segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Vida Breve e Texto Curto


Começo declarando que tento, a esta altura de minha vida já bem avançada, aprender a escrever acomodando minha escrita aos limites de uma crônica de blog onde o leitor ocasional busca o máximo de prazer num mínimo de leitura. Já que falo pelos cotovelos e escrevo com a ponta dos dedos formigando, custa-me agora reformar meu estilo de colunista de blog. Expressando meu drama com comparações mais respeitáveis, falta-me infelizmente a precisão e a economia verbal de um Graciliano Ramos, por exemplo. Além disso, os constrangimentos impostos pelo espaço impõem também limites aos temas que acaso me decida a explorar, melhor diria sobrevoar, nesta página. Depois de tudo considerar, concluí que seria apropriado dedicar esta crônica ao tema do amor.
Por que o amor? Ora, porque o amor contemporâneo não dura, é tão curto quanto o espaço e a duração desta crônica. Antes da revolução de costumes que se processou no mundo ocidental a partir dos anos 1960, o amor durava a vida inteira. Quero dizer, o que de fato durava era o casamento, não raro ajustado entre parceiros que sequer se amavam. Se dentro de suas rotinas inevitáveis brotavam o tédio e a infidelidade (masculina, bem entendido), sua duração era suficiente para que os amantes lessem toda a tradição literária anterior ao advento da televisão. Se querem uma explicação grosseira ou mesmo delirante para a atualidade de Machado de Assis, aqui a exponho de graça para vocês: Machado é atual por haver escrito romances compactos, compatíveis com o tempo restrito que reservamos à fruição da literatura. Quem hoje lê ainda aqueles romances intermináveis do século XIX, para não falar dos romances de folhetim, equivalente impresso da telenovela?
Assombra-me agora lembrar que na minha juventude li uma dessas obras de ponta a ponta. Era um romance de folhetim intitulado Maria, a Fada do Bosque e se desdobrava em três volumes contendo mais de três mil páginas. Quem hoje disporia de tempo para gastá-lo com uma obra dessas dimensões? Não me refiro à qualidade, já que todos os dias consumimos coisa muito pior hipnotizados diante da televisão e outros veículos audiovisuais. Além disso, o amor tornou-se não apenas volúvel, mas rotineiro. Há hoje tantas possibilidades de amor, tanta banalização do amor e da carne que em contrapartida falta-nos o lazer necessário para o exercício das grandes leituras. Sei que o leitor mais atento deve estar perplexo diante das relações explicativas que aqui esboço. Peço-lhe, no entanto, que culpe antes a brevidade da vida e da crônica e somente depois a estreiteza analítica do articulista.
Voltando ao espaço do blog, que nos impõe o metro do texto curto, seria hoje inconcebível a publicação de textos de maior fôlego, como era o caso da crítica de rodapé. Aliás, houve já quem com razão criticasse a inclusão de textos mais longos neste blog. Fica claro que comparo agora o espaço típico de um blog com o dos jornais da era anterior à universalização da mídia audiovisual. Era como crítico de rodapé que se projetavam na história literária nomes como Alceu Amoroso Lima, Mário de Andrade, Álvaro Lins, Antonio Candido, Sérgio Milliet, Otto Maria Carpeaux e uma infinidade de outros grandes críticos. Hoje qualquer um deles precisaria contentar-se com uma coluna de 600 palavras e 3.000 caracteres. Como estou já ultrapassando esta medida, aproveito para acrescentar que a vida é breve. Assim justifico o título da crônica. É fato que a medicina tornou-a mais longa, sobretudo para os afortunados que podem comprar no mercado a tecnologia e a medicação mais avançadas, mas o que são 90 anos de vida para quem aspira à imortalidade? Pensando bem, talvez conviesse retificar o título da crônica trocando-o por este: Desconversando.

5 comentários:

  1. Carlos:
    Muito grato pela leitura.
    Fernando

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  2. Fernando: eu havia escrito um texto sobre seu outro ensaio. Mas meu computador comeu minha palávras. Triste. Achei que a máquina era um prolongamento malvado de meu canibalismo. Sobrou um restinho de texto, reproduzo aqui: Antes de fazer a análise propriamente crítica do ensaio, talvez seja interessante fazer um breve comentário sobre o blog e seu autor. Dos que conheço e acompanho, é o blog individual mais produtivo em matéria de crítica cultural na blogosfera brasileira. É impressionante a quantidade de textos que se avolumam a cada dia, a tratar de assuntos dos mais variados. Para citar os que mais me interessam: crítica literária, fiolosofia, história das ciências sociais, religião, teoria social e antropológica, análise crítica de obras recentes... Poderia passar horas aqui, treinando meu léxico de taxonomias para os temas abordados pelo ensaísta e blogueiro, que é, para além de sua odicéia internética, um intelectual sempre generoso.

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  3. Jampa: Ia mais uma vez, além de lhe expressar minha gratidão, qualificar seu comentário como generoso. Lembrei-me a tempo de que já usei o qualificativo antes, embora você faça por merecer a repetição.
    Considerando a singular relação de canibalismo observável entre você e seu fpq, Bourdieu diria que o hábito faz o habitus. A voz do povo, que dizem ser a voz de Deus, diria que o hábito faz o monge. Trocando a moeda nos seus miúdos, Bill Gates diria que o hábito faz o fpq canibal. Basta que seu dono tenha o hábito de comer gente. Por via oral, bem entendido.
    Fernando.

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  4. Fernando: só aquela correção mais grave eu preciso fazer de mim mesmo. Escrevi a palavra palavra com acento, assentando minha relação vergonhosa com a língua de Camões. Quem me dera fosse um acinte. Não foi. Lembro seu texto e meu caríssimo Graciliano: quem me dera ter herdado dele além da parcimônia o primoroso cuidado com a gramática. Sem cuidado só fica o canibal e o violênto comer de lentras e a imposição de acentos indevidos e duvidosos. Fica o mal escrito pelo bem lido!
    Forte abraço!
    Jampa.

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