Mostrando postagens com marcador Diário (fragmentos). Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Diário (fragmentos). Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Revisitando Natal



Escrevo na sala do Hotel Belo Horizonte, onde estou hospedado com Bella desde ontem. Fizemos a viagem de carro. Foi tranqüila e relativamente rápida. Receando contratempos ao longo do percurso, já que interminavelmente prossegue a obra de duplicação da rodovia BR 101 entre Pernambuco e o Rio Grande do Norte, cuidamos de sair cedinho. Além disso, gostamos de pegar a estrada logo que rompe o dia.
Embora alertado previamente sobre a extraordinária expansão urbana de Natal, sobretudo de sua rede turística, estou de fato impressionado com o que vejo, não obstante tenha ainda visto tão pouco. Infelizmente chove. Começou chovendo logo que entramos na cidade e desde então não desfrutamos sequer de uma trégua de sol. Hoje cedo, logo que acordamos, o tempo estava apenas nublado. Por isso aproveitamos a beleza úmida da manhã caminhando entre a Via Costeira e o mar. À luz do dia, tivemos uma noção mais nítida da paisagem litorânea pontilhada de hotéis. Mas logo a chuva voltou a cair sem pausa e assim seguimos para o salão onde nos servimos de substanciosa e variada refeição matinal. A primeira conversa que ouvi foi em inglês, a segunda em francês. Em 1977, quando aqui morei durante uns meses de economia penosa, precisaria ir ao cinema para ouvir essas línguas intrigantes dentro do monolinguismo nordestino. Hoje são ouvidas e lidas na nossa paisagem globalizada. Espanhol, italiano, alemão e notadamente inglês são moeda corrente no circuito turístico e sites de prostituição, uma das mercadorias mais requisitadas por turistas fascinados pelas lendas e evidências da sensualidade tropical expostas num reino sem governo e vergonha.

É bela a paisagem deserta. O mar à minha frente, recoberto de nuvens sombrias, semelha um horizonte congelado. Imerso na contemplação de um mundo sem movimento, liberto do elemento humano, recaio num desejo que ao longo de minha vida me tem poderosamente seduzido. Aludo ao sortilégio de uma serenidade metafísica que nunca alcancei plenamente traduzir em palavras, muito menos fruir enquanto estado existenciado. Se posso de algum modo expressar esse ideal de serenidade, diria ser o que os estóicos designam como ataraxia. Seria um estado de imperturbabilidade do espírito, de uma serenidade tão pura e ascética que nele nossa vontade e desejo se anulariam alcançando uma região incógnita na qual cessariam desejo, dor, perda e ressentimento. Penso que nosso obscuro desejo de morte, o deus Thanatos da mitologia grega, como lembraria Freud, também traduziria aproximadamente esse ideal de imperturbabilidade, ou ainda o que os budistas designam como nirvana.

Outro grande prazer que Natal me propicia: nenhum vestígio de festa de São João em toda essa área turística onde transito. Saio às ruas com Bella caminhando tranquilamente à beira mar. Passamos à frente de uma interminável sucessão de hotéis e pousadas isentos de foles de sanfona e ruído de fogos. Melhor que tudo, nenhuma agregação festeira, nenhum vestígio de fogueira queimando, o que representa uma bênção para minha rinite alérgica.

Visitando João Pessoa em dezembro passado, e agora Natal, depois de uma ausência tão prolongada, reitero uma constatação desoladora para Recife. Ou antes de tudo para mim. Salta aos olhos do observador isento a degradação social e urbana desta confrontada às capitais nordestinas mais próximas. É fato que as aproxima o mesmo legado histórico-social iníquo: resquícios da tradição colonial e escravista, padrões persistentes de extrema desigualdade social. Apesar da matriz histórica comum, observa-se nestas cidades de menor porte, Natal e João Pessoa, um ritmo de expansão urbana e turística muito menos predatório e portanto mais consistente do que o observável em Recife. Enquanto nesta a violência e a paranóia social estão amplamente difundidas, somadas a toda sorte de anomia urbana, em João Pessoa e Natal a atmosfera vivível e palpável é nitidamente melhor. É certo que o porte mais reduzido de ambas já por si atenua problemas sociais que tendem a ser menos controláveis numa cidade mais vasta e complexa como Recife. À parte esse diferencial, João Pessoa e Natal ostentam evidências de políticas urbanas, turísticas e imobiliárias claramente superiores. Aliás, talvez pouco dessas mudanças visíveis seja fruto de políticas propostas e executadas por agentes sociais institucionalmente definidos. De qualquer modo, importa reconhecer que, ao acaso ou deliberadamente, João Pessoa e Natal vão bem melhor que Recife.

Reservamos, Bella e eu, a primeira parte desta manhã para uma aprazível caminhada entre nosso hotel e o Morro do Careca. Entretivemo-nos tirando fotografias, documentando a bela paisagem natural e urbana e até conhecendo um ou outro tipo humano pitoresco. Nossa grande descoberta acidental foi o Elvis Presley de Juazeiro do Norte – terra do Padim Ciço, como orgulhosamente nos lembrou. Elvis chamou-me a atenção por ser um homem já idoso com longa e grisalha cabeleira encimada por um chapéu de palha em cujo centro li o nome do lendário rei do rock. Bastou-me assinalar este detalhe para que de pronto desatasse a história de sua vida com essa abundância verbal tão característica dos nordestinos.

O pai, homem alegre e festeiro, era fã de Elvis, enquanto a mãe, romanticamente passional e sombria, era devota de Nélson Gonçalves. Foi este o cerne turbulento da vida conjugal que compartilharam até a morte do pai. Se este se punha a ouvir a música ruidosa de Elvis, a mãe enfurecida logo reduzia a cacos os discos de vinil de onde saltavam os ritmos trepidantes do roqueiro. Se no entanto a mãe enroscava-se nos acordes e melodias passionais de Nélson, o pai vingativo ajustava as contas domésticas na mesma moeda e outra leva de discos de vinil era reduzida a frangalhos. E assim, inconciliáveis e turbulentos, viveram infelizes até o dia em que a romântica fechou os olhos do roqueiro. Mas deste reteve uma relíquia inseparável, símbolo do amor que, costurado na união turbulenta, converte o conflito amoroso em expressão de elo insolúvel e indissolúvel. Uma variante romântica do amor eterno enquanto dure, como escreveu o poeta.

Dado que lhe emprestamos ouvidos receptivos pontuados por comentários divertidos, Elvis grudou-se a nós detendo nossa marcha com nova enfiada de episódios engraçados, alguns literalmente desastrosos. Empolgou-se de tal modo que dispensou sem hesitar dois clientes potenciais para não sacrificar ou simplesmente interromper o fluxo de suas narrativas mirabolantes. Como sei que esses tipos nordestinos são capazes de tagarelar sem pausa um dia inteiro, encontrei um meio de sustar-lhe a fala torrenciosa e retomar meu passeio com Bella. No percurso da volta cruzamos novamente com ele, que repegou a conversa com ânimo inalterável. E lá me vi eu novamente cortando-lhe o verbo antes que se apropriasse da nossa manhã, quem sabe do nosso dia. Sabem os leitores de Macunaíma que essa tradição de verborréia está sintetizada no dito popular que alude ao bebedor de água de chocalho. Foi pensando nisso que logo cuidei de silenciar o chocalho de Elvis. Imagine-se os estragos ambientais que um tipo desses não causaria se tocasse guitarra elétrica.

Ah, esqueceu-me anotar que a relíquia de amor preservada pela mãe do roqueiro de Juazeiro do Norte foi o fragmento de um dos discos de Elvis Presley. Tratava-se evidentemente de um dos muitos que ela destruiu durante seus costumeiros excessos de amor. Elvis filho um dia perguntou à mãe: por que não joga isso fora? Para que guardar restos de alguém que já morreu, vestígios de um mundo sem volta? Ela prontamente retrucou ofendida alegando reter naquele fragmento imprestável a mais bela memória do marido perdido. Bem, concluo eu, cada um retém a memória de amor possível, ou merecida.

2 – Levo Bella à faixa litorânea mais antiga e central da cidade. No fundo da paisagem que descortino da orla à altura da casa onde morou Henfil, espanta-me a visão imponente da Ponte de Todos. É uma impressionante obra de engenharia erguida sobre as vastas águas do Rio Potengi. Para ser exato, no ponto onde o rio deságua no mar. Mas não a cruzamos, pois nosso intento era encontrar ainda aberta a Fortaleza dos Reis Magos. Embora tenhamos chegado antes das 17h, encontramo-la fechada, suas bordas batidas por altas ondas que por pouco não nos deram um banho imprevisto. Por isso demoramos apenas o suficiente para tirar algumas fotos.

No percurso da volta, antes de alcançarmos a Via Costeira que bordeja o hotel Belo Horizonte, estacionei na Praia dos Artistas. Bella estava muito curiosa para conhecê-la, pois foi um dos meus endereços no ano remoto de 1977, quando aqui morei ou vaguei durante cerca de um ano. A paisagem da orla está tão profundamente transformada que foi impraticável localizar a casa onde Avelino me acolheu naquele ano tão incerto de minha vida. Lembro-me de que a casa ficava a meio da colina numa área povoada por gente humilde, mas então honesta e pacata. Longe de mim presumir que já não seja uma coisa nem outra. O que duvido é que seja ainda a área de pobreza segura que conheci. Lembro-me até de que durante algumas madrugadas dormi de janelas abertas para o mar e o céu enluarado.

Um fato que me surpreendeu foi deparar a casa onde Henfil viveu com a fachada frontal e lateral basicamente inalterada. Como Bella não tem idéia de quem foi Henfil, embora conheça O Bêbado e a Equilibrista, de João Bosco e Aldir Blanc, precisei desenhar-lhe uma história compacta do Pasquim, dos anos 1970 sob a ditadura militar e das circunstâncias que propiciaram meu breve convívio com Henfil em Natal.

Estávamos já a alguns metros do hotel quando de súbito envolvemo-nos numa colisão com uma moto. À altura do Restaurante Abade, precisei fazer uma manobra perigosa para cruzar a Via Costeira e alcançar o estacionamento do hotel. Estava completando essa manobra quando senti um choque violento na porta direita. Mal me refiz do choque, temi pela segurança de Bella, que felizmente me disse não estar ferida. Depois de estacionar, subi a curta elevação que me separava da avenida e fui em socorro do motoqueiro envolvido na colisão. Como dirigia com o farol apagado, não tive como vê-lo, pois é escuro o trecho onde colidimos. Encurtando a história, tranquilizou-me verificar que nada de grave lhe acontecera. Embora a responsabilidade do acidente fosse dele, dispus-me a conduzi-lo a um hospital, no caso de precisar de atendimento médico. Disse-me haver sofrido uma pancada à altura do abdômen, que massageou durante alguns minutos. Refeito enfim, montou novamente a moto, com algumas avarias frontais, e foi embora. Voltando ao carro, constatei que o impacto da colisão desfigurou-lhe a faixa lateral. Que fazer? Embora dirija com tanto cuidado, acabei vítima da imprudência alheia.

E assim me vou e assim nos vamos de volta a Recife. Deixo Natal, depois de uma visita de quatro dias, sem reencontrar sequer um dos poucos amigos que aqui tenho. Pedro Vicente está viajando. Há muito perdi o rastro de Hermano Ferreira Lima, com quem trabalhei durante meses no projeto local sobre a história da agricultura no Brasil, no ano remoto de 1977, coordenado nacionalmente por Ieda Maria Linhares, e regionalmente por Guillermo Palácios. Como decidimos incluir no projeto um trabalho de treinamento intelectual dos pesquisadores e estagiários contratados, dirigi então uma série de seminários baseados na leitura de obras de Luís da Câmara Cascudo, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Jr. e Celso Furtado. Tempo e memória, em mim conciliados, são parte da bagagem que transporto na viagem de volta a Recife.
Natal, 23 a 25 de junho de 2009.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Velhice ou má idade



Confesso nunca haver sido importunado pelo fantasma da velhice, ou mesmo da morte. Muitas vezes me perguntei a razão de assim conduzir-me diante de um problema que noto atormentar tanta gente que conheço. Hoje então, submersos na atmosfera tirânica da cultura narcisista, sei de quem já se atormenta antes dos trinta apenas por considerar fugazmente a possibilidade do amadurecimento e da velhice. Se assim nos comportamos ante a mera possibilidade de perda da juventude, o que dizer da morte? A morte tornou-se uma realidade obscena, na verdade impronunciável. Interrogo-me há muito, desde que li Philippe Ariès, pelo menos, sobre os rumos de uma cultura que incorre na insensatez de pretender suprimir do seu horizonte precisamente o que há de mais inelutável na nossa condição. Aí radica, talvez, a evidência da supressão de uma forma elementar de sabedoria humana.
Abstraindo considerações mais alongadas sobre a história cultural, pondero tão somente os limites convencionais de minha experiência, de fatos correntes vividos ou observados durante minha infância e adolescência. Lembro-me, por exemplo, de que meu pai, que nunca foi exemplo de sabedoria e coragem, acolheu com resignação estes terrores da nossa experiência contemporânea: a maturidade, a velhice e a morte. Poderia igualmente estender esta observação a pessoas de sua geração que participaram do mundo de minha infância e adolescência: minha avó materna, vizinhos, conhecidos incontáveis. Não retenho nenhuma memória de pessoas que se angustiassem ou suportassem inconformadas limitações, dores e perdas naturalmente acolhidas como parte incontornável da nossa condição. Em suma, todos aparentavam saber e resignadamente aceitar o fato, então inelutável, de que seres humanos amadurecem, envelhecem e por fim morrem. Tudo isso era e é doloroso, claro. Decerto não ocorreria a ninguém de livre vontade viver experiências tão infelizes e indesejáveis. O que friso é o fato de que as pessoas prescindiam de formação estoica, filosoficamente considerada, para resignar-se a essa condição de fatalidade.
Foi isso, em suma, o que acima quis sugerir quando me referi a uma forma elementar de sabedoria humana. É flagrante que essa forma elementar de sabedoria dissolveu-se no cerne de uma cultura que elege o culto infrene e delirante do hedonismo como modo e fim de uma condição realisticamente incogitável. Pois, salvo engano, nenhum milagre da ciência e da técnica, nenhuma possibilidade assegurada pelo mercado, nada disso tem o poder de anular nosso fatal processo de envelhecimento e morte. A ciência e a tecnologia médica podem hoje, como é fato, estender o prazo de nossas vidas, pelo menos das camadas socialmente privilegiadas, mas não anular a realidade imperativa do envelhecimento, com tudo que contém de redução gradual e progressiva de nossas potencialidades, menos ainda abolir a mortalidade inscrita na nossa natureza.
Talvez meu modo de experiência individual relacionado a esta questão me tenha até o presente isentado da angústia associada à premonição da velhice e da morte. O convívio frequente com pessoas bem mais velhas, a começar pelo meu pai, propiciou-me um modo de familiaridade prematura com esses fantasmas. Crescendo dentro dos limites fechados de uma vila, onde todos os tipos de idade e experiência se mesclavam, aprendi a conviver com a doença, a velhice, a morte. Aliás, duas delas, a doença e a sombra da morte, cedo infiltraram-se na minha própria vida. Diria ainda que a leitura de alguns poetas e filósofos foi decisiva para que eu logo assimilasse, pelo menos enquanto fato teórico, ou realidade de consciência e imaginação, a fatalidade do que constitui matéria de denegação e assombro para Narciso.
Que me lembre, intentando ainda escavar no passado meu modo pessoal de familiaridade com a morte, a poesia de Manuel Bandeira foi uma descoberta decisiva de acolhimento resignado de minha finitude. Quando na minha juventude sobreveio uma doença cardíaca, minha reação imediata foi de pânico e desamparo. Privado de meios materiais e psíquicos para enfrentar uma realidade que me assombrava, vaguei durante alguns dias sobre a cama presa de opressões indescritíveis. Foi a meio disso que a poesia de Manuel Bandeira – mais exatamente aquela consagrada ao tema da doença e da morte – desceu sobre mim, sobre minha solidão desamparada, e me foi gradualmente em mim me repondo e me foi iluminando e reconciliando com a ordem obscura e inevitável de minha vida. A isso somou-se a música de Bach, que desde então passou a constituir o que concebo como a materialização suprema da expressão musical.
Retomo meu tema variando o registro, agora tendente à sátira. São inumeráveis as evidências cotidianas do estado de inconsciência que hoje define o rebaixamento deplorável de nossa experiência humana. O publicitário, uma das divindades do mundo cretino em que vivemos, aciona a máquina de calcular e dela extrai um slogan que logo se dissemina pela mídia e a consciência geral: A boa idade. Alude à idade em que me encontro, que já não é velhice, muito menos maturidade. Esta foi a motivação principal que me levou a intitular de Má Idade a fase atual do meu diário. A velhice tornou-se assim outra condição obscena do presente, além da morte. Graças à indústria publicitária, ninguém mais envelhece. Passa-se miraculosamente da juventude, ideal supremo da cultura hedonista, para a boa idade. É patético, para não dizer deprimente, ver essas multidões de mulheres e homens reumáticos, fisicamente combalidos e deformados pela idade, rebolando nos salões de festa da terceira idade (eis outro avatar da terminologia consumista).
Outro dia, aliás, fui dançar com Bella no Clube da Aeronáutica, bem próximo a meu apartamento. A festa promovida pelo clube, sempre às quintas, chama-se Salla (sic) de Dançar. Embora frequentada por gente de todas as idades, o predomínio é dos velhos, fato de resto igualmente observável em festas desse tipo. Perdão, quis dizer terceira idade, ou boa idade. Observei consternado velhinhas (vozinhas, como diria Bella) ridiculamente mimetizando garotas. Pior: garotas vulgares, remexendo os quadris desproporcionalmente avolumados pelo peso dos anos, erguendo a ponta da saia acima dos joelhos. Seus parceiros são negros jovens e musculosos. Estão ali, suponho, como prestadores de serviço a essas velhas comportando-se como adolescentes retardadas, iludidas pela fantasia de que o tempo é recuperável ou reversível.
É triste ver pessoas envelhecerem desse modo. Mas a inconsciência desse estado real é tamanha que talvez ninguém mais se dê conta do quanto é indigna essa forma de envelhecimento e decadência. Como percebê-la, se a própria terminologia que a recobre é já intencionalmente fabricada para servir à alienação, à incapacidade de mirarmos a velhice com aquele estoicismo elementar do passado que vi refletido na face do meu pai, de minha avó, dos velhos do seu tempo? Digo-o sem nenhum traço de nostalgia, até porque continuo preferindo o presente. Sou e espero continuar sendo um homem do presente, dentro dele vivendo sem ceder à tentação da evasão fácil e irrealista orientada para um passado de fantasia, recriação imaginária do mal-estar na linha do presente. O que subjaz ao argumento que aqui venho desenvolvendo é algo bem distinto: é a capacidade de relacionar a experiência do presente à medida do tempo vivo, traduzido na consciência da tradição que nos vincula às condições em que nos formamos, à corrente invisível da experiência que deságua no presente. Somente o narcisista, alheio ao tempo que supõe trânsito, envelhecimento e morte, somente ele vive a ilusão do eterno presente, um tempo ilusoriamente absoluto, portanto sem nexos com o que foi e o que será.
A crítica do presente não supõe necessariamente nostalgia, linha de fuga para o passado ou ainda algum ideal utópico. Uma das prisões supostas na meia idade ou velhice deriva precisamente dessa pressuposição, isto é, se criticamos o presente é porque somos nostálgicos, porque a idade fatalmente nos impele, até inconscientemente, a idealizar o passado, ou contrapor ao presente opressivo alguma impraticável utopia. Esse psicologismo barato é moeda corrente. Até amigos íntimos, gente de minha própria geração, valem-se desse expediente grosseiro para desqualificar uma crítica contra a música barata que hoje somos obrigados a ouvir em qualquer lugar público, inclusive em casa, já que os vendedores de cd pirata trovejam rua afora sua mercadoria criminosa. O exemplo sugere a que ponto descemos na nossa inconsciência social e estética. Bastaria o cotejo mais elementar entre a bossa nova e seus sucessores dos anos 60 e 70, época suprema em toda a história da nossa música popular, com o que hoje correntemente se produz e divulga, para que salte aos olhos o abismo de qualidade separando um e outro tempo. No entanto, quando vez ou outra ensaiei dizer coisas desse tipo, tão evidentes e indiscutíveis, prontamente retrucaram: “Ah, você está sendo nostálgico. Durante nossa juventude também havia muita porcaria que hoje esquecemos”. Ora, esquecemos, ou esqueci, porque nunca sequer perdemos tempo ouvindo esse lixo que atulha nossos ouvidos. O mais curioso, no argumento, é o quanto ele despreza a lógica suposta no meu juízo. Retrucam com tolices dessa natureza como se eu por acaso falasse da porcaria musical de minha juventude...

Recife, 02 de setembro de 2008.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Cioran (fragmento de um diário)



Releio Cioran: Exercícios de Admiração. Esse romeno de formação francesa, que muito à vontade declara a ambição de escrever em francês melhor do que os próprios franceses, é sem dúvida um filósofo escritor. O traço talvez mais saliente dos ensaios curtos e textos de circunstância que compõem este volume – salvo o longo capítulo inicial dedicado a Joseph de Maistre – é o pessimismo dissolvente com que encara a condição humana. O curioso é que essa sua peculiaridade, com freqüência expressa em termos desabusados, não deprime o leitor. Pelo menos posso dizer que não me deprime, antes pelo contrário.

Cioran é um homem governado por excessos, presa fácil das paixões infrenes. Como ele próprio reconhece, é pouco afeito à nuança. Escrevendo sobre Otto Weininger, frisa as qualidades deste que mais o seduziam: o exagero desmedido, a negação extrema, a aversão ao bom senso, a busca intransigente do absoluto. Em suma, tudo que não sou nem me apetece. Weininger foi uma referência crucial na juventude de Wittgenstein. É este um dos argumentos mais fortes de Ray Monk, o biógrafo que mais profundamente me marcou. Sua biografia de Bertrand Russell em dois magníficos volumes (The Ghost of Madness e The Spirit of Solitude) é provavelmente a melhor que já li em toda a minha vida. A que dedica a Wittgenstein, The Duty of Genius, é também excelente, mas não tanto quanto a de Russell. Monk é um wittgensteiniano e coerentemente toma o partido de Wittgenstein contra Russell em ambas as biografias. Isso entretanto não basta para que a biografia do primeiro seja melhor que a do segundo. Sendo mais preciso, Monk toma o partido de Wittgenstein por nele identificar uma integridade ética e intelectual superior à de Russell.

Voltando a Weininger, ele é tão central para a compreensão da vida de Wittgenstein proposta por Monk que a epígrafe que este escolheu para The Duty of Genius é extraída de Sexo e Caráter, o livro fundamental de Weininger: “Lógica e ética são fundamentalmente idênticas; não são mais do que dever para consigo mesmo”. A epígrafe evidentemente é a pista que conduz ao título da biografia, portanto do seu sentido substancial. Cito a epígrafe em português por não dispor do meu exemplar da biografia em inglês. Alguém o levou ou roubou, não sei. Tenho adotado como norma neste diário registrar primeiramente uma obra no original sempre que a tenha lido primária ou exclusivamente no original. No caso de The Duty of Genius, cito a epígrafe em português por dispor apenas da edição publicada pela Companhia das Letras.

Cioran é autor de boutades deliciosas. Referindo-se à misantropia, escreve estas palavras que não resisto à tentação de citar: “Não receie encontrá-lo: de todas as criaturas, as menos insuportáveis são as que odeiam os homens. Não se deve nunca fugir de um misantropo” (p. 120). A propósito dos benefícios catárticos da função da escrita, revela haver sobrevivido graças a ela. Julgo compreender o que escreve acerca da função liberadora da escrita por experimentar corriqueiramente esse fato de raiz psicológica. Considero-o de resto tão saudável que viso antes de tudo a função expressiva da escrita, até porque não sou um escritor profissional e quase nada publiquei dos meus escritos erráticos e dispersos, além de no geral circunstanciais. Cioran é evidentemente um escritor profissional. Como tal, pode melhor apreciar os benefícios catárticos da escrita. Observa assim que “Quando detestamos alguém a ponto de querer liquidá-lo, o melhor é pegar uma folha de papel e escrever várias vezes que X é um canalha, um crápula, e imediatamente percebemos que o odiamos menos e que quase não pensamos mais em vingança (...) Suportei-me melhor assim, como suportei melhor a vida. Cada um se cuida como pode” (pp. 127-8).

Registrando um pouco de minha experiência pessoal a esse propósito, com freqüência noto que o mero fato de escrever no diário páginas duras contra determinadas pessoas ou situações funciona efetivamente como um dispositivo descompressor, um liberador de energia agressiva reprimida. Talvez o caso mais facilmente observável no meu diário seja o referente a tudo que na realidade social brasileira inspira-me revolta e aversão. Escrevo reiteradamente acerca dessas coisas e sinceramente gostaria de suprimi-las de um diário que estimaria menos pesado e menos negativo. Sucede, no entanto, que sou rotineiramente vítima de abusos e agressões a meus direitos elementares de cidadania numa realidade regida pela anomia; sou vítima da desonestidade ou descaso de pessoas e instituições que burlam minha boa fé, quando não simplesmente me ignoram. E não consigo nem quero adaptar-me a esses horrores grandes e pequenos inscritos no nosso cotidiano cultural, embora saiba de minha impotência, o que naturalmente acentua minha revolta. Diante disso, transporto muitas vezes intencionalmente parte dessas irresoluções para as páginas do meu diário. Aqui me pronuncio contra a grosseria dos recifenses, sua incivilidade crônica, sua inconsciência social que em verdade define um padrão de convívio. Noto então que o mero registro da crítica, da denúncia irrefreável, da indignação impotente, tudo isso como que se quebranta, cede na força opressiva que tanto me perturba. É esse, em substância, o processo psíquico que Cioran assinala na sua própria escrita.

Escrevendo sobre Scott Fitzgerald, indica Cioran dois modos de lucidez verificáveis nos seres humanos. O primeiro ele o caracteriza como um privilégio ou dádiva. Seria próprio dos que vivem a vida ou a experiência do mundo como algo transparente e assim sentem-se como que libertos do sofrimento de sabê-la transparente, já que ela assim os define. Ainda que a vivam como um estado de crise permanente, não sofrem nem se queixam do que afinal é inerente à sua condição. O outro modo de lucidez é sempre uma revelação tardia sobrevindo como um acidente, “uma rachadura interior que ocorre em dado momento”(p. 108). Este é o modo de lucidez característico de Scott Fitzgerald. Sua expressão mais plena e transparente está documentada num dos textos literários mais dilacerantes, verdadeiros e impiedosos que já li: The Crack-up. É a rachadura a que alude Cioran quando emprega a expressão “rachadura interior”.

Passo a palavra ao romeno da catástrofe, que sintetiza com felicidade o essencial do que escreve Scott Fitzgerald no seu dilacerante texto autobiográfico: “Até então, fechados numa agradável opacidade (refere-se aos que se identificam com o segundo modo de lucidez acima caracterizado, nota minha) aceitavam suas evidências sem avaliá-las nem lhes pressentir o vazio. Ei-los desiludidos e como que involuntariamente engajados no caminho do conhecimento. Ei-los tropeçando entre verdades irrespiráveis, para as quais nada os preparara. Por isso, experimentam sua nova condição não como um dom, mas como um ´golpe`. Nada preparara Scott Fitzgerald para enfrentar ou suportar essas verdades irrespiráveis. O esforço que fez para se acomodar a elas não deixa, contudo, de ser patético” (p. 108).

The Crack-up é o relato pungente de uma experiência de desintegração, expressão lúcida e dolorosa da ruína de um homem que antes viveu mimado pela glória literária e a dissipação de sua fortuna e talentos num estado de orgia inconsciente e infrene. Algo dessa atmosfera, ambientada nos círculos mundanos da Paris dos anos 20, foi recriado em The Sun also Rises, de Hemingway, mas sobretudo na obra de Scott Fitzgerald. Diria que antes de tudo nos seus contos. Meu favorito é Babylon Revisited, que já contém muito do que Fitzgerald expressará em nome próprio, isento de qualquer artifício ficcional, na sua lúcida, atordoantemente lúcida escavação autobiográfica. The Crack-up é o relato de uma ruína, a lúcida descrição do desmoronamento de uma mente brilhante e de um escritor emblemático da dissipação enlouquecida de uma geração, the lost generation, espremida entre duas guerras devastadoras.

Scott Fitzgerald morreu pouco depois dos quarenta. Não resistiu à experiência devastadora documentada na sua excepcional peça autobiográfica. Sua mulher, Zelda, parceira lendária de mergulho esgotante nos labirintos sedutores da vida, entrou em pane e acabou internada numa clínica psiquiátrica, onde morreu num incêndio. Otto Weininger, acima mencionado, suicidou-se com pouco mais de vinte anos. Seu suicídio foi cercado por circunstâncias patéticas, pois escolheu matar-se na casa onde Beethoven morreu. O fato não é de modo algum acidental, já que cultuava Beethoven como o gênio supremo. Weininger legou à inteligência do seu tempo um livro crucial para Wittgenstein e outras mentes poderosas: Sexo e Caráter. Como observa Cioran, pretexto para estas páginas pouco animadoras, cada um cuida ou precisa cuidar de suportar a vida como pode. Não consigo seguir à vontade, nem de fato, o espírito do seu pessimismo. Acredito ainda que a vida encerra outros valores e possibilidades além da mera e desoladora experiência da suportação. Sem a intenção de pregar ânimo demasiado para o exercício da vida, sei que ela representa bem mais que isso.

Diário - Recife, 30 de novembro 2008.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Daniel Piza



Foi com surpresa e pesar que ontem tomei conhecimento da morte súbita de Daniel Piza. Vítima de um AVC (acidente vascular cerebral), Piza morreu jovem, sobretudo para os padrões de idade hoje correntes: 41 anos. Apesar disso, militou sem trégua no jornalismo cultural brasileiro, além de paralelamente escrever livros de biografia e ficção acrescidos de atividade de criação intelectual paralela. Sua morte constitui sem dúvida uma perda para a mídia inteligente deste país saturado de porcaria e trivialidade.

Confesso que há muito não lia Daniel Piza, sequer ocasionalmente acessava sua página na internet. Mas durante alguns anos fui leitor fiel dos seus artigos regularmente publicados no Estadão, também dos artigos escritos para a revista Continente Multicultural, atual Continente. Evitava porém seus artigos sobre futebol. Dirão que sou elitista, mas o fato é que não me interessa ler nada sobre futebol ou conversar sobre assunto tão recorrente e vulgar. Gostava de jogar futebol, meu vínculo maior com esse esporte objeto de culto e reverência universais. Meu descaso por esse assunto transposto para as páginas de um livro é tão completo que simplesmente ignorei o livro que José Miguel Wisnik escreveu sobre ele, embora esteja longe de ignorar o autor e a pessoa, com quem entretive conversa inesquecível durante um almoço no qual minha amiga Valéria Torres generosamente nos reuniu. Ocasionalmente vejo com prazer na televisão algum jogo de real qualidade. Como são cada vez mais raros, habituei-me a ligar a televisão para logo em seguida desligá-la.

Também concedi pouca atenção ao Daniel Piza que escrevia sobre política. Este é um assunto que contra minha vontade e temperamento ainda me interessa, embora tenha aprendido a me manter em guarda para lhe fechar as portas de minhas leituras e reflexões. A explicação é simples: a leitura da política é algo que quase sempre me inspira ódio, revolta e impotência. Logo, melhor evitá-la. Além disso, não sou e nunca fui militante político. Essa omissão consciente, e eticamente dolorosa, deriva de minha inabilidade para a ação, de minha incompetência ou recusa das negociações necessárias em toda ação política. Claro que reconheço e aprovo muitas delas, já que a política, para chover no molhado, é a arte do possível, não raro do possível mais vil e lucrativo. O moralista que há em mim, e não sei como refrear, menos ainda suprimir, impede-me de agir politicamente.

O Daniel Piza que verdadeiramente me interessa é o jornalista cultural. Aliás, esse foi o seu domínio preferencial, onde melhor expressou seu talento e seu valor como crítico. O melhor do que escreveu está associado às expressões características da cultura humanista. Sua formação, como ele próprio reconheceu, deve muito a escritores como Machado de Assis e Graciliano Ramos No âmbito da atividade jornalística, é também sabida sua dívida para com Paulo Francis. Sobre este, aliás, escreveu uma curta biografia – Paulo Francis, Brasil na cabeça. Além disso, organizou, segundo a fórmula dos verbetes temáticos, O Dicionário da Corte de Paulo Francis. Salvo a independência crítica com que investiu contra preconceitos políticos e culturais correntes no Brasil, país de cultura paroquial amplamente subordinada à corrupta ingerência do nosso Estado patrimonial, seu perfil intelectual está longe da singularidade ambivalente e truculenta de Francis. Quanto a Machado de Assis, seu modelo literário supremo, pelo menos no Brasil, confesso que achei decepcionante a biografia que escreveu – Machado de Assis, um gênio brasileiro. A julgar pela evidência disponível, a crítica especializada, assim como os estudiosos em geral, não lhe concedeu nenhuma atenção significativa. Jornalista muito conhecido e apreciado, não lhe faltou promoção suficiente para conferir excepcional visibilidade a seu livro sobre Machado. O que lhe faltou foi talento e maior senso de penetração crítica para competir com estudiosos do porte de Lúcia Miguel-Pereira, Jean-Michel Massa e críticos como Antonio Candido, Roberto Schwarz, Alfredo Bosi, John Gledson e outros igualmente citáveis.
Diário - Recife, 1 de janeiro de 2012.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Indivíduo e meio social


Há um desacordo irredutível entre o que somos por dentro, e até por fora, e o modo como a opinião alheia nos aprecia. Ser livre, na medida em que isso é possível, é libertar-se da tirania da opinião que não só nos vê como não somos, mas também nos escraviza à semelhança do que ela vê. Essa subordinação do indivíduo aos ditames da sociedade, ou do meio social, é corriqueira e de ordinário inconsciente, sobretudo num mundo governado pela ilusão da autonomia individual, por clichês publicitários segundo os quais somos livres para ser na vida o que quisermos. A medida da minha liberdade é a medida do meu desejo, eis o que a todo instante reiteram para nos venderem toda a sorte de produto. Lembrando Montaigne, convém não subestimar a medida da nossa cega adesão aos hábitos e convenções sociais. Por isso tantos reiteram impensadamente a ilusão de uma ordem de liberdade que não passa de automatismo induzido pela indústria do consumo.

Durante muito tempo de minha vida dei importância demasiada à opinião do outro, à sua apreciação equívoca, tantas vezes leviana e infundada, e às expectativas com que cercava minhas ações, não raro determinando-as, induzindo-me a fazer não aquilo que mais autenticamente me traduzisse, mas o que convinha à sua compreensão estreita, capricho ou mera rotina. Como se de algum modo assim me comandasse: seja assim simplesmente porque é assim que somos, ou porque se espera que assim sejamos. Foi talvez o excesso de desajuste prematuro dentro de uma comunidade mesquinha, ou a medida de uma excentricidade e estranheza que não escolhi, nem a princípio tive delas consciência, o que me impeliu a buscar vias de fuga e expressão humana orientadas para a realização do indivíduo chamado Fernando da Mota Lima.

Um dos fatos humanos que me persuadem da insuficiência das explicações sociológicas, embora seja eu um profissional desta discutível ciência, a sociologia, é a espantosa diversidade, e imprevisibilidade dos modos como o indivíduo reage às condições do meio. Quando o sociólogo teoriza sobre essa ordem de fatos sociais, invariavelmente sobrepõe o meio ao indivíduo. Isso independe de sua orientação teórica, que no contexto importa apenas para determinar os variáveis graus de subordinação do indivíduo ao meio, ou à sociedade. Admito que esta proposição geral é verdadeira quando aplicada à média humana convencional.

Os indivíduos que todavia se distinguem em todas as formas de relação e expressão social distinguem-se precisamente por contrariarem a proposição acima enunciada.
Não me refiro apenas ao indivíduo identificado pela ação heroica ou a excepcionalidade que o diferencia da massa ignara e conformista. Longe de mim a intenção de reivindicar uma concepção sociológica do herói ou do indivíduo extraordinário. Se é fato que ambos ratificam minha tese, não é fato que neles prioritariamente me baseie para sustentá-la. Penso antes em indivíduos comuns, no sentido de que se dissolvem no anonimato das massas. Noutras palavras, não gozam de nenhum tipo de fama ou reconhecimento social que lhes transportem o nome e a identidade para além do círculo em que suas vidas se manifestam. Privados embora de fama, ou qualquer tipo de glória, esses indivíduos existem contrariando com sua existência distintiva o suposto império que o meio sobre eles exerce. Não chegam a constituir uma multidão, fato que por certo representaria uma constante ameaça à ordem convencional da sociedade, mas não são tão minoritários quanto presumem os cultores do indivíduo herói. Posso dizer que conheci vários nos meios e nas circunstâncias mais diferenciadas a até imprevisíveis. A experiência que neles identifico e assimilo não concorre em nenhum sentido sociológico para a elaboração de uma teoria passível de explicar os modos fundamentais da relação indivíduo e sociedade. Seria absurda tamanha pretensão. Meu simples propósito é alertar contra qualquer ambição de determinismo sociológico.

Se o argumento acima esboçado tem alguma consistência, insisto em sustentar que tem, meu ponto de vista em defesa de um certo quinhão de autonomia e liberdade individual funciona como um antídoto para qualquer concepção determinista, para qualquer perspectiva pessimista levada ao extremo da impotência individual em face dos poderes do mundo. Apesar de tudo, apesar antes de tudo do meu próprio ceticismo, nunca duvidei de que o indivíduo pode realizar na vida algum ideal de liberdade que o distinga do conformismo corrente, da adesão resignada à ordem social, à opinião servil que o quer ratificando as expectativas falsamente sólidas do teatro social que representamos.

Diário, Recife, 02 de agosto de 2004.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Liberdade e identidade



Meus sentimentos de estrangeiro tendem a acentuar-se durante o carnaval. Sendo uma das mais profundas e extensivas expressões da cultura brasileira, portanto um dos seus momentos de suprema integração social, não é de estranhar que estados subjetivos dessa natureza se agravem imprimindo transparência à linha fronteiriça entre o eu e o outro coletivo, entre minha brasilidade gauche, sempre distanciada e dissonante, e o espírito gregário e ruidoso do povo brasileiro.

Isso se repete, em tom às vezes ainda mais exacerbado, durante a Copa do Mundo. Este, aliás, será um ano – junho e julho, mais exatamente – que me submeterá a mais uma dessas provas de brasilidade a contrapelo, de celebração futebolística contrafeita, já que sempre vivida com reserva, quando não com franca resistência à integração dissoluta no corpo da massa infranqueável ao exercício da individualidade e da alteridade.

Meu estranhamento desdobra-se ainda nas festas de fim de ano, além dos festejos do meio do ano, como é o caso das festas juninas que já tive a esperança de ver superadas pela dinâmica urbana do país. A mídia e a indústria da publicidade, entretanto, operaram recentemente no sentido de ativá-las integrando-as ao circuito do consumo e deslocando-as dos arraiais e da geografia rural para os shopping centers; para o cerne, portanto, do espaço onde se desenvolve a cultura urbana. Fenômenos dessa natureza sugerem a complexidade da dinâmica sociocultural do capitalismo em países do tipo do Brasil.

Será necessariamente negativo ou indesejável o estado de estranhamento dentro do meu próprio país? Minha amiga Vivian Schelling, culturalmente dividida numa linha de intersecção simbólica que compreende Alemanha, Espanha, Inglaterra e Brasil, muitas vezes se queixou nas nossas conversas londrinas da sua personalidade culturalmente dividida. Talvez por isso tanto se voltasse para o seu curto passado brasileiro, vivido entre o Rio e São Paulo, tingindo-o com cores idealizadoras.

Será assim indesejável ou negativo esse processo de interna divisão cultural? Se todos tendessem a comportar-se como Vivian, diria que o mundo contemporâneo, pelo menos o ocidental, estaria saturado da infelicidade gerada pela divisão cultural das personalidades. Dado isso como um fato, seria igualmente compreensível a representação regressiva e idealizadora do passado pré-moderno. Foscamente dividido por essas fronteiras que demarcam a linha da modernidade e a da pré-modernidade, o Brasil se prestaria a acomodar na sua geografia cultural o olhar nostálgico do pós-modernista contrafeito.

Recuando entretanto para a modesta e palpável dimensão da minha subjetividade, não me vejo como um infeliz ou carente de identidade socialmente integrada. Sem pretender subestimar o fardo que é viver regido por valores que não alcançam o estatuto de valor dominante na minha cultura de origem, sempre discriminei esse peso negativo do positivo. Tanto quanto aquele, este se constitui na expressão da minha personalidade como consequência muitas vezes consciente e até previsível dos conflitos implícita ou explicitamente travados no cerne da minha subjetividade que compreende valores coletivos, alguns imperativos, mas também valores individualmente selecionados.

É nessa linha de tensão em que se relacionam o eu-Fernando e o outro-coletivo que se define a minha subjetividade. Antes de concebê-la como mera expressão individual e reflexa da sociedade, aprendi que é possível investir-me do poder e da liberdade de traçar uma linha de diferença e individualidade diante dos mecanismos sociais tendentes a produzir o conformismo e a indiferenciação. Dependo evidentemente da sociedade em que vivo para me constituir enquanto entidade autônoma e individualizada sem que entretanto isso de modo algum pressuponha o consentimento ou dócil aderência aos valores dominantes.

Se um homem não é capaz de demarcar sua diferença contra o outro coletivo, não pode legitimamente falar de si próprio como um ser livre. É por isso que um dos problemas mais inquietantes da cultura contemporânea, regida pelas agências geradoras dos valores difundidos em alta e sistemática escala pela mídia, é a ilusão da autonomia e da liberdade individual. Digo ilusão porque a noção de liberdade vendida pela mídia é objetivamente uma forma de conformismo e escravização aos ditames do mercado. Seja você mesmo: beba coca-cola. Esta frase, mote publicitário do produto que anuncia, sintetiza à perfeição o que intento traduzir neste parágrafo.

Essa cultura da mídia, fundada no princípio da permissividade, da completa dessacralização dos valores coletivos, exerce a forma mais insidiosa de dominação, já que é abstrata e assim nunca se materializa num indivíduo ou instância concreta. Costumo ainda hoje lembrar um episódio que tipifica este fenômeno. Quando ensinava sociologia no curso de arquitetura da UFPE costumava selecionar alguns filmes para debatê-los com os alunos. Vimos, certa vez, Sociedade dos poetas mortos (Dead Poets Society). Um dos alunos, aliás dos mais inteligentes da turma, observou que a diferença essencial entre a escola tradicional retratada no filme e a contemporânea consistia no fato de que naquela os alunos não eram livres, enquanto o eram nesta.

Ora, o que o episódio ilustra é a crença espontânea na liberdade. Dissolvendo o princípio necessário da autoridade no seio da permissividade mercadológica, a mídia despersonaliza a liberdade dissociando-a de qualquer forma concreta de autoridade. Lembrei ao meu aluno que uma das características positivas da sociedade tradicional residia no fato de a autoridade se encarnar na figura concreta do pai, da mãe, do professor, etc. Na medida em que era visível e concreta, era por conseguinte mais fácil identificá-la e opor-lhe resistência, sobretudo nas circunstâncias em que deixava de ser autoridade para converter-se em dominação autoritária.

O próprio processo de conquista da identidade individual, um fato imperativo na vida de qualquer pessoa formada nos quadros da cultura ocidental, me parece que resultava menos problemático no âmbito de uma cultura em que a autoridade estava concretamente materializada na ação de alguns agentes sociais básicos. Na medida porém em que a autoridade tende a se tornar abstrata dissolvendo-se na ideologia da permissividade, que nunca se pronuncia no imperativo nem é veiculada por agentes identificáveis com a autoridade indesejada e hostilizável, a sensação de desorientação e impotência, sobretudo do jovem, tende a acentuar-se. Falando de modo interrogativamente concreto: contra quem conquistarei minha liberdade? A quem opor minha resistência e meu desejo de afirmação individual, minha sede de liberdade, em suma? Como reivindicar minha liberdade numa cultura onde pai e mãe não apenas estão esvaziados de autoridade, mas se tornaram presas dóceis, meros financiadores da liberdade mercadológica?

Ser livre hoje talvez signifique a recusa de ir ao shopping center comportando-se como o avesso da máquina dócil imantada à engrenagem do guichê e do cartão de crédito. Ser livre hoje talvez signifique dizer não ao carnaval, ou antes brincá-lo sem subordinar-se aos invisíveis mecanismos de pressão que nos reduzem a um número estatístico ou a uma cota negociada no mercado de ações, ou ainda a um flash sonhado na telinha da rede Globo.Ser livre talvez signifique ser ninguém ou nada no caldeirão antropofágico do capitalismo de consumo, variante tropical, Pernambuco, Brasil.

Diário - Recife, 22 de Fevereiro de 1998.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Desarraigamento


Prossigo relendo espaçadamente o excelente livro de Lewis Coser sobre os mestres do pensamento sociológico. O capítulo dedicado à sociologia de Georg Simmel sugeriu-me algumas reflexões sobre o estranho e o marginal dentro da sociedade ou sobre os grupos restritos com os quais se relacionam. Vou selecionar para próxima leitura os ensaios que Simmel dedica ao assunto e Kurt Wolff agrega ao volume The Sociology of Georg Simmel.

Sempre me senti seduzido pelo estranho, o marginal, o desajustado. Não me refiro porém a estes personagens no sentido em que expressam um estilo de vida, muito menos um grupo controlado e com frequência punido pela polícia. É verdade que na minha juventude vivi a marginalidade como um estilo de vida, sobretudo nos tempos de dissipação olindense. No caso, o estilo se combinava com uma situação de marginalidade social efetiva, pois saíra da família sem lograr definir um lugar institucional no qual minha individualidade se acomodasse. Além disso, vivi durante muito tempo pulando de emprego, notadamente às voltas com a insegurança gerada pelo desemprego e a renda instável e magra.

Tornei-me desarraigado por circunstância biográfica e também por opção. A circunstância biográfica decerto mais remota liga-se ao fato de que tive pais inconciliáveis não só entre si, também inconciliáveis com a ordem cultural em que me formei. Se a norma era o homem dominador e a mulher dócil ao comando do marido e humildemente reclusa na esfera doméstica, tive em contraste uma mãe dominadora cujo descontentamento em face do meio a impelia a desafiar as normas correntes. Quanto a meu pai, este era dócil, submisso ao temperamento violento e dominador de minha mãe. Cresci privado de qualquer contato físico com minha mãe, temendo-a ao mesmo tempo em que recebia todos os afetos do meu pai isentos de temor ou mesmo autoridade.

Como isto é um diário, não um livro de memórias, evito demorar-me na reconstituição de minha infância, mesmo nos aspectos restritos à influência direta dos meus pais. O que em resumo anoto é que suas vidas desavindas, e desde o princípio inconciliáveis, afetaram de modo traumático minha infância e adolescência. Depois de infidelidades sucessivas, algumas escandalosas, minha mãe saiu em fuga para São Paulo na companhia do amante, um reles balconista da casa comercial de minha tia. A família entrou em desmantelo e seu presumível comandante, já de si humilhado e sem energia, rendeu-se vergonhosamente ao léu da sorte. Como certo dia me disse sem nenhuma culpa aparente, apenas resignação, “criei meus filhos como Deus criou batata”.

Se não fui vencedor, fui com certeza um trânsfuga, um traidor voluntário do meu pai: recusei-me discreta e seguidamente o destino de batata. É aí que entra o desarraigamento como opção. Recusei a família como legado ou pena que me impusesse pela vida afora. Sei que fiz muito no sentido de ajudar os mais errados e confusos que eu, sobretudo meu irmão mais próximo. Por um tempo, tocado pelo ideário humanista absorvido em leituras silenciosas e difíceis, além da experiência vivida à distância da família quando voluntariamente fui estudar num internato em Palmares, empenhei-me com as mais iludidas intenções na reforma da minha família retalhada por toda sorte de problema imaginável. Um dia dei-me conta de que tudo aquilo era insolúvel e de que era justificável o egoísmo que insistentemente me soprava ao ouvido relutante: se você não pode salvá-los, tente ao menos salvar a si próprio. Foi quando saí de casa, com dificuldades imensas, resistindo ao cerco das pressões morais e chantagens sentimentais de parentes desamparados, e caí na vida.

Errei durante anos inseguros movendo-me através de uma sucessão de endereços sempre provisórios, sem emprego durável ou renda previsível. Errei de cidade e sobretudo errei de corpo em corpo agitado por fantasias promíscuas longamente procrastinadas na adolescência mais temerosa. O desejo insaciável de mulher, errante de corpo em corpo, era decerto um sintoma de carência do amor que me faltou na infância e na adolescência, assim como uma objetivação das minhas fantasias de adolescente tímido e reprimido. O auge desta fase foi meu tempo de residência à deriva e vida boêmia em Olinda, Recife, Natal e São Paulo. Ao cabo, apalpei-me exausto, física e moralmente exausto, vendo à frente o desenho de uma paisagem sombria feita de esterilidade afetiva e lenta descida autodestrutiva. Fui salvo por um concurso para professor da UFPE, Depto. de Ciências Sociais, quando afundara em estado crônico de desemprego. Classificado por um triz, pela primeira vez na vida, já por volta dos 33 anos, me vi detentor afortunado de um emprego estável iluminado pela perspectiva de imprimir sentido e força construtiva à minha função docente.

O emprego estável concorreu de modo decisivo para que eu organizasse minha vida, antes de tudo acomodando meus livros, meus ideais praticáveis e minhas rotinas mais prazerosas dentro de uma ordem material equilibrada. Zombo às vezes dos idiotas conformistas que se danam a deitar em ouvidos descuidados frases do tipo: o dinheiro não traz felicidade. É verdade que o dinheiro não é garantia de felicidade, estou dizendo algo um tanto diferente da frase difundida pelo idiota conformista, nem compra tudo. Somente os que nunca tiveram dinheiro incorrem na tolice de presumir que ele compra tudo. Ficando porém no essencial, o dinheiro nem é garantia de felicidade nem compra tudo. Daí a sustentar que não traz felicidade é passar de uma consideração realista para outra completamente idiota – e conformista, como antes assinalei.

Quanto a meu desarraigamento por opção, diria que cheguei aos 55 anos sem negociar minha liberdade e minha solidão voluntária tentado pela segurança de uma família que me garantiria confortos e privilégios que não tenho nem me fazem falta. Sou um indivíduo, no sentido em que o termo goza de vigência em sociedades liberais como a inglesa e a norte-americana. Melhor dizendo: luto todos os dias para defender essa forma precária de liberdade, tão difícil de se materializar nos labirintos de uma sociedade que mescla de forma inextricável e desnorteante a norma liberal e a ordem hierárquica, a igualdade abstrata no reino do mercado e a reiteração deslizante da cordialidade regida pelo império da ação afetiva.

Não alcancei nenhum sucesso que de resto não me propus como meta social. Por outro lado, tenho consciência de que vivo muito aquém dos meus talentos e potencialidades que, sem falsa humildade, estão bem acima da média corrente no meio em que vivo. O que importa é o fato de que nenhuma mágoa de ressentido me tira o sono ou me rebaixa à tentação de invejar tipos medíocres e desonestos agraciados por um prestígio social que nunca me concederam. Deve ser triste a frustração dos talentos ressentidos, mesmo quando indiscutível a legitimidade da mágoa medida entre a ambição e o resultado efetivamente atingido.

O que quero é viver uma vida razoável e isenta de conciliações iníquas. Reiterando os limites modestos das minhas ambições, o que mais quero e tenho realizado é viver em paz comigo iluminado pela convicção serena de que comigo carrego um estoque de memória e beleza inegociáveis. No mais, gosto de dormir e acordar sossegadamente, sem no deserto da madrugada pular da cama assaltado por pesadelos que me denunciem a medida humana menor que o tolerável. Enfim, faço de mim em mim o elogio do desarraigamento autenticador de minha liberdade e autonomia possíveis quando não passo daquilo que na minha juventude meus companheiros supostamente radicais ou revolucionários qualificavam em tom desprezível como ideal de vida pequeno burguês. O irônico é que quase todos se amesquinharam nesse ideal desprezível.
Diário – Recife, 03 de agosto de 2004.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Viagem a Buenos Aires



En aquel tiempo, buscaba los atardeceres, los
arrabales y la desdicha; ahora, las mañanas, el centro
y la serenidad. - Jorge Luis Borges.

Embora raramente converse com passageiros, ainda quando deles proceda a iniciativa da apresentação, desta feita baixei a guarda e dirigi-me à senhora loura e alta sentada a meu lado. Como em Guarulhos involuntariamente ouvira parte do que falava para uma outra mulher, e ouvira o bastante para saber que vivera muitos anos em Buenos Aires, decidi valer-me dela para melhor orientar-me no mundo portenho que absolutamente desconheço na sua dimensão prática e vivida. Muito amável e solidária, prontamente se dispôs a ajudar-me no que pudesse. Notando que era uma mulher inteligente e muito experiente, logo passei das informações de ordem prática para assuntos mais gerais e até pessoais. Conversamos assim à vontade e proveitosamente durante todo o tempo em que ficamos no aeroporto de Buenos Aires e também durante todo o trajeto no ônibus especial até a Avenida Santa Fé. Fiquei sabendo, entre outras coisas, que se chama Karin e é alemã. Veio para Buenos Aires com os pais logo depois da Segunda Guerra. Profissionalmente bem sucedida como tradutora e bem casada, pelo menos em termos materiais, em 1975 emigrou para São Paulo com a família devido ao estado de terror instalado durante a ditadura militar. Pensei de início que sua insegurança derivava da circunstância de em alguma instância haver feito oposição ao regime. Afiançou-me entretanto que saíra simplesmente porque o terror, imposto pelo Estado, quanto pelos radicais que a ele se opunham, ramificou-se pelo conjunto da sociedade pondo em risco virtual a segurança de qualquer indivíduo argentino.

Embora se abale ainda com os terríveis padrões de desigualdade social dominantes no Brasil, padrões cuja visibilidade prescinde de qualquer iniciação sociológica, Karin reitera o que já ouvi de tantos estrangeiros (se é que posso ainda tratá-la assim): o louvor à nossa extraordinária plasticidade étnico-cultural. Se de um lado rememora ainda o choque que lhe causou o atraso social observável no Rio de Janeiro do início dos anos sessenta, quando então visitou o Brasil pela primeira vez, de outro impressionou-a, como ainda a impressiona, o modo livre como culturalmente se interpenetram os contingentes formadores da totalidade cultural brasileira. Como julgo ser este um assunto de enorme importância, espero cedo retomá-lo no corpo destas anotações. Agora porém, afinal instalado no Hotel Marvella, onde arremato a redação dessas impressões iniciadas em pleno voo entre São Paulo e Buenos Aires, tudo que desejo e no momento preciso é cair na cama e dormir como quem morre: sem sonhos, som ou ruído. Pois o dia foi longo e cheio de admiráveis descobertas visto que, totalmente estranho a Buenos Aires, não descansei um minuto desde minha chegada.

Buenos Aires, 16 de fevereiro,1995
Estou simplesmente encantado com a beleza de Buenos Aires. Como Paris é meu modelo de cidade, e o traçado urbano de Buenos Aires muito se assemelha ao dela, é lógico deduzir que desde já passo a incluir a capital argentina entre as mais belas cidades do mundo. Dado seu plano simetricamente harmonioso, longas e formosas avenidas, como a 9 de Julio e a Av. de Mayo, articulando outras avenidas e imensas ruas por sua vez estritamente divididas a intervalos de cem números, somente um idiota consumado se extraviaria flanando através desses esplêndidos espaços. Ao recorte simétrico da cidade acrescentaria a beleza de suas praças. Salvo as majestosas figuras equestres, erguidas em memória de algum general ou militar libertador, é um puro luxo vaguear pela San Martin, por exemplo. Vaguear ou por outra sentar à sombra das árvores dentro da manhã de sol e observar as pessoas que passam, ou ler, como o fiz, El Império de los Sentimientos, de Beatriz Sarlo.

Se de um lado me desagradam as obras públicas representando caudilhos reinando sobre cavalos, o que figuro como sendo o limite do clichê na esfera do imaginário político-cultural, doutro é inegável que este dado encerra extraordinário valor simbólico. Indicia o papel exercido pelos militares na história política da América Latina expondo assim as bases autoritárias sobre as quais se tem desenvolvido. Outro traço simbólico relevante está inscrito nos nomes de certas ruas e títulos que traduzem o status dos heróis celebrados pela nação. Claro que também nós, latinos de fala portuguesa, padecemos desses males. Como esquecer, notadamente depois de 1964, as avenidas, ruas, viadutos, conjuntos residenciais, etc., consagrados à celebração de tiranos militares?

À parte essas e outras desvirtudes da formação histórica latinoamericana, espelhada nos cenários e simbologia dos espaços urbanos, Buenos Aires é, já o disse, um puro luxo de cidade. A ela comparada, São Paulo não passa de um opressivo monstro de concreto. De fato, vejo São Paulo como o exemplo mais calamitoso de urbanização que se possa imaginar. Se no final dos anos setenta lá não suportei viver sequer um ano, estou certo de que o mal não residia apenas em mim, na minha inadaptação individual e irresoluções autodestrutivas de fundo subjetivo. Naquele momento, tanto quanto agora, via e estimava viver São Paulo tão só como um lugar transitório, reino trepidante onde cultuo e cultivo algumas mulheres, reencontro amigos e em certas faixas restritas tomo o melhor banho de civilização possível dentro dos limites brasileiros.
Tenho despendido a maior e talvez melhor parte do meu tempo nas livrarias. Não me surpreenderam a quantidade e variedade delas porque antes já ouvira dizerem que Buenos Aires tinha mais livrarias que todo o nosso imenso e pouco letrado Brasil. Adquiri vários e bons livros. Se não dobrei ou tripliquei a medida, não foi com certeza devido à qualidade da oferta, mas sim ao fato de detestar excesso de bagagem. Ademais, outra coisa que em mim mudou devido à força obscura dos anos vividos e da minha experiência inglesa foi a superação de um desejo compulsivo que me impelia a acumular livros sem maiores critérios de qualidade e portanto de medida.
Algo frustrante observado nas minha peregrinações pelas livrarias é a restritíssima oferta de livros na área de história e crítica literária e cultural. De Angel Rama, por exemplo, que julguei ser escritor de ampla circulação no mercado hispanoamericano, alguém aqui equivalente ao que representa Antonio Candido no contexto brasileiro, dele sequer encontrei um exemplar de La Ciudad Letrada ou Transculturación Narrativa en América Latina. Somente na Fondo de Cultura da Suipacha, onde aliás conversei com um livreiro bem informado, encontrei um único e empoeirado exemplar de Más Allá del Boom - Literatura y Mercado. Trata-se de um conjunto de textos críticos sobre literatura e cultura latinoamericana apresentado em um encontro patrocinado pelo Woodrow Wilson International Centre for Scholars (Smithsonian Institution, Washington). Além de Rama, que assina a introdução e um longo ensaio sobre o boom da literatura hispano-americana, colaboram especialistas prestigiosos como Antonio Candido e Jean Franco. Conheço razoavelmente a obra de Jean Franco porque ela foi a antecessora do meu ex-(des)orientador Gordon Brotherston na University of Essex.
De Beatriz Sarlo encontrei, também com dificuldade, o acima mencionado El Império de los Sentimientos. O que me moveu a interessar-me pela obra dela foi a circunstância de há alguns anos assistir a uma ótima conferência que proferiu no Centre for Latin American Studies da University of London. Dissertando com perspicácia sobre temas de cultura e literatura argentina, declarou ter sido decisivamente influenciada pela obra de Raymond Williams.
Embora não tenha encontrado tempo para ir além da página 42, li já o bastante de El Império de los Sentimientos para afirmar que se trata de uma análise exemplar no âmbito da sociologia da literatura. Estudando a literatura popular argentina, a que também se refere como "narraciones semanales", produzida entre 1917 e 1927, indissociável da expansão de um novo público e novos padrões de consumo cultural provocados pela intensificação do processo urbano de Buenos Aires, Beatriz Sarlo comprova a fecundidade dos instrumentos críticos fornecidos pela sociologia a estudos dessa natureza.

Articulando a pesquisa empírica à crítica cultural, Beatriz Sarlo estabelece observações e descobertas luminosas para uma compreensão mais abrangente das relações entre a literatura de massa e a sociedade argentina das primeiras décadas deste século. Na verdade, algumas decisivas formulações de fundo teórico-conceitual são perfeitamente aplicáveis à análise geral da literatura concebida nos termos que indissociavelmente tende a estabelecer com a cultura de massa. Lendo o que Beatriz Sarlo escreve acerca das "narraciones semanales" circulantes em Buenos Aires entre 1917 e 1927, frequentemente me vi de modo involuntário debruçado sobre problemas dominantes na situação cultural contemporânea. Tais associações involuntárias me parecem sugerir não só a atualidade das questões literárias sociologicamente investigadas pela ensaísta argentina, mas também a constância de situações ou fatores típicos da literatura de massa. Certas características pertinentes à composição do público, artifícios narrativos, posição estético-social do autor, etc., são identificáveis, para fixar-me em alguns exemplos explícitos, tanto na literatura francesa de folhetim do século passado quanto nas narraciones semanales analisadas por Beatriz Sarlo ou ainda nas consumidíssimas telenovelas produzidas pela Rede Globo.

Não há dúvida de que minha mais preciosa aquisição foi Historia del Nacionalismo, de Hans Kohn. Originalmente publicada em inglês em 1944, a obra de Kohn pode hoje ser encarada como um clássico no conjunto da bibliografia referente ao nacionalismo. Anos atrás tive nas mãos um exemplar encontrado em uma livraria no Rio de Janeiro, mas incorri na tolice de deixar que a oportunidade me escapasse. Mais tarde, bem mais consciente da importância da obra, passei a procurá-la em vão. E eis que agora encontro um exemplar impecável, capa dura, da edição espanhola de 1984.

Perco afinal um pouco do controle que sobre mim tenho exercido e me embriago no trajeto entre a 9 de Julio e a Plaza del Congreso. Surpreende-me o preço extorsivo da bebida: enquanto uma garrafa de Brahma, produção brasileira, custa-me 4 dólares, cobram-me 8 em um restaurante por uma garrafa de um vinho qualquer produzido na Argentina. Esquecidos estes golpes extorsivos, de resto assimilados à experiência de qualquer turista, registro aqui alguns fatos e observações que intrigam meu olhar de estrangeiro. Se há tantos bares, cafés e restaurantes, como explicar sua sobrevivência, se do início da tarde até à noite os garçons bocejam de braços cruzados? Por que o centro de Buenos Aires morre tão cedo no sentido figurado da expressão boêmia ou noctívaga? Suponho que grande parte da população esteja gozando férias no interior e sobretudo fora da Argentina. No sul do Brasil, por exemplo.
Enquanto erro embriagado pela Plaza del Congreso, impressiona-me observar às 22h30 essas cenas inusitadas: crianças jogando futebol sobre a grama, velhos repousando sobre os bancos, jovens casais namorando, mulheres solitárias, sons de um violão vibrando entre a luz elétrica e a lua cheia. Parece-me tudo isso tão inusitado que me vem à memória um dos melhores poemas de Drummond: "Lembrança do mundo antigo". Dele retenho na memória o último verso: "Havia jardins, havia manhãs naquele tempo!!!"

As cenas acima surpreendidas na Plaza del Congreso somadas a outras, algumas já aqui anotadas, levam-me a considerar uma questão que, talvez mais que qualquer outra, me tem profundamente impressionado no curso desta viagem. Indago-me, em suma, como um país ferido por uma experiência ditatorial incomparavelmente mais devastadora que a nossa, igualmente varrido pela hiperinflação, logrou preservar padrões de civilidade e equilíbrio socioeconômico junto aos quais não passamos de uma taba ululante cindida pelas desigualdades mais brutais. Se em Recife e São Paulo mal consigo dormir em paz, descontado o excesso do meu juízo conscientemente apátrida, em Buenos Aires intriga-me a civilidade que me faculta ler ou comer em paz nas vias centrais da cidade, dormir ouvindo tão só o ruído do ventilador e não ser incomodado sequer pelo garçom que me serve. Confesso que, mais que intrigado, sinto-me perplexo em face dessas situações que aqui tenho vivido.

Pouco sabemos da Argentina no Brasil. O pouco que sabemos, mesmo quando se aplique a indivíduos ciosos de formar opinião para além dos preconceitos e estereótipos, como julgo seja o meu caso, tende precisamente a reforçar as imagens deformadoras que um país em geral nutre acerca de um outro, uma cultura acerca de uma outra geográfica ou historicamente dela distanciada, por vezes próxima. Noutras palavras, a imagem predominante que da Argentina assimilei está diretamente associada à violência militar quanto civil; a um modo de passionalismo mais cruento que o brasileiro; a uma tradição autoritária mais brutal que a nossa. Se entretanto me detenho em traços ordenadores do que chamaria a cultura espontânea e cotidiana de um povo, única imediatamente apreensível e de resto indiciadora das relações macrológicas dominantes em qualquer sociedade, não reluto em afirmar que Buenos Aires é mais democrática e civilizada que qualquer cidade brasileira. E mais democrática não só no que concerne às normas observáveis no cotidiano vivido, mas também na dimensão da democracia econômica. Um exemplo: embora esteja sempre nas ruas, em apenas uma circunstância, quando bebia em um bar na Avenida Cerrito, fui abordado por um mendigo. À parte este, vi apenas um outro, este devidamente "instalado", com cachorro e outros "luxos", numa calçada da Avenida 9 de Julio.

Não me esqueço de que esses instantâneos do cotidiano, colhidos em trânsito pelo olhar do turista que aqui veio apenas por cinco dias, não autorizam muitas das generalizações que venho esboçando no corpo e margens dessas impressões de viagem. Imagino com toda segurança que, para além dos limites centrais da cidade, tropeçaria o viajante com a paisagem de detritos urbanos (e humanos) similar às áreas onde se instalam os homeless ingleses, marginais terceiromundistas da banlieu parisiense ou o inferno dos drogados de Amsterdam. Importa assim frisar que minhas impressões esgotam-se nos limites de uma viagem de cinco dias circunscrita à área central de Buenos Aires. É dentro desses limites que registro o quanto me tem impressionado constatar, em termos de relação contrastiva, como na grande cidade brasileira, sobretudo na nordestina, a miséria está profundamente disseminada.

Buenos Aires, 15 de fevereiro, 1995

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Octavio Paz



Morte de Octavio Paz. Para mim, ele é o ensaísta supremo da América Latina neste século. Especifico o ensaísta por considerá-lo superior ao poeta. El Laberinto de la Soledad, acima de qualquer das suas muitas obras, é um livro ao qual sempre retorno. Refiro-me mais exatamente ao capítulo “La dialéctica de la soledad”, que reli incontáveis vezes e estou certo de que continuarei relendo com o mesmo encantamento resultante da sua densidade analítica e do primor formal do estilo de Paz. Muitas vezes recomendei este capítulo à leitura de amigos, sobretudo de amigas, interessados no assunto – a solidão relacionada à sua negação, o amor. Octavio Paz aí demonstra, com rigor e claridade expressiva, ser um autêntico mestre da argumentação dialética, que muitos tolos presumem indissociável do marxismo.

Dois outros livros seus – livros novamente de ensaísta, no caso empenhado em elucidar temas de estética e história literária com a consistência argumentativa do crítico da cultura – também me parecem fundamentais: El Arco y la Lira e Los Hijos del Limo. Em Tiempo Nublado – livro menor, mas também obrigatório para quem deseje conhecer as muitas faces do ensaísta – Octavio Paz volta-se corajosamente para o domínio da crítica política e ideológica. Digo corajosamente porque ele, ao lado de Mario Vargas Llosa e de José Guilherme Merquior, foi dos poucos que ousaram criticar com argumentos de peso, e de modo algum conservadores, a sólida hegemonia de esquerda na cultura latinoamericana que, no caso brasileiro, se encorpa a partir da década de 1930. Para que se tenha ideia dessa hegemonia, ainda hoje, no cenário do pós-socialismo real, vemos intelectuais do porte de Antonio Candido justificando ideologicamente a ditadura de Fidel Castro, aparentemente decidido a sobreviver exercendo o poder até o último suspiro, ou charuto.

Se no Brasil Merquior foi sempre desprezado e com frequência difamado por essa hegemonia, no contexto mexicano Paz sofreu problemas ideológicos similares. Durante meus anos passados na Universidade de Essex fiz vários amigos mexicanos, quase todos ligados ao Departamento de Ciência Política. Sendo todos de esquerda, novamente a hegemonia em cena, hostilizavam Octavio Paz. Um desses amigos, David Davila-Villers, odiava-o ao ponto de recusar-se a admitir um fato facilmente verificável: em 1968 Octavio Paz renunciou ao cargo de embaixador do México na Índia em sinal de protesto contra a repressão imposta pelo governo do seu país aos estudantes de esquerda. Intolerância cega gente de todos os níveis mentais.

Itinerario, publicado em 1993, pode ser lido como uma biografia intelectual condensada de Octavio Paz. Comprei-o e li-o no início de 1995, quando fiz breve visita a Buenos Aires. Minhas impressões acerca deste livro delicioso, quase todo fruído num modesto quarto de hotel, estão anotadas no diário de viagem que então redigia: De Cidade y Ciudad.

Octavio Paz morre quase ao mesmo tempo em que, no Brasil, morre o político Sérgio Motta, figura proeminente do ministério de Fernando Henrique Cardoso. Embora tenha executado medidas políticas fundamentais à frente do Ministério das Comunicações, concorrendo assim para arejar o setor corroído pelas forças do estatismo parasitário que sustenta nosso indignante atraso social, Sérgio Motta é volátil como uma folha de grama exposta a ventos e marés. Sendo assim, coincidem, ele e Paz, apenas na dimensão da morte material, já que o político também se dissipa enquanto entidade espiritual. Octavio Paz, contrariamente, sobrevive. A matéria contingente, essa se dissipa, seja ela o corpo de Paz, de Sérgio Motta, de Ava Gardner, Ingrid Bergman, o rabo da última gostosa vendida na capa da Playboy, ou qualquer outro corpo.

O privilégio do grande artista, do criador de grandes obras espirituais, seja o poema, a canção, o romance, o sistema filosófico ou religioso, é sobreviver na obra que lega à posteridade. Sócrates, Jesus Cristo, São Francisco de Assis, Shakespeare, Marx, Freud, Montaigne, Bach, Tom Jobim, Machado de Assis, Cervantes, Michelangelo, Turgueniev, Conrad e muitos outros são forças vivas e atuantes no cerne da vida contemporânea. Sobrevivem, portanto, à morte física na obra espiritual que nos legaram. É por isso que não lamento a morte recente de Octavio Paz. Sequer sinto a sua falta. Como iria eu sentir a sua falta, se viveu sempre no meu espírito e nas prateleiras da minha biblioteca desde o primeiro momento em que o li?

Diário - Recife, 20 de abril de 1998.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

O autor e a obra



“On Paul Goodman” é o título do ensaio no qual Susan Sontag generosamente celebra a morte de um intelectual eminente na cena cultural americana da década de 1960. A eminência de Goodman não se prolongou até o Brasil e se vai esbatendo nos próprios Estados Unidos. Sendo assim, diria que o ensaio importa mais devido à apreciação generosa da autora do que ao valor intrínseco do objeto. A generosidade a que me refiro transparece no descompasso entre a apreciação restritiva feita ao homem Paul Goodman e a excelência da obra por este produzida. Pois, ao mesmo tempo em que naquele acentua negativamente os traços de misoginia, infantilismo sexual e antipatia no convívio, Susan Sontag ressalta o significado renovador da obra no contexto liberador dos anos sessenta e na sua própria formação.

A tensão e o descompasso entre o homem e a obra estão sobretudo vincados nesta passagem: “I suspect there was a nobler human being in his books than in his life, something that happens often in ´literature`. (Sometimes it is the other way around, and the person in real life is nobler than the person in the books. Sometimes there is hardly any relationship between the person in the books and the person in real life.)” (Under the sign of Saturn. New York: Farrar, Straus, Giroux, 1980, p. 9).

Acredito que a situação mais frequente é a primeira, que de resto pontua, como ficou já evidente, o desenvolvimento do ensaio. Embora muito restritamente tenha convivido com intelectuais e artistas, deles provei o suficiente para frisar a frequência com que a obra supera o autor. Ousaria generalizar ainda mais afirmando que a humanidade mais verdadeira e significativa desse animal egocêntrico – mon semblabe, mon frère – reside na obra criada e não na vida vivida. Por isso há muito abrandei meu interesse e fascínio pelo convívio com intelectuais e artistas. O melhor é sem dúvida conhecer-lhes a obra, pois que nela imprimiram o melhor da sua humanidade tantas vezes falhada ou impraticável. Os poetas amam melhor com a palavra do que com o corpo e o que do espírito sobre este se deposita. Mesmo quando tenham vivido generosamente, e não nego que muitos o tenham feito, os intelectuais sublimam na obra produzida os desacertos de sua humanidade insensata.

Talvez a própria natureza dessas práticas humanas – a criação do romance ou do poema, assim como a solidão criativa do ateliê ou da biblioteca -, somada a seus modos específicos de inserção na sociedade contemporânea, concorra de forma decisiva para a acentuação dos traços narcisistas inscritos sobre a pele do artista. Bach e outros gênios anteriores ao advento do capitalismo gerador de um mercado cada vez mais poderoso destinado à circulação da obra convertida em mercadoria altamente rentável, Bach e esses outros foram homens comuns humildemente anexados à propriedade da nobreza tradicional ou da Igreja insaciável no exercício de um patrocínio artístico que lhe reforçava os mecanismos de dominação. Qualquer desses artistas contemporâneos – sobretudo os que operam no circuito da cultura de massa, onde são venerados como deuses – seria um pobre diabo dentro do sistema cultural que precedeu o capitalismo.
Concluindo com uma imagem pouco original, existem duas vias de circulação através da casa da arte: enquanto uma conduz à sala de recepção onde o artista tagarela sua humanidade narcisista ou simplesmente banal, a outra leva à biblioteca com ramificações para a sala de audição, a galeria de arte, a comunhão com a obra purificada das contingências aderentes ao ser que a produziu. Que visitante insensato escolheria a primeira via?
Diário - Recife, 6 de março de 1998.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Diário (fragmentos)



08 de junho 2004
Releio uma tradução francesa de Dom Casmurro assinada por Francis de Miomandre e revista por Ronald de Carvalho. Trata-se, portanto, de uma tradução já velha, provavelmente a primeira em língua francesa, talvez a primeira em língua estrangeira. Embora seja um modesto leitor de francês, portanto sem a devida qualificação para ajuizar sobre a qualidade da tradução, reconheço e retenho na leitura de algumas páginas alguns dos traços que mais singularizam a prosa de Machado de Assis: a ironia, o humor, o toque inconfundível do moralista iluminando com a pena aguda os desvãos perturbadores da vaidade, da mesquinheza, da autodeleitação inconsciente com que irreparavelmente nos enganamos acerca do que somos e presumimos saber sobre o outro. Quanto mais releio Machado, em português e noutras línguas que freqüento, mais me convenço da sua grandeza única, do seu indiscutível gênio literário. Reiterando o que outros já ressaltaram, fosse ele um autor de língua inglesa, ou outra de prestígio e difusão similares, seu reconhecimento seria amplo e universal. Apesar da barreira da língua, é animador comprovar que sua obra mais e mais se impõe à admiração por vezes perplexa de grandes leitores e críticos de outras línguas. Vargas Llosa e Carlos Fuentes já registraram em espanhol sua grandeza gradualmente ampliada na esfera do reconhecimento internacional; na língua inglesa, caberia destacar antes de tudo a obra de esclarecimento e difusão desenvolvida por John Gledson, que aliás assina a retradução aprimorada de vários textos de Machado, além da contribuição crítica notável contida, antes de tudo, em The Deceptive Realism of Machado de Assis. Valeria ainda acentuar a obra crítica pioneira escrita por Helen Caldwell. Aliás, somente há poucos anos, depois de tantas referências feitas por estudiosos de Machado de Assis, foi afinal vertido para o português O Otelo Brasileiro de Machado de Assis. Dois críticos ingleses, pouco conhecidos no Brasil, também dedicaram páginas surpreendentes a Machado: V. S. Pritchett e Martin Seymour Smith. Mais recentemente, importaria assinalar Susan Sontag, Salman Rushdie, John Barth e este crítico desconcertante e leitor pantagruélico que é Harold Bloom. Enfim, Machado eleva-se sobre nossa surrada tradição de nacionalismo literário na qual patinaram mesmo alguns dos nossos maiores escritores como Mário de Andrade e nossa melhor produção romântica, modernista e regionalista. A prova suprema do grande escritor é sobreviver ao tempo e no tempo submetido a continuadas, sucessivas e renovadas leituras.

09 de junho de 2004
Há pouco ocorreu-me evocar a expressão de Voltaire anotada no fecho do seu sempre atual Cândido, ou o otimismo: “...il faut cultiver notre jardin”. Dou-me agora ao luxo de me propor algumas normas pertinentes à sabedoria da jardinagem. A primeira consiste na necessidade da delimitação de uma fronteira necessária entre o mundo público e o íntimo, correspondente ao jardim. Se o jardineiro incorre no erro insensato que seria reproduzir a matéria e os valores daquele no solo em que aspira a cultivar seu mundo íntimo, será portanto inútil qualquer presunção ou ideal de vida alternativa. Noutras palavras, melhor continuar imerso no grande mundo com tudo que encerra de pequenas e grandiosas misérias. Recuso-me, por conseguinte, a trazer para dentro do meu jardim as ervas daninhas do cotidiano que me vejo forçado a viver na companhia do semelhante inevitável. Até o noticiário noturno da tv tenho me disciplinado para evitá-lo ao me dar conta de que me inspira antes de tudo indignação e ódio impotente em face das brutalidades rotineiras praticadas na nossa sociedade, sobretudo pela elite bandida deste país vergonhoso. Aponho a elite um qualificativo contraditório por não encontrar meio menos inadequado de referir-me a isso que tão impropriamente designamos por elite brasileira, notadamente a política. Talvez melhor convenha o termo proposto por Evaldo Cabral de Mello, que ao negar que ela exista de fato no Brasil opta pelo termo clientela. O noticiário brasileiro e, por extensão, o estrangeiro, ficam assim interditados no solo do meu jardim.

Dado que entendo a jardinagem como equivalente de uma estética da existência, outra norma fundamental radica no livre e continuado cultivo das artes. É dentro desse espírito que me disciplino para voltar a cantar todos os dias acompanhado pelo meu violão. Valendo-me com frequência dos meus livros de cifras, dou-me ao prazer diário de cantar meus compositores populares preferidos: Tom Jobim, Chico Buarque, Caetano Veloso, Noel Rosa, Lupicínio Rodrigues, Vinicius de Moraes, Lennon-McCartney... Outra flor cultivada no meu jardim é a literatura. Os poetas ocupam lugar especial no canteiro literário que se estende pela via central do jardim. Os mais lidos - no geral de viva voz, pois concordo com Harold Bloom que a poesia deve ser lida – são Drummond, Auden, Eliot, Fernando Pessoa, Manuel Bandeira, Murilo Mendes. Outra atividade constante que imprime beleza, emoção e esclarecimento à atmosfera do meu jardim é a frequentação dos filmes de ordinário gravados em dvd: as adaptações de obras assinadas por Shakespeare, Henry James, Jane Austen, Graham Greene, E. M. Forster, Dostoiévsky, Tchekov, Charles Dickens, Balzac, Victor Hugo, Oscar Wilde e muitos outros. Além disso, entra nesta composição a obra cinematográfica obrigatória dos meus diretores e roteiristas de eleição. Cito apenas os que me vêm de imediato à memória: Hitchcock, Billy Wilder, Woody Allen, Ingmar Bergman, Fellini, Kubrick, Christopher Hampton, David Hare, Louis Malle, Truffaut, Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Cacá Diegues, David Lean.

Há no jardim uma hora preciosa, antes de tudo porque cada vez mais rara, a hora da solidão voluntária livremente povoada pela meditação errática, a pura contemplação da noite ou do mar próximo, mas antes adivinhado que propriamente apreendido pelos sentidos. É esta uma hora rara e progressivamente difícil porque o mundo é cada vez mais sobressaltado por toda sorte de ruído: o ruído dos aviões que fazem dos céus sob os quais habito uma rota de voo obrigatória; o ruído dos vizinhos empenhados em infernizar a vida do próximo; o ruído dos carros e de suas buzinas ferozes; o ruído de semelhantes boçais e arrogantes que, atormentados por modos de vida no geral gestados pela própria insensatez com que vivem, vingam-se dos seus tormentos insolúveis atormentando impiedosamente o mundo disposto ao alcance do seu poder. Há que cultivar o jardim contra e à margem e acima disso tudo. O resto escapa a meu poder de governo do meu mundo íntimo.

21 de junho de 2004.
Li ontem o último romance de Rubem Fonseca: Diário de um Fescenino. Não é com certeza um grande romance, mas é um bom romance. Narrado na forma de um diário, como já sugere o título, nele observo a concentração da narrativa no universo da classe média carioca. Se isso não o isenta de alguns traços marcantes da ficção de Rubem Fonseca, traços associados à representação brutal da marginalidade, acentua a presença de um universo social familiar ao leitor típico brasileiro. Algo que muito prezo no conjunto da obra de Rubem Fonseca é seu afastamento consciente e confesso do forte veio regionalista presente na nossa tradição literária. Desde seu primeiro livro, Rubem Fonseca elege o Brasil urbano, notadamente o Rio de Janeiro, como provedor de temas, conflitos, linguagens e tons dilacerantes da sua literatura. Fiel a esta orientação geral, distinguiu-se antes de tudo como contista da cidade – o melhor dentre os contemporâneos – e também como romancista. Seu primeiro romance, O Caso Morel, exerceu uma influência decisiva sobre minha consciência e prática sexuais. Que mais se pode pedir ou esperar de um livro? Registrei em alguma anotação remota de um dos meus diários o significado que este romance teve sobre minha vida.
Lendo Diário de um Fescenino, assim como Pequenas Criaturas, seu último volume de contos, observei como sua veia de humorista tornou-se mais pronunciada. A meio da leitura de algumas páginas de ambos os livros, não contive o riso. Rio prazerosamente lendo Cervantes, Voltaire, Swift, Lawrence Sterne, Machado de Assis, Oswald de Andrade... Rubem Fonseca, dentre os contemporâneos, é um que me estimulam ao riso e ao prazer elevado da inteligência e do espírito que a boa literatura propicia.

22 de junho de 2004.
Hoje acordei às 4 da madrugada. É que fui dormir também muito cedo. Gosto de estar de pé nessa hora ambivalente, suspensa entre a treva da noite e as primeiras luzes do dia. É quase miraculoso ouvir o silêncio respirando no asfalto deserto das ruas, os tons vagos da aurora espanando as gotas de água do oceano. Depois o dia vai lentamente nascendo, lentamente os objetos emergem do sono profundo da noite. Vesti-me feliz, quase que às pressas, e aproveitei a trégua da chuva, que nos últimos dias privou-me do prazer de correr e bater perna no calçadão da praia, sobretudo do prazer de mergulhar na piscina. Alternando a corrida lenta e a passada longa, fui até a praça de Boa Viagem. Depois fiz o percurso de volta estendendo-o até os limites de Piedade. Quando cruzei a linha do prédio onde Ci e as meninas viveram, espremido entre dois grandes edifícios que miraculosamente não lhe suprimiram a visão do mar, respirei com saudável e comovida memória os anos mais belos e felizes de minha vida. É bom evocá-los assim, retê-los nas linhas concretas do prédio onde tudo se deu e se consumou, surpreendê-los vibrando na atmosfera da cidade insensível, sem qualquer dor, ressentimento ou nostalgia. Vivi o que pude, vivemos o possível, e assim espero assimilar à memória toda essa paisagem esplêndida que perdi sem no entanto perdê-la. Passarei sempre diante daquele prédio respirando no ar sem sombras toda a felicidade invisível que elas me deram. Mentiria se dissesse que a aceitação repousada do que nelas perdi anula qualquer traço ou desejo de volta no tempo, ou de atualização dos esplendores perdidos. O que digo é que procurei tudo aceitar e viver e agora apenas memorar tal como foi: temporário, falível e todavia inefável. Talvez inefável exatamente porque temporário e falível. Tudo que queria ainda, mas não depende de mim, era retê-las como amigas, expressar livremente em clave sublimadora todo o amor, o gozo e desejo que a elas definitivamente me prendem. Um dia escrevi um poema para Ci intitulado: Sempre. Já não lembro o poema e a preguiça impede-me de ir catá-lo numa pasta que nem sei bem onde se encontra. Lembro porém de que nele aspirei a traduzir o sentido de eternidade humana, se é possível assim dizer, do amor que a ela me prende e me prenderá enquanto eu viva. Não importa o fato de ela abafar nos desvãos da memória tudo o que poderosa e irreprimivelmente nos une. Afinal, perdemos a liberdade de nos esquecer.

24 de junho de 2004
O Diário Crítico de Sérgio Milliet cobre um período que se estende grosseiramente do início dos anos 40 a meados dos anos 50. Uma das lições que patenteia é a fugacidade da fama e do prestígio literário. Se nem tudo é moda, boa parte dos escritores lidos e celebrados numa geração – diríamos hoje num ano – cedo mergulha no esquecimento. Mesmo alguns distinguidos pelo reconhecimento geral, sobretudo pela crítica mais criteriosa, com o tempo dissolvem-se no silêncio das prateleiras, ou pelo menos são reduzidos a dimensões comparativamente insignificantes. É curioso lembrar, por exemplo, o prestígio indisputável da cultura francesa durante o período registrado no diário de Sérgio Milliet. Talvez o escritor mais contemplado nas entradas e comentários do crítico paulista seja André Gide. Era então extraordinário o prestígio internacional de que desfrutava. Milliet reitera tal prestígio dedicando-lhe algumas das melhores e mais elogiosas páginas do seu diário. Se Gide não mergulhou na obscuridade, é certo que é hoje muito pouco lido. Outros similarmente distinguidos, como Georges Bernanos e Charles Péguy, tornaram-se ilustres desconhecidos para os contemporâneos.

Dentre os brasileiros, Mário de Andrade e Gilberto Freyre merecem por certo as notas mais amplas e elogiosas. Também a crítica, de resto notável no período, é objeto de inúmeras considerações de Milliet. O destaque maior vai para Álvaro Lins e Roger Bastide. O primeiro era no geral reconhecido como o melhor crítico militante na literatura brasileira; o segundo, embora antes de tudo sociólogo, trouxe contribuição notável à renovação dos nossos estudos socioantropológicos e também literários, com ênfase, aqui, para a ponderação mais sistemática do papel que a sociologia desempenha na apreciação da obra de arte, em geral, e da literária, em particular. Sílvio Romero, Alceu Amoroso Lima, Lúcia Miguel-Pereira, Sérgio Buarque de Holanda, Antonio Candido, Rui Coelho e outros são contemplados com notas no geral elogiosas.
Outro assunto merecedor de breve registro liga-se à febre dos testamentos e plataformas dados a público pelas duas gerações concorrentes no cenário cultural brasileiro na primeira metade dos anos 40. Os termos que emprego, testamentos e plataformas, aludem, claro, a dois livros de ampla repercussão: Testamento de uma Geração, organizado por Edgard Cavalheiro, e Plataforma da Nova Geração, organizado por Mário Neme. Enquanto o primeiro reúne depoimentos e balanços literários e ideológicos da geração fautora do Modernismo, a segunda dá voz à geração ascendente, constituída antes de tudo por escritores e ensaístas de vocação crítica ratificada pelo desenvolvimento do processo cultural brasileiro. Fui dos poucos, na minha geração, a ler cuidadosamente estas obras. Encontrei-as no acervo precioso da Biblioteca da Faculdade de Direito do Recife durante minha curta e desprezada passagem pelo curso no auge dos chamados anos de chumbo da ditadura militar. Aliás, a leitura de obras desta natureza, somada à descoberta da psicanálise e dos escritores modernistas, concorreu de forma decisiva para que eu nunca mais pusesse os pés no prédio histórico do Parque 13 de Maio. Outro fator decisivo foi a leitura de O Processo Maurizius, de Jakob Wassermann. Poucos livros que li, aqui incluído Dom Quixote, tiveram sobre minha imaginação ética e estética efeito tão poderoso. O livro de Wassermann é a história de um processo de injustiça afinal reparado pela luta de um personagem eticamente grandioso. Não podia ler um livros destes sem cotejá-lo com a experiência cotidiana que me oprimia na Faculdade de Direito e no Brasil policiado pela truculência dos militares. Fiquei tão abalado que desisti do curso, pois tinha consciência de que nunca teria força e grandeza intelectuais e morais para seguir o exemplo de Etzel Undergast (tenho sérias dúvidas sobre a correção do sobrenome) como representante da lei e da justiça no país da ditadura e da injustiça.
Por fim, um breve comentário sobre a hegemonia do romance nordestino no decurso do primeiro momento historiado pelo diário de Sérgio Milliet. Tecendo elogios notadamente a José Lins do Rego – talvez, dentre os nordestinos, o que gozava de maior prestígio literário naquele período, como atesta o juízo de peso emitido por Mário de Andrade, que o distinguiu como o maior romancista brasileiro - Milliet proclama a excelência dessa corrente da nossa produção romanesca ao reconhecer que os nordestinos realizaram a ficção que os paulistas propunham ou desejariam realizar.