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segunda-feira, 24 de abril de 2017

Aforismos


O aforismo é uma verdade que vai além da verdade, ou pelo menos excede o que o erro mascara.

A verdade factual é apenas um fato. Portanto, não se confunde com nenhuma forma de relativismo. Nossa condição relativa não autoriza a dedução de nenhum fato relativo. Quando um homem mata outro, a morte deste é um fato absoluto.

As coisas estão no tempo, não no espaço. Como nos engana a renitente ilusão que nos induz a buscar no espaço tudo que perdemos e ansiamos ao menos revisitar. Os mitos do passado individual ou coletivo que a nossa imaginação maquina, dissolveram-se no espaço ou sofreram mutações profundas. Tudo que retemos e em nós sobrevive radica na memória, substância imaterial do tempo. Não busques fora de ti um modo de realidade irredutivelmente subjetivo.

Nada nobilita tanto o mal quanto o fato de ele ser praticado em nome de um grande ideal. Por isso, muitos dos mais sinistros tiranos foram venerados como idealistas modelares.

Se a mentira tem pernas curtas, por que no Brasil ela se eleva a alturas tão vertiginosas? O mais inconcebível é que muitas se sustentam soberanas como verdades absolutas.

Um leitor maliciosos e iletrado perguntou-me com ar fingidamente pesaroso por que nunca publiquei meus poemas. Ora, por temor de ser esquecido antes que me lessem.

No Brasil, continuam fingindo que campanha educativa resolve crime policial. Aliás, o alvo não é a solução do crime, mas o imposto do contribuinte, que continua à mercê da impunidade e do Estado parasita e corrupto.

É fácil desmascarar um falso amigo. Basta você dizer que está doente. Os mais indiferentes deixam até de lhe telefonar.

Noel Nutels disse que no Brasil ninguém come ninguém por via oral. No entanto, a julgar pelo odor do matadouro, já é tempo de restaurar o canibalismo dos Tupinambás.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Aforismos e desaforos VIII


A justiça é um cochilo da lei.
Não existem fatos nem versões, apenas aversões.
No Brasil, cada um interpreta a lei de acordo com as minhas inconveniências.
Existe até lei com prazo de validade. Aliás, muitas têm apenas prazo de nulidade.
No Brasil, jurisprudência é palpite. A prova consiste no fato de que todos confundem Constituição com hermenêutica.
A Nova Constituição Brasileira:
Parágrafo único: vale tudo.
Ficam revogadas todas as indisposições em contrário.

O passado continua governando o presente, enquanto o presente sonha o futuro como a realidade desejável. Por isso, se você liga a televisão, corre o risco de confundir o folhetim novelesco com a crônica político-policial.
Liberalismo – É um termo tão ambíguo e deslizante que começou como liberação do mercado, daí escancarou os costumes, que caíram completamente na vida e acabaram no bordel. Agora a puta liberal é a que faz tudo cobrando pelo serviço completo. Tornou-se, no plano dos costumes, o correspondente do humanista do Renascimento. Isso ilustra a trajetória perfeita do progresso humano.
Neoliberal – não confundir com “novo liberal” ou renovador dos ideais liberais. No Brasil, o neoliberal é todo propositor ou agente de privatização da atividade econômica. No ideologuês estatizante, é o espoliador do povo. Ah, é também o empresário que defende o mercado livre, contanto que o Estado financie seus empreendimentos sem risco.
Para os inconformados: relaxem, o Brasil já foi muito pior; para os otimistas: cuidado, amanhã pode ser ainda pior.

sábado, 20 de agosto de 2016

Máximas e Mínimas XV


Penso. Logo, desisto.

Quem fala mal de mim, não sabe o que penso de mim próprio.

A crítica da guilhotina: Se não poupo meu pescoço, por que deveria poupar o do semelhante?

A utopia é o melhor refúgio para os que não suportam a realidade.

O pior cego é o que está certo do que vê.

O ser humano é tão incompatível com o autocontentamento que, se acaso o alcança, logo inventa uma carência.

Se as pessoas que se declaram progressistas conhecessem os processos históricos mais elementares, desistiriam de ser o que não existe.

Era tão hipocondríaco que confundia saúde com sintoma de doença.

Era uma infiel tão compulsiva que pedia perdão quando não traía.

A liberdade sempre se evidencia e expressa enquanto liberdade individual. É por isso que as ideologias coletivistas necessariamente a suprimem. Por isso começo a correr logo que deparo com forças coletivas lutando para libertar o povo, a nação, o pobre, a mulher, o negro, o proletário ou qualquer abstração coletiva.

A alma honesta: A alma honesta jamais louva a si própria, muito menos alardeia sua virtude, já que a arrogância é inconciliável com qualquer virtude. Sua natureza consiste na ação, não na fala. A alma honesta não precisa dizer o que é.

Antipascaliana:
A razão tem razões tão ciente
Que o cego coração nem pressente.

Wittgenstein - melhorar o mundo: Certa vez um discípulo de Wittgenstein perguntou-lhe o que deveria fazer para melhorar o mundo. Melhore a si próprio, respondeu o filósofo, pois isso é tudo que você pode fazer para melhorar o mundo.

A Cultura da Incompetência:
Num mundo exaltado como o da informação e do conhecimento, somos domesticados do berço ao túmulo para a incompetência. Ser mãe, o mais difícil e irrevogável ofício humano, tornou-se uma competência exercida por uma cadeia de especialistas que ditam regras sobre tudo: da tecnologia das práticas sexuais à gestação, do parto à missa de sétimo dia, passando pela amamentação e todo o processo apropriado por instituições e especialistas alheios à família.
Pai e mãe correm ansiosos para o oráculo do terapeuta com o cartão de crédito na mão para aprender como dizer sim ou não ao filho sem lhe causar nenhum trauma. Ah, não esquecer que é prudente consultar o economista antes de usar o cartão, pois no fim do mês chega a fatura infalível com cálculo antecipado de juros.
Comer e fazer sexo, nossas necessidades e competências mais primárias, foram colonizados pela cultura geradora de incompetência. Comer já não é uma necessidade, mas uma mistura de saber técnico, aprendizagem e entretenimento. Basta observar a programação matinal da Globo. Sexo também, além de competição e ostentação de poder. Não admira que tantos passem a depender de estímulos artificiais e transponham a cama para o palco.
E ainda dizem que a revolução tecnológica nos libertou da servidão do mundo tradicional. O mais espantoso é que todos acreditam enquanto festejam a tirania do admirável mundo novo dissolvendo todas as competências que exercíamos naturalmente no passado.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Máximas e Mínimas XIV


Todos os brasileiros são honestos, salvo os políticos.
Já que sou forçado a ir às urnas, na próxima eleição votarei no candidato que tiver a franqueza de afirmar que é corrupto e canalha, se é que algum ousará tanto. Pelo menos estarei votando num político sincero.
Morro de rir do determinismo histórico quando leio sobre a Revolução Russa, a Cubana e toda a história do comunismo. Por isso não troco meu ceticismo utópico pelo socialismo científico de ninguém.
Eu, tantas vezes afagado por muita aluna que me chamava de professor feminista, acabei punido pela televisão da academia de ginástica que todas as manhãs me obriga a ver programa de mulher. Assim acabarei convertido ao machismo senil.
Há verdades que não se dizem publicamente nem mesmo para desacreditar o melhor dos amigos.
Como diria o presidente da comissão de ética do congresso nacional, quem anda na linha é trem.
Depois de examinar todos os relatórios de prestação de contas do governo, os ministros descobrem contas que nem se conta.
Afinal, o Brasil é um país emergente ou imergente?
Como explicar que um país emergente viva em estado de emergência?
Se Marx fosse brasileiro, diria que a contradição fundamental do nosso capitalismo é a que opõe o proletariado ao funcionalismo público. Traidor da sua classe, logo integraria a casta do funcionalismo público, fato que o tornaria igualzinho à maioria dos nossos revolucionários: viveria bem pago e indignado com o capitalismo e a classe dominante.
É verdade que até Jesus Cristo freqüentou más companhias e assim se contradisse ao afirmar que nossas companhias definem quem somos. Ninguém, ainda que seja Cristo, anda apenas em boa companhia. Mas isso em nada justifica quem anda sempre mal acompanhado.
Tenham paciência, vocês que tanto falam mal do Brasil. Um dia o Brasil dará certo. Não antes que eu morra, com certeza, mas talvez antes que o país afunde de vez.
Era tão bela e tão arrogante na sua beleza que ignorava minha existência. Revi-a 10 anos mais tarde e murmurei apenas para mim próprio: como a natureza é impiedosa com as mulheres. É verdade que tudo passa, mas há coisas que passam muito mais depressa.

domingo, 20 de setembro de 2015

Máximas e Mínimas XIII


Brasil: um país tão grande habitado por gente tão pequena.
Sou do tempo em que TV era te ver.
O Brasil sempre compensa uma década ganha com outra perdida. Noutras palavras, periodicamente emergimos para o fundo do poço ou ascendemos para o buraco.
Afinal, somos um país emergente ou imergente?
Os brasileiros continuam esperando que Deus resolva os problemas que eles criam. Prefiro acreditar que quem aqui faz, aqui paga. A desgraça é que uns poucos roubam para que a maioria pague a conta. Mas a maioria não é inocente. No mínimo abre a porta para o ladrão entrar. Ninguém é inocente.
O Brasil é um país de esquerda com uma realidade de direita.
Quem tem a esquerda que temos não precisa de direita.
Narcisismo é uma doença imune até à velhice, que para Narciso é apenas adolescência tardia.
Sou do tempo em que se pedia empréstimo verbal isento de qualquer garantia que não fosse a honestidade do devedor. Hoje quem deve não paga e ainda se sente com o direito de pedir mais. Já inventaram até o amor a fundo perdido.
Corrupção no Brasil tornou-se uma virtude que nenhum oportunista desperdiça. Afinal, ela rende tudo, menos punição.
Brasil, país do faturo.
O PT realizou o verdadeiro milagre brasileiro: transformou o Brasil num país pior do que era.
Só quem é muito pobre e muito ressentido acredita que o dinheiro compra tudo. O dinheiro não compra tudo, mas compra muita coisa.
Não temos a mais vaga noção do que a estrela cintilante é e no entanto acreditamos que a realidade corresponde à aparência apreendida pelos nossos sentidos.
Ame um cão:
Se você se sente solitária e infeliz no amor, ou simplesmente se desiludiu dessas máquinas caprichosas e confusas que são os seres humanos, adote um cão. Seres humanos são dotados de uma singularidade da qual derivam nossas grandezas e misérias: a liberdade. Pena que a maioria a use como uma pata de elefante querendo esmagar uma mosca numa loja de cristais. A mosca é o alvo da liberdade humana e os cristais são seres humanos perseguindo o mesmo fim. Talvez algum dia destruam totalmente a loja.
Apesar de ser o país do jeitinho, o Brasil definitivamente não tem jeito.
O Brasil é o paraíso onde em se plantando tudo dá. O que?
O Brasil é o país da diversidade. Celebra-se a diversidade com festa, claro. Só que os que não gostam da festa ou não querem freqüentá-la são privados até do direito de ficar em paz dentro de suas próprias casas. No Brasil, até a diversidade é autoritária.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Máximas e Mínimas XII


Os sonhadores sonham com a inconsciência de que há sonhos que produzem pesadelos.
Cheguei enfim à idade em que as mulheres amáveis me vêem fotografado à beira mar e dizem: “Que bela foto! Que bela paisagem marítima!”
A vaidade é uma doença incurável que se agrava com o passar dos anos.
Somente um materialista grosseiro acha que pão é necessidade e circo é apenas diversão e alienação política.
A única contribuição da Inglaterra à história do futebol foi o pontapé inicial.
Cheguei afinal à idade em que entro na fila dos idosos sem que ninguém proteste chamando-me de fura-fila.
Se os ingleses pecam por excesso de civilização, os brasileiros pecam por excesso de esculhambação.
Intercâmbio cultural:
Os melhores daqui vão para lá
Os piores de lá fogem pr`aqui.
O que caracteriza o cético autêntico é o estado de dúvida permanente inspirada pela busca da verdade decorrente da argumentação racional. Por isso seus principais inimigos são o dogmático, o crédulo e o cínico.
A saudade é uma traição da memória.
Uma das poucas virtudes da democracia é provar que não há diferença significativa entre Fernando Collor e Luís Inácio Lula da Silva. Basta elegê-los para a presidência e ver o que fazem no exercício do poder.
Não é por não acreditarem em belas abstrações como “a grandeza do futuro do Brasil” que não levo a sério os políticos brasileiros. Queria apenas que acreditassem e lutassem por um futuro melhor para os seus filhos. Essa forma salutar de egoísmo traria benefícios enormes para o país. Infelizmente, até o egoísmo deles é cego.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Máximas e Mínimas XI


Muita gente ama a vida porque não suporta a realidade. Raros os que amam a vida real.
Amo você como você é. Não se ouve frase mais banal e inconsciente na linguagem dos amantes. Por isso os amantes mentem tanto. Se eu pudesse realizar meu ideal de felicidade no amor, diria que esse ideal consiste no seguinte: amar dentro da verdade, ser feliz tendo a verdade como princípio. Infelizmente, me confesso incapaz disso e nunca conheci ninguém capaz de converter esse ideal em realidade. Portanto, convém amar nossa imperfeição tantas vezes mentirosa ou consolar-se amando gato e cachorro.
Uma relação de ódio pode consumar-se no flash de um gesto ou palavra. O amor, entretanto, precisa sempre e sempre dar provas de si: do quanto é generoso, atencioso, desprendido, quente, protetor, fiel, luz acima das meias tintas cotidianas dentro das quais movem-se nossas existências insignificantes. Ai dele se não transpirar no calor e espirrar encolhido dentro do frio. Ai dele se, depois de dez anos de estrita fidelidade, chover no verão ou menstruar em pleno desfile de moda. Ai dele se entoar uma marcha fúnebre na madrugada do segundo dia de carnaval ou dançar um frevo no velório da sogra assassinada. O ódio, por outro lado, não requer qualquer talento ou virtude. É tão fácil quanto ferver água ou dormir de olhos fechados. Por isso às vezes não resisto à recorrência do fracasso e assim me rendo desolado: "Caramba, estou cansado de amar!" (agosto de 1993).
O Brasil passou de colonial a subdesenvolvido, em seguida a país em desenvolvimento, daí a país emergente. Subimos tanto e todavia continuamos atolados no mesmo buraco.
A política denuncia como uma fratura exposta o pior da nossa natureza. É por isso que corro dela. Não é que me suponha apolítico, já que ninguém o é. Simplesmente admito ter o nariz delicado demais para suportar a cru meu próprio cheiro.
Ideologia é a fé secular de quem é incapaz de andar sem a muleta de uma religião.
O otimista é um pessimista mal informado.
Otimista é quem despreza os fatos que desmentem sua expectativa.
O pessimista não é quem vê e espera o pior da realidade; é simplesmente quem aceita a realidade como ela é.
Tanto buscamos o amor, por certo o sentimento e a experiência suprema da nossa vida, e todavia como tão mal e erradamente o vivemos. Juramos amar aceitando o outro como ele é. No entanto, contradizemos essa promessa generosa, pois somos incapazes de transcender o egoísmo que rege nossa natureza. Se amar é um ato de doação, sair de si para se dar ao outro, por que tantos amantes não saem de si próprios?
Se houvesse no ser humano um grão de sabedoria, ele adotaria como princípio ser fiel à sua natureza. Somos, contudo, tão inconscientes do que somos que confundimos a função do papel higiênico com a do guardanapo.
Os céticos antigos diziam que a vida não era para ser levada a sério. Mas no Brasil, convenhamos, a gente exagera.
Inconsciência, teu nome é Brasil!
A vaidade é uma variação ruidosa da estupidez.
As pessoas não suportam o silêncio porque temem ouvir a sua voz irredutível.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Máximas e mínimas X


 Sabedoria
A luz da sabedoria
fulgiu no retrovisor
mas logo de mim fugiu
e antes de ser já passou.

            Meteorologia
Dizem que a curitibana
é mais fria que a inglesa.
O Vampiro Trevisan
no entanto logo revida:
Não existe mulher fria
apenas mal aquecida.

Silêncio vs. Ruído
O silêncio é ausência que fala
contanto que o ruído silencie.
O silêncio é presença que se ausenta
negando no seu ser o que é ruído.

“Equilíbrio de antagonismos” é uma frase que Gilberto Freyre assimilou da obra de Carlyle. Mais que adotá-la, usou-a como um dos suportes explicativos da sua interpretação do Brasil. É fato que os ingleses são mestres na arte de equilibrar  antagonismos. No entanto, precisaram impor limites constitucionais à monarquia e, no caso extremo, decapitaram um rei. No Brasil continuamos equilibrando muitos antagonismos, mas os benefícios vão sempre para a conta do dono da balança. Quanto às cabeças, as que até hoje cortaram foram sempre as do povo.

Quem tem a esquerda que temos não precisa de direita.

No Brasil, o único rio que não seca nem transborda é o de Janeiro.

Está bem reconhecer que nossa bagunça é insolúvel. Mas os que a convertem em virtude cultural confundem fato com justificação ideológica. Bagunça pode ser virtude enquanto estado carnavalesco, não enquanto estado permanente de ser. Quando a bagunça ameaça escapar a qualquer controle, seus próprios apologistas convocam as forças armadas para botar ordem na casa. Através da força, naturalmente.

Bola de cristal:
Se eu tivesse uma bola de cristal, ou me chamasse Tirésias, desenharia o seguinte cenário político para 2014: Lula será novamente candidato a presidente da República e será eleito pela maioria silenciosa, constituída sobretudo pelos beneficiários do Bolsa Família. Num país onde a maioria vive ainda no século XIX, ou foi barrada diante dos portões da modernidade, como estranhar que o propagador desse colossal programa assistencialista seja cultuado como um pai provedor? Muita coisa vai mudar e já está mudando desde que o povo ocupou as ruas, mas o Brasil continuará sendo uma mescla surreal de capitalismo globalizado e Estado patrimonial tangido pelas rédeas pré-modernas de uma classe dirigente cuja mentalidade é ainda patriarcal e escravista. (26 de junho de 2013).

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Aforismos e Cia. II

            

            Ordem e progresso
Lembram o binômio positivista inscrito no coração da bandeira brasileira? Nunca tivemos ordem, muito menos progresso. Mas não duvido de que o Brasil marcha cada vez mais determinado rumo ao progresso da desordem.
            Moda
Força de pressão mimética, a moda é a mais fugaz das glórias, pois é por definição passageira. Na história da arte do século 20, as vanguardas pipocaram em cadeia movidas pelo mito do progresso estético. Tudo que restou foi um terreno baldio, ou um vão cemitério que nada guarda. Por isso acho que vanglória deveria ser sinônimo de vanguarda.
            Moderno
Ser moderno é ser o ontem de amanhã. Como estranhar que um conceito tão infeliz seja ainda um mito vivo do presente? Afinal, o presente, dentro e fora da arte, converteu a beleza e o prazer estético em produto descartável. Mas a arte, liberta das prisões temporais, continua soprando sua beleza aonde quer. Quem é capaz de reconhecê-la sabe onde encontrá-la.
            Moderno II
Ser moderno enquanto fato é apenas ser contemporâneo. Ser moderno enquanto valor é um paradoxo, pois quando o moderno tem o poder de se desatar do tempo deixa de ser moderno.
            Arte experimental
O que me salvou da arte experimental foi o tédio. Precisei de tempo, sobretudo de liberdade individual, para conquistar a coragem de dizer que o progresso na arte é pura mistificação. À parte os museus, única instituição que significativamente ainda patrocina os herdeiros de Marcel Duchamp, resta apenas esta evidência: a arte experimental morreu de excrementação.
            Conservador
O presente tornou-se tão pavoroso que até os revolucionários lúcidos converteram-se ao conservadorismo. O bem que sobreviver no futuro será obra dos conservadores. Juro que jamais me imaginei escrevendo essa verdade que o espírito do tempo no qual me formei abominaria como tralha reacionária. No entanto, girando agora nos cacos da história o relógio do eterno retorno, resigno-me a dizer que viver é regredir. O único progresso previsível e fatal é o da idade em direção à morte.
            O futuro da vanguarda
Depois de tanta diluição, o único futuro que resta à vanguarda é a morte.
            Consolo da vanguarda
O grande consolo da vanguarda é sempre acreditar que está além do seu tempo. Oswald de Andrade: A massa ainda comerá o biscoito fino que fabrico. Admirável como boutade, mas desastroso como vaticínio. A massa continua deliciando-se com bolacha mofada, quando tem o que morder, enquanto o biscoito fino de Oswald apodrece nas prateleiras da padaria. Pobre consolo que continua merecendo da posteridade a mesma indiferença dos contemporâneos.
Recife, 7 de abril 2014.




domingo, 6 de abril de 2014

Aforismos e Cia.

               
                   
            Impermanência
Tudo é impermanência:
Eis tudo que é permanente.
Mas nossa humana demência
Sonha o eterno presente.
            Vaticínio realista
Ame e viva o presente
Porque o futuro será muito pior.
            Confissão
A confissão migrou do confessionário para o divã, que é interminável e caro. Confiei sempre, até por ser pobre, na confidência da amizade, relação de reciprocidade isenta de guichê e outros interesses escusos. Como esta, a amizade, dissolveu-se em relação de mercado, restou-me a literatura, que converte a confissão em ficção. Não sei de analista melhor. Não cura nada, como a psicanálise, mas pelo menos não custa nada.
            Alfabetização
No meu tempo, Ivo se alfabetizava vendo a uva. Hoje Ivo come a uva, depois a viúva, mata a aposentada e fica com a pensão.
            Democracia
Quem diz que a democracia é o governo do povo, não conhece o povo, muito menos o poder.
            Verdade política
Se um político lhe disser a verdade, ainda que baseado em provas, não acredite. Há sempre o risco improvável de as provas serem verdadeiras.
            Fidelidade
Era tão fiel que traía duas vezes antes de falar.
            Ambição
Sou tão ambicioso que me iludo com a ilusão de me contentar com o que sou e tenho.
            Dinheiro e felicidade
Se o dinheiro não traz felicidade, como juram os que têm demais e os que não têm nenhum, preferiria ser infeliz com muito dinheiro.
            O criador e a criatura
Se Deus existe, como explicar que tenha criado uma espécie tão imperfeita quanto a espécie humana?
            Morrer
Morrer é provavelmente nosso medo extremo. Mas tem uma vantagem: só acontece uma vez. A não ser que você se chame Lázaro e tenha um amigo chamado Jesus.
            Imitação da vida
A maioria dos seres humanos não é socializada para ser livre, mas para imitar a maioria. Conheço raros indivíduos fiéis à radicalidade libertadora do individualismo.
            Acaso e azar
O brasileiro é tão fatalista que confunde o acaso com o azar.

Recife, 4 de abril 2014.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Máximas e Mínimas IX

            
            Consolação niilista:
            De tanto nada esperar
            eu nunca desesperei.
            Sendo incapaz de contar
            nunca dos três eu passei.
            E assim no nada meu nada
            calmo mergulha e até nada
            no tudo em que me afoguei.


Mas eis que na noite, quando pacificado respiro dentro da minha infelicidade confortável, assomam os rumores de uma voz proveniente da catástrofe: "O que sabe a mão que escreve catástrofes da catástrofe real do mundo?" Foi apenas um breve rumor, nota errante logo tragada por sons e ruídos circundantes. Que sei eu de fato sobre a catástrofe?

            Afora as formas correntes de corrupção, o mais seguro investimento brasileiro é ingressar numa família de bens.  Dependendo da escolha feita, pode-se automaticamente gozar do privilégio de ter casa na praia, no campo e na cidade, emprego no Estado e médico privado com absoluta isenção de custos. Perde-se, claro, a liberdade de ser solteiro, indivíduo dono de si próprio e do seu destino controlável. Mas não encontrará essa liberdade, para tantos um fardo intolerável, em si própria seu desejo de perder-se?

            Cindida entre o superego protestante e a carne aberta aos eróticos calores dos trópicos, refugiou-se na mentira como se esta fosse uma âncora boiando em meio ao naufrágio da psique. Mentindo por teimosia, mais tarde por convicção, acabou tomando por verdadeira toda a vida de mentiras com que presumira enganar-me. Se entretanto os fatos com frequência a desmentiam, pior para os fatos e meus ouvidos traídos. Por fim, nua na própria mentira vestida, nada mais restou-lhe, salvo atribuir traições de fato às maquinações projetivas do meu ciúme doentio. Como discernir, diluída neste oceano de irrazão, a gota de minha razão caindo caindo caindo...

            Assim canta a voz da solidão amorosa nas vozes de Billie Holiday, Ella Fitzgerald e Sarah Vaughan: "In my solitude, you haunt me / with revêries of days gone by... " Na companhia de Antonella, entretanto, corpos latinos ludicamente movendo-se dentro do fog e da austeridade cravada sobre cada pedra das ruas de Colchester, "Solitude", esta mesma de Duke Ellington cantada em tons de dilaceramento pelas vozes negras citadas, convertia-se em matéria de fantasia e charme. "Solitude" era entre nós continuamente retraduzida, recontextualizada, reescrita ao sabor e humor das nossas fantasias e circunstâncias. Como sonhar essa virtude latina aclimatada às regulamentações ordinárias de uma cultura puritana? Alheia a barreiras impostas por espaço e tempo, minha imaginação salta da noite tropical nordestina para as ruas de Florença onde o corpo latino de Antonella dança os sombrios compassos de "Solitude" em ritmo de tango ou carnaval veneziano.

Quando no Hamlet uma personagem diz que "something is rotten in the state of Denmark", a podridão é de imediato denunciada pelo fantasma do rei assassinado pelo próprio irmão, usurpador do trono e novo senhor da rainha, mãe de Hamlet. "Frailty, thy name is woman". Mas este é já um outro tema. O meu, comprimido nas magras linhas deste parágrafo, é a podridão gerada pela ambição humana inscrita no cerne dos regimes de opressão e poder. Dado o avançado estado de degradação da coisa pública no Brasil, quem teria ainda o cinismo ou a inocência de assinalar a podridão do Estado brasileiro? O odor pestilento tanto corrói os ares e as almas, tanto frequenta o noticiário do dia, onde reportagem política há muito se confunde com livro de ocorrências policiais, que ghost já soa como se fosse gosto. E como dizem que gosto não se discute, resta apenas indagar: "What's your rotten taste?"

            Se virgindade fosse virtude
            eunuco seria santo
            teu gozo meu casto espanto
            a tua coca meu luto.

            Se falta fosse virtude
            pobreza casta nudez
            se este sol que me ilude
            iluminasse vocês
            elegeria o Nordeste
            céu, meu bordel português.

Meu país ideal seria um entre-lugar acima das fronteiras culturais que opõem Brasil e Inglaterra. Exemplos: Entre a baderna do primeiro e a rigidez codificada do segundo, um erotismo plasticamente civilizado, um "eros, builder of cities", como o cantou Auden no admirável poema "In Memory of Sigmund Freud". Entre a aridez vitoriana da inglesa e o corpo carne em vitrine da brasileira, uma medida ilustrada capaz de temperar nudez e ocultamento ativador dos sentidos já um tanto indiferentes diante do excesso de exibição e oferta. Entre o silêncio tumular das ruas britânicas e a barbárie reinante nas brasileiras, um ideal de convívio harmoniosamente dosando instâncias pública e privada. Como porém sei que meu país ideal não existe e nunca poderá existir, luto para conservar os vulneráveis limites da minha casa à margem do Brasil celebrado pela tradição antropológica proveniente de Gilberto Freyre e prolongada em Roberto da Matta. Matta que não é mata nem mata, thanks God.

            Nos anos 70 o arrogante triunfalismo da ditadura militar deu livre curso a dois lemas: um restaurado do nosso filão de mitos ("Brasil, país do futuro") e outro importado da matriz americana ("Brasil: ame-o ou deixe-o"). O primeiro atolou nos roteiros da transamazônica, estrada faraônica que partia do Piauí para nenhum lugar, e outras equívocas vias e acabou roído na letra de calendários celeremente envelhecidos. O segundo, nas origens brandido contra uma minoria empolgada pelo sonho delirante de promover uma revolução socialista neste país de capitalismo perversamente estatizado, tornou-se tão obsoleto quanto o país do futuro. A derrocada é tal que até quem antes o amava e batia continência para a tecnocracia militarizada agora anseia por deixá-lo. Se o fluxo de deserção não é massivo, a causa não radica na sobrevivência do amor pela pátria arruinada, mas no fato de que lá fora o sol declina em algumas latitudes alvejadas pelo sonho do desertor potencial e muitas fronteiras estão fechadas.
Recife, agosto de 1993.



quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Aforismos e desaforos VII


O único passado feliz é o que nunca existiu.
Por que atormentar-se com o futuro, se nem a Deus ele pertence? Como ser proprietário do que não é?
Quando o futuro é, é já presente. Logo, o futuro nunca é.
O Brasil é ruim, mas o Nordeste é muito pior.
O Brasil não existe nem deveria ser inventado.
O povo que elege Lula, vulgo Mula Nine Fingers, o presidente mais popular da nossa história política, merece o país que somos.
Nunca subestimo a classe dirigente brasileira: ela é sempre capaz de ir além de minhas piores previsões.
A justiça é cega, mas no Brasil ela sabe perfeitamente o que quer ver.
Há mulher capaz de qualquer tipo de coisa para ter um homem, inclusive o homem de qualquer tipo.
Como levar a sério um país que tem 32 partidos políticos? Isso não é pluralismo democrático, mas circo ideológico.
Sempre que se pronuncia sobre a economia brasileira, o ministro Guido Mantega confunde manteiga com margarina. Vai ver que a culpa é do sobrenome.
O suicida malogrado não quer morrer, quer apenas chamar a atenção de alguém que o ajude a suportar a dor de viver.
Só há uma solução para quem quer viver sem sofrer: o suicídio.
Para Manuel Bandeira, materialista místico, o que estraga o amor é a alma. E coerentemente nos aconselha: deixe que o seu corpo se entenda com outro corpo. Quando no entanto o corpo é já velho, não será razoável, senão necessário, amar além do corpo, ainda que aquém da alma? As almas são incomunicáveis, diz ainda o poeta. Mas os corpos se fartam corroídos pelo tempo e a rotina. Esta é uma lei fatal da matéria que a cultura do presente, desvairada pelo hedonismo, não quer admitir nem na cama dos amantes já velhos.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Imaginação, falsa demente


O que você faria:
1- Se fosse rico, não soubesse preencher sua declaração de imposto de renda e não confiasse em ninguém para fazê-lo?
2- Se lhe pagassem por seu amor com ódio e ainda lhe cobrassem juros e ICM (para quem não sabe, Imposto de Circulação de Mercadorias)?
3- Se descobrisse que na fidelidade de toda mulher casada habita uma Madame Bovary?
4- Se caísse do 20º andar e acordasse?
5- Se mergulhasse no canal do Derby e não estivesse sonhando?
6- Se seu professor de filosofia confundisse Hobbes com hobbies?
7- Se soubesse que Deus não endossa os créditos de quem dá aos pobres?
8- Se tivesse um vizinho de fachada, isto é, aquele que reforma e ostenta seus bens, não o bem que poderia e até deveria praticar?
9- Se confundissem sua impotência cívica com impotência sexual?
10- Se sua moeda baixasse na hora de subir?
11- Se além do túmulo você descobrisse que o inferno existe e é bem melhor que isso aqui?
12- Se tarde, irreparavelmente tarde, você descobrisse que o céu é apenas o amor humano falível e possível?

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Aforismos e desaforos VI


Amor com amor se apaga.

Se o papa Francisco fosse coerente com os ideais do seu patrono, jamais teria chegado aonde chegou.

A humildade não procura a mídia nem abre a porta para que ela entre.

Ceticismo:
O que eu sei é que tudo
É na verdade improvável
Por isso nunca me iludo
Com a evidência testável.

Meus amigos me poupam de ter inimigos.

O tempo que tudo cura
Enterra até minha jura.

Passado – o único passado que me interessa é o que minha memória decanta e preserva.

Nostalgia – é uma paixão triste cujos sintomas residem no presente. O passado que a nostalgia inventa é apenas uma consolação ilusória.

Amor e memória:
O amor sempre passa.
O que fica é a memória.
Ela é ressentida nos amantes mesquinhos
E jubilosa nos generosos.

Dizem que o tempo é remédio
Mas dele se nutre o tédio.

Dizemos que o inferno são os outros e no entanto somos incapazes de viver sem eles.

Quem me conhece conhece
Que ninguém a si conhece.
Portanto, quem me conhece
De fato não me conhece.

Crioulo doido:
Quem à vontade critica
O que é incapaz de julgar
Confunde gaita e cuíca
Lagoa e braço de mar.

Socrático:
Viver é morrer.
Quem isso aprende
Sabe viver.


quinta-feira, 14 de março de 2013

Aforismos e desaforos V


A mulher será muito superior ao homem se um dia descobrir que a cabeça é a parte mais importante do corpo humano.

A mulher é a melhor coisa já inventada para o homem. As mais devotadas se extremam nessa função ao ponto de cuidar do homem do berço ao túmulo. Só que o misógino acrescenta: ai do santo que paga o preço de tal devoção.

Pascal é o avesso de Montaigne. É por isso que tanto se assemelham.

Uma das expectativas mais insensatas do ser humano é depositar no que não é ele o que somente ele pode ser.

Se a finalidade do aforismo fosse fazer rir, o aforista seria apenas um palhaço de picadeiro.

Aforismo pode ser até desaforo para quem o lê ao pé da letra.

Tem gente que vive como se a principal função da cabeça fosse bater contra a parede.
Grande parte da estupidez contemporânea deriva da cisão entre a mente e o corpo. Se é verdade que o ideal é ter um corpo saudável e uma mente sã, é fácil compreender por que há tanta mente insana. Basta começarem a falar ou a cantar.

Atenção, patrulha politicamente correta: a boceta da obra de Machado de Assis é outra coisa.

O mito de que o dinheiro compra tudo é uma invenção de quem nunca o teve ou então por ele tudo vendeu.

Livros tediosos matam. É por isso que o intelectual acadêmico típico não passa de um assassino arrogante.

O governo culpa a sociedade pelo desgoverno das nossas cidades, enquanto a sociedade culpa o governo pelo desgoverno dos governantes. A solução é simples: basta suprimir ambos.

Variando o aforismo precedente, no Brasil o culpado é sempre o outro. Isso explica nossa irresponsabilidade até em face do imperdoável.

A fama se tornou tão barata que me espanta o anonimato de tantos cultuados por nada serem. Que obra produziram, que feitos os distinguem? É por isso que relembro sempre as palavras de Chesterton: quando deixamos de acreditar em Deus, passamos a acreditar em qualquer coisa.

Aforismo e aforista
São coisas tão deste mundo
Que por mais que lave a vista
Mais vejo o mundo imundo.

Quem disse que o catolicismo retomou suas origens universalistas ao eleger um papa argentino? A Argentina é a Itália da América Latina.

O novo papa adotou o nome de Francisco e, segundo dizem, é homem de hábitos dignos de um franciscano. Isso bastou para que os apressados começassem a alimentar expectativas improcedentes. Se você é católico partidário da liberdade sexual, do aborto, da igualdade de gênero e da canonização de Pelé, tire o andor da chuva. Melhor dizendo, adote uma religião secular como o consumismo, que é de resto a mais popular e poderosa religião do mundo em que vivemos.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Aforismos e desaforos IV


Quem lê aforismo ao pé da letra deve mudar de letra para não atirar no próprio pé. Aforismo, assim como poesia, é metáfora ultracondensada. Nenhum aforista perde letra atirando no pé do leitor. Aforista que se preza é como a polícia brasileira: só atira na cabeça.
A mulher tem muito mais aquilo na cabeça do que o homem. O problema é que ela chama amor o que o homem chama sexo.
Existem muitos tipos de progresso, mas apenas um é absolutamente previsível e inescapável: nosso progresso em direção à morte.
A psicanálise é uma terapia tão ineficaz que culpa o paciente pelas doenças que ela inventa.
O único benefício comprovado que o divã do psicanalista propicia é repousar por alguns minutos o corpo fatigado do paciente. Tanto é verdade que sei de um que adormeceu durante uma sessão.
A solidão me tornou pior do que fui. Se entretanto escolhesse ficar com as companhias que tive, seria muito pior.
O único cristão que existiu foi Cristo. Marx, que leu a si próprio, disse que não era marxista.
Quem precisaria dos ensinamentos de Cristo para ser um Judas ou atirar pedra em pecadores? Acreditaria no cristianismo se os cristãos seguissem pelo menos o exemplo do bom samaritano.
Não me leia quem supõe que falo apenas de mim. Que importância tem meu ego mesquinho para que eu fale apenas de mim? Tudo que escrevo contém pelo menos um grão de sentido que prescinde do meu ego.
Falando francamente, nunca fui flor que se cheirasse, mas o jardim cheira muito pior.
A única nostalgia que me dói é a da bondade que está além da minha banalidade.
Andava sempre com um peso irreparável no lado do coração: era a culpa de não ser na amada o que somente ela poderia ser.
Não sou eu que complico a vida; as pessoas é que me complicam.
Nada como sonhar alto. Quando era criança, sonhava fazer-me grandioso e acabei ultrapassando todas as minhas expectativas: tornei-me tão anônimo que nem a mim próprio me reconheço.
Alcoólatra ao ponto de beber até água, contanto que com muitas doses antes e as saideiras depois.
Eu era ruim, mas as más companhias me tornaram muito pior.

Um defeito anulava suas virtudes: ressentia-se com a ingratidão daqueles a quem fazia o bem. Ora, o bem é um fim em si próprio. Além disso, quem pratica o bem aspirando a qualquer sorte de reconhecimento, nada sabe da ingratidão humana.
Nunca faça o bem sem cobrar adiantado. Invertendo o dito popular, nunca faça o bem sem antes olhar a quem.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Aforismos e desaforos III


Não recomendaria a ninguém um deus que me fizesse à sua imagem e semelhança.
Se compaixão matasse, Cristo não teria morrido na cruz. Há porém compaixão que pesa como uma cruz.
Ninguém herda nem adota caráter, assim como não se herda nem adota gênio. Caráter é uma conquista; no Brasil, um castigo que não aconselho a ninguém.
O sujeito que ousa dizer que é neoliberal é capaz de vender qualquer coisa.
O crime mais hediondo para o capitalismo é não ter renda.
Comunismo não é ideologia inventada e adotada pelo pobre. O que o pobre inventa é a nobreza das fantasias de carnaval.
É fácil explicar o triunfo universal do capitalismo: sua matéria prima ou fator redutor do seu funcionamento é o egoísmo. Somos tão egoístas que consumimos o primeiro terço da nossa vida sugando a renda dos nossos pais. Nos dois restantes sugamos a renda e o trabalho dos outros próximos.
Piada de velório: tão insignificante que passava despercebido bem antes de morrer.
Imortais de academia são tão mortais que confundem vaidade com imortalidade.
Quando perguntaram ao canalha por que ele era canalha, respondeu com a candidez somente concebível num canalha: a gente tem que ser alguma coisa na vida.
Ecos de García Morente: minha vida que não é minha, já que não a fiz eu, é contudo minha, pois somente eu posso vivê-la. Portanto, depois de uma certa idade, não importando as circunstâncias, não posso culpar ninguém pelas misérias que são minhas.
Livre arbítrio é uma ilusão mais poderosa do que o mito do Super-homem na imaginação infantil.
O único amor que fica é o que frutifica. O que o vento leva é o que mortifica, pois morre e fica, vai mas fica.
Se você ainda vê filme de Hollywood em busca de um final feliz, melhor migrar para a ilha de Caras, que é aliás minha leitura compulsória na cadeira da minha cabeleireira. Minha única alternativa é folhear Caras ou ficar me namorando no espelho. Como já envelheci me vendo, melhor o final feliz de Caras. Meu consolo é saber que um dia ficarei completamente careca.
Como diria um folião que ainda não voltou para casa, deixe o carnaval passar. Depois disso voltarei a ser o que mais tento ser: um homem tão reconciliado com o mundo como o folião com o seu carnaval.
O cerne do affair Yoani Sánchez não é a liberdade de opinião e derivados (a quem serve? Quem a financia? Quais os seus interesses etc.). O cerne da questão é a inviabilidade de um modelo de socialismo que se petrificou em tirania passada de irmão a irmão durante mais de meio século. Cito indiretamente duas fontes insuspeitas, pelo menos para a esquerda: socialismo em país pobre socializa apenas a pobreza. Liberdade é sempre e exclusivamente a liberdade de discordarem de nós.
Por fim, o que responder a um dogmático que denuncia o embargo imposto pelos EUA como a causa do fracasso do socialismo cubano? O que dizer então do outro, isto é, o soviético que alimentava este e caiu de podre?
Se você não ajusta as contas com o seu passado, acaba apedrejando Yoani Sánchez por crimes que você cometeu.

Recife, fevereiro 2013.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Aforismos e desaforos II


A mulher que jura fazer tudo por amor é capaz de fazer qualquer coisa.

Os únicos erros imperdoáveis são os que escolhemos.
Os erros mais dolorosos são os irreversíveis.

Ela infernizou minha vida com o amor mais inocente e dependente concebíveis. Por isso já não duvido de que há formas de amor piores do que o inferno.

Só uma pessoa absolutamente inocente acreditaria que a inocência é inofensiva.
A maior vítima da inocência é a compaixão.

Seduzi Maria Inocência com um colar e ainda hoje ela me cobra as perdas e danos que me causa.

Antagonismo genético: a gravidez que pode ser o sonho de uma mulher pode igualmente ser o pesadelo definitivo do homem que a fecunda.

Sexo virtual é o meio mais seguro de controle da superpopulação.
Sexo virtual é mais estéril do que encíclica papal.

Batata, fundador do Bacalhau do Batata, é um dos mais celebrados heróis populares do Brasil. Gregório Bezerra é um dos heróis populares mais ignorados do Brasil. Não falta, contudo, popular indignado denunciando os políticos que temos.

Somente no Brasil promovem festa, carnaval e futebol como se fossem formadores de cidadãos. Depois ainda se espantam com as tempestades que colhem.

A supremacia universal do futebol é a evidência de que nossa razão foi transplantada do cérebro para o pé.

O Recife é sem dúvida a cidade mais musical do Brasil. De domingo a domingo, ouço serra elétrica, martelo, buzina, cachorro latindo e gente conversando aos berros, inclusive no celular. Nossa incivilidade despreza até a tecnologia digital. O recifense não trabalha, desacata a ordem pública; não conversa, bate boca.

De acordo com estudo realizado pela ONU, o parlamentar brasileiro é o segundo mais caro do mundo. Fazendo o que faz, se ele nos pagasse ainda sairia muito caro.

Somos tão inconscientemente egocêntricos que atribuímos nossa ferocidade às feras, nossa rapacidade aos ratos, nossa agressividade ao leão e ao galo, nossa grosseria ao cavalo, nossa lascívia ao gavião. Por fim, já que em toda a natureza não há espécie comparável à nossa maldade, tivemos que inventar a figura mítica do Demônio cuja sinonímia e provas do crime são fartas nos boletins de ocorrência, no instituto médico-legal, no código penal e nos necrológios.

Foi por ser francês que Sartre disse: o inferno são os outros. Se fosse brasileiro, mandaria os outros para o inferno. Se fosse pernambucano, iria sozinho.

O Brasil não existe. O Brasil é apenas a mais grandiosa obra de ficção da literatura universal. Por isso nossa literatura é tão insignificante. Que gênio da imaginação poderia competir com esse gigante feito de símbolos insubstanciais? Ouçam a tempestade fantasiada que sopra nos sambódromos e nos estádios de futebol: ficção pura.
Recife, fevereiro de 2013.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Aforismos e desaforos


O Brasil já teve um Ministério da Desburocratização. Realizou a obra que alguns brasileiros ajuizados previram: burocratizou ainda mais o país. Por que não renovamos essa experiência extraordinária fundando agora o Ministério do Funcionamento? Tenho certeza de que faria o país parar de vez.
O Brasil é ruim, mas comigo é pior.
O Brasil deu à incivilidade moderna duas grandes contribuições: o carnaval e o futebol. Um povo capaz de tal façanha não precisa ser governado a pão e circo. O circo é suficiente.
Carnaval é regressão tribal. Como suportar o peso, a responsabilidade suposta na condição do indivíduo moderno? As massas precisam refugiar-se em algum abrigo tribal, que tanto pode ser o carnaval quanto a adesão ao nazismo. Ruim por pior, antes o carnaval.
Sou do tempo em que paralelepípedo era palavrão.
Sou do tempo em que o trânsito transitava e carro era meio de transporte. Agora, levando a regência verbal ao pé da letra, o trânsito tornou-se intransitivo.
Sou do tempo em que engarrafamento era uma grande quantidade de garrafas, geralmente esvaziadas durante o carnaval.
Sou do tempo em que masturbação era doença.
Masturbação é a prática sexual mais universal que existe, inclusive na velhice. Até os impotentes vingam-se com a masturbação imaginária.
Sou do tempo em que as pessoas tinham pudor e as mulheres enrubesciam. Hoje constrangimento moral é pó de ruge.
Sou do tempo em que gala era outra coisa. Não era o que se vestia, mas o que se vertia.
Sou do tempo em que a lança-perfume era liberada e o carnaval acabava na Quarta-feira de Cinzas. Agora, traduzindo apropriadamente a propaganda oficial do governo de Pernambuco, vivemos em estado de permanente anarquia.
O Brasil vive num estado de violência que beira a guerra civil. Por isso ninguém mais o percebe. A guerra no trânsito, a violência endêmica, rebeliões de todos os tipos, a começar pelas da polícia, banalizaram os conflitos ao ponto de torná-los imperceptíveis. Como estranhar que nos vejamos como um povo amável e cordato?
Sou do tempo em que a mulher não gozava, apenas submetia-se aos ditames cristãos da preservação da espécie.
Sou do tempo em que jogador de futebol era apenas jogador de futebol e fazia o que sabe fazer com um par de chuteiras. Agora inventaram de fazê-lo falar, entre outras impropriedades, e assim a chuteira lhe subiu à cabeça.
Já há quem faça na televisão o que não fui capaz de fazer nem no bordel.
A televisão é o único eletrodoméstico que emburrece e corrompe.
Se eu acreditasse em reencarnação, gostaria de voltar ao mundo como cachorro, ainda que vira-lata. Além de muito complicado, o ser humano se tornou demasiado dispendioso. É tão descaradamente traidor que transferiu o peso da fidelidade para Deus.
O etnocentrismo é uma doença tão incurável quanto a rinite alérgica.
Para o bairrista, qualquer acampamento urbano é a melhor cidade do mundo, contanto que seja a sua.
Amor é a mercadoria que mais vende, embora jamais ouse declarar o seu preço. Aliás, sequer admite sua redução ao fetiche da mercadoria.
Como ter polícia com a polícia que temos?
Não é fácil ser adulto. Sei de muita gente que não apenas vive da nostalgia da infância, mas também nunca saiu dela.
Misericórdia pelo outro e por mim próprio. Somos pequenos e vulneráveis demais para merecer algo melhor.
Recife, fevereiro de 2013.


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Máximas e Mínimas VIII


A revolução tecnológica tornou a mentira factualmente inviável. No entanto, nunca se mentiu tanto, assim como nunca houve tanto crédulo imbecil. Definitivamente, o ser humano não suporta a verdade.
A renúncia do papa, em pleno carnaval, não teve o poder de silenciar um só tamborim, um só grito de folião, uma nota de frevo nas ruas. O país de maior população católica do mundo deu livre curso ao seu carnaval indiferente à renúncia da autoridade suprema do catolicismo. O fato é excepcional, mas os exemplos da irrelevância normativa da religião no mundo secularizado são apenas uma banalidade. Embora não falte especialista que fale em reencantamento do mundo, fico com minha convicção de ignorante: o que há é desencantamento do reencantamento. Trocando em miúdos, Deus continua sendo objeto de fé, mas de uma fé semelhante à que temos num protetor secularizado e rebaixado à nossa medida humana. Deus se tornou menos normativo do que o guarda de trânsito.
O pernambucano não é solidário nem no carnaval.
Há pessoas mesquinhas até no gozo da nossa maior orgia coletiva, o carnaval. Precisam suprimir o prazer do outro para viver a ilusão narcisista do prazer exclusivo e absoluto.
Não posso definitivamente levar a sério um país que sopra aos quatro ventos do universo, com absoluta razão, que faz e é o melhor carnaval do mundo.
Somos tão vulneráveis que em princípio qualquer coisa pode nos matar. Podemos morrer de amor. Podemos morrer por falta de amor, causa provavelmente mais frequente. Mais frequente ainda é morrermos de fome. Portanto, antes um prato cheio do que um coração amante e amado.
Se tivesse ainda alguma ilusão acerca da humanidade, sentaria durante dez minutos diante de uma televisão ligada.
Tive compaixão do homem arrastado pela corrente ruidosa do carnaval. Sequer gostava do carnaval; sequer ensaiava um passo de frevo ou entoava uma marchinha. Debateu-se na corrente, que o empurrou à deriva da massa, simplesmente por já não saber de si, de sua solidão, de sua carência de amor. No delírio que o possuía, acreditou que o amor, produzido por um feliz acaso, o abraçaria em plena folia. Seria uma mulher de linhas e traços opacos, mas belos, sensuais e inconfundíveis. Tudo que sabia era que desceria sobre ele como um milagre, um marco zero refundando sua vida árida e vil.
Na Quarta-feira de Cinzas, mais exausto que a massa ébria, mais esvaído do que o carnaval, cujos últimos clarins vibravam no ar tórrido do asfalto, tombou na sarjeta e perdeu os sentidos. Dizem uns que foi recolhido por uma ambulância do Samu; outros, que seu corpo afundou nas águas sujas do Capibaribe. Por fim, um louco ou visionário, que há muito vaga pelas ruas, jura que o viu ascender aos céus de braço dado com a Virgem Maria, que doravante será apenas Maria.
Qual é o prato mais servido na mesa do pobre? O vazio.
Qual é o melhor carnaval do mundo? O que acabou.