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sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Daniel Lima em Londres


Daniel I

O meu amigo
intransparente
é todo verbo
mas reticente.

O meu amigo
rindo de mágoas
que lá no fundo
no mais que fundo
sei que ele sente.

Daniel II

O meu amigo que sabia javanês
(não) ensinava latim.
Ensinou-me outras coisas
não-clássicas, sem tempo
além da história.

O meu amigo maior que amigo
um modo de espelho
um modo de ver-me
não sendo o que sou.

O meu amigo que dava lições
sem tom de docência
sem nunca vesti-las
num código de ensino.

O meu amigo meu eu, meu não-eu
Luar que se esconde
Na Londres de véus
Paisagem sombria
Meu céu sem teus céus.

Museu Britânico, Londres 07 julho 1989.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Denis Bernardes


No fecho de uma das obras-primas de Bergman, O sétimo selo, a morte conduz o séquito das suas vítimas recortadas na linha do horizonte. Seguem-na, os mortos, enfileirados e dançando. Dançam uma dança solene rumando para a escuridão irreversível. A cena é narrada por um obscuro artista ambulante. À luz do amanhecer, descreve a cena para sua mulher que traz o filho pequeno ao colo. A visão do narrador se dilui quando a mulher sensatamente observa: você e suas fantasias... E se vão puxando a carroça através dos campos desertos da vida. Cito de memória, daí a omissão das aspas.

Foi a morte de Denis Bernardes, no último sábado, 1 de setembro, o que me induziu a evocar o filme e a cena acima descrita com as tintas borradas da memória. Quem conhece o filme sabe que é uma luta entre o cavalheiro medieval (Max von Sydow) e a morte. A luta se trava na forma de uma partida de xadrez. O cavalheiro é um jogador exímio, um adversário refinado na arte do jogo, que é o jogo da vida, mas sabemos que está fadado à derrota. Pois quem teria gênio, astúcia e poder para dobrar a Inescapável nesse longo e fatal combate que contra ela travamos?

Setembro chegou privando-me, sem aviso prévio, de mais um dos grandes amigos de minha vida. O primeiro, Daniel Lima, morreu em abril. Com sua imaginação irreverente, Daniel habituou-se nos últimos anos do nosso convívio a aludir à morte como a Magra Caetana. Na visão do saltimbanco do filme de Bergman, ela lidera o séquito dos mortos portando a foice e a ampulheta. Nunca conversei com Denis, a sério ou brincando, sobre essa figura mítica e aterradoramente real. Lembro-me de que falamos com muito humor da velhice. Meu último encontro com ele e Gildo Marçal foi com certeza o mais divertido de tudo que com ambos compartilhei. Entramos a falar da vida e da velhice com a imaginação transfigurada pela magia do vinho tinto (que Gildo há muito estava proibido de beber e por isso nos acompanhava com a sobriedade lúdica dos viciados em Coca-cola) e daí fantasiei nosso internamento numa clínica geriátrica em tom bem mais delirante do que o da personagem de Bergman descrevendo a Magra Caetana e seu séquito dançando rumo à escuridão definitiva.

Além da beleza da cena que encerra o filme de Bergman, achei belo fantasiar meus amigos Daniel e Denis somando-se ao séquito da morte dançando como crianças. Ambos reverteram, fatalidade dos que morrem, à escuridão que ata os dois extremos de nossa passagem por este mundo: a escuridão do útero, de onde brotamos, e a escuridão do desconhecido, obra da foice e da ampulheta empunhadas pela Magra Caetana. Nada me custa imaginar Daniel saltitante, dançando a dança incontornável da morte. Custou-me um pouco figurar Denis despedindo-se da vida e dos que o amam, e aqui ficam, seguindo as pegadas dionisíacas de Daniel, a este dando uma mão, a Gildo a outra, enquanto mergulhavam na escuridão que doravante nos separa.

A memória involuntária, entretanto, astuta como a Magra Caetana no jogo de xadrez da vida, salta do fundo do meu inconsciente e repõe na luz transparente do dia uma cena de certo carnaval de Olinda. De repente, me vi na folia ao lado de Denis, Rita, Marjorie e Natan Sarmento. Logo que Denis e Rita casaram, depois de um namoro que começou no meu apartamento, o casal Marjorie e Natan a ambos somou-se criando uma espécie de confraria de farras de fim de semana. Participei de poucas, duas ou três, mas foi o suficiente para avaliar o quanto se ligaram através dos elos profundos da amizade feita de convívio alegre e festivo. Até onde pude perceber, esse foi o momento mais feliz da vida de Denis. A partir de então, nossa amizade encolheu e foi recuando para encontros esparsos e ocasionais. Outros amigos bem mais importantes entraram na sua vida. De uns dez anos para cá, diria que são eles, não eu, que melhor poderiam pronunciar-se sobre Denis, sobre fatos e experiências que mais profundamente vincaram seus últimos anos de vida.

Mas a imagem do carnaval que brotou do meu inconsciente traduz algo do espírito festeiro de Denis, avesso das suas características mais notáveis, aquelas que moldavam as linhas de um temperamento introspectivo, não raro dissimulado atrás de muitas portas inacessíveis. O Denis que aqui reponta, em plena folia do carnaval de Olinda, é o folião fantasiado como Dom Quixote, galopando um cavalo de fantasia escudado por seu fiel Sancho Pança, Natan Sarmento. Poucas vezes me diverti tanto no carnaval de Olinda seguindo-os rua afora na caça dissimulada, mas sempre sintomática, das mulheres lindas enfeitiçadas por esse circo colossal, esse delírio da imaginação coletiva que é o carnaval. Essas impressões me marcaram de forma tão profunda que na mesma tarde, recolhendo-me momentaneamente da folia, comecei a compor um longo poema intitulado Carnaval de Olinda. Por isso tomo a liberdade de abaixo transcrever os versos inspirados nas fabulosas aventuras que a fantasia carnavalesca os impeliu a desatar pelas ruas coloridas de Olinda:
De repente, um homem magro e recluso
se transfigura em Quixote
erra pelas ruas perseguindo mulheres
belas e atormentadas pela falta de amor ou pura carne.
Outro homem, um que fazia concursos e que já foi comunista
agora se chama Sancho e é louco qual o seu amo.
Mulheres vão libertando
que vivam o que desviveram.
A virtude atirem contra o diabo
que o corpo será dos homens,
amém.

São essas as memórias e imagens que quero reter nesta crônica dedicada a Denis Bernardes. Já que não era Bernardo, mas Bernardes, ficam aqui implícitos os muitos que foi. Outros com certeza melhor diriam sobre a obra de historiador que produziu, tão pouco conhecida. Mas o fato de Evaldo Cabral de Mello, um dos maiores historiadores brasileiros, distingui-lo com referências elogiosas a seu O Patriotismo Constitucional: Pernambuco, 1820-1822, sugere um pouco do que esta obra representa para o estudo do processo histórico complexo, e ainda pouco estudado, da nossa independência. Outros ainda, a maioria, poderiam opinar sobre sua vida de professor e pesquisador. Outros sabem melhor da coerência discreta com que militou em nome de causas e movimentos políticos temperados por sua presença sempre admirável no seu timbre de tolerância e civilidade, no senso de virtude agregadora que assinalava sua participação em muitos grupos intelectuais e políticos.

Alguns amigos comuns ocasionalmente me falavam nos últimos tempos de um Denis transformado por experiências dolorosas associadas à doença e circunstâncias privadas alheias ao nosso convívio direto, que se estendeu, com as interrupções inevitáveis, de 1974 à época em que casou com Rita de Cássia, sua segunda mulher. Depois disso nossos encontros foram sempre, como acima salientei, esparsos e ocasionais. Costumo dizer que a amizade é o privilégio da intimidade. Tive a ventura de compartilhar isso com Denis e alguns poucos, pois amizades autênticas não se fazem nem perduram em redes sociais ou no circuito volátil das festas e reuniões sociais. E a intimidade é por natureza inconciliável com a exposição. Denis foi dos raros dotados de um senso não somente ético e político, mas também temperamental, nitidamente discriminativo da fronteira entre vida pública e vida privada, entre o privilégio da intimidade, expressão maior da amizade, e a vida pública.

A propósito, conviria religá-lo neste ponto a Daniel Lima. Ato assim, por mero arbítrio associativo, as duas pontas da crônica, já que comecei juntando-os num mesmo parágrafo e agora volto a reuni-los para concluir a crônica. Foram ambos homens afortunados, pois tinham o dom de se fazer amar. Embora tão distintos em termos de personalidade e temperamento, desfrutaram sempre do privilégio de serem bem amados, de preservarem amizades fiéis ao longo da vida. Até onde sei, essas amizades essenciais se prolongaram até à linha fatal onde foram colhidos pela Magra Caetana portando sua foice e sua ampulheta. Um dia, nós que aqui ficamos e lhes preservamos a vida que sobrevive na memória e nos ritos simbólicos que atualizam no tempo os que partiram, um dia seremos também colhidos pela Inescapável. Tudo que desejo (que mais desejar em face da necessidade?) é que ambos, Daniel e Denis, tenham partido dançando de mãos dadas com Gildo Marçal, Paulo Medeiros e tantos outros que já percorreram a linha irreversível da vida. Tudo que desejo é também saber dançar a dança da morte, que se aprende na vida, no momento em que a foice e a ampulheta sobre mim descerem.

Recife, 3 de setembro de 2012.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Daniel Lima


O meu amigo lírico
era no entanto indiferente ao mar.
A paisagem que amava
Era um mar interiorizado.
Não um movimento de ondas
mas um pêndulo ritmando
as horas do ser e do não-ser
o abismo entre o finito
e a eternidade de um Deus
insondável e contudo real.

O meu amigo metafísico
alegremente bailando
a dança fugaz dos fenômenos.
Comia com voracidade
bebia como um pagão
amando a contingência
com a paixão do absoluto.

O meu amigo que já não é
amou a vida até o limite
do fim, da queda
imposta pela matéria finita.
Sua metafísica era tão carnal
tão aderente aos sentidos
que seu sonho de céu
era apenas o mundo da aparência
transposto para sua ideação.
Por isso conciliava a caverna
e a transcendência da Ideia.
Heráclito e Parmênides
São Tomás e Montaigne irmanavam-se
na sua ideação da eternidade.

Meu amigo conciliou
todas as contradições
com a euforia sincrética
de quem tudo acolhe
transfigurando a física em sonho
e a metafísica em feijoada.

Ao cabo, ou já no início
ou desde sempre
foi apenas um menino
um eterno menino
brincando com os mistérios do ser
que logo se dissolviam em nada
e entanto eram.

O meu amigo fundiu a lógica
na loucura
a ilusão na realidade.
O mundo era céu e circo
e o ser era apenas
a face eterna do não-ser
que na mesma chama da existência
tudo afirmava e dissolvia.

O meu amigo dizia sim
e não ao sim.
Por isso, liberto dos fenômenos
da frágil matéria que passa
não sei ainda se foi ou é.
Nem Deus sabe.
Recife, 14 de agosto de 2012.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Daniel e a Magra Caetana



Acabo de ser atingido por uma revelação chocante: a imortalidade não existe. Como descobri esta verdade? Muito simples: acabo de saber que Daniel Lima morreu. Daniel viveu tão longa e intensamente que meio a contragosto aderi à crença de que era imortal. Digo a contragosto porque também eu queria alongar-me no tempo como ele compartilhando uma amizade que é simplesmente inefável, que não se traduz nem se calcula em palavra ou qualquer outro meio ou medida. Durante cerca de 30 anos, excluídos uns 9 ou 10 que vivi fora de Recife, tive a ventura de ser talvez seu mais íntimo e constante amigo. Com seu dom único para a amizade, irradiando uma luz e uma energia que um dia uma adolescente deslumbrada (com ele, infelizmente, não comigo) qualificou de carismática, foi dos raros que sempre tiveram amigos verdadeiros. Estes, sabemos, são raros e nem sempre duram. Os de Daniel duraram sempre e quase todos estão ainda aí, embora um pouquinho mais velhos que eu. Entre tantos, os que com ele mais conviveram foram Célia Veloso, Vital Lira e Zildo Rocha.

Fui talvez o mais íntimo e constante, como assinalei, por ser, como ele, um bicho desatado de nós de família e outros constrangimentos sociais que sempre lhe inspiravam suspeita e recusa irreverente. Apesar de haver criado sua ilha imaginária, ou mundo próprio e quase inacessível, ele por vezes deplorava os amigos que casaram e constituíram família. Deplorava-os por sentir que em certo grau os perdia. Casamento e família, aliás, sempre lhe pareceram ameaças à liberdade individual ou mesmo à concepção anárquica da vida que procurou realizar. Portanto, sua aversão de celibatário a essas instituições não derivava apenas da circunstância de ser padre. Melhor dizendo, da condição que livremente escolheu ao vestir uma batina. Mas esta, a batina, há muito desapareceu da paisagem religiosa que habitamos.

Quando o conheci, cobria-se de vestes civis acrescidas de outras aparências que dissimulavam o padre. Aliás, quando o conheci já se despojara completamente dessa identidade regida pela instituição, pela aparência que tende a sufocar ou baratear a essência. A religião em Daniel era um modo irredutível de ser, portanto dissociado de qualquer vínculo institucional. Quando o conheci, vivia como um cigano em estado de prisão domiciliar. Valho-me da expressão pouco imaginosa para sugerir o ser contraditório que sempre foi e de resto se deleitava em assim, sem fissuras aparentes, se dizer e sobretudo viver. Era um cigano no reino da imaginação, não raro transbordante, mas um ser fechado na casa. Costumava por isso dizer que a casa era o seu país; o lugar onde vivia, a sua cidade. Por isso, nunca falava de Recife, assim como nunca perdeu tempo celebrando a ideologia regionalista tão fortemente enraizada no imaginário pernambucano.

Daniel era uma força da natureza. Gostaria de traduzir sua energia singular de vida, sua vitalidade indomável, com expressões menos banais. Infelizmente, são as que me sobram ou no momento me ocorrem. Se há seres dotados para a felicidade, Daniel é um dos raros que conheci e dentre os raros o “singular”. Foi o único que reduziu sua vida, feita de alegria e incansável energia passional, a meios e modos despojados no grau máximo do despojamento. Um amigo me entendeu mal quando, num outro texto nele inspirado e postado neste blog (“Revendo Daniel Lima”) descrevi sumariamente a casa suja que habitava. Minha intenção, ao acentuar esse fato, foi apenas sugerir o que nele havia de despojamento extremado a um grau que o aparentava com a vetusta tradição cínica da filosofia antiga. Sugiro que o leitor pense no exemplo lendário de Diógenes, o cínico.

Se há seres investidos do dom da felicidade, Daniel foi o único que conheci. Sua felicidade se manifestava num estado de alegria e vitalidade que nunca observei esmorecerem. Melhor dizendo, contrastavam em circunstâncias excepcionais com reações de espantoso desequilíbrio emocional. Tentando melhor esboçar seu comportamento do ponto de vista psicológico, Daniel se fechou num mundo cujo controle podia de ordinário definir. Sendo assim, escondeu-se literalmente da maioria das pessoas. Dado seu poder de sedução – ou sua força carismática, como ressaltou a adolescente acima mencionada – é compreensível que atraísse muita gente. Além disso, sendo também padre, atraía pessoas carentes de aconselhamento, orientação ou pura necessidade de desabafo e compreensão. Quando o conheci, já se afastara completamente dos círculos rotineiros de convívio religioso e intelectual. Protegia-se da maioria das pessoas forjando códigos de acesso telefônico restritos aos poucos amigos que o frequentavam, alguns apenas por telefone. Quanto a seu endereço, bem raros o sabiam. No entanto, se assim se protegia, não conseguia, de outro lado, refrear seu temperamento passional e disposições narcisistas que naturalmente o impeliam de volta ao convívio humano, ainda que muito seletivo.Mas não me alongarei em considerações dessa natureza.

Escrevo esta crônica, escavando a mina da memória, sob o impacto da sua perda. O tom da crônica, decerto demasiado analítico, dissimula minha dor que, honestamente, é bem moderada. Afinal, tenho a convicção de que viveu uma vida extraordinária. Diria mais: foi o ser mais livre e feliz que conheci. Não bastasse tanto, viveu sempre guarnecido por uma fé católica inabalável. Ser contraditório, como já salientei, outra contradição sua se manifestava no convívio sem conflito entre uma inteligência insaciável e questionadora, por vezes bordejando o cinismo de quem tocou o fundo das insolúveis imperfeições do mundo humano, e uma fé religiosa inatingível por todas as forças acaso passíveis de refutá-la. Por isso teve amigos agnósticos ou ateus cuja atitude diante da religião integralmente respeitava. Não preciso acrescentar que a recíproca era verdadeira. Afinal, era esse um dos fundamentos da amizade que o prendiam a amigos como eu. De resto, é um dos fundamentos da amizade em geral: o reconhecimento da liberdade e da diferença do outro que amamos.

Lembro-me de que aludiu à Magra Caetana, pela primeira vez, quando eu morava na Inglaterra. Para quem não sabe, trata-se de uma alusão eufemística à morte. Talvez sentisse então os primeiros sintomas da velhice progressiva agravados por cirurgia cardíaca e outros achaques da idade. Mas saudou-a nesse tom, sempre alegre e trocista. A expressão, a partir daí, entrou no rol das nossas brincadeiras delirantemente imaginativas. Muitas vezes, indagando-o sobre o paradeiro dessa assombrosa e inevitável visitante, brincava inventando que ela o temia, que a imortalidade dele estava acima dos poderes com que ela nos amedronta. No fundo, porém, sabemos que a Magra Caetana é a Inescapável.

E eis que ontem à noite, quando Daniel tropeçava na UTI sustendo já sem forças o peso colossal dos 95 anos, eis que a Magra Caetana tomou-o pelo braço e por aí se foram. Embora amparado pela convicção de que os que perdemos sobrevivem na nossa memória, e portanto não morrem enquanto houver memória nos que aqui seguem vivendo, algo dele me falta e me dói. Com ele se vai também minha crença de que a imortalidade existe. Mas seguirei arengando loucamente com ele nos campos invisíveis da memória. Sem esquecer de que devemos uma morte à natureza. Ou a Deus, diriam Shakespeare e ele.
Recife, 16 de abril de 2012.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Idade e finitude



Uma das ilusões de minha juventude era supor que a velhice implica sabedoria, uma serena aceitação da vida e do envelhecimento gradual e inevitável. Leio gente como Drummond, Philip Roth, Caetano Veloso e outros dizerem o contrário. Mesmo os que envelhecem alegremente, com vitalidade invejável, como é o caso de Caetano, não relutam em reconhecer que a velhice traz sempre limitações indesejáveis, quando não dolorosas, para quem a vive. O espelho, e antes de tudo o próprio corpo, emitem progressivos sinais indicativos da nossa perda de vitalidade. Portanto, ninguém precisa ser um Narciso deslumbrado ante a própria imagem no espelho das águas mutáveis para sentir os crescentes abalos da idade.

Espero envelhecer como Daniel Lima, o mais admirável exemplo que conheci de velhice alegre e plena de energia. Daniel envelheceu com tanta juventude espiritual que nunca consegui vê-lo como um velho. No entanto, ouvi-o muitas vezes deplorar a perda irreversível de vitalidade. Se não se queixava mais abertamente, era provavelmente por fidelidade, não sei até que grau efetivamente assimilada, à sua convicção católica nas virtudes da idade. Afinal, não é à toa que é padre, condição que, somada aos anos de formação em seminário, identificou-se com sua própria vida e visão de mundo. Como Alceu Amoroso Lima, católico ainda mais consistente e convicto que ele, acreditava que a idade e a experiência nos trazem alguma sabedoria, uma maior capacidade de aceitação da vida.
Será que alguma sabedoria advirá de minha velhice? Confesso que hoje considero isso muito duvidoso. O que já sei, e me parece saudável, é que a idade implica uma consciência transformadora da noção que tenho dos limites de minha vida. Melhor dizendo, de minha finitude. Quando jovem, não tinha consciência do quanto sou finito, do quanto minha vida está fatalmente orientada para a minha morte. Por isso tanto me desperdicei, tanto gastei de mim na companhia de gente sem importância, vivendo coisas irrelevantes, que nada importaram para a minha vida. Quantas vezes não errei embriagado em madrugadas sem rumo, oprimido pela solidão da carne, caçando mulheres que nada representavam para mim? O que nelas via e buscava era o gozo momentâneo e fugaz do corpo, a sede do sexo enquanto puro sexo, sem prolongamento ou conexão de qualquer outra natureza. Durante um tempo mais ou menos prolongado, sentia necessidade compulsiva de beber nos fins de semana, ir sempre para os bares e cenários de badalação noturna. Conheci muita gente cujos nomes ignorava. Bebia com essa gente e me enredava num círculo promíscuo sem aderência ou real envolvimento do indivíduo que eu era. Estas são algumas das consequências negativas da inconsciência da idade, da inconsciência de nossa natureza finita.

Hoje sei palpavelmente que minha vida é finita. Sei hoje que vivo para morrer, que em algum momento futuro tudo que sou e sinto e penso se dissolverá em poeira. Dust stardust, nonada. Digo-o isento de angústia, a salvo dos tormentos que oprimem os incapazes de sequer encararem o fato meridiano e incontornável de seu envelhecimento, de sua finitude. Mas não identifico nisso nenhuma bravura, nenhuma coragem especial. Na verdade, considero-me um homem fraco, um homem de coragem muito assustada, ou pouco em si própria confiável. Talvez eu me acovarde e vacile, talvez me acanalhe se souber da morte que chega emitindo anúncios de chegada, alertando sua vítima para a fatalidade do momento último. O que sei é que felizmente tenho sido sempre capaz de encarar todos esses fatos e possibilidades isento de angústia, ansiedade, medo antecipado. Isso, no entanto, não quer dizer que terei a coragem de que precisarei no momento decisivo. Reiterando a sábia lição dos estoicos, o único tempo real é o presente. Logo, cuidemos de deixar os males do futuro entregues a seu tempo, até porque não temos como prefigurá-los. Portanto, ceder à ansiedade de temer o que ainda não é é apenas sofrer por antecipação, na linha do presente, o que não existe, ou não existe ainda. Os males que vierem hão de vir sem que precisamente saibamos o que serão, como serão.

Desdobrando ainda as implicações que hoje tenho de minha finitude, diria que ela é positiva na medida em que me fez mais seletivo em quase todos os sentidos significativos de minha vida. Consciente de que vivo para morrer, de que já vivi pelo menos dois terços do que me cabe neste mundo transitório, aprendi a valorizar o sentido do meu tempo. Já não me passa pela cabeça errar pela noite à cata de aventuras sem importância impelido por fantasias insensatas. Faz anos, por exemplo, que me afastei dos bares e festas onde nunca encontrei motivos de real gratificação existencial. Se há muito incomodava-me já o gregarismo ruidoso e inconsequente de nossas celebrações sociais, das festas onde ninguém está com ninguém e ninguém de fato importa para ninguém, hoje tudo isso me sabe simplesmente desinteressante. Diria mais, diria inconcebível.

Também as leituras e muito do que vivo na solidão e rotina de minha casa, também isso se alterou. Infelizmente, ocupo-me ainda com muita coisa que, fosse eu mais estritamente criterioso, deveria afastar de mim. Por vezes solicitações de amigos, até de meros conhecidos, constrangem-me a perder tempo com coisas que livremente evitaria. Mas aí entra uma inevitável cota de negociação com a vida, com limites de convivência praticamente imperativos. Ou aceitamos esses limites e constrangimentos da vida convivida, ou então nos internamos em algum deserto impraticável. O que sei, em resumo, é que aprendi a governar melhor minha vida e meu tempo depois que assimilei a consciência de minha finitude. Espero ainda, em algum passo improvável do futuro, libertar-me dos livros que já não importam, nem nas prateleiras e menos ainda enquanto matéria de leitura; da música que não se harmonize integralmente com minha sensibilidade; do semelhante que me entrava o caminho e concorre para infelicitar ainda mais a vida e minha obscura e discreta passagem. Ser é conviver, dizia Drummond. Mas a solidão conquistada, a que escolhemos como condição necessária da experiência que carece de recuo em face do tumulto e futilidade da vida, esta amplia nossa ilha simbólica poupando-nos, entre outras coisas, das companhias pouco recomendáveis.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Revendo Daniel Lima



Visitando Daniel Lima
Ontem afinal, depois de muito me prometer, fiz uma visita a Daniel e Célia. Alguns amigos não compreendem meu distanciamento de Daniel. Tendo sido supostamente seu melhor amigo, o mais constante no curso de uma amizade que se estendeu por mais de 30 anos, deixei de procurá-lo quando a idade o forçou a morar no apto. de Célia. Minha visita precedente ocorreu há cerca de dois anos. Já então nitidamente notei sua perda de energia, seus apagões de memória e outros sintomas assinalando a impiedade do tempo e da natureza que afetam mesmo as inteligências mais agudas, os espíritos mais iluminados e passionais. Nessas circunstâncias, como renovar ou manter vivo um sentido de amizade lastreado no exercício da mais completa liberdade de convívio e pensamento que se possa imaginar?

Com Daniel pude realizar um sentido de amizade, de convívio intelectual isento das convenções que de ordinário constrangem mesmo as melhores expressões de vida compartilhada. Por isso amigos mais convencionais e mais respeitosos, mais atrelados a limites e reservas que conquistamos a liberdade de simplesmente ignorar, ora reagiam chocados diante do nosso galope desatado de convenções de qualquer tipo, ora admiravam nossa viagem imaginativa e fantasiosa, que entretanto não tinham como efetiva e espontaneamente acompanhar. De resto, o culto que muitos lhe devotam é por natureza inconciliável com o tipo de amizade que criamos. Se havia um princípio regente dessa nossa amizade, diria ser o da imaginação desatada de qualquer tipo de convenção. Nossas conversas mais espontâneas, não raro movidas a uísque, eram tão singulares e surreais que me parece simplesmente impossível transpô-las para a racionalidade discursiva do texto. Portanto, ninguém pode fazer ideia adequada do que eram nossos papos, nem sequer eu que os retive na memória definitivamente marcada por uma experiência de convívio irreversível e intraduzível.

O Daniel com quem convivi era antes de tudo um espírito anárquico e passional, investido de um senso de rebeldia e sensualidade indomável típicos de uma criança saudavelmente incivilizada. Por isso, dentro das fronteiras da nossa intimidade, era capaz de coisas que não poderia escrever sem trair nossa confiança recíproca, os modos de cumplicidade fruto de uma amizade tecida de fios e entrançamentos inefáveis. O que posso afirmar é que, no exercício da liberdade que inventamos, avessa a toda sorte de convenção e hipocrisia correntes nos nossos modos rotineiros de convívio, nada era sagrado.

Mas tudo passou. Quero dizer, o melhor dessa amizade iluminada, libertária e libertina, tornou-se luxo do passado, pois meu velho amigo já não tem energia física nem mental para acompanhar-me pelas estradas venturosas que durante anos imaginamos, refizemos e fruímos. Embora ainda me solicite a reatar certos tons de conversa, sinto que já não me acompanha ou reage perplexo diante de expressões de inteligência antes banais no nosso convívio. A memória lhe falha com tanto desconcerto e frequência que é difícil sustentarmos uma conversa coerente. Assim, entristece-me observar a força insidiosa do tempo corroendo um espírito antes tão ágil e agudo, tão irreverente e espirituoso. Revê-lo no estado em que ontem o medi com certa dor íntima e inconfessada é de algum modo nele antecipar a ruína que um dia também serei.

As breves observações acima explicam meu distanciamento de Daniel. O que constituía o sentido e o caráter absolutamente singular da nossa amizade é hoje impraticável. Daniel precisa agora, precisa já há alguns anos, dos amigos qualificados para socorrê-lo nas instâncias práticas que pouco afetam minha habilidade ou competência. Nesse sentido, ele é um velho afortunado, pois teve sempre uma rede de amigos fiéis generosamente devotados ao exercício da amizade feita de assistência e cuidado. Célia, antes de todos, é a mulher sempre a postos para servi-lo nas instâncias domésticas que hoje já não pode dispensar, embora isso constranja seu indomável espírito de independência.

Enquanto pôde, enquanto teve energia física e mental, Daniel isolou-se na sua ilha que era na verdade uma casa suja e mal cuidada em todos os sentidos, pois nunca deu a menor importância a esses cuidados rotineiros que eu, por exemplo, também habitante solitário, zelosamente administro. Até a descarga do vaso sanitário, avariada por excesso de uso, ficou inutilizada durante todos os anos em que ocupou a casa onde o visitava no bairro da Torre. Trocou-a por um balde de plástico e não mais se amolou com medidas de higiene. Sua geladeira era outro caso de calamidade doméstica. Ele pouco ligava, para não dizer que simplesmente cruzava os braços, arriava sobre sua cadeira desdobrável de leitura e afundava os olhos e a imaginação delirante nos livros. O mundo prático lhe era de ordinário indiferente. Nesse sentido, aproximava-se um pouco do cinismo praticado por um filósofo como o lendário Diógenes.

No que se refere à saúde, teve e tem amigos médicos sempre solidários e devotados nos momentos em que precisou da medicina e práticas conexas. Vital Lira, acima de todos, o tem assistido desde a juventude, quando era ainda estudante de medicina. Sempre que Daniel dele precisou, com ele irrestritamente contou. Além dele, há Zildo e Zeferino Rocha e outros amigos devotados que sempre o visitam e zelam para que nada de necessário lhe falte. Além da sedução única que exerceu sobre toda essa inumerável rede de pessoas, sabia astutamente empregá-la visando fins calculadamente pragmáticos. Como fui sempre incapaz de exercitar esses dons, muitas vezes me advertiu para a necessidade de saber cercar-me de amigos úteis, empregáveis nas circunstâncias em que precisamos de ajuda e solidariedade.

Por fim, até assistência editorial lhe foi recentemente oferecida por amigos e admiradores como Luzilá Gonçalves, Leda Alves, Lourival Holanda e outros atuantes na cultura e na burocracia cultural do Estado. Graças a esses e outros amigos, teve uma coletânea de poemas publicada pela Cepe, editora do governo do Estado. Além disso, alguns desses amigos, treinados nas artimanhas da política cultural, logo cuidaram de inscrever o livro como um dos concorrentes ao prêmio de poesia da Biblioteca Nacional. O resultado é que Daniel obteve por unanimidade o primeiro lugar derrotando concorrentes de peso como Ferreira Gullar e Affonso Romano de Sant´Anna.

E assim, já aos 95 anos, o velho corre agora o risco de se tornar célebre quando antes era apenas um mito astutamente costurado por um rol de anedotas e casos pitorescos bem típicos da nossa tradição cultural. Bicho desenraizado, cronicamente desajustado e delirantemente imaginoso, Daniel soube fazer disso tudo e de si próprio um mito que durante décadas se difundiu em certos círculos sociais do Recife. Agora, pesa-me dizê-lo, é um corpo velho e um espírito turvo que vão gradualmente definhando. Mas há o mito desde muito cultuado por uma devotada rede de amigos e admiradores; há agora o poeta publicado, o poeta ilustrado por fotógrafos, o poeta inspirador de um primoroso calendário editado pela Cepe.

Além dos vários livros de poemas, fonte da coletânea organizada por Luzilá Gonçalves, há ainda o autor de um extenso diário, artigos e ensaios versando uma grande variedade de temas. Acho que Daniel é superestimado por muitos que de resto não têm real conhecimento de sua obra nem credenciais intelectuais e críticas para melhor ajuizarem acerca do muito que erraticamente escreveu. Não tenho a presunção de conhecer tudo que produziu, mas li muitos dos volumes fielmente datilografados e encadernados por Célia. Além de os ler, discuti-os com ele dentro da medida de franqueza e paixão discursiva típicas das nossas conversas. Procedendo a uma apreciação sumária e grosseira, diria que muito pouco do que escreveu tem força para sobreviver. Seus ensaios filosóficos e literários traem muito da sua formação erraticamente autodidática e revelam um senso de gosto e apreciação crítica provincianos vincados por falhas clamorosas típicas de um intelectual preso a horizontes muito estreitos. Seu talento é inegável, sua cultura insaciável, mas desordenada e carente de critérios intelectuais consistentes.

Embora tenha lido uma enormidade, é com certeza o leitor mais onívoro que conheci, espantava-me a volubilidade, o hedonismo errático com que saltava de uma obra de nítido valor estético e intelectual para o best-seller mais descartável, ou capítulo de telenovela mais lacrimoso. Tudo isso traía no grande leitor que foi um autodidatismo de efeitos desastrosos do ponto de vista de uma formação intelectual mais consistente e equilibrada. Essas falhas flagrantes de formação são de resto comuns em intelectuais autodidatas como ele e eu, no geral presos a um ambiente mental bastante limitado.

Em suma, penso que o melhor do que nos deixa é sua poesia, embora ache muito discutível a seleção feita por Luzilá Gonçalves para o volume que foi lançado no ano passado,distinguido, como já ressaltei,com o prêmio da Biblioteca Nacional. O velhinho merece essas honras e o reconhecimento tardio decorrentes da sua rebeldia não raro dissimulada em extravagância e trapalhadas, não poucas astutamente maquinadas, que o converteram em figura folclórica. Antes isso do que a reclusão em que ele e sua obra viveram durante a maior parte de sua vida já bem longa e singularmente vivida.

Concluindo, Daniel soube fazer de si um personagem mítico e talvez aí resida seu inigualável poder de sedução. Para os que o supõem sábio, talvez sua sabedoria consista na crença delirante com que viveu a vida em estado de felicidade infantil nutrida e defendida por uma força de egocentrismo única. Daniel numa frase? Um narciso feliz em estado de embriaguês inocente.

Recife, 09 de janeiro de 2012.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

O Baobá Daniel Lima


Se houvesse eternidade na natureza, o sinônimo perfeito da eternidade seria baobá. Dizem que um baobá pode viver mais de mil anos.

Quão pobre é nossa ciência
Da eternidade do tempo
Pois tudo passa e o que fica
É a permanência do vento.

Quando a floresta e Dáni
Ficarem muito velhinhos
As folhas do baobá
Hão de abrigá-los num ninho.

A valsa no bandolim
Povoará o deserto
E eu plantarei um jardim
No céu azul e aberto

A mata reflorirá
Sua paisagem frondosa
E o canto do sabiá
Será gravado na prosa

Da mais humana harmonia
Quando a idade de Dáni
Num sopro de poesia
For baobá, natureza.


E quem viver colherá
Na mata que ele plantou
A idade do baobá
O solo que fecundou.

E um mundo de outra grandeza
Sem que me traia ou engane
Semeará a beleza:
Obra brotada de Dáni.

E quando enfim a memória
No tempo se dispersar
Os frutos dessa história
Hão de viver no rebento
Do tronco do baobá.

Fernando da Mota Lima
Recife, 3 de novembro 2009.