domingo, 6 de abril de 2014

Aforismos e Cia.

               
                   
            Impermanência
Tudo é impermanência:
Eis tudo que é permanente.
Mas nossa humana demência
Sonha o eterno presente.
            Vaticínio realista
Ame e viva o presente
Porque o futuro será muito pior.
            Confissão
A confissão migrou do confessionário para o divã, que é interminável e caro. Confiei sempre, até por ser pobre, na confidência da amizade, relação de reciprocidade isenta de guichê e outros interesses escusos. Como esta, a amizade, dissolveu-se em relação de mercado, restou-me a literatura, que converte a confissão em ficção. Não sei de analista melhor. Não cura nada, como a psicanálise, mas pelo menos não custa nada.
            Alfabetização
No meu tempo, Ivo se alfabetizava vendo a uva. Hoje Ivo come a uva, depois a viúva, mata a aposentada e fica com a pensão.
            Democracia
Quem diz que a democracia é o governo do povo, não conhece o povo, muito menos o poder.
            Verdade política
Se um político lhe disser a verdade, ainda que baseado em provas, não acredite. Há sempre o risco improvável de as provas serem verdadeiras.
            Fidelidade
Era tão fiel que traía duas vezes antes de falar.
            Ambição
Sou tão ambicioso que me iludo com a ilusão de me contentar com o que sou e tenho.
            Dinheiro e felicidade
Se o dinheiro não traz felicidade, como juram os que têm demais e os que não têm nenhum, preferiria ser infeliz com muito dinheiro.
            O criador e a criatura
Se Deus existe, como explicar que tenha criado uma espécie tão imperfeita quanto a espécie humana?
            Morrer
Morrer é provavelmente nosso medo extremo. Mas tem uma vantagem: só acontece uma vez. A não ser que você se chame Lázaro e tenha um amigo chamado Jesus.
            Imitação da vida
A maioria dos seres humanos não é socializada para ser livre, mas para imitar a maioria. Conheço raros indivíduos fiéis à radicalidade libertadora do individualismo.
            Acaso e azar
O brasileiro é tão fatalista que confunde o acaso com o azar.

Recife, 4 de abril 2014.

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