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domingo, 16 de julho de 2017

No Mural do Facebook XXXII


Esperança e apatia:

Esta é uma verdade óbvia: um país, sobretudo bem sucedido, é fruto da ação coletiva da maioria. No Brasil, entretanto, poucos se dão conta disso, poucos agem norteados por esta verdade. Aqui é o país da esperança. E a esperança, também é óbvio, é no geral passiva. Poucos dizem: tenho esperança num futuro melhor e por isso vou lutar para que se realize. A verdade é o oposto. Quando invocamos a esperança, é porque nos sentimos impotentes diante da realidade.
No Brasil, país da esperança, vivemos, desde Dom Sebastião, daí o famoso mito sebastianista, a espera da volta ou milagre do pai salvador, do herói redentor, do Estado provedor. Em face da natureza, dos desastres e do caos que produz, notadamente por força da nossa baderna social, invocamos a ação divina, ou a de algum santo. As chuvas juninas no Nordeste, sempre devastadoras, são obra e solução celestial.
Por isso não me canso de dizer: o Brasil é muito atrasado, um escravo da força da tradição. Quando a coisa sai dos eixos frouxos que sustentam nossa sociedade anômica (privada de ordem civilizacional efetiva), esticando a corda da insegurança e do desespero, então apelamos até para o ditador que, na nossa mentalidade de servos, é o restaurador da ordem e do progresso, um insulto que pregaram na bandeira nacional. Como alguém já disse aqui no Facebook, é deprimente ler o que escrevo. Concluindo, o problema é o meu psiquismo depressor ou deprimido, não o país incapaz de realizar um projeto de real modernidade.
(Publicado no Facebook, 1 de julho de 2017).

O mal é estrutural:
Quase sempre deixo claro que não critico os impasses políticos e econômicos brasileiros restrito à sua esfera. Nossos problemas fundamentais, que remontam à nossa origem e nunca foram efetivamente enfrentados, são de ordem estrutural. A injustiça e a violência, a desigualdade iníqua e nosso atraso crônico, são apenas sintomas de nossas irresoluções estruturais. Sem reformas profundas nas esferas essenciais da sociedade, nunca seremos uma nação verdadeira, nunca uma democracia moderna. Os males estão em tudo, inclusive na esfera das relações íntimas, a começar pela família.
Já me cansei de afirmar que, bem longe desses mitos consoladores que envaidecem nossa mentalidade nacionalista e provinciana, somos uma sociedade anômica, isto é, privada de normas que imprimam sentido à nossa existência social e individual. Com ou sem a podridão que vaza de todos os esgotos do poder político, quase nada no Brasil funciona, ou funciona segundo princípios básicos de respeito aos direitos humanos, à efetiva noção de cidadania, à interação de cidadãos de fato, não de letra vazia gravada na Constituição e nos códigos que são modelos de modernidade. Mas isso existe e sempre existiu no papel. E papel, dizia Graciliano Ramos, que sofreu a brutalidade real avessa à letra da lei, papel aceita tudo. O que não nos falta é lei para tudo, tudo bonitinho no papel. No mundo real, somos ainda um fazendão de bacharéis e doutores, de mandantes e subordinados.
É óbvio que a realidade é muito mais complexa. O fazendão tem tecnologia de ponta, medicina idem e muito do que de mais avançado proveio e prevalece nas nações modernas. Mas o que de fato importa é que essa modernidade periférica se realiza sem superar as forças retrógradas e contrárias a tudo que em princípio é símbolo dos avanços e aperfeiçoamentos da ordem social contemporânea. Aqui a arquitetura de ponta se eleva espremida entre mocambos e favelas; o carrão top, provido da tecnologia mais avançada, esbarra no carroção do catador de lixo, o luxo e o lixo são indissociáveis, atrelados numa imagem de horror surreal que dissolve todas as teorias explicativas. Nem somos atrasados nem modernos. Por isso Kafka e sua imaginação ambígua e profética estão praticamente ausentes de nossa literatura. Quem precisa de literatura kafkiana quando ela é nossa própria realidade?
(Publicado no Facebook, 6 de julho de 2017)

A sensação de morrer:
Já ouvi vários relatos relativos à visão ou sensação de morrer. Há quem tenha visto uma figuração do céu ou além; há quem tenha ressuscitado convertido a alguma fé e experiências ou visões semelhantes. A minha, de alcance bem menos místico ou extremo, foi de uma serenidade indescritível. Depois de escapar por milagre de uma violenta colisão, provocada por uma amada seduzida pelo extremo da vida e da droga, voltei a mim numa sala de hospital entre máquinas congeladas (era a minha sensação).
De repente, tive uma estranha sensação de morte. Achei que estava morrendo. Só que essa sensação não me causou nenhum medo ou pânico. Pelo contrário, foi a maior experiência de serenidade e paz que senti na minha vida. Daí, salvo do desastre e da morte, mais tarde deduzi que a morte em si nada tem de aterrorizante nem anunciador de qualquer transcendência religiosa. Isso não quer dizer que me libertei do medo da morte. Reflito sobre ela com frequência e isento de medo. A ela devo alguns dos melhores poemas e meditações que escrevi. Nada mais além disso. Epicuro dizia não haver motivo para temê-la, pois quando somos ela ainda não é e quando ela é, já não somos. A formulação metafísica é bela, mas duvido que nos reconcilie com o medo da morte. São raros os que morrem com a serena coragem de Sócrates, Montaigne, Epícuro e os grande estoicos.
(Publicado no Facebook, 15 de julho de 2017).

Um mundo enfermo:
Detesto medicalizar a sociedade, até por por reconhecer a distinção elementar entre indivíduo e sociedade. Mas não há dúvida de que estamos vivendo numa sociedade doente. Grande parte da nossa doença individual, dos sintomas patológicos que sofremos, deriva de um estado de anomia e aridez espiritual que tem raízes socioculturais. Poderia expor uma infinidade de evidências para que isso não pareça mero subjetivismo.
Antes de tudo, a história humana foi sempre mutável. Algumas das suas crises mais profundas foram fundamentais para a renovação da sociedade. Esta que vivemos, no entanto, é de uma aceleração e de uma profundidade sem precedente. No curto intervalo de uma geração ocorreram mudanças para as quais somos incapazes de nos adequar positivamente. Estamos doentes porque a sociedade está doente.
E o mais grave é constatar que não sabemos o que fazer da nossa desorientação, do nosso desgoverno, do nosso mergulho sem âncoras em direção a um país cujo abismo não tem fundo. Sei que tudo isso que escrevo é deprimente, mas é real. Estou vivendo isso todos os dias, dentro e fora de mim. Quem quiser ou precisar, que se engane. Desafio qualquer gênio ou deus a assinalar uma saída para o caos em que vivemos.
O povão, regido pela alienação do rebanho, não está nem aí. Quanto mais o abismo se abre, mais fazem festa, se drogam, desprezam a realidade. Quanto à " elite", que Evaldo Cabral de Mello, justamente chama de clientela, escava ainda mais o abismo. O mais grave é a indiferença humana que se agravou, fruto da tecnologia digital. As pessoas estão cada vez mais solitárias e desamparadas. Por isso amam gatos e cachorros. Privados biologicamente de liberdade, estes são mais dóceis e servis ao nosso egoísmo. É isso aí. Deprimente ou não, é assim que grosseiramente percebo o mundo em que vivemos.
(publicado no Facebook, 16 de julho de 2017)

quinta-feira, 1 de junho de 2017

No mural do Facebook XXX


A solidão da noite:
Acesso o Facebook porque neste momento me sinto muito sozinho, sofrendo um modo de solidão raro. Previa encontrar a tagarelice política de sempre. Também eu me indigno, me desolo assistindo a tudo isso que vai ao mais fundo esgoto do país. Mas essa obsessão com tudo que há de podre no que estamos vivendo não é também um sintoma da aridez das nossas vidas? Vejo tanta gente solitária e infeliz, tanta gente carente de amor, amizade, dos gestos de humanidade que dão sentido a nossas vidas. Mas quase todos se prendem a tudo que há de pior na nossa realidade, aos apelos de mudança e justiça abstratas enquanto nos ignoramos e mudamente acenamos para o vazio na solidão das ilhas que habitamos.
Queria simplesmente uma voz amiga, alguém em quem me reconhecesse e reconhecesse minha humanidade, um modo de vida e país que estão devastando. Estou nauseado de tanto ler ou ouvir falar dessa política suja, de todos esses bandidos que estão destruindo o que resta de vida bela e decente neste país. E assim, solitário e carente no deserto da cidade sem gente, me perco do meu senso de discrição e privacidade e assim desabafo sem esperança de um eco humano que replique: "Aqui, Fernando, aqui também fala no deserto da noite outra voz carente de humanidade, de um senso de presença e delicadeza que estamos suprimindo do solo quotidiano de nossas vidas".

Qual é a sua droga?
Drummond escreveu num poema que cada um tem sua droga. A dele, está no poema, é a poesia. Freud morreu viciado em charuto. Fumava uma média de 20 por dia mesmo sofrendo estoicamente de câncer na mandíbula e mais de 30 cirurgias durante seus últimos 16 anos de vida. Também ele dizia: o ser humano não pode viver sem algum tipo de droga. Qual é a sua?
Tenho as minhas e algumas são muito saudáveis. Sem elas, minha vida seria mais infeliz, ou menos tolerável. Portanto, deixemos que cada um viva de suas drogas. Mas escolho meus drogados.
Confesso que ando fugindo dos drogados pela política. Estes parecem ignorar que atacando, perseguindo, odiando todos esses bandidos incontáveis, os que convertem a grandeza da vida em esgoto e sarjeta, estes indignados obsessivos estão injetando o que a vida tem de pior no recesso da sua liberdade, naquela esfera única de nossas vidas onde podemos ser mais livres e saudáveis.
Jamais permiti nem permitirei que esse esgoto da vida contaminasse o melhor do que sou, vivo, penso, compartilho com os que elegi para fazer de minha vida algo melhor. Pense nas drogas que você injeta na sua subjetividade. Pense ainda em se curar ou pelo menos manter à distância tudo que você odeia e deforma sua percepção e vivência da realidade. Saiba que, se não fizer isso, a vítima maior será você. Por isso quero ser fiel ao cultivo do meu jardim,como diria Voltaire. Todos os dias rego algumas drogas preciosas. São elas que conferem sentido e beleza à minha vida.
(Publicado no Facebook, 20 de maio de 2017).

A inconsciência nacional brasileira:
Quando Macunaíma perde Ci, a Mãe do Mato e único amor de sua vida, e em seguida a muiraquitã, pedra mágica presenteada pela amada, viaja para São Paulo à caça do Gigante Piaimã, que se apropriara da pedra. Antes, porém, deixa a consciência na ilha de Marapatá.
Segundo a lenda, os que iam para a floresta amazônica explorar os seringais deixavam a consciência na ilha antes de mergulhar na aventura em busca da riqueza. Aventurar-se voluntariamente sem consciência significa fazer qualquer coisa por dinheiro. Pensemos aqui nos "seringueiros" da nossa classe dirigente. Depois que mata o Gigante e retorna à floresta, Macu vai recolher a própria consciência, mas não a encontra. Então pega a de um hispano-americano e se dá bem do mesmo jeito. Sei que é possível ler o texto de muitos modos. O que ressalto é que também traduz a inconsciência do herói da nossa gente.
Precisei espremer o contexto do meu argumento para chegar ao presente que mais importa. Estamos mergulhados na mais grave crise da nossa história republicana, que aliás, nunca chegou a ser isso. Num país cujo povo tivesse consciência nacional, haveria no mínimo uma reação popular que forçaria uma mudança radical. Aqui, no entanto, a maioria, assiste ainda bestificada (como diz certa frase famosa sobre a Proclamação da República, que não passou de um golpe de Estado) à podridão sem precedente vazando dos esgotos e invadindo as ruas.
O povo continua bestificado. Imaginem como reagiriam os corinthianos, por exemplo, se o time caísse para a 2a. divisão, ou simplesmente fosse ameaçado por tamanha tragédia. O povo no Brasil continua constituindo unidade nacional se se trata de futebol ou carnaval. O que estamos vivendo é para mim uma prova de que estamos ainda longe de constituir, enquanto povo, uma entidade nacional.
(Publicado no Facebook, 24 de maio de 2017).

sexta-feira, 15 de julho de 2016

No Mural do Facebook XXI


A Solidão e seus Avessos:

Leio uma pesquisa sobre os efeitos nocivos da solidão. Esses efeitos seriam não apenas psíquicos, mas também orgânicos. Não discuto isso, até por não ter competência para tanto. O que discuto é o conceito de solidão implícito nessas pesquisas que ocasionalmente leio. É como se o sentido da solidão fosse evidente. E daí para as confusões rotineiras a passada é bem curta. Por exemplo: o solitário, compreendido negativamente, é o que vive ou está sozinho. No Brasil em particular, onde ainda são fortes os vínculos de família e gregarismo, o solitário é visto com um vinco de preconceito inegável. Se você é solitário, não casado ou não casou, não tem família identificável, é provável que seja uma pessoa difícil, complicada, no limite deslize para a misantropia.
Como sou parte da categoria dos solitários reconhecíveis, esclareço que os momentos mais belos e prazerosos de minha vida foram momentos de convívio, momentos inconcebíveis sem o outro que é meu semelhante e amo ou amei. Por isso fico à vontade para desmentir os preconceitos acima, embora pouco articulados. Além disso, falo um poucos dos que estão do outro lado da cerca, para que fique claro que essas distinções nunca são simples.
Não conheço nenhuma família feliz, contrariando o inesquecível capítulo de abertura de Anna Karenina, de Tolstoi. Também ressalto a solidão dos que vivem em família, como foi meu próprio caso. A solidão dos amantes, mesmo os que se amam de verdade. E quantas vezes não ouvi confissões intransmissíveis de amigos de ambos os sexos no momento em que desce o pano das convenções hipócritas?
Só um exemplo recente: a meio de uma consulta médica com um amigo, disse que gostaria de casar. Aleguei estar ficando velho, etc. Ele retrucou imediatamente: "Não faça uma loucura dessas. Estou casado há 25 anos e vivo de mentiras e conflitos. Não me separo porque não sei viver sozinho, como você".
Em suma, não recomendo solidão a ninguém. O que sei é que amo a minha, na medida em que é voluntária, na medida em que a tornei parte dos meus mais rotineiros e indispensáveis ofícios e prazeres: a leitura, a arte, a música, a reflexão, a carência pura e simples de ser comigo o que somente comigo posso ser. Mas existe também a solidão involuntária, que é dolorosa, mesmo na vida de quem escolheu e ama a solidão. Quem acaso tiver interesse em refletir melhor sobre o assunto, recomendo o livro Solitude, de Anthony Storr. Soube que foi traduzido no Brasil, não sei se com o mesmo título. É um livro belo, sensato e isento dos preconceitos correntes sobre a solidão e seus avessos.
(Publicado no Facebook, 10 de julho de 2016).

Literatura não é biografia:

O poema não é um documento biográfico, me disse meu amigo poeta. A frase lhe saiu com sabor de queixa, do desânimo de quem se sente incompreendido pelo leitor. Como todo autor, ele precisa do leitor, é em parte por este que escreve, mas seus poemas não são documentos biográficos. Lidos nestes termos, o leitor concluiria que seus poemas são a confissão de um homem solitário e insone, atormentado por memórias dolorosas. Foi isso o que lhe disse uma amiga com a comovente intenção de o consolar de suas dores derivantes do modo como ela leu o poema. Era um poema, claro, sobre a solidão e a insônia.
Mas o poema, repisa o poeta, não é um documento biográfico. Ele dorme bem, vive em paz com sua memória, embora sofra a carência do amor, a aridez desses tempos difíceis que vivemos: tanta infelicidade e solidão gritadas e dissimuladas nas redes sociais contra os políticos corruptos, com perdão da redundância, contra as mazelas insanáveis do Brasil.
O poeta, ser sensível decerto em demasia, lamenta não apenas a incompreensão da leitora que desastradamente o consola, mas a realidade sem vias de fuga. Ora, dirá quem me lê, como um poeta não encontra na imaginação vias de fuga da realidade? É outra incompreensão que também desola o poeta. Como é banal o preconceito de que a poesia é uma fuga do real. Lembrou-me o dia em que, cuidando de um amigo operado num hospital, recebeu a visita de uma médica enquanto lia Drummond para o enfermo, gravemente enfermo. Nunca esqueceu o que ela disse: "Por favor, não me fale de Drummond. Estou farta de realidade".
Em suma, todo poema verdadeiro é necessariamente belo, mas talvez insuportável para quem se contenta em viver na superfície da realidade ou simplesmente não suporta a provação do mergulho para o fundo da superfície. Por fim, reiterando ainda a queixa do poeta, o poema não é o reflexo do que o poeta vive. O poeta é uma antena do que é humano, não Narciso enamorado de si próprio nas águas da arte.
(Publicado no Facebook, 14 de julho de 2016).

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Pesquisa sobre a solidão



A doutora é tão boazinha... Envia essas pesquisas sobre os doentes de solidão, e outras indesejáveis doenças, somente para acelerar minha morte, ou me levar ao desespero de escapar da solidão casando com uma megera. Removi o link, mas saiba que li a pesquisa antes. Sério, doutora, sem ser médico, sei que a solidão, sobretudo o isolamento, que é algo diferente, pode causar muito mal às pessoas. Mas isso ocorre com quem não sabe o que fazer de sua solidão. Há pessoas que vivem a solidão de forma ativa e criativa. É o meu caso. É o caso, penso, de toda pessoa dotada de subjetividade autônoma.

Daniel Lima, uma das pessoas mais solitárias que conheci, voluntariamente solitária, morreu com 95 anos de idade. Foi a pessoa mais alegre, divertida e fascinante que iluminou minha vida, também a mais livre. Se não qualificamos os diversos tipos de solidão e solitários, parece-me que a pesquisa não faz isso, não há como compreender os efeitos psicológicos e orgânicos distintos que a solidão exerce sobre uma pessoa como Daniel e os solitários infelizes e atormentados que andam por aí.

Meu pai, por exemplo, que não pôde estudar e governou desastrosamente sua vida, não sabia o que fazer de sua solidão na velhice. Ficava se balançando numa cadeira de balanço, sem ter o que fazer, remoendo memórias infelizes e isolado. Aprendeu até a gostar de futebol ouvindo jogo com radinho de pilha para ocupar-se com alguma coisa. Não é o meu caso, fique certa. Tenho uma vida muito ativa e criativa. Não sinto nenhuma diferença de ócio e rotina entre minha vida de professor e a de aposentado. Aliás, sinto-me agora melhor, pois estou livre do trânsito e dos alunos desinteressados e mal comportados, ignorantes por convicção, que me aborreciam na universidade. Portanto, se você pensa que vou adoecer de solidão e morrer logo, procure outro viúvo para herdar fortuna. Vou viver pelo menos até os 90. Em tempo: apesar da sua solidão infeliz, meu pai viveu até os 90 anos. Tivesse ele a velhice mais saudável que hoje vivo, com certeza teria vivido mais. Tenho tanta vida pela frente que já estou pensando numa forma indolor de suicídio.

Doutora: Continuando, acho essas pesquisas no mínimo discutíveis. Elas podem aferir os efeitos negativos da solidão em pessoas com o perfil dos inativos, ociosos e isolados, mas não estabelecem qualquer comparação com os solitários saudáveis, que precisam inclusive da solidão para realizar muitas de suas tendências mais pessoais inconciliáveis com o convívio indesejável ou vicioso. Por exemplo: pessoas que apreciam literatura, arte e outros afazeres criativos precisam de solidão, seriam infelizes se fossem privadas de um espaço próprio e exclusivo. Além disso, duvido que uma pessoa incapaz de viver bem consigo própria, de andar em bons termos com a própria sombra e voz que mais verdadeiramente a revelam, possa viver livre e criativamente na companhia do outro. Não acha que quem é incapaz de viver bem consigo próprio é também incapaz de conviver bem com o outro? O convívio harmonioso é apenas o correspondente da solidão harmoniosa.

Outra coisa: antes a solidão do que a vida de família ou a vida de casado que conheço na maioria dos casos. Quantas pessoas não vivem em infernos domésticos e continuam dentro deles por que são incapazes de viver sozinhas? Quantas não se refugiam na ilusão, nas fantasias mais insensatas, contanto que a realidade intolerável lhes escape? E o que dizer desse gado errante, ululando sua histeria vazia nos mega shows e tantos espetáculos áridos acionados pela sociedade das massas? Se não estabelecemos esse tipo de comparação, como é o caso da pesquisa que você me enviou, o estudo não tem nenhuma validade, ou tem apenas para as pessoas cujo perfil de solitário eu qualificaria como negativo.

A velhinha mais generosa, viva e ativa que conheço escolheu morar sozinha num pequeno apartamento. Tem já 80 anos. Depois de uma vida inteira dedicada ao marido, filhos, netos, incontáveis parentes atados à corrente da família extensa ainda típica da nossa região fundada no patriarcalismo, descobriu que precisava viver sua solidão voluntária antes de morrer. Ninguém na família compreendeu sua decisão. Daí a perplexidade de alguns, de outros a suspeita de que sua escolha seria sintoma de alguma mágoa da família, algo indesejável e inconfessável. Nada disso. Queria apenas viver a solidão de que se sentiu privada a vida inteira. Queria sua ilha inviolada onde afinal poderia conviver consigo própria isenta do tumulto das gentes, das invasões rotineiras e não raro estafantes. Apesar do amor ao marido, que ainda impregna sua memória e ilumina sua solidão voluntária; apesar do amor que devota aos filhos e netos, sentiu que precisava viver uma dimensão de sua vida anulada ou comprimida pela presença contínua de uma família ampla e absorvente. Hoje equilibra de modo saudável os dois pratos no geral tortos da balança: a solidão e o convívio, sua ilha de eleição e a companhia ruidosa da família. É uma das poucas pessoas felizes que conheço, ou pelo menos capazes de harmonizar esses extremos desavindos da vida.

Anthony Storr, psicanalista inglês, escreveu um belo livro intitulado Solitude. Já o comentei um pouco no meu blog. É o melhor estudo psicológico que conheço sobre a solidão. Ele apresenta um quadro totalmente diferente da solidão. Ressalta, por exemplo, o quanto ela importa como fonte de realização artística, científica e intelectual, o quanto ela é importante para a pessoa comum, que pode aprender a conhecer-se melhor, a conviver melhor consigo própria. O livro dele foi traduzido há pouco. Acho que valeria a pena conhecê-lo, pois, como lhe disse, é o melhor estudo que já li sobre a solidão.

sábado, 23 de junho de 2012

Som e Fúria


Peço perdão a Shakespeare por saquear o título desta crônica de uma das passagens mais citadas, parafraseadas e parodiadas de sua obra. Não bastasse tanto, vou rebaixá-la ao nível do meio-fio em que servilmente medimos nosso cotidiano. A fúria, ou o ruído que sobressalta o ambiente urbano em que nos movemos, há muito suprimiu o espaço e a configuração contextual dentro da qual o som habitava. Como fruir o som e habitá-lo com nossa civilidade e sensibilidade num mundo movido pelo ruído que se tornou compulsório? Como conjugar o som à solidão num mundo cuja superpopulação ocupou o espaço vazio com seu alarido incessante?

O ruído não se impõe apenas nos ambientes mais densamente povoados, como o trânsito infernal das nossas grandes cidades e o shopping center, templo e paraíso da sociedade de consumo. O ruído foi imposto nas clínicas e hospitais, nas igrejas e até nos mosteiros. Talvez em alguma montanha remota, cuja existência ignoro e não foi ainda saqueada por nenhum guia turístico, sobreviva algum mosteiro consagrado ao exercício da religiosidade dissociada do século. Mas até isso me parece duvidoso, já que vivemos num mundo em que a fronteira entre o sagrado e o profano, fundamento da distinção entre a transcendência religiosa e a imanência secular, está se apagando. O padre, o pastor, o oficiante de qualquer seita religiosa, tornou-se um ídolo de massa como um artista pop. Basta lembrar o exemplo do padre Marcelo Rossi. Portanto, o espaço da religião já não é provedor de som e silêncio, já não existe fonte de separação momentânea do século regida pelo recolhimento e a meditação, a solidão impregnada pela corrente mística avessa ao tumulto do século. Saltando da esfera da religião para a da cultura letrada, como entregar-se ao exercício da leitura num mundo como o que acima esbocei? A conversão da livraria em espaço de comércio promíscuo, misto de discoteca, bar e cafeteria, dvdteca e parque infantil, anulou o leitor.

Costumava há alguns anos frequentar a Livraria Cultura, provavelmente a mais poderosa rede de livrarias do país regida por essas novas funções e expressões da cultura radicalmente mercantilizada. Meu dia preferido era o sábado à tarde. Ia à livraria para conferir os novos lançamentos, explorar prateleiras ainda desconhecidas e também comprar livros. Ocasionalmente via e conversava com amigos que já me habituei a encontrar apenas no Facebook. Ora, ninguém explora um acervo sem em algum grau o ler para formar uma noção razoável do que é, da medida em que interessa ao leitor. Portanto, a livraria é a instituição onde compramos livros e portanto é também um espaço de leitura. Como no entanto praticá-la, a leitura, atormentado pelo zum-zum dos consumidores ansiosos, os gritos das crianças que correm e saltam e gritam entre prateleiras, o ruído incessante do rock pauleira vibrando nas paredes e reverberando nos ouvidos sitiados do mísero leitor carente de reclusão e silêncio?

Tentei trocar o sábado à tarde, hoje intolerável, pela noite da terça. No domingo, nem pensar, pois é o dia em que os pais, letrados e iletrados, liberam a criançada para converter a livraria num parque de diversões. Afinal, aonde levá-la numa cidade privada de espaços de associação livre e lazer? As poucas praças e parques que temos, no geral degradadas pelo abuso da população e o descaso dos governantes, são de uso quase exclusivo da população pobre. Os abastados, as camadas possuidoras, refugiam-se nos shoppings e condomínios, também nas livrarias.

Por isso troquei o sábado pela terça à noite. Mas logo constatei desolado que a fúria não poupa o som e a solidão em nenhum dia da semana. Lá estão as crianças gritando e saltando, lá estão os pais e consumidores falando alto no celular, entretidos em conversas intermináveis e indiferentes ao leitor espremido entre as prateleiras; lá, ainda e sempre, vibra o som do rock pauleira ou o pagode. Apertado pela necessidade biológica, o leitor expelido da livraria vai em busca do sanitário – ou banheiro, como reza o eufemismo corrente. É lá, logo descobre, que a fúria é mais ruidosa.
Onde esconder-se na cidade povoada pela fúria? O leitor retorna à livraria e tenta entregar-se à leitura digestiva, que prescinde do som propício à leitura concentrada. Folheia a edição mensal da revista da Livraria Cultura e logo esbarra numa curiosa ironia: o editor dedica o editorial ao tema do barulho. Noutras palavras, deplora e até acusa o ruído dominante nos nossos formigueiros urbanos, como de resto o faço nesta crônica. A ironia consiste, claro, no fato de que é a própria livraria que hoje afugenta o leitor, que o impede de circular civilizadamente no seu espaço. Será apenas ironia ou a inconsciência gerada pelo fetiche da mercadoria, como diria Marx?

E se o leitor tiver por acréscimo a infelicidade de adoecer? Encontrará acaso, em meio à cura da dor e da doença um espaço onde possa se refugiar na leitura, na solidão propícia ao convívio indesejável com a doença? Vá o enfermo a qualquer clínica, hospital ou consultório da cidade. Encontrará uma televisão ligada em todas as salas, sobretudo na sala de espera. Como o que mais fazemos nas nossas instituições de saúde é esperar, não apenas a cura, talvez tenhamos a fortuna de encontrar remédio para a dor de adoecer, mas nunca para a dor de viver privado do som e do silêncio. Portanto, bendita seja a morte, último refúgio do silêncio.

Encerro a crônica com o relato de uma anedota que bem a ilustra. Há anos, provavelmente em 1998, recebi a visita de uma amiga inglesa com quem muito convivi na Inglaterra, inclusive imersos, ela e eu, na atmosfera de som e silêncio, de solidão e confidência. Casada com um baiano, veio ao Brasil e passou cerca de dois meses em Salvador antes de vir encontrar-me em Recife. Levei-a, logo que chegou, para conhecer a Praia dos Carneiros, então ainda uma praia quase privada. Graças à amizade generosa de Zildo e Léa Rocha, pude dispor da chave da casa onde tantas vezes, também na companhia do nosso amado Daniel Lima, vivi momentos preciosos de recolhimento, solidão e convívio prazeroso com esses e outros amigos.

Chegamos ao entardecer e logo nos acercamos do mar. De repente, a lua cheia emergiu do fundo das águas recobrindo a paisagem com sua luz majestosa. Foi um momento de beleza miraculosa e indescritível. Voltando-me para minha amiga, vi lágrimas escorrendo pela sua face iluminada. Perplexo, perguntei-lhe por que chorava. E ela me respondeu com estas palavras que ficaram gravadas na minha memória de brasileiro perdidamente desamparado de som e silêncio: “Fernando, I´m listening the silence in Brazil for the first time”. Hoje isso seria impensável na própria Praia dos Carneiros, que há anos entrou no circuito turístico do Brasil.

Recife, 2 de junho de 2012.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Madrugada na praia II



A solidão é um exercício de escuta
absorção na silenciosa atmosfera dos objetos.
Quando tudo aparentemente dorme
os sentidos captam no ar
infinita variedade de vozes
no sono da noite pulsando.
Aviões descrevem rumorosa viagem nos céus
livros falam pela voz dos símbolos
objetos compõem um mundo impregnado de presenças.
Estou só
e no entanto
a solidão não é.

Porto de Galinhas, agosto 1987.

domingo, 14 de agosto de 2011

Solidão



Quem cuidará de mim quando a doença
Enfim chegar tangida pelos anos
Quem velará no céu minha descrença
Quem meu silêncio à borda do piano?

Quem me amará ao sol desse deserto
Onde meu grão fenece à luz do outono
Quem “meu amor”, dirá, “meu peito aberto
Na solidão embalará teu sono”?

Quem na velhice, quando ela chegar
A mão na minha medirá a estrada
Passando assim, pois tudo há de passar
E a sombra é sobra e é tudo que é meu nada?
Recife, 13 de agosto de 2011.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Nuit des Ténèbres



Como explicar o fato de o Brasil piorar até quando se desenvolve? Embora já incluído entre as sete mais poderosas economias do mundo, olho à minha volta e vejo tudo pior. O que meus sentidos e minha percepção crítica constatam é confirmado pelo noticiário corrente: cidades convertidas em infernos urbanos, rodovias intransitáveis, nossos brutais padrões de desigualdade social visíveis nas situações mais comezinhas... O capitalismo que criamos é selvagem e ponto. Portanto, como explicar que o país piore quando cresce em ritmo estável? Tenho meus palpites, que todavia não gastarei nos limites estreitos de uma mera nota sombria repassada da minha desilusão com o país em que nasci e vivo.

Tanto viver, a tanto aspirar, para ao cabo despencar nessa noite de trevas. Olho à minha volta e sei que estou sozinho e vago na noite sem pouso ou companhia. A solidão, antes de ser a que conquistei como expressão da minha liberdade individual, é hoje a solidão sitiada de quem recua e se isola como último recurso de integridade contra as forças opressivas do ambiente. O amor seria a única via passível de nos salvar e entretanto é apenas um grande mal-entendido e os amantes não se sabem nem se compreendem, irredutíveis na sua natureza egoísta. Dormir. Resta-me dormir, quando o sono vier, para acordar amanhã e tudo refazer sem ilusão ou esperança.
Recife, 7 de julho de 2011

O desânimo desce sobre mim nesta noite de sexta-feira. Desânimo que é também desgosto dessa vida encerrada em horizontes mesquinhos. O desejo de amor vem e me fere a carne. Meço como sempre as possibilidades de amor, até mesmo as disponibilidades discerníveis no círculo do meu convívio, e todo na casa me fecho como ilha incomunicável, ou navego como um barco sem cais. Luiza Cage é mais um problema que um verdadeiro caso de amor. Maria J. é o amor sublimado em afinidade moral. Há mulheres lindas que desejaria amar. Mas sempre entre elas e mim se interpõem obstáculos muitas vezes obscuros, códigos embaçados colidem e tudo ao cabo se dissolve em frustração amorosa. O mundo não vale o mundo e o raso medido é fundo. Ou não sei ou por outra me tenta agora refazer a frase. Quem sabe o raso medido não seja apenas raso, já que, induzidos pelo conformismo e a baixeza moral diante da vida, medimos não mais que a rasura visível na aparência dos nossos móveis de carne? Uma saudade indecifrável, voz de uma fala perdida ou nunca alcançada, repica no bojo da memória, ou me atravessa obscuramente o coração desamado, e afinal me decido a dormir como quem momentaneamente morre.
Diário – Recife, 5 de abril de 1998.

Van Gogh
He was a lonely and suffering man. He never knew what people call love and happiness. I mean, he loved his brother and his brother loved him. But they never found the proper way to convey their mutual feelings. He painted some of the most beautiful and agonizing pictures of modern art. And yet he did not sell at least one of them. He tried a true friendship with an outside artist like himself. They did not succeed and separate like crazy enemies. One day he shot himself in the middle of a yellow and windy field. He died after a few and agonizing days. Nowadays he is famous and his pictures worth millions of pounds. Life is meaningless.
Diário - Recife, 6 de abril de 1998.

Desenraizamento
É fato que sofro, que há muito venho sofrendo a carência de uma vida melhor vivida, isto é, melhor compartilhada. As condições do meio são intratáveis para um indivíduo do meu tipo, para o tipo de indivíduo que voluntariamente fiz de mim, sempre alterando e em alguns casos invertendo os condicionamentos e modelos dominantes na cultura que demarca o desenvolvimento da minha personalidade.
Os anos vividos, com o que encerram de experiência assimilada, levaram-me, por exemplo, a repelir isso que chamo de gregarismo do brasileiro em contraposição às formas de sociabilidade praticadas no âmbito dos pequenos grupos, dos grupos formados por eleição afetivo-intelectiva. Somos refratários, sim, a essas formas de associação predominantes na cultura inglesa e mesmo na cultura urbana brasileira de corte metropolitano, como é o caso de São Paulo. Por aqui o que vigora é o gregarismo dos bares, festas, badalações noturnas e praieiras, além dos eventos de massa que mobilizam dezenas de milhares de pessoas. O vazio. A solidão dentro da massa. Tenho horror a isso tudo.

A alternativa, dentro dos quadros convencionais, é a sociabilidade típica da nossa herança patriarcial: a família extensa agregada nos fins de semana para almoços, jantares e bebedeiras onde os vínculos do sangue circulam. São no fundo relações viciosas, marcadas antes de tudo por laços de dependência e lealdade patrimonial. Produzem gente infeliz, oprimida pelos pactos implícitos da velha ordem patriarcal, que evidentemente já não se exprime como exercício de autoridade exercido pelo patriarca dissolvido no caldeirão do consumismo hedonista, mas retém vantagens inegáveis.

Dentro de uma ordem social onde o descrédito das instituições básicas é completo – ninguém confia no sistema médico, na polícia, no sistema legal lato sensu, na escola pública etc. -, ser ou tornar-se membro de uma família extensa é uma garantia de segurança contra a anomia dominante. Pois ela assegura privilégios materiais, status e acesso cordial (friso usar o termo no sentido adotado por Sérgio Buarque de Holanda) a uma rede de relações e serviços que numa ordem social verdadeiramente democrática existem em função do indivíduo abstratamente considerado. Trocando em miúdos, ser ou tornar-se membro de uma dessas famílias é ser proprietário ou beneficiário de renda privilegiada, bens móveis e imóveis e serviços personalizados. Conheço pessoas que, detentoras desses privilégios típicos de uma sociedade estamental, têm na própria família, ou na extensão do poder por esta exercido, serviços médicos, jurídicos, terapêuticos e educacionais personalizados e até imunidade parlamentar. Como nada é perfeito, também anulação da individualidade e infelicidade doméstica.
Diário - Recife, 28 de abril de 1998.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Solidão e Poesia



O espetáculo do mundo me desgosta. Por isso meu mundo pessoal cada vez mais se fecha dentro das paredes do meu apartamento. Mesmo os raros e mais íntimos amigos frequento-os quase que exclusivamente por telefone. Os que me telefonam, cada vez menos, pesam para que decisivamente desanime de atender as chamadas do aparelho. Limpe a chaminé cuja fuligem e gás tóxico provêm do seu inconsciente, como Freud recomendava, sem ao mesmo tempo esquecer de filtrar a poluição que vem de fora, da rua e dos habitantes que de ordinário envenenam nossa precária saúde.

Essa gente – não aludo aos amigos, convém frisar - entra pela minha casa através do fio e de ordinário me solicita a ouvir as mesmas e previsíveis lamúrias. São egos feridos mordendo complacentemente a própria egolatria contrariada pela insensata desordem do mundo. Não se dão conta, aparentemente, do quanto concorrem para agravar a desordem que confessam lastimar. Muitas vezes, ao longo dos anos, sofri de compaixão por essa gente, a que integrava de modo direto meu mundo de convivência assim como a gente mais geral e abstrata. Hoje admito pouco sofrer dessa compaixão que tanta dor íntima e inconfessada já me causou. Hoje a insensatez do meu semelhante me causa antes desgosto que compaixão. Ademais, de que lhe serviria a compaixão de um homem que menos e menos entende o mundo ou se dispõe a acolhê-lo tal como é? Isto é, tal como sou.

Venho de mais de uma semana de solidão deliberada em Porto de Galinhas. Alegando precisar de um refúgio contra a fumaça infernal das fogueiras de São João e São Pedro, essa excrescência das tradições rurais que envenena o ambiente urbano nordestino, pedi a meu amigo Marcelo Guerra as chaves do seu apartamento e peguei a estrada. Embora a alegação fosse verdadeira, viajei para Porto de Galinhas antes de tudo para me refugiar das próprias situações de convívio a que me vejo exposto.

Oito dias de completa solidão na praia. Adoro ficar em Porto de Galinhas nesta época do ano. A temperatura é branda, o céu enxutamente luminoso, embora sobrevenham as chuvas que aliás me parecem moderadas, não obstante sejam chuvas de inverno. Moderadas ou não, não me incomodam. Pelo contrário, amo a chuva no mar. Amo caminhar longamente dentro da chuva seguindo a linha sinuosa das ondas que quebram sobre as areias.

Assim vivi meus oito dias de solidão: longas caminhadas à margem das águas ora sob a luz de um sol ameno, ora molhado dentro da chuva. Lá no alto, as estrelas, belas na sua misteriosa cintilação, a tudo assistiam indiferentes ao enredo que aqui embaixo encenamos entre estupidez e engenho, entre alegria e dor, entre esperança e engano. À parte isso, sentava-me numa cadeira de balanço entre a sala e a varanda durante a maior parte do dia. De lá, desse ponto estratégico, descortinava uma paisagem familiar que mais e mais fui aprendendo a amar através dos anos: a cor quente dos telhados borrando o verde esplendor dos coqueirais. Para além, na linha quase invisível, a rumorosa pulsação do mar. De lá, reaprendia com Alberto Caeiro que o mundo é do tamanho da minha varanda.

O mais importante nesses dias de solidão voluntária foi o tempo dedicado à poesia: a poesia de alguns poetas que amo, que ao longo dos anos me eduquei para amar alheio ao ruído do mundo; a poesia de outros que antes leio do que amo e por fim minha própria e errática poesia. A poesia é por vezes a religião de quem não a tem, ou a filosofia de quem não a sabe. A poesia é a minha cachaça, como um dia escreveu Drummond. A poesia é minha consolação, mas bem mais que isso. Consolação pode sugerir refúgio dos desamparados, ou linha de fuga dos que escavam na aridez da vida a ilusão que seja substitutivo da vida. Mais que consolação, a poesia pode ser uma força única de prospecção passível de iluminar zonas obscuras do ser cuja inconsciência nos sufoca.

Contra os preconceitos convencionalmente românticos colados à produção poética, e lato sensu artística, aprendi que o estado de poesia não é nunca espontâneo, não deriva de qualquer disposição subjetiva por alguns tratada como se fora inspiração, por outros como um talento ou gênio manifestado espontaneamente. Aprendi, pelo contrário, que o estado de poesia é induzido pela leitura continuada dos poetas e pela deliberada integração às forças líricas da existência.

Os dias de recolhimento solitário em Porto de Galinhas mais uma vez me confirmam este fato. Resistente à expressão poética por ausência de trabalho e acomodado distanciamento da corrente lírica da realidade, fui gradualmente me refazendo da ausência de poesia através dos mecanismos auto-induzidos acima indicados: a leitura da poesia e a escavação pessoal que em algum ponto invisível toca e retém a expressão antes imperceptível e silenciada. De tudo isso resultou um conjunto de dezesseis poemas aos quais dei o título geral de Águas Atlânticas.

Posso acaso dizer que me apraz ou me completa o estado de solidão a que me recolhi? Decerto que não. Em mim persiste a convicção de que o ser humano precisa e busca realizar-se no convívio com o outro. Antes de tudo, carecemos de amor. E o amor, não importando o quanto o mova a disposição narcisista de se amar fora de si, ou de se querer ou saber amado pelo outro, o amor mais pleno e verdadeiro é sempre uma doação, sempre um movimento generoso e altruísta do eu para o outro. Mas admito estar cansado ou descrente da possibilidade de exercitar essa expressão única e intraduzível de comunhão com o outro. Quando a vivi, quando tive a graça e a felicidade de vivê-la, fui um homem liberto da solidão egoísta, liberto da incapacidade de comunicação significativa com o mundo.

Mas duvido cada vez mais do atingimento desses estados de amor, seja o amor a que acima mais exatamente me referia, o amor passional atando um homem a uma mulher; seja o amor mais abrangente e difuso, o que antes de tudo se traduz em amizade. Admito, contra o humanismo desprendido, mas ingênuo dentro do qual procurei me realizar como ser humano, que a comunicação significativa com o outro é muito difícil; que é difícil compreendê-lo; que é difícil tocá-lo dissolvendo num gesto ou palavra a sombra compacta que dele me separa. Em suma, é muito difícil compreender e amar meu semelhante, esse ser que não se sabe e na própria insensatez se confunde e quase sempre maltrata ou põe a perder as próprias coisas que mais elevadamente deseja e acredita amar.

Diário - Porto de Galinhas, 1 de julho de 1998.

sábado, 9 de julho de 2011

Amor, Narcisismo, Solidão...



Todo mundo se queixa do estado precário das relações subjetivas. Embora todos aspiremos à realização de uma vida mais bela e harmoniosa, e todos aparentem entender esses altíssimos fins humanos inseparáveis do convívio com o semelhante, em tudo e todos prevalecem a incompreensão, a impaciência, o tédio, quando não a opressão e o ódio. Mais frequente ainda, sobretudo no âmbito das relações prolongadas, é a substituição do amor ou da amizade pela indiferença. Não é difícil observar a incidência desse fenômeno nas relações entre pessoas casadas há muito tempo, ou nas relações gerais entre familiares. Incapazes de romper a cadeia opressiva da indiferença confortável, preferem acomodar-se a esse estado de coisas.

Dar o salto para além dessa fronteira, dissolvendo assim um pacto implícito de segurança fundada na indiferença, é algo que aparenta exigir muita coragem. E os que a têm e a exercitam são no geral as mulheres. Talvez porque imprimam tão alto significado existencial à realização amorosa e familiar, as mulheres tendem a ser mais resistentes a essas formas de degradação do amor cujo limite é a indiferença acotovelada no cotidiano doméstico e na própria cama repartida.

Os homens, em contrapartida, inclinam-se para a acomodação tecida de hipocrisia, traição sem culpa aparente ou mesmo a duplicidade que às vezes envolve a constituição inconfessada de uma segunda família. Formados dentro de condições culturais que tendiam sempre a lhes favorecer os interesses egoístas em detrimento dos da mulher, é compreensível sua melhor adaptação à traição conjugal, à duplicidade e ao reduzido peso que a família passa a exercer na economia da vida subjetiva.

Ousando avançar aqui uma tese discutível, acredito que as diferenças entre homem e mulher não se esgotam no plano cultural, como decerto fica sugerido nos parágrafos precedentes. Apontando para a zona genital, disse certa feita Gertrude Stein que no homem tudo aí começava para acabar em qualquer lugar. Na mulher, contrariamente, tudo principiaria em qualquer lugar para fatalmente acabar na zona genital. À parte o feitio trocista do episódio, julgo que sua intenção era no homem sugerir uma libido especificamente centrífuga contraposta à libido centrípeta da mulher. Isso não exclui necessariamente a influência dos fatores culturais, mas sem dúvida põe a ênfase na constituição biológica de um e de outra.

Ora, se os valores e práticas humanos comprovadamente variam na medida em que varia o ambiente cultural, o extremo dessa variação não me parece autorizar o desprezo pelas diferenças de ordem biológica. A evidência de algumas dessas diferenças é tal que chega a parecer simplesmente sensato admiti-la. No entanto, sabe-se o quanto o desenvolvimento da antropologia cultural, com nítidas ramificações sintetizáveis no princípio teórico do relativismo cultural, induziu a excessos. É assim hoje rotineiro ouvir-se alguém afirmar que tudo é cultural, que tudo depende das formas específicas adotadas pelas culturas particulares aparentemente irredutíveis, em qualquer dimensão, a proposições de validade universal.

Eu próprio, no exercício da profissão de professor de sociologia, perdi a conta de quantas vezes me envolvi em disputas, quase sempre sem força de convencimento intelectual, com representantes das formas difusas de ideologia feminista, homossexual, racial, etc. Quantas vezes, em meio ao calor dessas disputas, não lembrei com insucesso a meus interlocutores que estou, enquanto homem, privado do poder de engravidar, menstruar, amamentar, etc.? Essas diferenças de ordem biológica não vão decididamente atuar no modo como homem e mulher concebem a atividade sexual, no modo como a praticam, no modo como emocionalmente a vivem? Acredito que sim. O culturalista, entretanto, diria que não, que tudo não passa de condicionamento ou conformação cultural das disposições humanas fundamentais.

Voltando entretanto à questão inicialmente enunciada, presumo que conviver de modo compreensivo, ou simplesmente satisfatório, foi e sempre será difícil. Talvez a natureza de que somos feitos, máquinas falíveis e fundamentalmente egocêntricas, imponha sempre limites variáveis à realização de uma melhor humanidade convivida. Mas também neste ponto importaria advertir para o risco de uma visão essencialista. Se me parece verdadeiro o peso exercido pelos fatores variáveis, associados à cultura nas suas concreções espaciais e temporais, eles não anulam à força atuante, quem sabe modeladora, das constantes humanas. Negar aqueles, os fatores variáveis, seria incorrer numa visão essencialista. De outro lado, negar estas, as constantes humanas, seria reivindicar uma visão puramente imanente ou histórica para a nossa insolúvel humanidade.

Fica assim claro que busco entender essas relações complexas dentro de uma perspectiva regida pelo princípio do equilíbrio entre os extremos. O meio termo é sempre a posição dos seres sensatos. Mas também dos medíocres e vacilantes, não me esqueço. Talvez se possa historicamente creditar aos extremistas, não aos sensatos, as grandes transformações e avanços da humanidade. Também as grandes destruições e retrocessos, acrescentaria. Mas noto que voltei a me perder em digressões.

O que intentava dizer ao retomar a questão primeiramente enunciada era que o agravamento das nossas dificuldades de convívio me parece assentar sobre a variável que eu designaria, seguindo a lição crítica de Christopher Lasch, cultura do narcisismo. Valendo-me de expressões que sei exercerem funções mais retóricas que propriamente explicativas, diria que o capitalismo de consumo precisa de uma ética da permissividade e de uma cultura narcisista para operar de modo mais integrador e eficaz. Pois como conciliar o consumo tal como hoje o vivemos com uma ética da austeridade ou uma cultura na qual o indivíduo desprendidamente se orientasse pelo reconhecimento do outro, ou pelos interesses impessoais e abstratos?

Os fins visados pelo capitalismo do consumo, somados à aceleração do tempo histórico que continuamente dissolve e refaz expectativas e identidades, concorre para a articulação de uma ética e de uma cultura centradas no eu narcísico. Inseguro dentro de um mundo que não compreende nem tem poderes para controlar, o indivíduo contemporâneo cede às artimanhas sedutoras da indústria da publicidade que sistematicamente o assedia incitando-o a ser “ele mesmo”, a dar importância a si mesmo, a cuidar de sua beleza, seu corpo. Pior ainda, manipulando desejos humanos profundos, como o da felicidade e do prazer irrestrito, vende ao Narciso infeliz uma caricatura da felicidade e do desejo ilusoriamente confundindo o princípio do prazer com a própria realidade.

Se a constituição produzida pela revolução americana frisa “the pursuit of happiness” como um dos direitos humanos fundamentais, a indústria da publicidade converteu esse direito num dado ou num produto mágico da volição individual. Como estranhar, depois de tudo, a presença generalizada e ofensiva do Narciso sempre se mirando nas águas e vendo em cada outro um mero lago espelhado docilmente a serviço do seu desejo de autoabsorção. Trocando em miúdos esse fenômeno psicocultural típico da nossa época, hoje qualquer idiota se acredita espontaneamente autorizado a pensar que o mundo tem a medida do seu umbigo. Qualquer imbecil fala hoje obsessivamente de si próprio presumindo que existimos apenas para ratificar sua grandiosa existência.

Incapaz de se ver e medir assim como é, o Narciso contemporâneo se queixa do mundo, da impossibilidade de convívio satisfatório sem nunca se dar conta de que nele reside um dos fundamentos dessa impossibilidade. Ainda que fosse excepcionalmente interessante e sedutor, culto e investido de múltiplos talentos, quem o suportaria entregue ao exercício compulsivo de falar de si próprio, de ver tão só sua própria imagem projetada no espelho a que reduz o outro? Se o Narciso dotado dessas virtudes seria cansativo e inconvivível, o que dizer do Narciso banal, do cretino qualquer prisioneiro de sua mesmice, de sua visão estreita, quando não apenas boçal?

Diante desse quadro, somente a incapacidade de viver sua própria vida e sua própria e fatal solidão explica a aderência tenaz do homem à vida gregária. Já não me refiro a Narciso, que é constitucionalmente incapaz de tolerar a solidão, para não dizer refazê-la a ela imprimindo um sentido mais verdadeiro e autônomo de existência individual, mas aos seres humanos em geral.

Num belo livro dedicado ao tema da solidão, Anthony Storr retraça através de séculos da história da cultura as múltiplas maneiras e idiossincrasias mobilizadas por homens dotados de excelência inventiva para dar sentido a suas existências solitárias. Enfatizando a dimensão criativa e mesmo necessária da solidão, demonstra Anthony Storr que os relacionamentos interpessoais não constituem a única via de realização humana, como correntemente se pensa e sobretudo se vive. Sintetizando o objetivo fundamental do seu livro, eis como se pronuncia: “We all need to find some order in the world, to make some sense out of our existence. Those who are particularly concerned with such a search bear witness to the fact that interpersonal relationships are not the only way of finding emotional fulfilment” ( Anthony Storr, Solitude. London: Flamingo, 1989, p. 167).

Como entretanto procedemos de modo oposto a este observado e fecundamente demonstrado no desenvolvimento do livro de Storr, persistimos em acreditar que somente no convívio, quando não na pura necessidade de vida gregária, podemos encontrar sentido e realização na vida. A elevada incidência de insatisfação e desgosto de conviver parece claramente sugerir o quanto somos insensatos em proceder fixados num desejo – que é também necessidade humana, não o nego – rotineiramente contrariado no âmbito da família, das relações amorosas, profissionais, além das inumeráveis formas gregárias de relação. Frisaria aqui, como de resto já o fiz na intercalada do período precedente, que não estou negando a necessidade de convívio, mas apenas nossa cegueira em afirmar que seja a única necessidade fundante da nossa experiência de realização emocional.

Diário - Recife, 5 de fevereiro de 1998.

sábado, 24 de julho de 2010

Variações sobre a Solidão


Também fui leitor de Hemingway. Não dos mais entusiastas, mas fui. Quem hoje o lê? Meu preferido é The sun also rises (O Sol também se levanta), que fui incapaz de compreender à primeira leitura. Era ainda leitor jovem e bem limitado. Precisei ler mais tarde um belo ensaio de Otto Maria Carpeaux, de longe o mais erudito crítico que tivemos. Nesse ensaio, que lembro vagamente, Carpeaux procede a uma apreciação altamente positiva da obra de Hemingway sublinhando a precisão e objetividade do seu estilo, que então fez escola, e distinguindo The sun also rises como o romance fundador da moderna ficção americana; não porém sua obra mais importante, distinção que confere a Farewell to arms (Adeus às armas). Carpeaux procede então a uma interpretação iluminadora do romance. Lendo-a tive uma outra percepção da obra e então, vexado de minha ignorância, cuidei de a reler como se a lesse pela primeira vez. Mas seu romance de maior repercussão foi provavelmente For whom the bell tolls (Por quem o sino dobra).

Chega de divagação. Afinal, o parágrafo acima não passa de pura divagação, já que meu propósito não é escrever sobre Hemingway, mas sobre a solidão. Se Hemingway veio à tona, foi apenas devido ao fato de eu haver antes pensado em algumas palavras célebres assinadas por John Donne, palavras que inspiraram o título do romance de Hemingway sobre a guerra civil espanhola. Voltarei às palavras de Donne que importam.

A solidão é algo que sempre me interessou, talvez por estar tão enraizada na minha vida. Mais que isso, acredito que está enraizada na vida de todo ser humano, portanto na nossa própria condição. Em “La dialéctica de la soledad” – apêndice constante de El laberinto de la soledad – Octavio Paz ressalta sua importância crucial na nossa existência ao frisar que nossas experiências extremas, nascer e morrer, fundam-se na solidão. Nascemos e morremos sozinhos, é isto que certeiramente frisa. Nunca mais esqueci este fato tão evidente, tão revelador da nossa condição solitária, e todavia tão ignorado ou imperceptível. Este belo ensaio de Octavio Paz, que muitas vezes reli no curso de minha vida com admiração inalterável, é um dos pontos culminantes do gênero, de resto tão ambíguo quanto a natureza humana. Aludindo tão-somente a ensaios mais curtos, acomodáveis nos limites de um capítulo de livro, ocorre-me lembrar um outro de valor equivalente: To please a shadow, de Joseph Brodsky, inspirado por Auden,a quem Brodsky distingue como o maior e mais inteligente poeta do século 20. Mas continuo divagando.

As palavras de Donne que agora transcrevo apontam para o oposto da solidão, para uma dimensão de humanismo abstrato passível de dela nos salvar: “Any man´s death diminishes me, because I am involved in Mankind; and therefore never send to know for whom the bell tolls, it tolls for thee”. Minha transcrição é baseada no Dicionário Universal de Citações, de Paulo Rónai. Cotejei-a em seguida com o ensaio de Carpeaux e então notei variantes que deixo apenas assinaladas. Traduzindo livremente, o que Donne quer dizer é que a morte de qualquer ser humano nos afeta, pois somos parte da humanidade, pois em cada ser humano pulsa uma fração de humanidade comum a todos nós. Daí a verdade segundo a qual o sino que dobra como um ritual de morte do nosso semelhante dobra também por cada um de nós.

Durante minha juventude impregnada de humanismo de esquerda - qualificativo de amplo espectro que neste contexto inclui influências marxistas, liberais e católicas – acreditei profundamente no ideal de solidariedade abstrata implicado nas palavras de Donne que, como se sabe, inspiraram o romance famoso de Hemingway. A própria leitura do romance - também o filme nele baseado, que vi comovido diante da beleza de Ingrid Bergman – reforçou na minha consciência a crença na solidariedade do gênero humano. Hoje não mais acredito em nada disso. Acredito, sim, que há ainda, como sempre houve, seres humanos excepcionais capazes de renunciar à tirania do egoísmo dominante na espécie em favor da doação solidária orientada para o próximo. Isto é verdadeiro em escala quantitativamente modesta, portanto não anula em nenhum sentido a raiz solitária de nossa condição penetrantemente analisada no ensaio de Octavio Paz. Mais que a crença na revisão que faço destas considerações abstratas, importa o metro da experiência vivida. Se nele me detenho, não reluto em afirmar minha condição solitária. Não apenas aquela universal e abstrata, acima indicada, mas a mais rotineira e sensível inscrita no meu percurso biográfico. Sou solitário não apenas por reconhecer em mim a condição solitária que partilho com todo ser humano, e bem identifico nos extremos da existência enfatizados por Octavio Paz, mas também por tocá-la e vivê-la em muitas circunstâncias de minha vida.

Sou solitário, por exemplo, na doença. Como todo mundo, já adoeci. Mais que isso, fui vítima de doença grave. Mais que o medo da morte, na juventude, a doença revelou-me o desamparo da solidão, a indiferença dolorosa das pessoas nas quais presumia poder apoiar-me. Elas me faltaram. Por dever de justiça, antes de tudo de memória generosa, que comigo espero conduzir ao limite último de minha vida, a indiferença daqueles em quem em vão busquei apoio foi contrabalançada por uma solidariedade absolutamente inesperada, já que procedente de pessoas que sequer então conhecia. Acima das muitas que em circunstâncias penosas me ampararam, lembraria Ednaldo Batista, médico de bondade humana rara e talvez em vias de extinção imposta pela crueldade da medicina mercantil hoje generalizada. Ednaldo e Rejane, minha namorada, apareceram na minha vida num momento em que me via privado de tudo: saúde, emprego, residência, fortaleza moral e psíquica para suportar a situação extrema em que me vi mergulhado. Não fossem eles, a meio de circunstâncias tão adversas, não sei o que teria sido de minha vida. Por isso devoto-lhes minha gratidão que, reitero, espero sobreviver na medida em que eu próprio sobreviva.

Somos solitários no amor quando o amor nos abandona, ou trai, ou simplesmente acaba. Quem já não sofreu em algum grau essa forma de solidão? Refiro-me não só ao amor passional, o que nos ata a uma mulher, mas ao amor dos amigos, ou dos que tal supomos. O amor, quando excepcionalmente verdadeiro, é falível como toda forma de experiência humana. Por isso nos falha ou nos falta quando nos trai por vias imprevisíveis e obscuras. Quando assim nos castiga, no cerne da dor e da perda novamente defrontamos a sombra opressiva da solidão, da solidão dos que amam para perder.

Considerem, por exemplo, o amor que os pais de ordinário devotam aos filhos. Não duvido da sinceridade com que o vivem. Apenas acredito que com frequência amam de modo errado, por vezes com consequências desastrosas para o que eles, os filhos, serão na vida. Se amássemos com um pouco de discernimento e clarividência, aprenderíamos que amamos nossos filhos não para retê-los na rede do nosso egoísmo, do narcisismo que neles projetamos para que na vida realizem o que não pudemos ou desejamos ser. Houvesse um pouco mais de altruísmo e lucidez no amor dos pais, não tenho dúvida de que amariam para perder os filhos. Amariam para entregá-los à vida tão somente amando-os para que as vivessem, as vidas que são deles e intransferivelmente deles, do melhor modo possível.

Aprendi a duras penas o quanto esses modos de amor são inconstantes e vulneráveis. Aliás, em muitos casos eles sequer existem de fato. Se os tomamos como reais, é porque carecemos de neles acreditar. De resto, em país de laços tão frouxos quanto o nosso, onde qualquer conhecido transitório ou companheiro ocasional de farra é levianamente confundido com um amigo, a amizade é transacionada e esquecida a troco de bem pouca coisa.

Há uma ordem de solidão que se manifesta em situações rotineiras de nossa vida. Estamos todos os dias sozinhos: no sono, também na vigília, no vaso sanitário, nas apreensões palpáveis ou imaginárias que sofremos. Estamos sobretudo sozinhos na massa, em todos os tipos de massa concebíveis e rotineiramente presentes na sociedade que é por definição... de massas. Estamos sozinhos diluídos nas massas errantes e moventes das grandes cidades. Estamos sozinhos nos megashows onde regredimos à nossa ancestralidade tribal. Estamos sozinhos nos estádios de futebol, nas grandes celebrações coletivas. Estamos sozinhos nos bares e clubes bêbados de gente ruidosa e vazia. Estamos sozinhos diante do sexo que é hoje vendido e barateado em toda a sorte de comércio humano. Estamos sozinhos na cama onde todas as noites dormimos, mesmo quando acompanhados por imposição de cadeias legais que somos incapazes de romper. Estamos sozinhos na noite, na noite imensa dentro da qual vagamos sob o peso e suor do cansaço de um dia inutilmente gasto. Estamos sozinhos dentro de carros que rolam através de ruas indiferentes, ou ainda quando engavetados na maré congelada do trânsito que paralisa a cidade sem alma. Estamos sozinhos ao lado do vizinho com quem dividimos paredes grudadas, mas totalmente incomunicáveis. Estamos sozinhos diante do outro que amamos e todavia incompreendemos na mesma e insolúvel medida em que ele nos incompreende. O homem solitário, não esse das massas temerosas da própria sombra individual, mas o homem que se sabe solitário, irremediavelmente solitário, mas antes de tudo senhor de sua solidão, este é o que melhor preza o amor, a amizade, a vinculação solidária ao outro que por vezes nos salva da consciência de que somos sozinhos e sozinhos morreremos.
Recife, 20 de setembro de 2008.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Solidão e Solitários


Já antes louvei, em algum volume do meu diário, um livro que amo reler: Solitude, de Anthony Storr. É a mais equilibrada, sensata e penetrante apreciação psicológica que conheço relativa à experiência da solidão. Sendo eu próprio um solitário, sei bem quanta incompreensão grosseira esta condição suscita mesmo em comentários de amigos íntimos. Tendem de imediato a crer que o solitário é um incapaz de manter vínculos estreitos e constantes com alguém. Presumem ainda que é vítima de algum trauma irreparável, ou alguém psiquicamente inabilitado para os comprometimentos e responsabilidades da vida casada – da vida convivida em geral. Ora, Storr demonstra com argumentos e fatos irrefutáveis o quanto há de solitários amáveis, generosos e apreciadores do bom convívio humano. Em suma, seriam gente como toda gente, gente saudável ou doentia como o comum da espécie.

Que me lembre, pois faz já algum tempo não o releio nem dele fiz anotações, Storr pinta um quadro tão positivo do solitário e da condição solitária que acaba silenciando, ou pelo menos obscurecendo, um veneno perigoso que segrega. Refiro-me ao veneno do egoísmo mantido em estado de prontidão, um egoísmo talvez mais sensível do que o observável nos que se entregam ao gosto ou necessidade de convívio corrente. Percebo-o em mim, antes de tudo. Percebo-o ainda em amigos solitários, seja por escolha, seja por imposição ou castigo das circunstâncias. É patente, em ambas as categorias, o peso primacial desempenhado pelo egoísmo. Um dos seus sintomas mais nítidos radica na impaciência diante do semelhante, diante das azucrinações rotineiras no convívio humano.

Tende ainda o solitário, talvez de forma excessiva, ao zelo pela própria independência, mesmo quando é um dependente crônico do outro. Este outro é de ordinário uma mulher. Embora dependente, resiste ele ao comprometimento que implique vidas conjugadas, casamento, coisas assim. Corre disso como o diabo corre da cruz. Desdobrando essas idiossincrasias, o solitário é com frequência hipocondríaco. Mais que doente, é um cultor da doença, na qual se entranha decerto como sintoma da excessiva fixação em si próprio, na vida insular que habita e defende de toda a sorte de invasão.

Outro traço notável é sua intolerância para com as crianças, ainda mais se ele próprio é prisioneiro de fixações infantis. Em contrapartida, o solitário dotado de tais características pode ser um grande sedutor, tendendo a exercer evidente fascínio sobre as pessoas com as quais convive, especialmente as mulheres. Não é sem razão que o solitário desse tipo é bem amado por elas, mesmo quando no fundo encerra, a sete chaves, um gosto incontido e divertido pela misoginia.

Mas por que não falar mal também de mim próprio, do solitário que deliberadamente quis ser e sou? No que se refere ao egoísmo, tenho perfeita consciência de que o exercício prolongado da solidão o exacerbou. Antes era e desejava ser um homem mais solidário. Por isso coerentemente participava da vida dos que viviam próximos a mim: parentes, amigos, colegas de trabalho, até estranhos. Fiz coisas que bem sei não mais me disporia hoje a fazer. Como acredito ter certo dom para ouvir e orientar pessoas confusas, durante muitos anos fui confidente espontâneo e sempre disponível de gente atormentada por problemas. Algo que concorreu para alterar essa minha disposição foi a consciência do quanto essas pessoas que me solicitavam eram egoístas ou narcisistas. Procuravam-me, acima de tudo, por ser lisonjeiro dispor de ouvidos receptivos e sensíveis onde vertiam narrativas intermináveis sobre o próprio umbigo. A evidência disso é constatável no fato de que essas pessoas sumiam completamente de minha vida quando estavam bem. Procuravam-me sempre quando crivadas de problemas, quando carentes de consolação narcisista.

Sem depreciar a possibilidade de que muitas buscassem no jogo de confidências alguma via de esclarecimento e catarse compreensível, não duvido de que eram no geral dirigidas pelo próprio egoísmo, pela carência de gratificação narcisista. Também constatei, depois de alguma experiência, que eram indiferentes a minhas carências e necessidades. Como toda pessoa carente de ajuda, como todo dependente narcisista, viam em mim apenas o espelho em que se refletiam. Esta foi a razão decisiva para que eu fosse discretamente arriando a tenda, desfazendo o divã ambulante e gratuito e por fim recolhendo-me mais livremente a minha ilha simbólica. Hoje, de fato já há muito tempo, frequento bem poucas pessoas e já não me solicitam de ordinário movidas pelas expectativas antes predominantes. Ah, ninguém imagina o quanto dei ouvidos e gastei meu tempo ouvindo problemas insolúveis, quando não imaginários.

As pessoas sofrem muito. Aprendi algo disso graças ao convívio solidário e interessado que com muitas entretive. Vale aqui evocar as palavras do padre e confessor citado no livro Le Bonheur,désespérément (A Felicidade, desesperadamente), de André Comte-Sponville. Vai aqui o registro baseado apenas na minha memória. Atendendo à curiosidade de André Malraux, que lhe perguntou o que mais o impressionara na sua longa experiência de confessor, respondeu assinalando que as pessoas são mais infelizes do que aparentam e, ademais, não existem grandes pessoas. À parte esta observação, que tomo como verdadeira, aprendi que pouco poderia fazer para suprimir a dor das pessoas que me solicitavam como confidente, para não dizer simplesmente abrandá-la. Antes de tudo, aprendi talvez tardiamente que apenas elas podem fazê-lo. Não obstante minhas ações e intenções, a vida é irredutivelmente delas. Portanto, somente elas podem vivê-la e consertá-la, ou agravar o que já encerra de dor e infelicidade.

Em suma, recolhi minha tenda ou divã ambulante. Ao fazê-lo, tornei-me menos sensível à dor e à infelicidade alheias. Esta, acredito, é uma das consequências inevitáveis da solidão, da vida tendente a fechar-se à volta de si própria. Mesmo aqueles capazes de manter sentimentos e praticar ações altruístas, mesmo esses se vão até inconscientemente distanciando dos dramas rotineiros sofridos pelo semelhante, por aquele que no geral procuramos manter a cautelosa distância. Adicionalmente, fiz-me também menos tolerante, menos paciente diante dos entraves rotineiros da vida, notadamente a brasileira, no geral desatada de ordenamentos e processos sociais mais democráticos ou civilizados.

02 de outubro 2008.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Máximas e Mínimas III


Amigos? São os que ficam depois que a festa acaba. Quantos? É difícil estimá-los no país do carnaval, onde frequentemente confundimos festa com amizade. O brasileiro folião confunde sempre uma coisa com a outra. Por isso acredita ter tantos amigos, quando na verdade não tem nenhum.

Sei de um poeta famoso, imortal da Academia Brasileira de Letras, o que basta para esclarecer que falo de imortalidade tópica, que cultivava o hábito saudável de falar mal dos seus convivas tão logo se retiravam de suas festas. Alguns mais perceptivos, à força de lhe frequentarem a casa, acabaram notando-lhe esta particularidade e prudentemente passaram a retirar-se já no último minuto, quando a manhã já se anunciava. Sugiro que o leitor coteje esta anedota com a definição precedente de amizade e por fim tire suas próprias contas. Melhor dizendo, responda-me esta pergunta: quantos amigos tinha o poeta imortal?

Liberto enfim da esperança, eu nada espero. É portanto com fundamento no desespero que nego o absurdo da vida e na minha nudez acolho o quinhão de felicidade que me cabe ou tem a medida do meu contentamento.

Há muitos anos, bracejando no pessimismo atormentado, incorri num paradoxo inconsciente ao escrever: eu nada espero e assim me poupo de desesperar. Somente agora me apercebo do quanto era escravo de minhas esperanças malogradas ao escrever esta frase que apenas teria sentido na medida em que encerrasse um paradoxo intencional. Agora sei que ser livre para não ter esperança é escolher o desespero.

Esperança não é força, mas impotência, pois esperamos o que por definição está além de nossa vontade e realidade. Seria acaso dizer-se que a profissão do brasileiro é a esperança? Ou ainda e melhor: que o Brasil é o país do futuro?

Com frequência hoje me pergunto se minha vida progride (ou regride?) para uma atmosfera de serena reclusão. A esse propósito, é curioso ou sintomático observar como a memória – tocada por filmes que ninguém vê e livros que ninguém lê, salvo eu – me transporta para a solidão inglesa que profundamente me transformou ao enraizar minha maturidade num solo de vida habitada por modos de convívio muito restrito. Não brinco quando afirmo que o mundo, como idealmente o concebo, teria uma população de 1000 habitantes. É fato que não há muitas pessoas que verdadeiramente importem para mim. Direi que falo de um mundo de serena reclusão ou de quase misantropia? Terá a solidão voluntária, à força de repetir-se, me desabituado do mundo, ou merecerá o mundo insolúvel a redução de minha drástica medida?

A vida banal, feita de repetições e máscaras que nos protegem do outro, é talvez o que mais me desencoraja do convívio rotineiro. Sem pretender subordinar a vida à literatura, não me furto ao pensamento de que num breve capítulo de Brás Cubas penetro verdades humanas infranqueáveis a uma amizade de 10 anos, por vezes de uma vida inteira. Acaso insinuo nas linhas de tal contraste a convicção de que pessoas reais são rasas, quando não vazias? De modo algum. É por assim pensar que me inconformo com o fato de que seres humanos, dotados de possibilidades e experiências tão ricas e complexas, se acomodam a um convívio de trivialidade e desperdício. Prisioneiro da experiência trivial, quando enredado no convívio ordinário, mais e mais me recolho ao cultivo do meu jardim.

Most of my life I´ve been living in wrong places with wrong people. Learning to live by myself was a way of avoiding complete moral debasement.

Vivi a maior parte de minha vida nos lugares errados entre pessoas erradas. Aprender a viver sozinho foi um meio, entre outros, de não me acanalhar completamente.

O Brasil é uma porção de terra muito grande ocupada por uma porção de gente muito pequena.

If Brazil is the country of the future, then I can surely foresee that the future will be called Brazil.

A civilização é uma conquista penosa e sempre reversível.

Conflito de geração: Os pais desejam que seus filhos sejam o que eles não puderam ser, enquanto os filhos não querem ser o que seus pais foram.

Sou humildemente um self-failed man. Posso portanto orgulhosamente afirmar que não devo meus fracassos a ninguém.

Nossa identidade é uma costura consistente de muitas máscaras não porque queremos ser hipócritas ou mentirosos, mas porque precisamos dissimular para conviver e ser aceitos, medida necessária de nossa própria aceitação. Não obstante toda a reivindicação de transparência e verdade que inscrevemos no cerne de nossos ideais éticos, a nua transparência do que somos constitui uma verdade intolerável para as convenções que regem o funcionamento do mundo. Eliot assinala num dos Four Quartets o quanto é limitada nossa medida de suportação da verdade. Se igualmente pouco toleramos a mentira nua e crua, como então determinar a medida do que somos e fingimos?

Pensando melhor, não fui eu que envelheci, foi o tempo que se apressou. Mais que pressa, há nele uma progressiva aceleração que se manifesta no espaço e dentro de nossa medida subjetiva. Um dia deixarei de ser um nome para me tornar gerúndio: um tempo sempre sendo. Um dia deixarei de ser Fernando para ser apenas Fernada.Um dia inventarão a parada móvel, o sono acordado, o presenteando: presente sempre em processo. Um dia, carente de identidade, um dia sonhei ser eu. Sei agora que ser é sempre ser outro. O outro é nosso incerto destino. E nosso destino, universal e inescapável, é nossa medida mais humana suprimida pela cultura da alienação narcisista.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Máximas e Mínimas II




Um dia visitei Antonio Candido supondo que ele me abriria as portas da imortalidade. Abriu-me apenas um guarda-chuva, que foi providencial, pois chovia. Abriu-me o guarda-chuva, insistiu em que eu o levasse de presente e lá fui eu rua afora, já noite, mortal como antes chegara, mas a salvo da chuva. Essa é uma das verdades (estoicas?) que a vida me ensinou: se você saiu em busca da imortalidade e encontrou apenas um guarda-chuva presenteado por um estranho generoso, então você é um homem de sorte. Quantos expostos à chuva e a outras intempéries podem dizer o mesmo?

Genealogia – alguns dos meus amigos mais cultos já me perguntaram se eu acaso seria parente de Pedro Mota Lima. Sinceramente não sei, embora no fundo o desejasse. Afinal, dizem que ele foi o melhor amigo de Graciliano Ramos, além de jornalista de valor e militante comunista. Admirei e continuo admirando muitos comunistas vencidos, isto é, comunistas que nunca chegaram ao poder. Mas nem a vaga admiração que nutro por Pedro Mota Lima me tenta a escavar minha árvore genealógica. Algum pressentimento obscuro me diz que lá encontraria traficantes de escravos, exterminadores de índios ou ainda escravos remotos, ou índios assimilados. Já me basta ser o que sou.

Eis uma pérola da educação universitária brasileira: O professor propõe aos alunos, como exercício de avaliação, uma dissertação sobre o tema Hobbes e a Violência. Resposta de uma aluna : Depende do hobbes. Tem gente que tem o hobbes de colecionar selo. Tem gente que tem o hobbes de colecionar figurinha, revista de sacanagem, álbum de fotografia. O problema é quando a pessoa gosta de colecionar armas. Aí o hobbes se transforma em violência.

Ninguém ainda escreveu, que eu saiba, a história dos movimentos revolucionários e pseudorrevolucionários enfatizando devidamente uma categoria analítica chamada ressentimento social. Quando um dia alguém o fizer, saberemos afinal que muito do que na história passa por revolução ou desejo de revolução é apenas ressentimento social. Trocando em miúdos: quero revolucionar o mundo não para abolir a opressão ou a injustiça, mas para me apropriar daquilo que invejo. Sem desmentir o fato de que houve na história muitos revolucionários autênticos inspirados por verdadeiro desejo de amor e justiça, a maior parte da horda revolucionária é movida pelo ódio contra o que não pode ter.

Nostalgia é um sintoma de mal-estar no presente. Logo, a suposta felicidade da infância ou da juventude reencantada pela memória é apenas um mecanismo de consolação para os tormentos sofridos no presente.

Solidão não é isolamento, mas irredutibilidade. Sou sempre eu, não importando o quanto ame ou queira ser o outro. Perder-me em quem amo, ao mesmo tempo desejo e temor de quem ama, é uma impossibilidade sempre desejada e temida. Nascemos e morremos sozinhos. Entre estes extremos, estamos igualmente sozinhos, pois o que no outro amamos é o que não somos. Por isso estamos sozinhos; por isso Narciso está isolado.

A brevidade poupa o leitor.

Às vezes é fácil ser profeta: basta prever o pior.

No Brasil é fácil ser profeta: basta sempre prever o pior.

O que o Brasil tem de pior são os brasileiros.

Sou eterno quando sou: presente do indicativo.

Tem gente que recorre à citação apenas para confundir cultura com impostura.

Publicitários, marqueteiros, relações públicas, porta-vozes e ideólogos tout court são os oráculos que produzem perólas da liberdade de mercado como as que abaixo transcrevo:
Sorria! Você está sendo filmado.
Seu filho morreu. Tudo por causa de uma bala perdida.
Seja livre, seja você mesmo: beba Coca-cola.
Beba a lourinha geladinha que desce redonda na praia, na festa, na cama, na estrada, no futebol, no carnaval, no trânsito... beba com moderação.
Você pode ser tudo que quiser.
Sem medo de ser feliz.
Deus é fiel.
Brasilbrás ou Utopia: um país de todos.
Amar é dar presente.
O amor é como uma prateleira do shopping. Você ama o quiser. Basta pagar no caixa.