sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Ethan Frome


Ethan Frome (U.K.-EUA, 1993) foi produzido no mesmo ano do grande e impactante A Lista de Schindler (Schindler´s List). O protagonista de ambos é interpretado por Liam Neeson, ator de ascendência irlandesa cuja aparição marcante e trajetória luminosa é assinalada, salvo engano, por Duet for One. Este é um dentre os grandes filmes que há anos tento em vão rever. Além da estreia de Neeson, superam-no em papéis memoráveis três atores que muito admiro: Julie Andrews, Alan Bates e Max Von Sydow. Existem ainda velhas cópias em VHS deste filme também perturbador como os dois primeiros, mas nunca encontrei vestígios dele nem no mercado norte-americano. Voltemos a Ethan Frome.

Ethan Frome foi inexplicavelmente injustiçado pelos resenhistas de filmes e pelo público. Talvez ainda pelos produtores e distribuidores, pois sequer entrou no mercado brasileiro. Liam Neeson (Ethan), mais uma vez demonstra sua grande força de ator. Além dele, brilham em papéis igualmente fortes Joan Allen (Zeena Frome) e Patricia Arquette (Mattie Silver). A primeira interpreta a mulher de Ethan. É uma histérica dominadora cuja hipocondria, manifesta num círculo aprisionador de doenças, funciona como força tirânica não só para ela, mas também para o marido e a prima (Mattie). A segunda compõe o contraponto liberador, a luz de prazer e felicidade arejando o mundo opressivo dentro do qual os personagens centrais se movem. A atmosfera desoladora e trágica do filme é composta num quadro de luz intensamente branca, a neve e os ventos cortantes assinalando a força impiedosa dos elementos sobre a luta cotidiana e as vidas fechadas de uma comunidade puritana da Nova Inglaterra.

O filme é baseado no romance homônimo de Edith Wharton, escrito por Richard Nelson e dirigido por John Madden, que daí ascendeu à gloria dirigindo Shakespeare in Love (Shakespeare Apaixonado). O modelo literário de Edith Wharton foi Henry James. Embora nativos dos Estados Unidos, foram ambos moldados dentro da mais alta tradição literária europeia. Daí não espantar o fato de acabarem trocando seu país de origem pela Europa, onde viveram até a morte: ela na França, ele na Inglaterra.
O problema da escolha ética está inscrito no cerne da obra de Henry James, assim como na de Edith Wharton, que confessadamente nele se inspira para compor sua obra. A imaginação literária de ambos baseia-se em escolhas e consequências éticas encarnadas nos seus personagens. Todavia, vale ressaltar que Wharton é guiada pela clarividência do grande criador de arte, isto é, não subordina a obra e os personagens a suas convicções éticas pessoais. As questões éticas são postas e imaginariamente recriadas a partir das características autônomas do personagem, daquilo que ele é, das forças e ações humanas que o singularizam enquanto entidade ficcional. Se estas qualidades estão presentes na obra de Wharton, na de Henry James encontram expressão ainda mais completa. Sugiro, portanto, que o espectador do filme o aprecie considerando esta questão de natureza ética e estética que identifico no cerne da obra.

Voltando ao filme, ele começa quando o Reverendo Smith (Tate Donovan) chega de trem a Starkfield. É uma estação solitária e ele é o único a descer. Logo mergulha na atmosfera acima grosseiramente descrita: um mundo recoberto pela neve da primeira à última cena. A primeira imagem humana que capta vagamente intrigado é a de Ethan coxeando na paisagem deserta. A cena de pronto introduz na imaginação do espectador o nó da trama, uma porta fechada cuja chave retém a partir de um certo ponto no desenvolvimento do filme. Mas o acesso ao interior do quarto intrigante, último recesso do mistério, esse movimento da chave na fechadura somente se completa no final. Essa estrutura narrativa é uma das linhas de força da obra.

Por que ninguém fala com Ethan, por que se move penosamente coxeando isolado dentro do mundo recoberto pela neve? Seu isolamento dentro daquela restrita comunidade de puritanos é absoluto. O Reverendo, homem de alma sinceramente compassiva, a tudo assiste intrigado, mas também inconformado, pois o fato é incompatível com sua caridade cristã, assim como lhe parece igualmente incompatível com uma comunidade regida por uma ética cristã. Essa situação se desenha com nitidez quando o filme justapõe duas cenas que traduzem estes mundos divididos e incomunicáveis: a comunidade reunida na igreja, ouvindo a pregação do pastor, e Ethan lá fora, exposto à inclemência dos elementos, isolado e coxeante como uma árvore arrancada da raiz que a sustenta.

Dentro da igreja, diante da comunidade reunida, o Reverendo Smith prega seu sermão baseado numa das mais belas e comoventes passagens bíblicas: A Primeira Epístola aos Coríntios. A passagem, tão citada que até eu a conheço, inspirou já uma infinidade de obras de arte. Importa todavia salientar que a citação chave feita pelo Reverendo não segue as edições correntes da Bíblia. Ela compõe o versículo 13, capítulo 13, da Epístola. Indo ao que importa, sobretudo para a compreensão de aspectos fundamentais da trama, São Paulo alude à fé, esperança e por fim ao amor. Na maioria das edições da Bíblia que conheço São Paulo fecha o versículo asseverando que o amor é maior que a fé e a esperança. A King James Version, também sua edição norte-americana, põe caridade em lugar do amor afirmando sua supremacia diante da fé e da esperança. Ora, é este o texto citado no filme e a alteração do texto bíblico parece-me crucial na composição da obra. Pois é em nome da caridade cristã que o Reverendo procura Ethan e chega por fim ao fundo da história que paira na narrativa como um denso e inquietante mistério. É em nome da caridade que o Reverendo reprova seus fiéis. Diante da tenacidade com que busca desvender o mistério, Mrs. Ruth Hale (Katharine Houghton) se dispõe a fornecer-lhe a chave que a partir daí moverá a trama até seu momento final, quando o espectador gira a chave na fechadura do quarto sombrio onde Zeena e Mattei sobrevivem como se fossem almas penadas.

Retomando a narrativa, agora desdobrada na perspectiva de Mrs. Hale, o estado de saúde de Zeena se agrava e então decide fazer uma breve viagem à procura de um médico que poderia curá-la. A casa fica então sob os cuidados de Mattei que, de início doente como a prima, tornou-se uma jovem cuja beleza alterou-se em linhas irradiantes e sedutoras. O inevitável sobrevém sob o teto de uma casa antes envenenada pela rotina penosa, pela tirânica histeria de Zeena impondo-se na abafada atmosfera doméstica. Sozinhos e crescemente atraídos um pela outra, Mattei revela alguns dos seus traços aliciantes: além de tocar piano, ama cantar e declamar poemas. O desejo e o amor proibidos reinam enfim sobre as vidas sofridas de Ethan e Mattei. O filme se transfigura, muda radicalmente de tom e qualidade humana.

Como era previsível, Zeena retorna e agora o que era doença continuada e rotina tolerável converte-se num inferno comprimido, tensão crescente, a histeria cruel de Zeena desfechada contra a frágil e desamparada Mattei, forçada a ir embora, bater humilhada à porta de outro parente que acaso lhe dê abrigo. Ethan a tudo assiste atravessado por um estado de surda dor e ódio abafado contra a mulher. Tudo isso é agravado pelo desejo e o amor atormentados que o prendem a Mattei. Esta, num lance extremo, tenta envenenar-se, mas é salva pela intervenção providencial de Ethan.
Chega a hora da separação. Ethan conduzirá Mattei à estação ferroviária. Antes disso, sobrepondo o amor às convenções impiedosas da comunidade puritana de Starkfield, faz questão de dar a Mattei um presente simples, mas que é um símbolo evidente do seu amor por ela. As implicações pecaminosas da cena não fluem impunes à crueldade dissimulada de alguns puritanos mesquinhos presentes à loja onde Ethan presenteia Mattei. O sentido da impiedade puritana, traduzido em alguns comentários e olhares marginais à corrente central da trama, é preciso para o entendimento do espectador atento.

Antes da separação, Ethan decide ainda conduzir Mattei à colina nevada onde sonharam esquiar. Sei que o termo é impreciso, mas falta-me um mais acurado. Usando o veículo que os transporta sobre a neve de Starkfield como uma variante de ski, deslizam colina abaixo na paisagem recoberta pela neve. É um momento de miraculosa beleza e felicidade antes do desenlace que aprisionará Mattei e Zeena no quarto inacessível dos Frome, antes do acidente que os arrremessa contra uma árvore arruinando sem reparação a vida desses três infelizes.
Assim, a cena final desvenda os presságios sombrios que no início do filme cercam a figura de Ethan isolada dentro da neve, desterrada da pequena comunidade que habita. O desenlace é composto com recursos narrativos econômicos e dilacerantes. Como diz Mrs. Hale ao Reverendo Smith abalado no fundo da sua compaixão impotente: “Não diga nada. Ainda não”.

3 comentários:

  1. Caro Fernando: entrei no seu site para ver sua crítica sobre o filme Ethan Frome e vou lhe passar o site onde consegui comprar o filme em dvd. É filmado pela televisão mas não perde em qualidade e você encontra outros clássicos do cinema nesse site - www.tvdvd.tv.br.Gostei do atendimento, é um site seguro, tenho comprado vários filmes com eles. Boa sorte e um abraço.Beth Aquino

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  2. Cara Beth:
    Muito grato pela informação preciosa, além da leitura do que escrevi sobre Ethan Frome. Seguirei sua sugestão. Um abraço,
    Fernando.

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  3. Gostaria de ver o filme. Li o livro, que é excelente.

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