artísticas preciosas. Fico com estas e desprezo a vilania dos seus criadores.
Quem busca a verdade procura ser fiel aos e fatos e evidências. Reescrevendo Tony Judt, um marxista que teve a integridade ética e intelectual de refutar o marxismo, quando os fatos mudam, devemos aderir à verdade dos fatos, não às ilusões e equívocos da ideologia na qual nos formamos. Não me envergonho por eles porque não sou comissário das suas consciências nem sou o povo que invocam para incorrer em todo tipo de iniquidade.
(Postado no mural do Facebook, 22 de dezembro de 2015).

A corrupção brasileira:
Tinha decidido não mais opinar neste mural, especialmente sobre as turbulências políticas que vivemos e se agravam. Até escrevi para amigos como Ester Aguiar e Adelino Montenegro declarando isso. Sempre desejei participar do mural inspirado por princípios de crítica isenta que concorressem para civilizar nosso debate público (será que existe?) e intervir num jogo de esclarecimento recíproco. Como isso é raro, saí do mural. Mas volto hoje já pela segunda vez porque às vezes é impossível refrear o desejo de dizer o que penso. Há pouco li um post compartilhado por Jeanine Japiassu e Gislaine Andrade. É sobre uma das muitas ironias da nossa história recente: Lindbergh Farias, líder do movimento de massas pela deposição de Fernando Collor, é agora investigado e foi dos poucos que votaram contra a prisão do senador (esqueci o nome dele).
Ora, falar de ironia histórica em casos dessa natureza é apenas um eufemismo. Afirmo que essas práticas corruptas, que convertem os honestos de ontem em corruptos de hoje, estão entranhadas na nossa formação cultural. Caso mais exemplar é o da parelha Lula e Collor (lembrem novamente o passado recente) e ainda o de Lula e Lulinha. Tal pai, tal filho, como diz o dito popular.
Ninguém precisa fazer um curso de história do Brasil, ou da nossa formação cultural (lembrem apenas Os donos do poder, de Raimundo Faoro, e Raízes do Brasil, do pai de Chico Buarque, esse artista extraordinário que sempre conferiu endosso moral ao PT e às ditaduras de esquerda da América Latina e continua calado) para ter noção das bases corruptas deste país. Sugiro que leiam Machado de Assis, em particular Memórias Póstumas de Brás Cubas. A esquerda da minha juventude era tão burra e sectária que desprezava Machado como negro de alma branca e sandices semelhantes. É por constatar que tudo isso se repete na nossa história que desisto de argumentar e me recolho ao meu silêncio, que nada tem a ver com o de Marilena Chaui, a paladina da ética da transparência petista.
(Postado no Facebook, 29 de novembro de 2015).

sábado, 1 de junho de 2013

Liberdade e Identidade II


Meus sentimentos de estrangeiro tendem a acentuar-se durante o carnaval. Sendo uma das mais profundas e extensivas expressões da cultura brasileira, portanto um dos seus momentos de suprema integração social, não é de estranhar que estados subjetivos dessa natureza se agravem imprimindo transparência à linha fronteiriça entre o eu e o outro coletivo, entre minha brasilidade gauche, sempre distanciada e dissonante, e o espírito gregário e ruidoso do povo brasileiro.
Isso se repete, em tom às vezes ainda mais exacerbado, durante a Copa do Mundo. Este, aliás, será um ano – junho e julho, mais exatamente – que me submeterá a mais uma dessas provas de brasilidade a contrapelo, de celebração futebolística contrafeita, já que sempre vivida com reserva, quando não com franca resistência à integração dissoluta no corpo da massa infranqueável ao exercício da individualidade e da alteridade.

Meu estranhamento desdobra-se ainda nas festas de fim de ano, além dos festejos do meio do ano, como é o caso das festas juninas que já tive a esperança de ver superadas pela dinâmica urbana do país. A mídia e a indústria da publicidade, entretanto, operaram recentemente no sentido de ativá-las integrando-as ao circuito do consumo e deslocando-as dos arraiais e da geografia rural para o shopping center; para o cerne, portanto, do espaço onde se desenvolve a cultura urbana. Fenômenos dessa natureza sugerem a complexidade da dinâmica sociocultural do capitalismo em países do tipo do Brasil.

Será necessariamente negativo ou indesejável o estado de estranhamento dentro do meu próprio país? Minha amiga Vivian Schelling, culturalmente dividida numa linha de intersecção simbólica que compreende Alemanha, Espanha, Inglaterra e Brasil, muitas vezes se queixou nas nossas conversas londrinas da sua personalidade culturalmente dividida. Talvez por isso tanto se voltasse para o seu curto passado brasileiro, vivido entre o Rio e São Paulo, tingindo-o com cores idealizadoras. Será assim indesejável ou negativo esse processo de interna divisão cultural? Se todos tendessem a comportar-se como Vivian, diria que o mundo contemporâneo, pelo menos o ocidental, estaria saturado da infelicidade gerada pela divisão cultural das personalidades. Dado isso como um fato, seria igualmente compreensível a representação regressiva e idealizadora do passado pré-moderno. Foscamente dividido por essas fronteiras que demarcam a linha da modernidade e a da pré-modernidade, o Brasil se prestaria a acomodar na sua geografia cultural o olhar nostálgico do pós-modernista contrafeito.

Recuando entretanto para a modesta e palpável dimensão da minha subjetividade, não me vejo como um infeliz ou carente de identidade socialmente integrada. Sem pretender subestimar o fardo que é viver regido por valores que não alcançam o estatuto de valor dominante na minha cultura de origem, sempre discriminei esse peso negativo do positivo. Tanto quanto aquele, este se constitui na expressão da minha personalidade como consequência muitas vezes consciente e até previsível dos conflitos implícita ou explicitamente travados no cerne da minha subjetividade que compreende valores coletivos, alguns imperativos, mas também valores individualmente selecionados.

É nessa linha de tensão em que se relacionam o eu-Fernando e o outro-coletivo que se define a minha subjetividade. Antes de concebê-la como mera expressão individual e reflexa da sociedade, aprendi que é possível investir-me do poder e da liberdade de traçar uma linha de diferença e individualidade diante dos mecanismos sociais tendentes a produzir o conformismo e a indiferenciação. Dependo evidentemente da sociedade em que vivo para me constituir enquanto entidade autônoma e individualizada sem que entretanto isso de modo algum pressuponha o consentimento ou dócil aderência aos valores dominantes.

Se um homem não é capaz de demarcar sua diferença contra o outro coletivo, não pode legitimamente falar de si próprio como um ser livre. É por isso que um dos problemas mais inquietantes da cultura contemporânea, regida pelas agências geradoras dos valores difundidos em alta e sistemática escala pela mídia, é a ilusão da autonomia e da liberdade individual. Digo ilusão porque a noção de liberdade vendida pela mídia é objetivamente uma forma de conformismo e escravização aos ditames do mercado. Seja você mesmo: beba coca-cola. Esta frase, mote publicitário do produto que anuncia, sintetiza à perfeição o que intento traduzir neste parágrafo.

Essa cultura da mídia, fundada no princípio da permissividade, da completa dessacralização dos valores coletivos, exerce a forma mais insidiosa de dominação, já que é abstrata e assim nunca se materializa num indivíduo ou instância concreta. Costumo ainda hoje lembrar um episódio que tipifica este fenômeno. Quando ensinava sociologia no curso de arquitetura da UFPE costumava selecionar alguns filmes para debatê-los com os alunos. Vimos, certa vez, Sociedade dos poetas mortos (Dead Poets Society). Um dos alunos, aliás dos mais inteligentes da turma, observou que a diferença essencial entre a escola tradicional retratada no filme e a contemporânea consistia no fato de que naquela os alunos não eram livres, enquanto o eram nesta.
Ora, o que o episódio ilustra é a crença espontânea na liberdade. Dissolvendo o princípio necessário da autoridade no seio da permissividade mercadológica, a mídia despersonaliza a liberdade dissociando-a de qualquer forma concreta de autoridade. Lembrei ao meu aluno que uma das características positivas da sociedade tradicional residia no fato de a autoridade se encarnar na figura concreta do pai, da mãe, do professor, etc. Na medida em que era visível e concreta, era por conseguinte mais fácil identificá-la e opor-lhe resistência, sobretudo nas circunstâncias em que deixava de ser autoridade para converter-se em dominação autoritária.
O próprio processo de conquista da identidade individual, um fato imperativo na vida de qualquer pessoa formada nos quadros da cultura ocidental, me parece que resultava menos problemático no âmbito de uma cultura em que a autoridade estava concretamente materializada na ação de alguns agentes sociais básicos. Na medida porém em que a autoridade tende a se tornar abstrata dissolvendo-se na ideologia da permissividade, que nunca se pronuncia no imperativo nem é veiculada por agentes identificáveis com a autoridade indesejada e hostilizável, a sensação de desorientação e impotência, sobretudo do jovem, tende a acentuar-se. Falando de modo interrogativamente concreto: contra quem conquistarei minha liberdade? A quem opor minha resistência e meu desejo de afirmação individual, minha sede de liberdade, em suma? Como reivindicar minha liberdade numa cultura onde pai e mãe não apenas estão esvaziados de autoridade, mas se tornaram presas dóceis, meros financiadores da liberdade mercadológica?

A própria psicologia corrente, a julgar pelo que que dela aparece na mídia, pouco difere do discurso publicitário. Um conceito psicológico como auto-estima em nada difere do emprego que lhe empresta o discurso publicitário. Falam de auto-estima como se fosse um processo de constituição da subjetividade totalmente dependente de fontes externas ao sujeito. Trocando em miúdos, minha auto-estima é produzida e validada apenas pelo outro, pelo mercado, pelas correntes onipotentes da opinião. Em suma, estamos falando de psicologia da integração passiva do sujeito ao ambiente, a integração compreendida como escravização inconsciente a fatores externos ao sujeito. Isso me faz lembrar um dos contos mais extraordinários de Machado de Assis: O Espelho. Machado soube traduzir literariamente mais que qualquer outro dos nossos escritores literários as forças de subordinação do indivíduo ao meio social. Jacobina, narrador e protagonista do conto mencionado, parece provar que nossa liberdade individual, o cerne mesmo da nossa identidade social, radica na nossa dócil internalização dos valores do meio em que nos formamos. Alferes da Guarda Nacional, ele de tal modo se confunde e dissolve na farda que usa que se desintegra a partir do momento em que o outro que lhe confere existência identificando seu ser social com a farda se ausenta. O conto é engenhosamente elaborado do ponto de vista psicológico, do ponto de vista da constituição do sujeito, mas pode desse ponto de vista ser desmentido por uma questão bem simples: se Jacobina simboliza o protótipo da constituição do sujeito, da subjetividade que seria apenas o espelho do meio que a molda, como explicar a existência do próprio Machado de Assis, para não falar da sua obra que ardilosa e impiedosamente põe em questão toda a ordem social dominante no seu tempo?

Ser livre hoje talvez signifique a recusa de ir ao shopping center comportando-se como o avesso da máquina dócil imantada à engrenagem do guichê e do cartão de crédito. Ser livre hoje talvez signifique dizer não ao carnaval, ou antes brincá-lo sem subordinar-se aos invisíveis mecanismos de pressão que nos reduzem a um número estatístico ou a uma cota negociada no mercado de ações, ou ainda a um flash sonhado na telinha da rede Globo.
Ser livre talvez signifique ser ninguém ou nada no caldeirão antropofágico do capitalismo de consumo, variante tropical, Pernambuco, Brasil.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Dialética Tropical


O novo livro de ensaios críticos de Roberto Schwarz, Martinha versus Lucrécia, pouco varia nos temas, enquanto previsivelmente reitera a perspectiva teórica que embasa toda sua atuação como crítico. Machado de Assis, como também seria previsível, é a figura dominante. Além de fornecer o mote que dá título ao livro, é o foco do ensaio de abertura, “Leituras em competição”, de “A virada machadiana” e de uma das entrevistas que integram o volume. Além disso, a crônica de Machado que confere título e matéria ao livro vem reproduzida no final do volume. Repetindo procedimento já familiar para quem acompanha sua obra, as entrevistas se somam aos ensaios, como de resto vem explícito no subtítulo de Martinha versus Lucrécia. O ensaio de maior fôlego, que alcançou mais repercussão na mídia, como seria também previsível, é o que dedica a Verdade Tropical, livro de memórias de Caetano Veloso. Aliás, Schwarz o identifica como autobiografia quase-romance (ver p. 85). Schwarz também retoma alguns dos seus autores de eleição na cena literária contemporânea: Chico Buarque, Francisco Alvim, Paulo Lins. Por fim, os uspianos e afins: Giannotti, Bento Prado, Gilda de Mello e Souza, Francisco de Oliveira, Michael Löwy. Tentarei abaixo esmiuçar um pouco do que vai condensado neste parágrafo inicial.

Antes que o leitor apressadamente conclua que os muitos “previsíveis” acima anotados supõem algum juízo crítico negativo, me apresso a afirmar o contrário. Um livro de ensaios críticos de Roberto Schwarz contém muito de previsível, antes de tudo, porque ele, à diferença da usina recicladora de modas intelectuais que é a universidade, sobretudo a brasileira, periférica e portanto sempre deslumbrada com tudo que produzem os centros hegemônicos da cultura intelectual, ele é um crítico consistente e coerente. Podemos discordar de sua perspectiva teórica, é o meu caso; daí a desqualificá-lo deformando grosseiramente suas ideias, procedimento patente em resenhas como a de Nelson Ascher, publicada na Veja (2 de maio de 2012), é passar da divergência teórico-ideológica para o ataque grosseiro. Aliás, é isso o que também faz Caetano Veloso na entrevista que concedeu à Folha de S. Paulo (22 de abril 2012). Infelizmente, no Brasil raramente sustentamos um debate de ideias, que logo desanda para o bate-boca e o ataque pessoal. Há algumas explicações razoáveis para esse fenômeno, algumas identificáveis na própria leitura que Schwarz faz da obra de Machado e de outros autores, mas prender-se a elas seria fugir do foco desta resenha, além de alongá-la em demasia.

Roberto Schwarz declara sempre nitidamente de onde fala, em nome de que fala e intervém no debate ideológico e intelectual. A todo tempo, eis nele algo previsível que já se tornou lugar comum, reitera sua filiação ao pensamento dialético. Seus mestres supremos também são sempre invocados: Adorno, na tradição marxista alemã, e Antonio Candido, na brasileira. O primeiro me parece absolutamente ilegível, mas a culpa é certamente minha, talvez por não saber alemão nem me dispor a um treinamento de exegese e hermenêutica (que o leitor de blog me perdoe os palavrões) que consumiria anos de minha vida e me tornaria mais infeliz. Antonio Candido é outra história. É não apenas nosso crítico literário supremo, mas também autor dotado de um estilo de exposição crítica, de esclarecimento das ideias que lamentavelmente não fizeram escola na nossa capenga tradição universitária. Alguns dos seus discípulos confessos, é o caso de Walnice Nogueira Galvão e João Luiz Lafetá, são fieis à sua linhagem estilística, que prima pela clareza, elegância e aversão sistemática a qualquer modismo ou tentação obscura que muitos subletrados confundem com profundidade. Quanto a Schwarz, seu discípulo mais célebre, ostenta um estilo dialético demais para o meu gosto.

Mas sigamos voltando ao ensaio de grande fôlego dedicado ao livro de Caetano Veloso. Num dos seus ensaios mais citados (“Cultura e política, 1964-69”, incluído na obra O pai de família e outros estudos), escrito em 1972, Schwarz faz uma apreciação crítica do movimento tropicalista no contexto dos embates culturais e ideológicos daquela época turbulenta. Agora, 14 anos depois da publicação de Verdade Tropical, ele retoma as questões centrais daquele ensaio ampliando-as no exame de crítica dialética a que submete a trajetória artística e ideológica de Caetano Veloso. Perguntaram ao próprio Caetano a razão de Schwarz demorar tanto tempo para afinal escrever o ensaio. Claro que Caetano não tem resposta para isso. Pelo visto, nem o próprio Schwarz, que responde alegando ser mais lento do que deveria.

A julgar pelo que ele descreve sobre seu processo de maturação de intuições e ideias, é fácil seguir essa rota através das muitas entrevistas que concede e integra a várias das suas obras, Schwarz é um acadêmico típico consagrado ao convívio com os livros e ideias que o perseguem como obsessões inarredáveis. Seguindo o que historia sobre sua intuição fundamental da obra de Machado de Assis, concluímos que suas reflexões e análises que gradualmente se refinam prendem-no à obra de Machado desde a juventude até o presente. Embora tenha escrito apenas dois livros sobre o conjunto dos romances do Bruxo do Cosme Velho, livros aliás um tanto compactos, um intervalo de cerca de 15 anos separa as duas obras, sem contar tudo que matutou antes e depois.

Mas em que consiste essa intuição luminosa de Schwarz que provocou uma reviravolta na leitura da obra de Machado de Assis? Espremendo a matéria do modo mais sumário e claro possível, o crítico descobre na sua paciente leitura dos romances de Machado, notadamente os que datam a partir de Memórias Póstumas de Brás Cubas, uma relação de homologia entre forma romanesca e processo social. A forma caprichosa e volúvel adotada pelo narrador machadiano corresponderia ao processo social singular que o crítico identifica na realidade brasileira na qual contraditoriamente (como convém ao jargão dialético) se combinam escravidão e liberalismo. O grande feito de Machado seria estilizar nossa realidade social contraditória onde escravidão e liberalismo, homens livres privados de mercado, favor e clientelismo se mesclam de forma peculiar. Em síntese, Schwarz parte dessa intuição para elaborar o dispositivo crítico que mobiliza e reitera para dar conta da obra de Machado de Assis e mais tarde de praticamente todos os autores que submete ao escrutínio de sua crítica dialética.

Para chegar aonde chegou, depois de muito ruminar ideias com a lentidão que é o primeiro a admitir, o crítico uspiano traçou um longo e complexo percurso de ideias passando pela tradição dialética alemã, em particular Adorno, e pelo estreito convívio com seus companheiros formados na Universidade de São Paulo. Esse convívio fecundo compreende sua aprendizagem da crítica dialética de Antonio Candido e seu debate franco e contínuo com amigos de geração. Esse debate é um fenômeno raro no ambiente intelectual brasileiro. Um exemplo pessoal. Estava em São Paulo em 1995, quando de uma das muitas celebrações acadêmicas do famoso seminário de estudos do Capital, de Marx. Os discípulos de Schwarz, Giannotti e outros dos participantes desse grupo não mediram esforços para converter essa experiência acadêmica singular numa lenda que, como convém ao pioneirismo de locomotiva dos intelectuais paulistas, eleva o feito a desmedidas incongruentes com o espírito desmitificador e desmistificador do marxismo.

Reunidos no auditório da USP, situado na lendária rua Maria Antônia, Schwarz, Giannotti, Fernando Novais, Paulo Eduardo Arantes e outras estrelas da universidade debateram exaustivamente a história e as consequências ideológicas e culturais do seminário de leitura de O Capital. O que mais me impressionou, além do bandeirantismo indisfarçável dos uspianos, não obstante as ironias corretivas de Schwarz e Giannotti, foi a franqueza isenta de qualquer complacência observável no debate entre estes. Surpreende-me ainda, tendo em mente minha experiência pregressa e prospectiva, ao considerar a forma como argumentavam e divergiam.

O título da minha resenha, que pouco trata do livro, admito, contém seu grão de ironia ou provocação. Como comecei assinalando, Roberto Schwarz continua manejando com sofisticação e pertinácia sua dialética tropical. Assim procedendo, ele se alinha dentro da longa tradição do pensamento crítico que procura ainda e em vão explicar o Brasil. Não que sua obra não esclareça muito de Machado, em particular, e do Brasil, em geral. Mas confesso que por vezes muito me custa, não raro às bordas da angústia, articular minha compreensão do Brasil, com seus impasses insolúveis, tendo as categorias dialéticas de Schwarz como norte.

Elas me parecem abstratas demais, a partir do próprio conceito de dialética que, como certa vez observou José Guilherme Merquior, é uma dama de bem pouca virtude. De fato, o conceito foi vítima de tanto uso e abuso que gente como eu, mal escolada no radicalismo teórico da academia, tende a encará-la como indigesta. No mais, descendo a um exemplo extraído do ensaio sobre Caetano Veloso, surpreendeu-me ler o tom elogioso com que Schwarz menciona um longuíssimo período de Verdade Tropical (cf. pp. 35-6) que é estilisticamente uma das passagens mais infelizes na prosa clara e lúcida de Caetano. Depois de qualificar o período como um autêntico “olé dialético”, Schwarz afirma que “... a síntese procura sugerir, ou captar, a complexidade do processo real. Pela abrangência da visão, pela sua potência organizadora, pelo teor de paradoxo e pela capacidade de enxergar o presente no tempo, como história, é uma façanha”. (p. 72).

Por fim, embora com razão tanto critique o radicalismo inoperante da cultura acadêmica, Schwarz pratica uma crítica dialética exposta ao risco de resvalar na impotência e no desespero político. Afinal, onde se inscreve o solo social da sua dialética inspirada numa ideologia que sempre insistiu sobre a necessidade de mudarmos o mundo? Como sabemos, o agente histórico dessa suposta mudança revolucionária pregada por Marx seria o proletariado urbano. Onde se esconde esse sujeito histórico na dialética de Schwarz? Até onde sei, não é mais o proletariado do ABC paulista, cujo líder chegou ao poder e nele se manteve e mantém aliado às forças mais retrógadas da política brasileira. Portanto, Lula Sarney ou Lula Maluf é carta fora do baralho dialético. Quem é, afinal, o sujeito histórico da dialética tropical tão refinadamente burilada e reiterada pela crítica de Roberto Schwarz?
Recife, 15 de julho de 2012.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Daniel Piza



Foi com surpresa e pesar que ontem tomei conhecimento da morte súbita de Daniel Piza. Vítima de um AVC (acidente vascular cerebral), Piza morreu jovem, sobretudo para os padrões de idade hoje correntes: 41 anos. Apesar disso, militou sem trégua no jornalismo cultural brasileiro, além de paralelamente escrever livros de biografia e ficção acrescidos de atividade de criação intelectual paralela. Sua morte constitui sem dúvida uma perda para a mídia inteligente deste país saturado de porcaria e trivialidade.

Confesso que há muito não lia Daniel Piza, sequer ocasionalmente acessava sua página na internet. Mas durante alguns anos fui leitor fiel dos seus artigos regularmente publicados no Estadão, também dos artigos escritos para a revista Continente Multicultural, atual Continente. Evitava porém seus artigos sobre futebol. Dirão que sou elitista, mas o fato é que não me interessa ler nada sobre futebol ou conversar sobre assunto tão recorrente e vulgar. Gostava de jogar futebol, meu vínculo maior com esse esporte objeto de culto e reverência universais. Meu descaso por esse assunto transposto para as páginas de um livro é tão completo que simplesmente ignorei o livro que José Miguel Wisnik escreveu sobre ele, embora esteja longe de ignorar o autor e a pessoa, com quem entretive conversa inesquecível durante um almoço no qual minha amiga Valéria Torres generosamente nos reuniu. Ocasionalmente vejo com prazer na televisão algum jogo de real qualidade. Como são cada vez mais raros, habituei-me a ligar a televisão para logo em seguida desligá-la.

Também concedi pouca atenção ao Daniel Piza que escrevia sobre política. Este é um assunto que contra minha vontade e temperamento ainda me interessa, embora tenha aprendido a me manter em guarda para lhe fechar as portas de minhas leituras e reflexões. A explicação é simples: a leitura da política é algo que quase sempre me inspira ódio, revolta e impotência. Logo, melhor evitá-la. Além disso, não sou e nunca fui militante político. Essa omissão consciente, e eticamente dolorosa, deriva de minha inabilidade para a ação, de minha incompetência ou recusa das negociações necessárias em toda ação política. Claro que reconheço e aprovo muitas delas, já que a política, para chover no molhado, é a arte do possível, não raro do possível mais vil e lucrativo. O moralista que há em mim, e não sei como refrear, menos ainda suprimir, impede-me de agir politicamente.

O Daniel Piza que verdadeiramente me interessa é o jornalista cultural. Aliás, esse foi o seu domínio preferencial, onde melhor expressou seu talento e seu valor como crítico. O melhor do que escreveu está associado às expressões características da cultura humanista. Sua formação, como ele próprio reconheceu, deve muito a escritores como Machado de Assis e Graciliano Ramos No âmbito da atividade jornalística, é também sabida sua dívida para com Paulo Francis. Sobre este, aliás, escreveu uma curta biografia – Paulo Francis, Brasil na cabeça. Além disso, organizou, segundo a fórmula dos verbetes temáticos, O Dicionário da Corte de Paulo Francis. Salvo a independência crítica com que investiu contra preconceitos políticos e culturais correntes no Brasil, país de cultura paroquial amplamente subordinada à corrupta ingerência do nosso Estado patrimonial, seu perfil intelectual está longe da singularidade ambivalente e truculenta de Francis. Quanto a Machado de Assis, seu modelo literário supremo, pelo menos no Brasil, confesso que achei decepcionante a biografia que escreveu – Machado de Assis, um gênio brasileiro. A julgar pela evidência disponível, a crítica especializada, assim como os estudiosos em geral, não lhe concedeu nenhuma atenção significativa. Jornalista muito conhecido e apreciado, não lhe faltou promoção suficiente para conferir excepcional visibilidade a seu livro sobre Machado. O que lhe faltou foi talento e maior senso de penetração crítica para competir com estudiosos do porte de Lúcia Miguel-Pereira, Jean-Michel Massa e críticos como Antonio Candido, Roberto Schwarz, Alfredo Bosi, John Gledson e outros igualmente citáveis.
Diário - Recife, 1 de janeiro de 2012.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Diário (fragmentos)



08 de junho 2004
Releio uma tradução francesa de Dom Casmurro assinada por Francis de Miomandre e revista por Ronald de Carvalho. Trata-se, portanto, de uma tradução já velha, provavelmente a primeira em língua francesa, talvez a primeira em língua estrangeira. Embora seja um modesto leitor de francês, portanto sem a devida qualificação para ajuizar sobre a qualidade da tradução, reconheço e retenho na leitura de algumas páginas alguns dos traços que mais singularizam a prosa de Machado de Assis: a ironia, o humor, o toque inconfundível do moralista iluminando com a pena aguda os desvãos perturbadores da vaidade, da mesquinheza, da autodeleitação inconsciente com que irreparavelmente nos enganamos acerca do que somos e presumimos saber sobre o outro. Quanto mais releio Machado, em português e noutras línguas que freqüento, mais me convenço da sua grandeza única, do seu indiscutível gênio literário. Reiterando o que outros já ressaltaram, fosse ele um autor de língua inglesa, ou outra de prestígio e difusão similares, seu reconhecimento seria amplo e universal. Apesar da barreira da língua, é animador comprovar que sua obra mais e mais se impõe à admiração por vezes perplexa de grandes leitores e críticos de outras línguas. Vargas Llosa e Carlos Fuentes já registraram em espanhol sua grandeza gradualmente ampliada na esfera do reconhecimento internacional; na língua inglesa, caberia destacar antes de tudo a obra de esclarecimento e difusão desenvolvida por John Gledson, que aliás assina a retradução aprimorada de vários textos de Machado, além da contribuição crítica notável contida, antes de tudo, em The Deceptive Realism of Machado de Assis. Valeria ainda acentuar a obra crítica pioneira escrita por Helen Caldwell. Aliás, somente há poucos anos, depois de tantas referências feitas por estudiosos de Machado de Assis, foi afinal vertido para o português O Otelo Brasileiro de Machado de Assis. Dois críticos ingleses, pouco conhecidos no Brasil, também dedicaram páginas surpreendentes a Machado: V. S. Pritchett e Martin Seymour Smith. Mais recentemente, importaria assinalar Susan Sontag, Salman Rushdie, John Barth e este crítico desconcertante e leitor pantagruélico que é Harold Bloom. Enfim, Machado eleva-se sobre nossa surrada tradição de nacionalismo literário na qual patinaram mesmo alguns dos nossos maiores escritores como Mário de Andrade e nossa melhor produção romântica, modernista e regionalista. A prova suprema do grande escritor é sobreviver ao tempo e no tempo submetido a continuadas, sucessivas e renovadas leituras.

09 de junho de 2004
Há pouco ocorreu-me evocar a expressão de Voltaire anotada no fecho do seu sempre atual Cândido, ou o otimismo: “...il faut cultiver notre jardin”. Dou-me agora ao luxo de me propor algumas normas pertinentes à sabedoria da jardinagem. A primeira consiste na necessidade da delimitação de uma fronteira necessária entre o mundo público e o íntimo, correspondente ao jardim. Se o jardineiro incorre no erro insensato que seria reproduzir a matéria e os valores daquele no solo em que aspira a cultivar seu mundo íntimo, será portanto inútil qualquer presunção ou ideal de vida alternativa. Noutras palavras, melhor continuar imerso no grande mundo com tudo que encerra de pequenas e grandiosas misérias. Recuso-me, por conseguinte, a trazer para dentro do meu jardim as ervas daninhas do cotidiano que me vejo forçado a viver na companhia do semelhante inevitável. Até o noticiário noturno da tv tenho me disciplinado para evitá-lo ao me dar conta de que me inspira antes de tudo indignação e ódio impotente em face das brutalidades rotineiras praticadas na nossa sociedade, sobretudo pela elite bandida deste país vergonhoso. Aponho a elite um qualificativo contraditório por não encontrar meio menos inadequado de referir-me a isso que tão impropriamente designamos por elite brasileira, notadamente a política. Talvez melhor convenha o termo proposto por Evaldo Cabral de Mello, que ao negar que ela exista de fato no Brasil opta pelo termo clientela. O noticiário brasileiro e, por extensão, o estrangeiro, ficam assim interditados no solo do meu jardim.

Dado que entendo a jardinagem como equivalente de uma estética da existência, outra norma fundamental radica no livre e continuado cultivo das artes. É dentro desse espírito que me disciplino para voltar a cantar todos os dias acompanhado pelo meu violão. Valendo-me com frequência dos meus livros de cifras, dou-me ao prazer diário de cantar meus compositores populares preferidos: Tom Jobim, Chico Buarque, Caetano Veloso, Noel Rosa, Lupicínio Rodrigues, Vinicius de Moraes, Lennon-McCartney... Outra flor cultivada no meu jardim é a literatura. Os poetas ocupam lugar especial no canteiro literário que se estende pela via central do jardim. Os mais lidos - no geral de viva voz, pois concordo com Harold Bloom que a poesia deve ser lida – são Drummond, Auden, Eliot, Fernando Pessoa, Manuel Bandeira, Murilo Mendes. Outra atividade constante que imprime beleza, emoção e esclarecimento à atmosfera do meu jardim é a frequentação dos filmes de ordinário gravados em dvd: as adaptações de obras assinadas por Shakespeare, Henry James, Jane Austen, Graham Greene, E. M. Forster, Dostoiévsky, Tchekov, Charles Dickens, Balzac, Victor Hugo, Oscar Wilde e muitos outros. Além disso, entra nesta composição a obra cinematográfica obrigatória dos meus diretores e roteiristas de eleição. Cito apenas os que me vêm de imediato à memória: Hitchcock, Billy Wilder, Woody Allen, Ingmar Bergman, Fellini, Kubrick, Christopher Hampton, David Hare, Louis Malle, Truffaut, Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Cacá Diegues, David Lean.

Há no jardim uma hora preciosa, antes de tudo porque cada vez mais rara, a hora da solidão voluntária livremente povoada pela meditação errática, a pura contemplação da noite ou do mar próximo, mas antes adivinhado que propriamente apreendido pelos sentidos. É esta uma hora rara e progressivamente difícil porque o mundo é cada vez mais sobressaltado por toda sorte de ruído: o ruído dos aviões que fazem dos céus sob os quais habito uma rota de voo obrigatória; o ruído dos vizinhos empenhados em infernizar a vida do próximo; o ruído dos carros e de suas buzinas ferozes; o ruído de semelhantes boçais e arrogantes que, atormentados por modos de vida no geral gestados pela própria insensatez com que vivem, vingam-se dos seus tormentos insolúveis atormentando impiedosamente o mundo disposto ao alcance do seu poder. Há que cultivar o jardim contra e à margem e acima disso tudo. O resto escapa a meu poder de governo do meu mundo íntimo.

21 de junho de 2004.
Li ontem o último romance de Rubem Fonseca: Diário de um Fescenino. Não é com certeza um grande romance, mas é um bom romance. Narrado na forma de um diário, como já sugere o título, nele observo a concentração da narrativa no universo da classe média carioca. Se isso não o isenta de alguns traços marcantes da ficção de Rubem Fonseca, traços associados à representação brutal da marginalidade, acentua a presença de um universo social familiar ao leitor típico brasileiro. Algo que muito prezo no conjunto da obra de Rubem Fonseca é seu afastamento consciente e confesso do forte veio regionalista presente na nossa tradição literária. Desde seu primeiro livro, Rubem Fonseca elege o Brasil urbano, notadamente o Rio de Janeiro, como provedor de temas, conflitos, linguagens e tons dilacerantes da sua literatura. Fiel a esta orientação geral, distinguiu-se antes de tudo como contista da cidade – o melhor dentre os contemporâneos – e também como romancista. Seu primeiro romance, O Caso Morel, exerceu uma influência decisiva sobre minha consciência e prática sexuais. Que mais se pode pedir ou esperar de um livro? Registrei em alguma anotação remota de um dos meus diários o significado que este romance teve sobre minha vida.
Lendo Diário de um Fescenino, assim como Pequenas Criaturas, seu último volume de contos, observei como sua veia de humorista tornou-se mais pronunciada. A meio da leitura de algumas páginas de ambos os livros, não contive o riso. Rio prazerosamente lendo Cervantes, Voltaire, Swift, Lawrence Sterne, Machado de Assis, Oswald de Andrade... Rubem Fonseca, dentre os contemporâneos, é um que me estimulam ao riso e ao prazer elevado da inteligência e do espírito que a boa literatura propicia.

22 de junho de 2004.
Hoje acordei às 4 da madrugada. É que fui dormir também muito cedo. Gosto de estar de pé nessa hora ambivalente, suspensa entre a treva da noite e as primeiras luzes do dia. É quase miraculoso ouvir o silêncio respirando no asfalto deserto das ruas, os tons vagos da aurora espanando as gotas de água do oceano. Depois o dia vai lentamente nascendo, lentamente os objetos emergem do sono profundo da noite. Vesti-me feliz, quase que às pressas, e aproveitei a trégua da chuva, que nos últimos dias privou-me do prazer de correr e bater perna no calçadão da praia, sobretudo do prazer de mergulhar na piscina. Alternando a corrida lenta e a passada longa, fui até a praça de Boa Viagem. Depois fiz o percurso de volta estendendo-o até os limites de Piedade. Quando cruzei a linha do prédio onde Ci e as meninas viveram, espremido entre dois grandes edifícios que miraculosamente não lhe suprimiram a visão do mar, respirei com saudável e comovida memória os anos mais belos e felizes de minha vida. É bom evocá-los assim, retê-los nas linhas concretas do prédio onde tudo se deu e se consumou, surpreendê-los vibrando na atmosfera da cidade insensível, sem qualquer dor, ressentimento ou nostalgia. Vivi o que pude, vivemos o possível, e assim espero assimilar à memória toda essa paisagem esplêndida que perdi sem no entanto perdê-la. Passarei sempre diante daquele prédio respirando no ar sem sombras toda a felicidade invisível que elas me deram. Mentiria se dissesse que a aceitação repousada do que nelas perdi anula qualquer traço ou desejo de volta no tempo, ou de atualização dos esplendores perdidos. O que digo é que procurei tudo aceitar e viver e agora apenas memorar tal como foi: temporário, falível e todavia inefável. Talvez inefável exatamente porque temporário e falível. Tudo que queria ainda, mas não depende de mim, era retê-las como amigas, expressar livremente em clave sublimadora todo o amor, o gozo e desejo que a elas definitivamente me prendem. Um dia escrevi um poema para Ci intitulado: Sempre. Já não lembro o poema e a preguiça impede-me de ir catá-lo numa pasta que nem sei bem onde se encontra. Lembro porém de que nele aspirei a traduzir o sentido de eternidade humana, se é possível assim dizer, do amor que a ela me prende e me prenderá enquanto eu viva. Não importa o fato de ela abafar nos desvãos da memória tudo o que poderosa e irreprimivelmente nos une. Afinal, perdemos a liberdade de nos esquecer.

24 de junho de 2004
O Diário Crítico de Sérgio Milliet cobre um período que se estende grosseiramente do início dos anos 40 a meados dos anos 50. Uma das lições que patenteia é a fugacidade da fama e do prestígio literário. Se nem tudo é moda, boa parte dos escritores lidos e celebrados numa geração – diríamos hoje num ano – cedo mergulha no esquecimento. Mesmo alguns distinguidos pelo reconhecimento geral, sobretudo pela crítica mais criteriosa, com o tempo dissolvem-se no silêncio das prateleiras, ou pelo menos são reduzidos a dimensões comparativamente insignificantes. É curioso lembrar, por exemplo, o prestígio indisputável da cultura francesa durante o período registrado no diário de Sérgio Milliet. Talvez o escritor mais contemplado nas entradas e comentários do crítico paulista seja André Gide. Era então extraordinário o prestígio internacional de que desfrutava. Milliet reitera tal prestígio dedicando-lhe algumas das melhores e mais elogiosas páginas do seu diário. Se Gide não mergulhou na obscuridade, é certo que é hoje muito pouco lido. Outros similarmente distinguidos, como Georges Bernanos e Charles Péguy, tornaram-se ilustres desconhecidos para os contemporâneos.

Dentre os brasileiros, Mário de Andrade e Gilberto Freyre merecem por certo as notas mais amplas e elogiosas. Também a crítica, de resto notável no período, é objeto de inúmeras considerações de Milliet. O destaque maior vai para Álvaro Lins e Roger Bastide. O primeiro era no geral reconhecido como o melhor crítico militante na literatura brasileira; o segundo, embora antes de tudo sociólogo, trouxe contribuição notável à renovação dos nossos estudos socioantropológicos e também literários, com ênfase, aqui, para a ponderação mais sistemática do papel que a sociologia desempenha na apreciação da obra de arte, em geral, e da literária, em particular. Sílvio Romero, Alceu Amoroso Lima, Lúcia Miguel-Pereira, Sérgio Buarque de Holanda, Antonio Candido, Rui Coelho e outros são contemplados com notas no geral elogiosas.
Outro assunto merecedor de breve registro liga-se à febre dos testamentos e plataformas dados a público pelas duas gerações concorrentes no cenário cultural brasileiro na primeira metade dos anos 40. Os termos que emprego, testamentos e plataformas, aludem, claro, a dois livros de ampla repercussão: Testamento de uma Geração, organizado por Edgard Cavalheiro, e Plataforma da Nova Geração, organizado por Mário Neme. Enquanto o primeiro reúne depoimentos e balanços literários e ideológicos da geração fautora do Modernismo, a segunda dá voz à geração ascendente, constituída antes de tudo por escritores e ensaístas de vocação crítica ratificada pelo desenvolvimento do processo cultural brasileiro. Fui dos poucos, na minha geração, a ler cuidadosamente estas obras. Encontrei-as no acervo precioso da Biblioteca da Faculdade de Direito do Recife durante minha curta e desprezada passagem pelo curso no auge dos chamados anos de chumbo da ditadura militar. Aliás, a leitura de obras desta natureza, somada à descoberta da psicanálise e dos escritores modernistas, concorreu de forma decisiva para que eu nunca mais pusesse os pés no prédio histórico do Parque 13 de Maio. Outro fator decisivo foi a leitura de O Processo Maurizius, de Jakob Wassermann. Poucos livros que li, aqui incluído Dom Quixote, tiveram sobre minha imaginação ética e estética efeito tão poderoso. O livro de Wassermann é a história de um processo de injustiça afinal reparado pela luta de um personagem eticamente grandioso. Não podia ler um livros destes sem cotejá-lo com a experiência cotidiana que me oprimia na Faculdade de Direito e no Brasil policiado pela truculência dos militares. Fiquei tão abalado que desisti do curso, pois tinha consciência de que nunca teria força e grandeza intelectuais e morais para seguir o exemplo de Etzel Undergast (tenho sérias dúvidas sobre a correção do sobrenome) como representante da lei e da justiça no país da ditadura e da injustiça.
Por fim, um breve comentário sobre a hegemonia do romance nordestino no decurso do primeiro momento historiado pelo diário de Sérgio Milliet. Tecendo elogios notadamente a José Lins do Rego – talvez, dentre os nordestinos, o que gozava de maior prestígio literário naquele período, como atesta o juízo de peso emitido por Mário de Andrade, que o distinguiu como o maior romancista brasileiro - Milliet proclama a excelência dessa corrente da nossa produção romanesca ao reconhecer que os nordestinos realizaram a ficção que os paulistas propunham ou desejariam realizar.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Debatendo com o leitor



Nota introdutória:

Tomei a liberdade de reproduzir abaixo parte do debate desencadeado pela postagem do meu artigo MEC e Populismo Pedagógico no blog Amálgama, 15 de maio de 2011 (Ver o mesmo texto no meu blog: http://fmlima.blogspot.com/2011/05/mec-e-populismo-pedagogico.html). Considerada a repercussão do assunto na mídia, meu artigo provocou reações e críticas do leitor talvez sem precedente na história do meu modesto percurso como colaborador permanente do Amálgama. Se me decido a reproduzir parte da polêmica desencadeada pelo artigo, a que me parece mais aproveitável e ilustrativa do que aqui qualificarei de debate de ideias na Internet, faço-o baseado na suposição de que ela ambiguamente enriquece e desdobra a matéria considerada no artigo.

Um esclarecimento adicional ao leitor. Desde que passei a escrever para blogues, tive sempre o zelo de ler, ponderar e quase sempre discutir o que o leitor escrevia na seção de comentário. Essa atitude traduzia, antes de tudo, um ponto de vista ético que sempre pautou minha atividade como articulista. Ciente de que escrevo para o leitor, como de resto todos que o fazem, dei sempre importância aos termos da sua recepção, à forma como me lê e me traduz. Ademais, reconheço que em princípio a introdução da seção de comentário, via de relação direta entre o autor e o leitor, constitui um louvável espaço de democratização da cultura e do debate das ideias. O que todavia constato, passados tantos meses de discussão com o leitor, discussão que com frequência exige mais tempo e elaboração da escrita do que o próprio processo de fatura dos artigos e ensaios que posto nos blogues para os quais escrevo, o que ao cabo constato, reitero, é o pífio ou nulo proveito dessa forma de interação que, convenhamos, pouco serve ao legítimo debate das ideias.

Exponho sumariamente dois procedimentos recorrentes que me parecem invalidar ou corromper a intenção de quem intervém na seção de comentário inspirado pelo propósito de adequadamente praticar o exercício de democratização, de esclarecimento e introdução de um pouco de ordem no caos das interações entre o autor e o leitor correntemente saturadas de mal-entendidos, predisposições tendenciosas, quando não pura e simples má fé. O primeiro procedimento parece-me derivar da singular capacidade que tantos leitores revelam de ler no texto o que nele não se encontra. Observo a tempo que procurei selecionar o que há de mais aproveitável nos termos inconciliáveis da polêmica. A documentação que abaixo transcrevo ilustra um pouco esta questão. Embora ressalte no corpo do artigo, também em várias respostas que postei, o fato de que todo sistema linguístico é composto de muitos estratos e variáveis decorrentes de classe, região e grupo cultural, para não falar das infinitas variáveis individuais identificáveis como idioleto ou estilo, vários comentadores, talvez sintomaticamente os mais agressivos e petulantes, insistiram em criticar o que não escrevi. Cuidei também de frisar que a língua é mutável e portanto se transforma através do tempo. Não bastasse a evidência acima anotada, frisei constituírem verdades comezinhas dos estudos linguísticos e mesmo das gramáticas normativas, pois não conheço nenhuma, por mais que se extreme no zelo normativo, que se atreva a refutar verdade tão elementar e encontradiça. Acrescentei ainda que a norma, seja ela qual for, não procede de nenhuma instância transcendental nem é investida de qualquer essência metafísica. As normas, não só as linguísticas, são uma criação humana, portanto mutáveis e corrigíveis.

O segundo procedimento consiste na confusão, não sei até onde intencional ou inconsciente, do comentador que salta do plano do debate das ideias, objetivo primacial da seção de comentário tal como a entendo, para o da ofensa pessoal. Isso fica patente, por exemplo, nos comentários postados por um certo Flávio. Por razões óbvias, não os transcrevo neste post de documentação polêmica do meu artigo. O leitor acaso interessado em conferir a procedência do meu argumento poderá consultar o tom petulante e ofensivo do que escreve, assim como o comentário de uma certa Carol. A julgar pela petulância com que esta presume corrigir minha ignorância, julgo apropriado conferir-lhe um sobrenome digno da excelência do seu saber linguístico. Vou assim identificá-la como Carol Saussure. Afinal, somente a tocante humildade intelectual dessa leitora, digna discípula do arrogante tecnocrata dos estudos da linguagem que é Marcos Magno, supostamente o guru de todos esses tecnocratas que se sentem investidos da autoridade de legislar para os néscios não linguistas o que é e o que se deve ensinar como sendo a língua portuguesa, só isso explica o prenome que nada traduz do seu gênio. Desdobrando o mesmo princípio, por que não passar a chamar Marcos Bagno de Marcos Magno (primor psicanalítico de lapso linguístico de Deonísio Silva em debate recente no programa Observatório da Imprensa) e Flávio, meu opositor mais ofensivo e grosseiro, de Flávio Jakobson?

O que aprendi depois de tanto ruído e fúria que nada significam? Aprendi afinal a inutilidade de teimar em discutir com o leitor em nome da afirmação de um critério ético que bem poucos consideram: o critério da atenção e apreço que devo ao leitor, o outro polo da função comunicativa da linguagem que constitui uma dos sentidos do trabalho de quem escreve. Acredito ainda nele. Do contrário, por que estaria ainda escrevendo? Mas acredito que a função comunicativa que nos associa se traduz acima e à margem da seção de comentário. Portanto, não mais escreverei uma única palavra nesta, salvo nos casos de correção de algum mal-entendido ou revisão necessária. Concluindo, doravante nada farei além de postar o artigo. Que o leitor o leia de acordo com sua inteligência, senso de discernimento crítico, boa ou má vontade. O que sobrar, se algo sobrar, será de todos ou de ninguém.
Abaixo a documentação transcrita da Seção de Comentário do blog Amálgama anexa ao meu artigo MEC e Populismo Pedagógico. Além de ampliada em alguns parágrafos, vai acrescida de algumas correções de linguagem, revisão e mais preciso enquadramento do meu tom polêmico:

Comentário de Fernando da Mota Lima -19 de maio de 2011.
Caros comentadores: Não me dirijo a nenhum, em particular, por serem muitos os argumentos e ainda maiores os mal-entendidos que cercam esta polêmica e meu artigo em particular. Alguns leitores, no geral escudados no linguista Marcos Bagno, cuja petulância argumentativa torna-o digno de chamar-se Marcos Magno, o Alexandre Magno da linguística, tratam meu artigo como se eu acaso ignorasse a variedade efetiva do sistema linguístico. Se nada há de novo sob o sol, como reza o Eclesiastes, esta seria a última das novidades. É claro que toda língua é um complexo de códigos e modos de expressão. Deixei isso claro no artigo quando aludi às variações de classe, região e também individuais. É claro que na intimidade da minha casa, no convívio espontâneo com os amigos, não falo como na sala de aula. Existe o falar das classes pobres e o das pessoas cultas, o do nordestino e o do sulista, o de Tiririca e o de Fernando Gabeira. Vamos ficar discutindo essas obviedades até quando?

O cerne da minha crítica a esses que chamei e chamo de populistas consiste no fato de adotarem uma norma linguística e pedagógica baseada na falsa igualdade da norma culta com a norma do povo iletrado, do estudante carente que vai para a escola e escreve “os livro num presta”. Corrigir esse erro com base na norma culta não é preconceito linguístico. A função da escola é introduzir o aluno no universo da norma culta. É ela que deve prevalecer como norma regente do código das pessoas letradas. Afirmar isso não é incorrer em preconceito de classe ou cultura. Se Ricardo Lima tem razão ao afirmar que a norma culta não é mais certa nem mais errada do ponto de vista científico (leia-se do ponto de vista dos fatos da língua estudados pela linguística), está errado ao recusar a norma culta como critério de correção instituído socialmente. Se ele pensa o contrário, então faça um concurso, um vestibular, qualquer atividade social baseada na norma culta da língua e escreva como o povo iletrado escreve, ou como ele fala no botequim da esquina.

Outra coisa: norma culta não é apenas imposição dos grupos de elite ou dirigentes. É também isso, mas é também saber objetivamente aferível. É também saber transmitido e refinado através de gerações herdeiras e representantes da alta cultura, expressão que emprego isento de arrogância, mas consciente do sentido valorativo que a diferencia de extratos culturais mais restritos e, por que não?, inferiores. Quem pensa o contrário não vê diferença entre Machado de Assis e a subliteratura que infesta a cultura contemporânea. Tampouco diferencia Tom Jobim e Chico Buarque de Garota Safada (o nome dessa banda vulgar já diz tudo) e Chiclete com Banana.
É curioso: qualquer debate sobre questões culturais acaba sempre em desqualificação dessas verdades elementares em nome do antielitismo, do preconceito de classe e região etc. Acusam de elitismo quem afirma que a norma culta é mais rica, complexa e portanto superior às demais. As pessoas que combatem essa verdade elementar, no geral limitadas ou desprovidas de legítima cultura intelectual, aceitam com santa inconsciência o que correntemente se diz no futebol, religião universal do povo. No futebol existe rei, rainha, gênio, fenômeno, imperador, príncipe, clube de elite, e todas as grandezas e até megalomanias. No reino da cultura intelectual, no entanto, não se pode falar em superior ou elite que o mundo dos pseudoigualitários e populistas cai sobre nossas cabeças. Aliás, é na cultura dos extratos inferiores onde mais prolifera o gosto arrogante, não raro ridículo e absolutamente infundado, da megalomania, do desprezo por tudo que esteja abaixo ou supostamente abaixo. Bastaria lembrar a arrogância com que na mídia e na propaganda oficial de Recife vivem arrotando “o maior carnaval do mundo”, “Pernambuco falando para o mundo”, o melhor x do mundo, o melhor y do mundo. A explicação mais elementar dessa arrogância dispensa elucubrações mais sofisticadas: estamos diante da megalomania e da arrogância que não passam de sintoma de subdesenvolvimento ou bovarismo de periférico.
Mais não digo nem me perguntem, pois acho que esse populismo é incurável. Ele é parte do democratismo picareta que tomou conta do país em que vivemos. Isso é mais revoltante quando pensamos que o Brasil é um país picotado pela espoliação, a injustiça, privilégios e preconceitos de todo tipo. A educação é um dos meios mais poderosos para que a gente adquira consciência disso e a partir da aquisição da consciência crítica lute para tornar esse país efetivamente democrático e portanto melhor. Por isso me indigna a incompreensão dos que me julgam elitista simplesmente por defender o direito de as camadas mais pobres e carentes ascenderem a um melhor padrão de vida, que não se traduz apenas em melhores condições de vida material. Ele se traduz também na aquisição de uma cultura mais refinada e complexa, a que nos faculta o acesso a e o consenso pertinente a valores humanistas mais e mais desprezados pelo materialismo predatório que domina a cultura contemporânea. A educação não é tudo, claro, mas é um dos instrumentos fundamentais para essa mudança que não sei quando virá. Postular a suposta igualdade entre a alta cultura e a cultura de massa pode sugerir na aparência a igualdade e respeito pelo conjunto das expressões culturais de um povo como se ele acaso constituísse um todo isento de diferenciação valorativa.
Fernando.

Comentário de Ricardo Lima
19,05,2011 - 5:55 pm
O papel da escola é ensinar a variedade de prestígio, à qual se dá um valor social e que, como eu também já escrevi em outros lugares, é cobrada nos vestibulares, concursos, situações formais. Entretanto, é necessário desenvolver o pensamento crítico, para que essa variedade não seja ensinada somente de forma instrumental e sem questionamento, como se tivesse sido transmitida por Deus para que alguns poucos preservassem, enquanto que outros vilões a deturpassem. Todas as variedades mudam com o tempo, inclusive a variedade de prestígio. Coisas que no passado eram totalmente abomináveis passam a ser consideradas corretas depois que são assimiladas pelas pessoas que disfrutam de maior prestígio social. NINGUÉM no Brasil se utiliza da “norma culta” utilizada por Machado de Assis, mesmo que tenha a ilusão de usá-la, pois, se o fizesse, seria internado em um hospício. É mais positivo refletir sobre a língua e observar os belíssimos fenômenos envolvidos com a formação do Português Brasileiro do que ficar reproduzindo dogmas acientíficos, movidos por crenças irracionais. Todo brasileiro tem o direito de assimilar, manipular e usar a seu favor a variedade de prestígio, assim como tem que ter toda a liberdade – sem bullying nem patrulhamento – de usar a variedade com a qual expressa as suas emoções e os seus pensamentos. Isso pode ser inclusive inferido a partir da Declaração Universal dos Direitos Linguísticos. O que chamamos de “norma culta” é dinâmico, nunca para de mudar e, por isso, não pode ser idealizado como A forma correta, que melhor permite que alguém se expresse. Se, na minha comunidade, alguém diz: “Oh, Cráudia, sai cá fora e dê uma espiada nesses menino danado, qu’eles num pode ficá sozim”, nada vai expressar o pensamento e sentimento tão bem nessa situação. Na escola, isso deve ser respeitado como uma variedade, ainda que – na escola – se deva compreender que, em situações mais gerais e formais, o nome Cláudia é pronunciado com “L” e não passou pela mudança linguística pela qual passaram PRAÇA (plaza, place, Platz), ESCRAVO (Sklave, slave, esclavo) etc; que, nessas mesmas situações, quando há somente um, se usa “menino”, mas quando há mais de um, se usa “meninos” (diferente do francês, que pronuncia da mesma forma o singular e o plural; do alemão, que tem outras regras de plural, inclusive manter, em diversos casos, a palavra invariável – der Lehrer, o professor; die Lehrer, os professores); que, diferente do inglês, o adjetivo deve também concordar com o nome e o artigo (danados). Mencionam-se aqui outras línguas de propósito, para demonstrar que, linguisticamente, os fenômenos são plausíveis e as línguas mudam. No inglês de Shakespeare, havia mais flexões verbais que hoje. No português, as flexões estão diminuindo também: eu falo, você/ele/ela/a gente fala, eles/elas/vocês falam – e não é impossível que em, digamos, 200 anos, só exista a forma “fala” para todas as pessoas gramaticais. Se usarmos inteligência e observação, compreenderemos muito mais as mudanças linguísticas e as variedades existentes em todos os idiomas.

Comentário de Ricardo Lima
19,05,2011 - 6:28 pm
Insisto, para que os leigos não caiam nessa: Não há – DE FATO – nenhum tipo de superioridade essencial na variedade de prestígio. Ela precisa ser descrita (sem dogmas, mas sim de fato) e precisa ser estudada/aprendida, Isso é ponto pacífico. Por quê? Por ser a variedade que favorece maior mobilidade social; por facilitar a comunicação, pois é usada de forma mais comum e geral em comparação aos dialetos; por ser a referência em concursos e diversas situações formais, até porque é necessário que algum tipo de padrão comum seja estabelecido. É por isso! Não porque ela é superior, ou seja, não por uma razão transcendental. O simples fato de que essa variedade de prestígio muda é uma prova de que ela não é essencialmente superior. Ela é – ou deveria ser – um acordo comum para facilitar a vida na sociedade. De petista, eu não tenho nada, e discordo do pensamento pseudoesquerdista e populista, do democratismo cínico. Mas isso não me impede de ver a realidade dentro do campo científico, que trata da observação de fatos. Falaram tanto absurdo porque o livro – que nem conheço – observa que não fazer concordância é plausível e normal, que, se as pessoas que entendem do assunto simplesmente se abstêm, o pensamento mítico-dogmático sobre a língua toma conta. A escola tem que, não só, mas também, mostrar que cada comunidade fala como fala e se comunica muito bem dessa forma, para eliminar os estigmas. E, além disso, a escola deve ensinar a variedade de prestígio, pelas razões citadas. É isso.

Comentário de Fernando da Mota Lima
19,05,2011 - 9:47 pm
Caro Ricardo: Sei que meus argumentos serão inúteis, mas talvez esclareçam um outro leitor interessado nesse nosso debate que mais me parece conversa de surdo. Você agora invoca o relativismo de tempo (histórico) e espaço (geográfico) para validar as muitas variáveis linguísticas que segundo você, como todo bom relativista, devem ser igualmente reconhecidas. Não bastasse tanto, você deita falsa cultura de poliglota como se isso acaso conferisse força a seus argumentos. É chover no molhado lembrar que as línguas mudam no tempo e no espaço. A questão não é essa. Vejamos a coisa de outro modo. Toda sociedade, toda cultura humana é composta de um complexo de normas sem o qual ela não se sustentaria. É claro que esse sistema de normas não caiu do céu nem é obra divina, embora muitos crentes assim pensem.

Desde Saussure, um dos fundadores da linguística moderna, sabemos que o signo linguístico é arbitrário, isto é, não é nenhuma essência, nenhuma manifestação metafísica de uma verdade absoluta e universal. Noutros termos, não existe nenhuma relação essencial entre significante e significado. A língua é uma criação humana resultante do trabalho de uma infinidade de gerações. O relativismo dos seus argumentos em nada anula o fato de que ela é composta de estratos que não são fruto apenas de prestígio social ou variação de classe, tempo e espaço.
A besteira que você escreveu sobre Machado de Assis, fosse ela verdadeira, teria internado a mais alta inteligência humanística do Brasil na Casa Verde de Simão Bacamarte.

Leia o último parágrafo de Memórias Póstumas de Brás Cubas, por exemplo. Se você é uma pessoa de real cultura intelectual, note que estou qualificando a cultura antes que você venha alegar que todo mundo tem cultura, o que é aliás correto segundo o conceito socioantropológico do termo, você notará que somente uma inteligência extraordinária do ponto de visto linguístico e filosófico poderia traduzir em termos de niilismo radical a concepção da condição humana ali inscrita. Por mais que você force a nota do seu relativismo, não há como pôr no mesmo patamar aquele parágrafo, expressão da alta cultura letrada, com o falar vulgar, iletrado ou mesmo o falar da cultura média. É por isso que Machado exige um leitor altamente cultivado do ponto de vista intelectual. Afirmar essa verdade não é ser elitista. É simplesmente reconhecer que Machado é expressão de uma modalidade de cultura e norma linguística que requer anos e anos de estudo e cultivo literário. No entanto, gente como você aparenta acreditar que tudo é questão de relativismo ou imposição de valor social.

Vou retomar o exemplo do futebol que usei no meu comentário precedente. Como disse, no reino do futebol todo mundo fala de rei, rainha, imperador Adriano, gênio da bola etc. Nunca ouvi ninguém acusar isso de elitismo. Pelé é até hoje reconhecido, com justiça, como o rei do futebol. No entanto, na literatura, na cultura humanística em geral, não falta quem prontamente lance mão de supostos argumentos niveladores das múltiplas expressões da cultura para desqualificar o gênio literário de Machado de Assis, o modelo estilístico que é a sua obra etc. Tratam questões dessa natureza como se tudo se reduzisse a relativismo de gosto ou imposição de prestígio sociocultural.

A explicação me parece simples. O futebol é um esporte baseado num sistema de normas e valores simples que todo mundo entende. Noutras palavras, todo mundo no Brasil tem cultura futebolística, conhecimento básico e comum para reconhecer objetivamente certos valores. Por exemplo: nunca vi ninguém negar talento a nenhum jogador convocado para a seleção brasileira. Há desacordo, claro, acerca de quem é melhor, mas nunca se desqualifica um grande jogador de futebol. Na literatura, nos códigos de linguagem, no debate sobre as normas linguísticas, todo mundo tem opinião e muitos acham que estão certos simplesmente porque não existe verdade universal, porque tudo é relativo etc. Ora, qualquer pessoa pode com facilidade dominar o sistema de práticas e normas que regulam um esporte como o futebol. Ler Machado de Assis à altura das exigências e da profundidade da sua obra é uma conquista intelectual e estética que supõe muitos anos de aprendizagem e experiência. Qualquer pessoa pode num relance identificar o gênio futebolístico de Pelé. Quantas no entanto são capazes de ler Memórias Póstumas de Brás Cubas assimilando a grandeza singular dessa obra-prima da literatura universal?

Cansei. Já que você não cede, Ricardo, o que você faria se fosse um professor? Em que norma se basearia para avaliar uma dissertação sobre Machado de Assis, por exemplo? Quanto a seu relativismo histórico, no caso pedagógico, seria razoável eu, como seu professor, dar hoje em você uma surra de palmatória alegando que no tempo do seu avô era essa a norma corrente na escola? Ou ainda surrar, quando não impunemente matar, uma mulher adúltera simplesmente por ter sido esta uma prática cultural corrente durante séculos de machismo, notadamente no Nordeste de cabra macho onde vivo? Não é por mudar no tempo e no espaço que a norma deve ser ignorada, ou trocada por qualquer outra, ou nivelada a qualquer outra.

A Cultura muda, sim, repisemos essa platitude. Minha ambição, o sentido da ideologia que professo inspirado pelo humanismo racionalista, é vê-la mudar para melhor. É por isso que me oponho à concepção de cultura hoje corrente, pois, na medida em que valida toda e qualquer expressão de cultura, anula o a noção valorativa da cultura sem a qual não iremos a lugar nenhum. Se você se recusa a estabelecer distinções qualitativas no conceito de cultura, então você precisará logicamente justificar toda e qualquer expressão de cultura simplesmente baseado no critério de que tudo é cultura. Cansei. Como dizem os belos versos de Chico Buarque: “já conheço os passos dessa estrada / sei que não vai dar em nada / seus segredos sei de cor”. Paro antes que alguém diga que esses versos fundidos à música de Tom Jobim, a mais alta expressão musical que existe neste país, são iguais a qualquer das boçalidades que passam por música em megashows de musculação e histeria de massa.Ou mera expressão de classe social, status, distinção estética imposta por meros fatores de ordem social e ideológica.

Comentário de Ricardo Lima – 20 de maio de 2011
Engraçado, Fernando, como as pessoas se enganam quando tentam falar sobre quem – e sobre o que não conhecem. Eu sou uma das pessoas menos relativistas entre as que conheço, ao menos no sentido trazido por você. Além disso, jamais passou por minha cabeça deitar cultura de poliglota, apesar de não me sentir envergonhado de ser fluente em algumas línguas – desculpe se isso parece algum tipo de ataque, mas se trata simplesmente de uma verdade e, em relação à discussão, procuro simplesmente me basear em dados concretos. Acho que lhe faltaram argumentos mais racionais. Não acho que seja elitismo de sua parte considerar que a cultura está atrelada a um determinado padrão linguístico, mas acho que isso é uma ficção, pois tanto a cultura quando o padrão se transformam dentro do processo histórico, o qual envolve inclusive a dialética entre as diversas culturas e variedades existentes em um país. Ou seja, a variedade de prestígio existe, é uma realidade, deve ser aprendida/ensinada na escola, conforme eu também afirmei, mas a compreensão da relação que ela tem com as outras variedades, inclusive o continuum existente, os intercâmbios, fazem com que percebamos que não se trata de algo intocado, mas sim de algo que faz parte do patrimônio cultural – embora não seja a totalidade desse patrimônio, a não ser que queiramos apagar todos os discursos outros que, na realidade, existem. O que gerou essa falsa polêmica foi a ideia equivocada de que estavam querendo ensinar os alunos que é OK falar “errado” e que a variedade de prestígio não seria importante. No entanto, reconhecer que as diversas variedades são reais e não podem ser estigmatizadas é muito diferente disso. Primeiro, falar e escrever “errado” é falar e escrever em desacordo com o contexto, ou seja, de uma forma inadequada à situação de uso. Ou seja, dizer “telefonar-te-ei amanhã” numa roda de amigos é tão “errado” quanto usar “Pô, cara, não deu pra faser (sic) o progeto (sic)” em uma correspondência na empresa. Os alunos têm que ser informados disso. Por isso, têm que saber que, em alguma variedade, “os livro” é aceitável, mas na variedade de prestígio (erroneamente chamada de norma culta) não é. Segundo, ensinar a variedade de prestígio de forma instrumental, sem reflexão, pode ser negativo também. Os alunos têm que saber que não se trata de uma variedade perfeita, mas que está em constante mudança e, com o tempo, vai assimilando elementos antes considerados errados. E isso acontece à medida que aqueles que têm maior prestígio social começam a usar tais elementos. Isso é científico, não é adivinhação nem relativismo de minha parte. Os problemas do aprendizado não estão relacionados de forma simplista com essa discussão, tanto que as deficiências existem em todas as disciplinas. Espero que não lhe ofenda a citação de outras culturas, mas coloco só mais um adendo que mostra que o problema está no sistema educacional, não nessa discussão sobre variedades: nos países onde o sistema educacional funciona de forma mais eficaz – ex.: Alemanha, França, Inglaterra, Argentina etc – você acha que não existem as variedades? Na Alemanha, chega ao ponto, em alguns casos, de falantes de um dialeto não compreenderem os de outro. Os berlinenses não “respeitam” quase nenhuma regra de declinação do Hochdeutsch (alemão padrão) no seu falar cotidiano. No entanto, aprendem bem o Hochdeutsch. Na Argentina, o espanhol tem diversas peculiaridades de vocabulário e gramática, e não se deixa de usar “vos podés” no lugar de “tu puedes” nem por decreto. No entanto, aprendem o espanhol padrão. Ou seja, se a escola cita, em um livro, que existem diversas variedades, que todas devem ser respeitadas etc, isso não é obstáculo para que se assimile a variedade tomada como padrão. Por último, sobre Machado de Assis, creio que simplesmente não tenha compreendido. Só quis chamar atenção para a mudança linguística mesmo, observando que ninguém usa o português que era usado por ele.

Comentário de Fernando da Mota Lima
20,05,2011 - 9:40 pm
Caro Ricardo: você desarma meu ânimo polêmico com seu comentário acima. Não no que se refere à substância dos argumentos, que no essencial reiteram o que já nos dissemos. Você me desarma e tiro o chapéu para o seu tom de civilidade. Educação no sentido equivalente a civilidade é algo que me desarma e pouco encontro no convívio com brasileiros. Isso, friso, é o que mais importa no seu comentário. Vou ainda desdobrar a discussão pela última vez ainda com a intenção de introduzir alguma clareza no nosso debate. Estou me cansando de discutir com as pessoas que no geral comentam artigos meus simplesmente por constatar que a discussão no geral resulta inútil, já que não leva a lugar nenhum. Por isso declarei acima que isso era um diálogo de surdos. Se não damos sentido preciso aos termos fundamentais do debate, é inútil, reitero, continuar discutindo.

Por exemplo: refutei o caráter relativista dos seus argumentos e logo você me retruca afirmando o contrário. Se seus argumentos relativos a variações no tempo e no espaço não são prova de relativismo, então um de nós dois definitivamente não sabe o que é relativismo. Já estou cansado de reiterar as variáveis observáveis em qualquer sistema linguístico. São, noutras palavras, variáveis dependentes de classe social, região, indivíduo. Você simplesmente ampliou o escopo da variável espacial ou geográfica (região) ao mencionar exemplos de comparação linguística, isto é, variáveis de idioma. Além, acrescento a tempo, da variável temporal, que no jargão dos linguistas equivale à diacronia linguística quando consideramos uma língua exclusiva. Não discordamos quanto a isso. Também não discordamos quando você ressalta o prestígio social como um dos fundamentos sociológicos da norma culta.
Portanto, nossa divergência não reside no fato de constatarmos várias normas na língua nem as variáveis de contexto social e linguístico em que se manifestam as normas em questão. Meu argumento central é o seguinte: embora várias normas ou variáveis linguísticas convivam na escola, a norma regente deve ser a culta. Acrescentei no meu artigo que o domínio desta não traduz mera questão de arbítrio ou prestígio social. Traduz essas coisas, reitero minha concordância, mas a questão é mais embaixo e é aí que discordo de você, de Marcos Bagno e todos que polemicamente qualifiquei de populistas.

Uma pessoa intelectualmente culta (volto a frisar que o termo culta está modificado pelo advérbio de modo porque reconheço, seguindo o uso socioantropológico, que toda pessoa é dotada de cultura, mas nem todas são dotadas de cultura intelectual) se identifica pela aquisição e uso da norma culta. Isso supõe juízos objetivos de valor que vocês, apologistas da igualdade linguística, se recusam a reconhecer. O falante limitado ao código restrito, aquele que escreve “Os livro etc.”, não está intelectualmente habitado para perceber a realidade de forma crítica, para formular argumentos e propor alternativas à realidade. É isso o que afirmo no meu artigo.
É fato que não li o livro que gerou a polêmica que nos ocupa. Meu artigo seria obscurantista e ignorante, como disse abaixo o obscurantista e ignorante Flávio, se eu confinasse meus argumentos aos limites da reportagem divulgada pela mídia. Quem sabe ler, sabe que meu artigo visa alvos mais amplos e profundos.
Estudei durante mais de quatro anos numa universidade inglesa onde havia alunos e professores de mais de cem nacionalidades. Portanto, uma verdadeira babel de línguas e culturas. Convivendo com gente de culturas e línguas tão variáveis comunicando-se apenas por terem a língua inglesa como denominador comum, suponho haver aprendido algumas lições preciosas sobre relativismo cultural e linguístico. Mas fico por aqui, Recardo. Apesar das nossas divergências e mal-entendidos, valeu a pena discutir com você, sobretudo quando considero o tom civilizado do seu último comentário.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Literatura e Inconformismo


A sociedade encara a literatura regida por um princípio de ambiguidade inconsciente que me parece digno de algumas reflexões. Num mundo regulado pelo princípio da utilidade, é compreensível, senão lógico, que seja encarada com suspeita, ou pura e simples rejeição. Afinal, salvo exceções facilmente assinaláveis, bem poucos vivem profissionalmente da literatura. Pensando melhor, essa não me parece uma razão suficiente para a suspeita ou rejeição que acabo de registrar. Bem antes da montagem de uma sociedade regida pelo capitalismo mais estreitamente utilitário, a literatura era já castigada pela rejeição social. Portanto, as razões não seriam apenas de fundo prioritariamente econômico. Além destas, recai sobre a literatura a rejeição movida pelo espírito pragmático compreendido numa dimensão mais ampla. Quero dizer, não é apenas o pragmatismo econômico que a ela se opõe, mas também o pragmatismo mais geral que se arrepia em face da mentira, que reivindica diante da realidade uma atitude... realista.

Outra razão adicional, igualmente fundamental, reside no inconformismo gerado pela literatura. Imaginar uma outra vida, figurar através da literatura a experiência do outro, também a de ser o outro, isso constitui uma poderosa força de inconformismo. Buscamos viver na literatura outro modo imaginário de vida, identificamo-nos com o outro nessa experiência porque a vida que vivemos não nos contenta. Viver dentro do horizonte apertado da vida real, da vida empiricamente apreensível, é algo que nos oprime. Queremos ser outro porque somos inconformados com a vida tal como é.

É precisamente aqui que se insinua a ambiguidade assinalada na abertura deste artigo. A mesma sociedade que rejeita a literatura por ser o avesso da realidade, por ser produto da imaginação ficcional, é a mesma que não suporta viver amordaçada pelo princípio exclusivo da realidade. A evidência apreensível nos estudos de sociologia e antropologia da arte demonstra como toda sociedade necessita do seu quinhão, ponhamos quinhão nesse saco, de fantasia, de reinvenção imaginária da realidade. A explicação para esse fato me parece residir na necessidade que temos de viver imaginariamente uma outra vida, na necessidade irreprimível de ser outro.
É nesse sentido que ouso afirmar a verdade seguinte: a necessidade de literatura, aqui compreendida no sentido genérico de expressão imaginária da vida, traduz o inconformismo entranhado na condição humana, o inconformismo que nos impele a viver imaginariamente uma outra vida. É isso o que move todo ser humano à busca do seu quinhão de fantasia manifesto numa infinidade de ações e formas de recepção humana. Bastaria pensarmos no consumo massivo de telenovelas, de enredos imaginários de todo tipo. A fantasia intervém de forma tão onipresente na nossa existência que somente um positivista caturra, um insuportável coletor de fatos ou mensurador de evidências palpáveis, ousaria afirmar categoricamente a distinção entre fato e ficção, entre vida factualmente vivida e vida imaginária.

É por atuar como um poderoso estímulo à imaginação transformadora da realidade que a literatura tem sido sempre perseguida, controlada, em último caso proibida. Nas sociedades reguladas por padrões repressivos da imaginação e da prática erótica, por exemplo, o Estado, a religião, a educação e todo o sistema de controle do imaginário impunham antes de tudo à mulher, pensemos nas sociedades patriarcais como as que se formaram no conjunto da América Latina, a proibição dos livros de ficção. Até às vésperas da revolução dos costumes que abalou as sociedades ocidentais na segunda metade do século passado, muitas obras perigosas, devido a seu alto teor erótico, eram vedadas aos olhos da mulher, quando não vetadas no mercado editorial. Pensemos, por exemplo, no Ulisses, de James Joyce, e n´O Amante de Lady Chatterley, de D. H. Lawrence. Eu próprio, na minha juventude, assisti ao controle moral imposto às mulheres de minha geração diante das obras de Henry Miller, Anais Nin e do pernambucano Hermilo Borba Filho, seguidor confesso do veio literário aberto ou renovado por Henry Miller.

Drummond observou certa vez que, contraposta à realidade, a literatura pode ser metaforicamente compreendida como se tivesse duas portas: uma que fosse via de fuga da realidade, outra uma via de penetração mais profunda na própria realidade. Somente as pessoas bem pouco letradas figuram a literatura como sendo, em bloco, o avesso indesejável da realidade, um mal que deveria ser sempre evitado. Noutras palavras, reiterando a distinção proposta por Drummond, uma simples via de fuga ou alienação da realidade.

Drummond, aliás, ilustra de forma admirável essa representação metafórica da literatura como um percurso existencial de mão dupla. Foi provavelmente ela, a literatura, quem o salvou da acomodação alienante dentro da máquina burocrática que lhe assegurava sustento material provavelmente ao preço de muito conflito moral e ideológico. Bem o podemos imaginar como um ser duplo, como Machado de Assis e tantos outros burocratas brasileiros que fizeram da literatura sua expressão de inconformismo e fuga da vida besta, um intelectual cindido entre a repartição pública e a reinvenção imaginária do real. O homem que durante o dia despachava como chefe de gabinete do Ministro de Estado Capanema era o mesmo que à noite, ou nas folgas da rotina burocrática, escrevia as obras-primas de A Rosa do Povo e outras obras definitivas da poesia brasileira.

O exemplo famoso de Freud e da psicanálise valem como refutação veemente dessa tolice. Como sabemos, Freud estava confessadamente longe de ser um pensador modesto ou pouco ambicioso. Orgulhoso de se definir como um “conquistador”, um intelectual decidido a abrir novas sendas na história do pensamento humano, não poupou energia nem gênio criador para inscrever seu nome no Olimpo da cultura moderna. No entanto, teve a humildade de reconhecer a precedência da grande tradição literária na revelação do inconsciente humano, das nossas pulsões secretas, quando, ao lhe outorgarem o prêmio Goethe de Literatura, foi saudado como o descobridor do inconsciente. Ele bem sabia, como o sabe todo leitor crítico, que a grande tradição literária ilumina e revela as camadas mais profundas da realidade, ao invés de ocultá-las, revesti-las de consoladoras ilusões ou simplesmente evadir-se das suas verdades mais indesejáveis e dolorosas.

Também Freud incorreu em muita ambiguidade ao ler psicanaliticamente a literatura. Se de um lado reconheceu-a como fonte inspiradora de alguns dos conceitos e argumentos fundamentais que forjou para dar corpo teórico à sua criação, de outro tendeu por vezes a figurá-la como expressão pura e simples do princípio do prazer. Essa apreciação tão limitada da literatura decorria em larga medida, acredito, de sua filiação ao cientificismo que tão fortemente marcou a atmosfera intelectual dentro da qual se formou. Outro fato sintomático de sua aproximação bem parcial da literatura é a apreensão restritamente psicológica de suas análises de textos literários. A Gradiva, de Jensen, ilustra isso muito bem, assim como sua análise, em muito pontos admirável, da literatura como expressão do devaneio. Quando analisa uma obra de grande poder literário, como é o caso de Os Irmãos Karamazov, evita explicitamente abordá-la em termos estéticos ou formais. Prendendo-se à leitura de fundo analítico, ou psicológico, ressalta na obra, assim como na biografia de Dostoiévski, exclusivamente a questão do parricídio.

Retomando mais diretamente a relação entre literatura e inconformismo, parece-me que já deixei acima evidente a extensão do conceito de inconformismo aqui adotado. Quero dizer que ele vai bem além dos seus limites políticos, tão enfaticamente evidenciados na crítica e na teoria politicamente engajada. Essa perspectiva redutora encontra-se na raiz da apreciação estreita, por vezes intolerante e vesga, da obra de Machado de Assis. Ela explicaria ainda, a preferência por escritores incomparavelmente menores que Machado quando com este cotejados, ou a este deliberadamente contrapostos. Foi o caso da preferência de alguns críticos de esquerda pela obra de Lima Barreto. Aliás, o próprio Lima Barreto, indo diretamente a uma das fontes da apreciação deformadora da grande obra de Machado de Assis, valeu-se de argumentos e preconceitos semelhantes para negar a excelência única da obra do Bruxo do Cosme Velho.

Embora longe de qualquer radicalismo ou intolerância política, Mário de Andrade traduz na sua apreciação de Machado sua aproximação cindida entre a exigência de cunho participante, expressão de seu nacionalismo ideologicamente utilitário e engajado, e o reconhecimento de sua mestria estética. Sendo um grande artista, armado de fina sensibilidade estética, Mário não poderia deixar de reconhecer a grandeza da obra de Machado, ainda quando o criticasse, como de fato procede no seu ensaio famoso, por sua omissão diante do que entendia seres os deveres éticos do artista. É por isso que ressalta o Machado socialmente conformista, o Machado funcionalmente comandado pela mirada pragmática do mulato que joga o jogo certo e sem riscos para sua reputação e acolhimento privilegiado numa sociedade regida por valores escravocratas.

Ora, considerado de uma perspectiva mais complexa - ou mais dialética, diria talvez um crítico que fosse ou se desejasse dialético na apreciação dos fatores complexos que articulam o campo onde se movem e interagem formas, temas, injunções do meio e da época, aí também compreendida a biografia do autor - Machado nos desconcerta e confunde precisamente por produzir uma obra tão devastadora e corrosiva sob as vestes enganadoras da aderência às formas sociais e ideológicas consagradas no seu tempo. É de fato espantoso que um homem na aparência tão afinado com os valores dominantes no seu tempo tenha sido capaz de escrever uma obra tão impiedosamente crítica. É por isso que Machado de Assis ilustra talvez mais do que qualquer outro escritor que me ocorra lembrar, ao me propor a relação entre literatura e inconformismo, o argumento que intentei desenhar nas linhas deste artigo.
Recife, 20 de janeiro de 2011.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Rouanet e Machado de Assis



Releio Riso e Melancolia, de Sérgio Paulo Rouanet, com o propósito de esboçar algumas notas ainda relativas a Machado de Assis. Antes de tudo, leio sempre com prazer e esclarecimento tudo que Rouanet escreve. Há muito, desde provavelmente minha leitura de As Razões do Iluminismo, passei a distingui-lo como um dos mais notáveis ensaístas de língua portuguesa. Ele assimila e prolonga de um modo feliz e bem incomum no nosso cenário intelectual o melhor da tradição iluminista e mais amplamente racionalista. Numa época desgraçadamente caracterizada pelo ataque sistemático a essa tradição, tem ele demonstrado uma atitude de admirável coerência e coragem na defesa intransigente de valores racionais e universalistas. Se dele discordo, é exatamente por pretender aplicar à realidade brasileira um projeto iluminista que me parece simplesmente inviável.

Às vezes, lendo muito do que reuniu em finos e eruditos ensaios, tenho a impressão de que escreve para um país e um público irreais. Penso ser isso sintoma de desenraizamento mental. Antes diriam, notadamente os nacionalistas culturais mais empenhados, que sua obra ilustraria um caso típico de alienação intelectual; sintoma, noutras palavras, de colonialismo mental. Poderia ainda apropriadamente lembrar uma expressão cunhada por Mário de Andrade com franca intenção pejorativa: doença de Nabuco. Joaquim Nabuco foi um intelectual tão enraizadamente europeu quanto Rouanet. Aliás, além da formação nitidamente européia, ambos foram diplomatas e consequentemente viveram muitos anos ausentes do Brasil. É claro que todo intelectual brasileiro que se preze, mesmo alguns incuravelmente provincianos na sua expressão de nacionalismo militante, é formado dentro de matrizes européias. Em tempos mais recentes nossa matriz formadora deslocou-se para os Estados Unidos. Mas tal deslocamento, no sentido em que o compreendo, não passa de um prolongamento da mais alta tradição intelectual européia.

Parece-me um tanto intrigante o desapreço com que nossos círculos acadêmicos tratam a obra de Rouanet. Cheguei momentaneamente a supor que a razão disso consistisse na independência da sua identidade de intelectual de esquerda. Embora se declare um iluminista bem próximo da esquerda de corte marxista, esteve sempre muito próximo do liberalismo postulado por Merquior, com justiça um dos seus modelos intelectuais. Como Merquior foi um intelectual muito hostilizado pela esquerda acadêmica, sobretudo a partir do momento em que publicamente assumiu posições nitidamente liberais, além de comprometer-se com o governo de Fernando Collor, presumi que a rejeição poderia chamuscar igualmente Rouanet.

Mais tarde concluí, em termos puramente hipotéticos, que talvez seu desprestígio junto aos intelectuais acadêmicos derivasse da circunstância de haver traçado um percurso largamente dissociado dos círculos universitários. Embora ensine ou tenha ensinado na Universidade de Brasília, ignoro dentro de que vínculos institucionais, sua obra é fundamentalmente a obra de um ensaísta ambíguo em termos institucionais. Digo ambíguo por considerar sua condição de membro da Academia Brasileira de Letras, o jornalismo cultural que regularmente pratica, além de suas incursões na esfera universitária. Não obstante todas essas evidências, seu estilo ensaístico e a independência de suas interpelações críticas não me parecem facilmente acomodáveis em qualquer desses nichos institucionais.

Uma evidência louvável de sua independência crítica encontra-se assaz documentada nos seus livros mais fortes e polemicamente empenhados. Refiro-me a As Razões do Iluminismo e Mal-estar na Modernidade. Argumentando em defesa de um universalismo de raiz iluminista, investe com singular brilho polêmico contra todas as tendências irracionalistas do nosso tempo, especialmente aquelas distinguidas por alta recepção nos círculos de esquerda, acadêmicos e extra-acadêmicos. Os ensaios reunidos nestas duas obras são de fato admiráveis. Embora cético quanto à propriedade do aparato conceitual que emprega para analisar nossas pequenas e grandes misérias, como é o caso dos ensaios que abrem Mal-estar na Modernidade (Iluminismo ou barbárie e A coruja e o sambódromo), reconheço serem de grande penetração e esclarecimento para qualquer leitor interessado no debate relativo a polaridades como racionalismo versus irracionalismo, civilização versus barbárie, universalismo versus nacionalismo.

O fato de uma obra intelectualmente tão empenhada e consistente na força de sua argumentação não provocar qualquer repercussão crítica significativa constitui evidência inegável do esvaziamento do debate cultural e ideológico no Brasil. O que sobrevive como arremedo mesquinho de um efetivo clima de debate intelectual é o que o leitor ávido de pasquinadas encontra em colunistas do tipo de Diogo Mainardi, Reinaldo Azevedo, Arnaldo Jabor, João Pereira Coutinho e, alguns degraus acima, Paulo Arantes, Jurandir Freire Costa e Olavo Carvalho. Este, assim como Diogo Mainardi e Reinaldo Azevedo, é em certos termos um direitista intratável, mas não lhe posso negar méritos intelectuais que com certeza nego a Mainardi e Azevedo. Não obstante as diferenças nítidas observáveis nesse insólito grupo, prezo em todos a combatividade opinativa que em algum grau imprime um arremedo de debate intelectual à estropiada cena cultural brasileira.

Mas é tempo de entrar na matéria que desejo anotar baseado na minha releitura de Riso e Melancolia. Antes de tudo, é um belo ensaio que se desdobra num campo movediço: o da literatura comparada atinente às relações de influência. Rouanet explora uma pista, ou já evidência, fornecida por Machado de Assis, linha terminal num trajeto que parte de Laurence Sterne passando por Diderot, Xavier de Maistre e Almeida Garrett. Ciente da falácia contida em elos superficiais observáveis no paralelo entre dois ou mais autores, em coincidências temáticas e leituras cujo grau de aderência à fonte citada carece de apreciação metódica, o crítico justifica seu argumento apenas quando alcança apreender uma forma passível de unificar os autores compreendidos na sua investigação.

É o caso da forma shandiana. Trata-se precisamente de uma forma literária cuja matriz é o romance Tristram Shandy, de Laurence Sterne. Não foi este, todavia, quem a definiu, mas um dos seus seguidores confessos: Machado de Assis. A evidência está inscrita no prólogo acrescido à terceira edição de Memórias Póstumas de Brás Cubas e no intróito da narrativa sob o título Ao Leitor. É aí que Machado de Assis expressamente reconhece a filiação do seu romance ao modelo procedente de Sterne e prolongado em Xavier de Maistre e Almeida Garrett. Ao mesmo tempo, alega com razão acrescentar à forma que adota um ingrediente de pessimismo fundido em ironia e humor, em troça e melancolia condensadas neste passo à exaustão repetido e glosado pelos críticos: “Escrevi-a com a tinta da galhofa e a pena da melancolia, e não é difícil antever o que poderá sair desse conúbio”.

O passo seguinte dado por Rouanet consiste na especificação das “características estruturais da forma shandiana: hipertropia da subjetividade, digressividade e fragmentação, subjetivação do tempo e do espaço e interpenetração do riso e da melancolia” (p. 33). A partir dessas discriminações preliminares o autor dedica capítulos individuais a cada uma das características acima referidas. A obra culmina na composição do capítulo A taça e o vinho, onde Rouanet examina a contribuição original de Machado acrescentada à forma shandiana procedendo entretanto a uma correção. Embora Machado distinga sua obra da dos seus predecessores opondo ao tom risonho destes suas “rabugens de pessimismo”, Rouanet argumenta que o binômio riso e melancolia encontra-se dialeticamente entrançado em todos os autores shandianos.

Já que esta anotação não pretende constituir um resumo do ensaio de Rouanet, importaria concluir ressaltando que, ao adotar a forma shandiana, Machado torna-se exemplo singular da narrativa ficcional no momento em que a literatura européia e latino-americana baseavam-se numa noção de estreita aderência à realidade social. Em plena vigência das estéticas objetivas, realismo e naturalismo, Machado emprega deliberadamente uma forma que a todo momento constrange o leitor à quebra do vínculo ilusório que o prende ao texto como se este fosse investido de existência ontologicamente autônoma. Era esse um dos fundamentos do realismo e do naturalismo: o do tratamento objetivo da realidade incorporada à esfera ficcional. Inspirado na forma shandiana, Machado força o leitor constantemente a perceber que o texto literário é um artefato ilusório, uma convenção normativa que desvenda o real sendo ela própria irreal.

O narrador caprichoso, volúvel e opinativo minuciosamente escrutinado por Roberto Schwarz, Rouanet e críticos menores, funciona também no corpo da narrativa machadiana como esse freio de mão que repetidamente arranca o leitor do seu assento ilusoriamente acomodado à atmosfera de uma realidade de segundo grau, supostamente uma representação especular da realidade propriamente dita, para lançá-lo numa outra ordem de representação: a da ficção fruída como instância conscientemente ficcional. É como se Machado a todo instante nos advertisse para o fato de que o que lemos, a esfera imaginativa em que imergimos, é apenas ficção, apenas recriação intencionalmente artificial da realidade.

Vale a pena, neste passo, voltar a um excelente ensaio que Carlos Fuentes dedica a Machado de Assis. Fuentes ressalta que Machado reaviva no Brasil a tradição narrativa cuja matriz, bem anterior a Laurence Sterne, é Cervantes. Até porque Sterne alude expressamente a este como modelo do seu Tristram Shandy. Seria Machado o caso único na América Latina de um escritor que adere à forma criada por Cervantes, já que os demais se integram às vertentes realista e naturalista. Como bem assinala John Gledson no título original de um dos seus primeiros livros dedicados à obra de Machado, The Deceptive Realism of Machado de Assis, a forma de romance realista que este pratica é bem distinta do modelo canônico estabelecido por Stendhal e Flaubert. Daí o qualificativo “deceptive” inscrito no título do livro assinado pelo crítico inglês.

Segundo Carlos Fuentes, o espírito de reação ao colonizador espanhol, sob os influxos dos movimentos de independência, induziu os ficcionistas hispano-americanos ao erro de romper com a tradição pretendendo adotar um modelo de modernidade diretamente haurido nas fontes anglo-saxônicas e francesas. Por razões distintas, a própria narrativa européia abafa a tradição cervantina para seguir o veio hegemônico que se instaura com o romance de Balzac e dos realistas acima mencionados, também por Tolstói e Émile Zola. Quem traça um excelente painel crítico-histórico dessas duas vertentes, a cervantina e a realista-naturalista triunfante na Europa e em todas as literaturas dela dependentes, é Milan Kundera em The Art of the Novel, obra apropriadamente citada por Carlos Fuentes no seu ensaio. É compreensível que Kundera se debruce sobre essa questão estética concernente à tradição narrativa procedente de Cervantes. Afinal, seu objetivo é retomar a tradição cervantina no cenário da ficção européia do século 20, assim como Machado procedeu no Brasil do tempo de José de Alencar e Aluísio de Azevedo.

22 a 25 de novembro 2008