quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Freud, Além da Alma


O filme Freud, além da alma, dirigido por John Huston e escrito por Charles Kaufman e Wolfgang Reinhardt, foi produzido no auge da difusão da psicanálise e da glória de Freud, substancialmente ampliada nos anos 1950 e 1960 pela biografia oficial assinada por seu dileto discípulo Ernest Jones. À biografia, bem condensada numa edição em língua inglesa por Lionel Trilling e Steven Marcus, acrescenta-se parte da correspondência até então inédita fundamental para um conhecimento mais acurado do desenvolvimento das ideias do criador da psicanálise.

A ideia inicial de Huston era realizar o filme baseado num roteiro escrito por Sartre, então provavelmente o intelectual de maior prestígio no mundo. Sartre aceitou a proposta de Huston e viajou para a casa deste, na Irlanda, onde se instalou para trabalhar. Sucede que bebeu mais do que trabalhou. Isso explica o consumo total do estoque de uísque de Huston que, bem sabemos, não era de beber pouco. Desse conluio entre a pena torrencial de Sartre e sua sede insaciável resultou um roteiro infilmável, segundo o próprio diretor. Sartre trabalhou na composição de uma versão mais enxuta. Ainda assim, não satisfez Huston, que passou o trabalho para Kaufman e Reinhardt. O filme que conhecemos é, portanto, uma adaptação das versões antes escritas por Sartre, que de resto não permitiu que seu nome constasse dos créditos do filme. Melhor assim esquecer o uísque bebido ou ver o Freud de Huston e seus roteiristas bebendo no divã.

O filme começa com uma voz, supostamente do próprio John Huston, anunciando as três grandes crenças tradicionais que profundamente marcaram a compreensão da nossa humanidade e seu lugar privilegiado no universo. De acordo com a primeira, anterior a Copérnico, a Terra era o centro do universo. Antes de Darwin e de sua explosiva A Origem das Espécies, a espécie humana reinava soberana no mundo. Por fim, rematando o introito com a terceira crença, até Freud éramos senhores da nossa consciência. Ao publicar A Interpretação dos Sonhos, Freud desloca a consciência do centro da nossa subjetividade ao demonstrar com sua teoria do inconsciente o quanto é ilusória a crença de que somos senhores dentro da nossa própria casa.

O introito que acabo de expor sugere a grandeza do feito alcançado por Freud, interpretado por Montgomery Clift. O propósito do filme é dramatizar o longo, tortuoso e atormentado processo que se estende do início da carreira médica de Freud, como aluno do Prof. Meynert, neuropsiquiatra da Universidade de Viena, até o momento em que formula suas teorias fundamentais: a do inconsciente, a da neurose, da sedução, da sexualidade infantil e do complexo de Édipo. Antes disso, passa por estudos em Paris, sob a orientação de Charcot, pioneiro na terapia dos histéricos baseado nas técnicas da hipnose; por sua frutífera amizade com Josef Breuer (Larry Parks) e pela relação terapêutica ainda mais frutífera com Anna O. (em parte condensada na personagem Cecily, interpretada por Susannah York).

O DVD vem acrescido de um ótimo e esclarecedor comentário de Renato Mezan, um dos mais notáveis estudiosos brasileiros da obra de Freud, além de psicanalista. Dentre os muitos livros que já escreveu sobre o assunto, merece destaque Freud, Pensador da Cultura, investida única no contexto psicanalítico brasileiro. Mezan acertadamente observa a omissão de Wilhelm Fliess na trama do filme. Fliess foi a presença mais importante na vida de Freud durante os anos compreendidos pela trama do filme. Embora vivessem em cidades diferentes, Viena e Berlim, trocaram correspondência intensa expondo e discutindo ideias, notadamente a evolução do trabalho e das pesquisas empreendidas por Freud. A omissão decerto decorre de motivações dramáticas. Ao omiti-lo, John Huston e seus roteiristas concentraram em Breuer a matéria referente às projeções da figura paterna na psicologia de Freud. Também a personagem Cecily condensa não apenas conteúdos extraídos da experiência analítica de Anna O., mas também de outras pacientes analisadas por Freud ao longo do período abrangido pelo filme. Também a síntese expositiva das principais teorias de Freud, nas cenas finais, constitui uma condensação anacrônica imposta pela organização dramática do filme.

Filmes, assim como toda obra de recriação ficcional de personagens históricos, com frequência suscitam críticas baseadas num cotejo entre os fatos e personagens reais e a forma como são arbitrariamente manipulados nas obras de invenção livre. A discussão é complexa e de resto pouco pertinente no contexto em que escrevo. Chamo a atenção do leitor para essa controvérsia recorrente apenas com o propósito de explicitar um argumento banal: a obra de ficção não é nem pretende ser um equivalente da realidade, ou um substituto da realidade que se propõe recriar. É certo que este fato banal não autoriza qualquer recriação, mas o autor não pode responder pela recepção ingênua do espectador ou leitor que vê ou lê um filme ou um romance sobre Freud supondo estar vendo ou lendo sobre Freud enquanto indivíduo real. Isso é coisa de receptor de telenovela e folhetim. À parte o tom de desapreço com que despacho o assunto, reconheço ser um prato cheio para especulações estéticas e psicológicas.

É fato que Freud sofreu tenaz e áspera resistência do meio quando ousou expor suas teorias. Ele próprio emprega uma expressão, “splendid isolation”, para sugerir as pressões sociais e morais que sofreu como consequência da coragem com que investiu contra os preconceitos e ideias feitas do seu tempo. Esse é um outro fato corriqueiro na história das ideias, assim como de todo movimento de ruptura social. Os pioneiros, ou conquistadores, como se orgulhava de assim falar de si próprio, pagam às convenções sociais um preço extorsivo por se atreverem a afirmar de viva voz que o rei está nu, fiquemos no lugar comum que tudo exprime em poucas palavras. O risco a que se expõem certas obras, o filme de Huston não constitui exceção à norma, reside na romantização do herói transgressor. A cultura de massa, antes de tudo, não esqueçamos de que cinema é antes de tudo cultura de massa, investe nesse mito assim como os acumuladores de fortuna fácil investem na bolsa de valores. Portanto, convém apreciar com certa reserva a forma como a “splendid isolation” de Freud é caracterizada na tela.

O filme concentra na personagem intolerante e detestável de Meynert a resistência oposta às ideias de Freud, em particular nos círculos médicos. O próprio Breuer, médico de grande prestígio que nesse momento foi íntimo de Freud, além de com ele dividir a autoria do livro Estudos sobre a Histeria, acaba distanciando-se dele por divergir do papel que confere à sexualidade na etiologia das doenças psíquicas. Para além da colaboração mútua e fiel, Breuer é caracterizado no filme mais do que como um amigo mais velho e experiente. Ele simboliza, na verdade, uma projeção da figura paterna de Freud. Há de resto uma cena bem explícita dessa paternidade simbólica. Quando o pai real de Freud está moribundo no leito, assistido por Freud e Breuer, transfere verbalmente a este o papel de pai simbólico do filho. Mas sobrevém afinal o momento em que Freud precisa escolher entre o amigo paternal e a fidelidade às suas ideias. Ao optar por estas, ele rompe conscientemente o elo de dependência filial que o prendia a Breuer.

O melhor da tensão dramática do filme concentra-se na relação entre Freud e sua paciente Cecily. Como antes observei, sua composição condensa muito do que Freud amadureceu a partir do trabalho analítico com suas pacientes histéricas, já que Cecily não existiu enquanto tal, isto é, não passa de uma personagem ficcional. Assim como o último encontro pessoal de Freud com Breuer acentua o caráter de autonomia que ele conquista diante do amigo que simbolizara a figura ideal da paternidade, o encontro final de Freud com Cecily representa o desfecho ideal do processo de contratransferência dentro da relação analítica.

No seu conjunto, o filme destaca o que seria o estatuto científico da psicanálise traduzível, entre outras coisas, na função terapêutica da análise. Hoje, como sabemos, a psicanálise, seja enquanto suposta ciência, seja enquanto sistema de interpretação da realidade psíquica, sofre ataques e contestações de variada procedência. Sua própria função terapêutica deslocou-se do centro da atividade de muitos analistas que conheço. Adiantaria que já ouvi de alguns praticantes da psicanálise a observação segundo a qual a função dela não é curar ninguém. Não discutirei isso. Além de me faltar competência para tanto, um exame consistente da questão extrapola os limites de uma crítica inspirada antes de tudo no filme. Lembro apenas que o filme enfatiza essa função terapêutica da psicanálise, de resto aferível na própria obra do seu criador. O fato é que a evidência disponível hoje demonstra que as ideias dos dois pensadores mais influentes do século 20, ambos provenientes da atmosfera espiritual do século 19, entraram em franco recesso. Refiro-me, claro, a Karl Marx e Sigmund Freud. É muito improvável que a hegemonia de ambos seja um dia restaurada.

Créditos:
Título: Freud, Além da Alma (título original: Freud, 1962, EUA)
Direção: John Huston Roteiro: Charles Kaufman e Wolfgang Reinhardt
Elenco: Freud: Montgomery Clift
Cecily Koertner: Susannah York
Josef Breuer: Larry Parks
Martha Freud: Susan Kohner
Frau Ida Koertner: Eileen Herlie
Theodor Meynert: Eric Portman
Carl von Schlossen: David McCallum
Recife, 5 de janeiro de 2011.

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