quinta-feira, 3 de março de 2011

Etnocentrismo, Universalismo e Relativismo




Este artigo compõe ainda a moldura teórico-conceitual necessária para a adequada exposição e desenvolvimento da substância da disciplina cultura brasileira que tem ocupado fração significativa da minha atividade docente. Dentre os três conceitos acima, o primeiro é mais simples e fundamental. Tão fundamental que constitui um dos princípios metodológicos indispensáveis para quem de fato queira compreender sociologicamente qualquer sociedade e sua cultura. Os dois restantes, universalismo e relativismo cultural, são bem mais complexos e polêmicos. Embora tenha isso em mente, preciso abordá-los de algum modo no contexto deste artigo.

Comecemos, portanto, pelo sentido do termo etnocentrismo. Como a composição da palavra já o indica, ser etnocêntrico é adotar como centro sua própria etnia. Dizendo isso de um outro modo, é tomar a nossa cultura, no sentido antes explicitado, como o centro de normalidade e sentido do mundo. Uma pessoa etnocêntrica comporta-se como se a sua cultura, os valores fundamentais da sua cultura, fossem o centro e o critério do que é certo, normal, verdadeiro e portanto melhor. O mais grave é que procedemos desse modo de forma espontânea. Mesmo o sociólogo, o antropólogo treinado pela sua ciência para reconhecer que existe no mundo uma extraordinária diversidade de culturas, algumas dotadas de valores, práticas e sentidos completamente incompatíveis entre si, mesmo este profissional das ciências sociais incorre inconscientemente em atitudes etnocêntricas.

Exponho um exemplo histórico que ilustra essa questão melhor do que qualquer exposição puramente conceitual e teórica. Quando o colonizador português e o jesuíta aportaram na costa brasileira, defrontaram-se com um povo e uma cultura radicalmente diferentes da sua. O que fizeram eles, com sua cultura técnica e sua religião mais poderosas? Impuseram ao indígena uma cultura que representou para este um verdadeiro processo de extermínio e supressão da sua identidade. Foi o que hoje chamaríamos de lavagem cerebral. Além de vestirem o índio e lhe imporem uma religião completamente incompatível com a sua, impuseram-lhe valores econômicos e culturais baseados numa noção de individualismo e propriedade privada que eram o avesso da cultura tribal ou comunitária dos grupos indígenas.

Como hoje perfeitamente sabemos, valores psicossociais típicos de uma pessoa moldada pela economia capitalista, como aqueles associados à economia privada, ao lucro, à exploração econômica do outro, ao espírito de acumulação material etc, eram totalmente estranhos às culturas indígenas. Também a noção de individualismo, inscrita no cerne dos valores psicossociais acima referidos era totalmente alheia ao mundo primitivo que o português ocupou e depois passou a colonizar no início do século XVI. Raciocício semelhante aplica-se aos valores religiosos e outros que são fundamentais para a articulação do que entendemos como identidade cultural.
Devido aos motivos acima esboçados, o etnocentrismo é mais que um conceito; ele é, na verdade, um dos fundamentos metodológicos da investigação da realidade cultural. Sabemos que o termo método quer simplesmente dizer caminho ou conjunto de meios que o estudioso adota para chegar ao alvo do seu estudo ou investigação. Portanto, o etnocentrismo é um obstáculo tão grave que na prática anula qualquer possibilidade de conhecermos efetivamente a realidade que estudamos.

Como já observei, somos espontaneamente etnocêntricos. Por que isso acontece? A razão provável reside no fato de que assimilamos ou internalizamos a cultura na qual nascemos e nos formamos, através do que antes designei como processo de socialização, como se ela fosse o centro do mundo, a expressão do que há de certo, aceitável e verdadeiro em termos culturais. A cultura torna-se para nós algo que nos molda, que se converte numa espécie de segunda natureza para nossa vida. É por isso que pensamos com a nossa língua, expressamo-nos com a nossa língua de modo tão espontâneo que ela passa a funcionar na gente como se fosse algo de natureza inconsciente. É por isso que não conseguimos compreender verdadeiramente outra cultura, sobretudo quando é profundamente diferente da nossa, se não pusermos nossa cultura entre parênteses. É também por isso que se pode com certeza afirmar que essa disposição espontaneamente etnocêntrica é um dado universal, isto é, manifesta-se em todo e qualquer grupo humano, em toda e qualquer cultura.

Acredito que essa operação mental necessária à superação do etnocentrismo não é totalmente possível, mas é possível o suficiente para que a gente se coloque na perspectiva do outro, na cultura do outro. Este é o único meio possível de compreendermos a realidade de uma outra cultura. É também por isso, e por ter consciência do quanto sua percepção da realidade é etnocêntrica, que o antropólogo pratica pesquisa de campo, vai viver no meio de uma tribo durante tempo suficiente para ser aceito e assimilar os valores e percepções daquela cultura até sentir-se em condições de traduzi-la de algum modo para os códigos da sua cultura de origem.

Gilberto Freyre designou o processo mental e metodológico acima descrito com o termo empatia. Mas do que um esforço espontâneo ou deliberado de identificação com o outro, o estranho, o que não é parte da nossa cultura e dos nossos valores fundamentais, a empatia significa tornar-se o outro. Gilberto Freyre procurou exemplificar esse fenômeno indicando seu próprio exemplo, a maneira como procurou compreender sociológica e antropologicamente o processo de formação da cultural brasileira baseado nas três matrizes que adiante estudaremos: a indígena, a lusa e a africana. Ele observa então que para escrever Casa-Grande & Senzala tornou-se empaticamente o índio, o colonizador luso, o escravo africano, o homem patriarcal, a mulher, a escrava, o menino da casa-grande e toda a galeria impressionante de tipos sociais que desfilam nas páginas da sua obra-prima.

É no sentido acima que é justo dizermos que, como método de investigação, o relativismo cultural é uma necessidade. É preciso, noutras palavras, partirmos do pressuposto da infinita variedade das culturas e da singularidade de cada uma delas. O problema com o conceito de relativismo, sobretudo no seu uso corrente, é que muita gente salta deste fato metodologicamente adotado pelas ciências sociais para afirmar que cada cultura é única e portanto intraduzível numa outra. Afirmam ainda que não podemos julgar nenhuma cultura, pois cada uma, sendo única, é intraduzível fora de si própria.

Se levamos o relativismo a esse extremo – algo traduzível no lugar comum: cada cabeça, cada sentença, pensemos ainda no célebre postulado do filósofo grego Protágoras: “o homem é a medida de todas as coisas” – então ficamos de mãos atadas para julgar qualquer valor, costume ou prática de outra cultura. Propondo um exemplo concreto: dentro dessa moldura não temos como julgar horrores como o nazismo ou culturas onde a mulher é sujeita a formas brutais de opressão. Neste último caso, bastaria lembrarmos o caso recente, de repercussão mundial, da iraniana Sakineh, acusada de adultério e portanto condenada, segundo as leis e práticas culturais do seu país, à morte por apedrejamento público.

Mas eis que aqui entra em cena o outro conceito chave, o conceito de universalismo cultural. Ele constitui o oposto ou avesso do relativismo. A primeira vista, parece insensato falar de universalismo quando observamos a extraordinária diversidade e até antagonismo das culturas humanas. Além disso, estamos vivendo numa atmosfera cultural baseada na defesa intransigente do relativismo e da infinita variedade de particularismos culturais. Cada cultura, sentindo-se ameaçada pela presença dominadora dos processos econômicos e culturais da globalização, reivindica sua singularidade, sua autonomia ilusoriamente separada da rede de intercâmbios de todo tipo que atravessa nossa realidade cotidiana. Os movimentos das minorias (aqui incluído o da mulher, que estatisticamente não é minoria), também clamam pela singularidade da sua cultura ou subcultura.

Diante do quadro acima, que poderia descrever com maior amplitude de exemplos, qualquer defesa de uma perspectiva universalista é não raro desqualificada como dominação mascarada do Ocidente ou das forças culturais dominantes. Isso sem dúvida ocorre em muitos casos. Mas importa lembrar que, privados de critérios universalistas, ficamos de mãos atadas para tomar posição, para julgar situações de opressão ou horror concretos, como é o caso da iraniana Sakineh, acima mencionado. Que posição tomar diante de ditaduras brutais que desprezam os direitos humanos mais elementares? Denunciar essas violações é simplesmente fazer o jogo do imperialismo ocidental, que inventou o código dos direitos humanos?

Outra questão. Ou melhor, falo agora de uma evidência. Todos nós, seres humanos, compartilhamos certas características fundamentais, não obstante a diversidade de costumes e valores culturais que nos separam. Nosso aparelho biológico, nossas emoções fundamentais, nossas necessidades primárias apontam para um sentido de universalidade que me parecem transcender as inegáveis e desconcertantes diferenças constatáveis na face dos hábitos, práticas e valores culturais. É isso, de resto, o que nos autoriza a falar de uma espécie humana comum, apesar da sua pluralidade espantosa.

O crítico relativista pode objetar às ponderações universalistas acima afirmando que o conceito universalista não passa de uma abstração, no caso generosa, desmentida pela observação mais elementar da clamorosa variedade das culturas humanas. Essa variedade é um fato, como já assinalei. Quanto ao caráter abstrato do conceito de universal, ela é também constatável nos conceitos que a ele se opõem, como os de identidade, singularidade cultural etc. Aliás, qualquer operação conceitual supõe um processo de abstração constitutivo da própria atividade cognitiva. Além disso, conceitos dessa natureza implicam construções mentais e imaginárias características da representação mítica da realidade. Quero dizer, não só o conceito de universal encerra componentes míticos, mas também os de cultura e seus qualificativos. Nada de mais mítico, por exemplo, do que a noção corrente de cultura brasileira, assim como a de identidade cultural.

Por isso concluo que, mito por mito, antes o universal que fornece parâmetros éticos passíveis de transcenderem os limites da singularidade cultural por definição fechados sobre si próprios. Se queremos e precisamos estabelecer comparações éticas, comparações entre valores culturais, não há como assim proceder sem explícita ou implicitamente adotar valores transcendentes aos fatores comparativos em questão. Mesmo o crítico ou estudioso relativista incorre nesse tipo de precedente, quer o admita limpidamente ou não. Todos os nossos grandes nacionalistas culturais, portanto relativistas em maior ou menor grau, adotaram procedimento semelhante e traçaram nas suas obras relações de comparação entre culturas. É fácil verificar esse procedimento comparativo nas obras de Gilberto Freyre, Mário de Andrade, Darcy Ribeiro...

Essas ponderações finais constituem antes pontos necessários de reflexão e debate do que verdades objetivamente sustentáveis. Como antes observei, estas questões da cultura são objeto de debates acalorados e polêmicas aparentemente insolúveis. Sugiro para quem queira apreciar mais amplamente estas questões dois livros muito importantes de Sérgio Paulo Rouanet. Sua abordagem é apaixonadamente universalista e portanto seu tom é às vezes muito polêmico. Mas a leitura dos dois livros que abaixo indico é muito proveitosa, seja você um adepto da perspectiva universalista, seja relativista.
Sérgio Paulo Rouanet – As Razões do Iluminismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.
Idem – Mal-estar na Modernidade. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
Ver também:
http://fmlima.blogspot.com/2010/09/robinson-crusoe.html
http://fmlima.blogspot.com/2010/11/o-preconceito-do-preconceito.html
http://fmlima.blogspot.com/2010/09/robinson-crusoe.html
Recife, 1 de março de 2011.

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