quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Nomes próprios e impróprios


A questão da grafia e adoção dos nomes próprios estrangeiros é um capítulo curioso da nossa ideologia nacionalista. Já a questão da identidade cultural é por certo o capítulo crucial desta ideologia. Refleti um pouco sobre essas questões que sumariamente assinalo na abertura deste artigo porque me ocorreu lembrar os nomes extravagantes de muitos dos alunos que tive em anos mais recentes. É curioso observar como tendemos cada vez mais a adotar nomes estrangeiros. Mais que isso, mais estrangeiros que os modelos adotados, dobramos consoantes inexistentes nos nomes que nos servem de inspiração. Assim, há agora brasileiros batizados como Petter ou Rychaddson. Como professor, na hora da chamada por pouco não mordi a língua várias vezes para pronunciar ou tentar pronunciar corretamente os nomes extravagantes de alunos brasileiros que todavia têm nomes mais que estrangeiros, mais extravagantes que os estrangeiros.
O fenômeno parece acentuar-se (adianto que não procedi a nenhum levantamento empírico, como é de hábito no ofício dos sociólogos) nas classes mais pobres. Quero dizer, quanto mais descemos na composição econômico-social dos alunos, mais encontramos a adoção de nomes estrangeiros saturados de consoantes dobradas e outras extravagâncias gráficas inexistentes nos modelos estrangeiros adotados. Sendo mais preciso, é nos cursos de secretariado e serviço social, pedagogia e turismo que se observa a maior frequência do fenômeno que aqui considero. Neles passei a esbarrar em singularidades como Walleska, Weruska, Nattaly, Wylliam... Lamento agora não haver anotado todos para melhor aproveitá-los neste artigo.
Ora, pensei com minha rota gramática dos nomes próprios brasileiros, aí tem coisa, isto é, isso é sintoma de sentidos submersos no solo da grafia, ou na pele da escrita. Por que tanto agora nos entregamos a esses caprichos que certamente infernizam o trabalho dos funcionários de cartório e os professores, obrigados a morder a língua pronunciando essas consoantes esdrúxulas? O fenômeno, ou pelo menos sua exacerbação, é novo, talvez sintoma do processo de globalização que estreitou as fronteiras entre as nações e os nomes. É porém raro encontrar nomes brasileiros entre os americanos e ingleses, franceses e alemães, embora com certeza tenha aumentado assustadoramente a presença de imigrantes legais e ilegais nos EUA, Inglaterra, França e Alemanha. Esta relação desigual sugere a reiteração, neste registro, da nossa dependência cultural, fenômeno típico em países de forte tradição colonial. Noutras palavras, a inflação de nomes estrangeiros na nossa cultura seria apenas mais uma evidência da nossa macaqueação do estranja, como dizia Mário de Andrade com suas expressões peculiares.
Aliás, lembro Mário de Andrade bem a propósito, já que foi provavelmente o maior apóstolo da nacionalização da nossa cultura. Seu pragmatismo militante, tantas vezes confessado e justificado, levou-o a adotar processo inverso ao que acima anotei quando escreveu sua pioneira Pequena História da Música. Visando afirmar os valores nacionais postulados pelo modernismo, nesta obra ele decidiu grafar os nomes de grandes músicos europeus aportuguesando-os. Assim, escreve João Sebastião Bach, Cláudio Debussy, Ricardo Straus etc. Ninguém embarcou na sua canoa furada, que de resto vazou água na própria obra que cito, pois ele foi de uma inconsistência flagrante: ora aportuguesa os nomes, ora preserva a grafia original.
Há pouco escrevia para uma amiga lembrando mais uma vez uma frase primorosa de Tom Jobim que não me canso de citar: “O Brasil não é para principiantes”. Cito-a além da desmedida, reconheço, porque nossa realidade desconcertante está sempre me dando razões de a lembrar e novamente constatar sua precisão. Falamos por ombros e cotovelos o quanto nos orgulhamos da nossa identidade. Os brasileiros mais bairristas, é o caso dos pernambucanos, redobram a dose acrescentando ao nacionalismo provinciano, com perdão do truísmo, as glórias da nossa pernambucanidade, o orgulho de ser pernambucano e nordestino. Convém de resto lembrar que o “orgulho de ser nordestino” é produto publicitário pago e apropriado pela rede Bompreço, que por sua vez vendeu o mote publicitário sem tirar nem pôr ao capital globalizado. Portanto, para bom entendedor meia publicidade já denuncia o comércio inteiro.
Mas lembrava nosso orgulho confesso da nossa identidade cultural que espalhamos aos quatro ventos. Ora, antes de constituir uma evidência de efetiva identidade consolidada, o fato é antes sintoma da persistência de nossa mentalidade colonizada, do servilismo com que, a partir da própria adoção dos nomes próprios, macaqueamos as culturas que são objeto da nossa inveja e ressentimento. Povos ou países cuja identidade está de fato assimilada, integrada às camadas profundas das expressões inconscientes da nacionalidade e da cultura, prescindem desse tipo de comportamento que entre nós se manifesta em tudo através de mecanismos induzidos pelo Estado e toda a rede de instituições cuja função é produzir e sedimentar padrões de comportamento e valor cultural.
Também nossos modos de morar transpiram sintoma de colonialismo mental. Eu por exemplo, o recifense mais colonizado do Brasil, moro num condomínio cujo nome é Castelo de Luxemburgo. O Recife pulula de condomínios identificados não apenas como castelos, mas como castelos que traem nossas fantasias de nobreza de matriz francesa, inglesa, italiana, espanhola... Já pensei em sair pelas ruas do bairro onde moro anotando os nomes tão peculiares e sintomáticos dos condomínios habitados pela classe média. Os intelectuais que odeiam a classe media, também sintomaticamente pertencentes a ela, costumam denunciar do alto dos tribunais nacionalistas e bairristas a mentalidade colonizada da classe media, notadamente a classe média intelectualizada. O galo canta e logo confundem o poleiro. Não é só a classe média que é colonizada. Os porteiros e zeladores do condomínio onde moro falam okei e se chamam Jameson ou Wallace. Quanto a mim, colonizado incurável, já pensei em procurar o cartório do registro civil mais próximo para trocar de nome. Gostaria de me chamar Príncipe William Windsor.
Recife, 20 de novembro de 2013.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Sarau para Vinícius


Para Betania e Sandra

Vinícius, teus tantos vícios
São nossos, também são meus.
Se o amor é também suplícios
A lua ilumina os céus.

Por isso na lua cheia
Que paira sobre o Recife
Tuas canções ensaiamos.
E entre o passo e a meia
Não falta quem retifique
O frevo que não cantamos.

Hoje a noite é imensa
E dentro dela invocamos
Teus tantos modos de amor.
No peito que chora e pensa
Na voz que mal afinamos
Brota a beleza da flor.

Além, muito além dos vícios
Da lua, vasta candeia
Hoje cantamos Vinícius
Na noite de lua cheia.

Recife, 16 de novembro de 2013.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

A esperança


Esperança, paixão triste
expressa sempre temor
sobrepondo ao que existe
sua tenaz impotência.

Expressa ainda fraqueza
ante a desordem do mundo
que com alheia crueza
esmaga os sonhos no fundo
do humano mais desejante.

Esperança é correnteza
que raro flui pr´adiante
levando as águas pro porto
onde se agita a espera
Esperança é o desejo
que raramente prospera.

O seu avesso é a vontade
o estoico senso do ser
que acolhe a realidade
tal como é, como o que
nega a esperança, o desejo
que é de ordinário o sonho
traído pelo real.

Potência que inspira medo
o real é o que é
não o que sonho e desejo.
Mas que potência humana
pode anular a ilusão
que nosso engano sustenta?
O que do real promana
é nada além do que é.
A esperança engana
mas é refúgio da fé.

Recife, maio de 2013.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Bach no céu


Quando Bach entrou no céu
Num incerto dia de 1750
Deus teve uma crise de identidade.
Descobriu por fim que a música
É a única invenção da divindade
Concebida pelo ser humano.
Desde então toca e canta com Bach
A harmonia inefável dos sons
(que nossa tola teologia confunde com o céu)
E humildemente me ajoelho.

Recife, maio de 2013.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Daniel Lima em Londres


Daniel I

O meu amigo
intransparente
é todo verbo
mas reticente.

O meu amigo
rindo de mágoas
que lá no fundo
no mais que fundo
sei que ele sente.

Daniel II

O meu amigo que sabia javanês
(não) ensinava latim.
Ensinou-me outras coisas
não-clássicas, sem tempo
além da história.

O meu amigo maior que amigo
um modo de espelho
um modo de ver-me
não sendo o que sou.

O meu amigo que dava lições
sem tom de docência
sem nunca vesti-las
num código de ensino.

O meu amigo meu eu, meu não-eu
Luar que se esconde
Na Londres de véus
Paisagem sombria
Meu céu sem teus céus.

Museu Britânico, Londres 07 julho 1989.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Rua Imperial


Imperial Imperial...
O longo e vago som na tarde reverbera
fundindo-se ao andante da Quinta de Beethoven.
Como num sonho há tanto repelido
ou pesadelo sacudindo meus desertos geológicos
um cortejo de imagens se perfaz
turvando a luz cristal sobre a janela.

As tardes de tédio e fuligem
deslizam sobre o asfalto
enquanto o menino arquiteta aritméticas automotivas
alheio ao inferno doméstico que lhe atormenta a infância.
Absorta na contabilidade de ônibus e carros
transposta para colunas
riscadas sobre o caderno escolar
sua imaginação liberta-se da vida suja e palpável
do exílio urbano sem pontes
para a ilha e o campo.

A iniciação nos bancos da escola pública.
Tímido e precoce, vindo de ignotos canaviais,
logo foi vítima da troça de alunos citadinos.
Eram moleques boçais, em tudo menores
mas eram da cidade.
Por isso principiaram infernizando-lhe a vida.
Um dia, maior que o medo,
peitou o mais valente
mudou as regras do jogo dando provas
relutantes de uma bravura
roubada talvez à memória do avô
único ascendente lendário
em quem venerava os traços agrestes do heroísmo.

Imperial Imperial...
As casas da Imperial.

Por ironia ou sarcasmo
chamavam-na Rua Azul.
Azuis acaso seriam os sonhos do adolescente
espremido entre o asfalto e o trem de ferro.
Rua Azul e seus caminhos de terra batida e estreita
alongando-se entre a Rua Imperial
e a estrada de ferro.

Na casa escura e pequena acotovelavam-se
pai avó tios primos irmãos
gastando os dias e a vida
entre a insegurança e o medo.
Mais que um grupo sem guia
a família semelhava um acampamento
sempre às bordas da guerra civil.

Imperial Imperial...
Meninas da Imperial.

Catarina Catarina
Quando na rua passava
o mar no cais se calava
corria até à esquina
dobrava o mar das tormentas
quando na rua passava.

Era tão linda, tão loura
na porta do tintureiro
(seu pai, o italiano).
Todo o meu ser se redoura
a praça, o Recife inteiro
na vaga napolitana.

Tantas, como eram tantas
e tontas de adolescência
maliciosa e escaldante
as meninas da Imperial.

As safadezas com a prima
no muro além do quintal.
Também às vezes no quarto
mãos sob a mesa, desejos
entre paredes retidos.
Mas iam além das paredes
além da casa e da rua
desejos sem pausa ou fuga.
Enroscando-se no vão das portas
transpunham frestas e fechaduras
aqui colando-se às roupas íntimas
da tia sonsa e provocativa
ali brechando as pernas inacessíveis das vizinhas
e em tudo seguindo o balanço
da mini-saia das colegiais.
Ah, como medir cogitar a que torturas
a simples presença da mulher
condena a carne indefesa.

Faze de mim teus haveres
de mim o que bem quiseres
gozando ela gemia
e eu cego na luz do dia
sobre o sofá possuía
o quente corpo de Ceres.

Era enfermeira da tia
que um câncer já remordia
por longo tempo sofrido.
Ceres em mim se esquecia
das surras que lhe batia
em casa o bruto marido.

Minha Ceres de turvas eras
com quem ouvi Primavera
na voz de Claudete Soares.
Ela chorando deserta
pra rua de porta aberta
e os desenredos nos ares.

Mas há um grande trem de vida
que o poema omite
talvez já ressabiado do estirão.
Um dia, anos e anos mais tarde,
conheci-a numa festa em Boa Viagem.
Nem Deus nem os cronistas da terra
atinam com o que houve.
O que sei é que um grande incêndio
alastrou-se pela praia
ressecou os canais e drenou
as águas do Atlântico.
A ponte do Pina desabou
e a cidade sobressaltada delirava na avenida
confusa entre um carnaval extemporâneo
e um hiato de amor universal amordaçando
duas almas atormentadas
na orgia da carne errante.

Recife 28 e 29 de novembro 2001.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Chuva


Quem se apaixona por mim
Que sou pequeno e qualquer
Se a poesia por fim
Sopra sua carne onde quer?

Quem sabe a dor que hoje em mim
Chove sua chuva onde quer
Depois inunda o jardim
E o sopro dessa mulher?

Quem sabe da vida o fim
O fim do que nada é
Se nada resta e enfim
Nada é a medida de ser?

Recife, 9 de abril de 2011.